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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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09
Set13

Pérolas e diamantes (54): temos de nos levantar

João Madureira

 

Foi quando o ar me faltou por causa dos incêndios que me apercebi da importância de respirar.

 

E ele faltou-me segunda vez quando li as declarações de António Cabeleira e de João Batista sobre o seu suposto altruísmo. O dele e o dos seus correligionários. De facto, o altruísmo que eles defendem é do género individualista, do que se diz pôr ao serviço da comunidade, ou seja, deles próprios.

 

Em ata de Câmara de 16 de julho de 2013, relativa à audiência realizada com a senhora Ministra da Justiça, a 9 de Julho, o senhor presidente em exercício, e putativo candidato a presidente da Assembleia Municipal, João Batista, fez saber que, nomeadamente na alínea c, “irão continuar a ser realizados em Chaves julgamentos cujos valores envolvidos sejam superiores a 50 mil euros”.

 

Mas, contrariando as suas palavras demagógicas e falazes, e também a encenação lacrimejante de algumas figuras femininas das listas do PSD local às autárquicas, o Tribunal foi mesmo desqualificado e de forma ainda mais gravosa do que a prevista. A lei nº 62/2013, de 26 de agosto, denominada “Lei de Organização do Sistema Judiciário”, define que o Tribunal de Chaves nem sequer fica com os julgamentos até 50 mil euros, como o senhor João Batista apregoou aos sete ventos, pois apenas pode vir a julgar causas cíveis que não ultrapassem os 30 mil euros.

 

E desta maneira se destrói uma cidade, uma região e um país. No nosso céu começam a voar pássaros negros à velocidade do desespero. Eu ri-me para não chorar. Mas fi-lo a modinho. Com esta câmara, e este governo, qualquer dia, rir passa a ser crime e lá vou eu a Vila Real para ser julgado.

 

E assim vai a nossa cidade e o nosso país carregadinhos de dívidas e de dúvidas a caminho do abismo.

 

Portugal continua a ser um país para quem tem olho e não é cego. Mas tem de ser aldrabão. Portugal é só para alguns. Para os partidos e para as suas clientelas.

 

Depois do 25 de Abril começaram a aparecer rapidamente as oportunidades para os oportunistas. Os corruptos, disfarçados de democratas, começaram a circular nos bastidores do poder. Muitos vigaristas tomaram conta dos partidos políticos e também das empresas nacionalizadas. Os profetas do novo mundo e do progresso social enriqueceram com os dinheiros públicos. Entretanto, as empresas nacionalizadas foram privatizadas pelos que as passaram a gerir em nome do interesse público e de economia de mercado. A finança assenhoreou-se dos cofres do estado.

 

Houve décadas de democracia participativa. As eleições sucederam-se. Houve governos de direita e de esquerda. Portugal, diziam eles, desenvolveu-se a um ritmo excecional.

 

As pessoas sentiram esse desenvolvimento, pois cada vez tinham mais dívidas e os bancos mais dinheiro. Pelo meio, os Governos pragmáticos e desenvolvimentistas começaram a destruir os serviços públicos, pretextando estar a salvá-los. As empresas privadas construíram monopólios intocáveis. Os velhos senhores de antigamente voltaram a mandar na economia e no aparelho do Estado.  

 

Os partidos políticos passaram a financiar as suas campanhas eleitorais com dinheiro saído dos cofres públicos e também do que foi escorrendo como prémio pelas obras faraónicas construídas pelos senhores e as empresas financiadas pelo Estado e com ele se pagam os cartazes, as festas, os almoços, os lanches e os jantares e a propaganda balofa e demagógica que metamorfoseou a nossa democracia numa frivolidade.

 

De eleição para eleição, os números da abstenção aumentam, bem assim como a distância entre quem vota e quem vai ocupar as cadeiras do poder. A democracia representativa é cada vez mais uma farsa, na qual os partidos políticos representam, não o povo, mas a si próprios, os seus interesses e os das suas clientelas. A classe política tomou definitivamente de assalto as instituições públicas e privadas.

 

As promessas eleitorais já não estabelecem compromissos entre ninguém. A seguir às eleições transformam-se em mentiras do tamanho da percentagem obtida, pois a “situação real do país” assim o determina. É desta forma que se legitima a impunidade dos poderosos, a “palavra” perde o seu valor ancestral, a honra é considerada uma subterfúgio linguístico e a seriedade uma futilidade fora de moda. Os interesses públicos e privados misturam-se de tal maneira que já ninguém sabe onde fica a zona de fronteira. A promiscuidade é agora uma licitude e a corrupção um lóbi democrático.

 

Depois da entrada na comunidade europeia tudo foi subsidiado. As empresas engordaram como porcos na ceva.  As desigualdades sociais aumentaram. E o trabalho é agora encarado como um privilégio dos pobres. O dinheiro a fundo perdido perdeu-se em carros, jipes e tratores ou barcos de recreio. As fábricas desapareceram, os barcos de pesca foram abatidos, as vinhas arrancadas, os eucaliptos plantados. Os agricultores foram pagos para não trabalharem. O crédito ao consumo foi incrementado como o direito a ficar endividado sem dor. Todos passámos a ter cartões de crédito de todas as cores. Começou a trocar-se de carro de três em três anos. Construíram-se casas e mais casas. Rotundas e mais rotundas. Os construtores civis passaram a ser os novos deuses para as câmaras municipais.

 

Agora até o trabalho precário é um avanço civilizacional e uma melhoria da qualidade de vida da comunidade e da solvência das empresas e do Estado, que já não é social, mas mínimo.

 

Em vez de cidadãos, agora somos contribuintes e consumidores. Em vez de seres humanos, somos números. E em vez de indivíduos, somos estatísticas numa folha Excel.

 

Fomos atirados ao chão. Mas já a minha avó me dizia: Se queres ver alguém como realmente é, vê-o a erguer-se. 

06
Set13

O Homem Sem Memória - 174

João Madureira


174 – “Não, mãe. Não me bata mais. Não fui eu que roubei os rebuçados dos cromos da bola no Azeiteiro. Foram o Carlos e o Alcino. Eu apenas fiquei à porta a ver se vinha alguém. Não me bata mais.”


Quando o José despertou do seu sono e abriu os olhos é que reparou onde estava e quem lhe estava a bater para o acordar. Eram dois guardas que tinham ordens expressas para levarem o prisioneiro para interrogatório. E foi isso que fizeram. Como ele se recusava a ir às boas, deram-lhe uns murros para lhe quebrarem a teimosia.


“Se não vais a bem vais a mal”, gritaram-lhe enquanto o arrastavam pelo chão como se fosse um animal. “Ajudem-me”, pediu ele aos seus camaradas do Norte. Mas eles nada fizeram. Não mexeram um dedo. Apenas o Graça esboçou a sua indignação gritando aos guardas que camaradas não batem em camaradas. Os carcereiros riram-se-lhe na cara. Os outros prisioneiros limitaram-se a aconselhar-lhe calma. Ele assim procedeu. Não tinha outro remédio. Numa prisão, a prudência é a arma mais eficaz. A prudência e o silêncio. E também o respeitinho.


Atónitos, os camaradas do Norte puseram-se a conversar em surdina sobre o que acabavam de presenciar. O Graça era o mais indignado. “Não havia necessidade de lhe baterem! Camaradas não batem em camaradas”, insistiu. O camarada funcionário, ainda em exercício, pelo menos era isso que ele pensava, tratou logo de fazer o ponto da situação. “Levaram o rachado para averiguações. Quem trai o Partido, mais cedo ou mais tarde, acaba por ter de pagar o preço da traição.” Ao que o Graça retorquiu: “Como é que eles sabem que o José é rachado?” Fez-se silêncio no grupo. Perante a pertinência da pergunta, o camarada funcionário limitou-se a lembrar que o Partido tudo sabe e tudo vê. O Graça disse, virando-se na direção do aparente líder do grupo: “Com a verdade me enganas.” Ao que o camarada funcionário replicou: “Só a verdade é revolucionária.” “Um caralho, é o que é. A haver alguma verdade nisto tudo ela só pode ter sido apurada porque alguém deu com a língua nos dentes. Eu conheço o camarada José. Ele até pode não ser lá grande comunista, mas é um homem bom e íntegro. Não merece que façam dele um traidor. Ele nunca traiu ninguém…”


Todos olharam para o camarada Graça e acenaram com a cabeça em sinal de concordância. O camarada funcionário, vendo que a dúvida reacionária se começava a instalar na cabeça dos restantes camaradas, atacou: “Ele traiu o Partido.” “Como assim?”, duvidou o Graça. “Deixou de acreditar na revolução e no comunismo”, replicou o camarada funcionário.


De seguida sucedeu-se o seguinte ping-pong argumentativo, que nós transcrevemos, mas sem tomar posição, como mandam as boas regras da independência e da democracia. “E isso é traição?” “É o maior ato de traição que um comunista pode fazer.” “Duvidar não é trair.” “Ai não que não é. É sim senhor.” “Não é não senhor. Duvidar é tentar pensar para atingir a verdade.” “A verdade, uma vez atingida, não pode ser posta em causa. Pois se é verdade, nunca poderá vir a ser mentira.” “A verdade é relativa.” “Eu falo da verdade revolucionária. Essa é indesmentível, incorruptível e indestrutível.” “O comunismo é a verdade absoluta.” “Ou a mentira absoluta.” “Como te atreves a afirmar uma coisa dessas.” “Estou a tentar perceber e a tentar explicar aos camaradas presentes que tudo pode não passar de uma grande ilusão.” “Tudo, o quê?” “Pois, tudo. Tudo é tudo.” “Agora filosofas?” “Tento compreender.” “Queres compreender o comunismo?” “Não. Quero compreender a razão por que uma dúzia de camaradas que tentaram iniciar uma revolução armada numa terra onde o comunismo é, para a maioria das pessoas, um pecado mortal, foi presa, esbofeteada, trocada por prisioneiros reacionários do Sul e, quando chega a terras da liberdade e do socialismo, é feita novamente prisioneira e torturada…” “Torturada?” “Sim. Ou achas que a porrada que deram no José não passa de uma massagem corporal?” “Na minha perspetiva, aplicaram-lhe um corretivo porque sabem quem ele é e o que fez.” “E o que foi que ele fez?” “Renunciou ao comunismo e juntou-se a ladrões e assassinos.” “Isso é o que te dá jeito pensar.” “Todos somos testemunhas disso.” “Vês, tu já o traíste.” “O José é que se traiu a ele próprio.” “Tu é que traíste o grupo. Traíste a confiança que depositamos em ti.” “Limitei-me a fazer um relatório sobre a nossa atividade.” “Limitaste-te a contar a «tua» verdade.” “Ele traiu.” “Quem?” “O Partido.” “Mas não traiu os seus ideais.” “O ideal de um comunista é o comunismo.” “Então não é a verdade?” “São sinónimos.” “Então o ideal comunista é prender pessoas que lutaram pela libertação do seu povo.” “Não foi isso que eu disse.” “Mas é isso que está a acontecer.” “Não, o que está a acontecer é o apuramento da verdade. O Partido quer saber, e tem todo o direito de o fazer, se algum dos seus militantes o traiu. Uma maçã podre no meio de uma cesta delas sãs acaba por fazer com que as restantes apodreçam também.” “Nunca pensaste que a maçã podre podes ser tu?” “Como te atreves a insultar-me dessa forma. Eu sou um comunista puro, sincero e obediente…” “Lá obediente podes ser, agora puro e sincero…” “Para mim o Partido está acima de tudo. Até acima das dúvidas, da amizade e da própria família. Eu estou a tentar salvar-nos.” “Melhor será dizer que estás a tentar salvar-te. Afinal apenas conseguiste arregimentar onze comunistas, um deles «traidor e rachado», mais um maluco e um burro, que não conquistaram nada nem ninguém. A tua guerrilha foi uma desilusão.” “Não tenho culpa. As circunstâncias assim o ditaram.” “Olha que se calhar o traidor que eles verdadeiramente procuram és tu. Tu é que traíste a revolução ao deixares-te apanhar sem sequer disparar um tiro. Sem matar ou ferir um reacionário. Sem teres conseguido libertar um palmo de terra. Além disso, é bom que não esqueças que fomos vencidos por meia dúzia de reacionários que fizeram de nós prisioneiros utilizando apenas as mãos. Tens de reconhecer que só podemos ser motivo de galhofa. E de vergonha. O Partido vai fazer-te as contas.” “Eu fiz aquilo que me foi pedido e que as circunstâncias me possibilitaram. Eles sabem muito bem que o responsável pela derrota foi o José. Ele é que foi o traidor. Ele e, agora pensando melhor, tu também.” “Ou muito me engano, ou sinto que a nossa sorte está ditada. Mas olha que tu estás na mesma situação. Não te safas. Apesar dos teus relatórios, não te safas. A tua verdade não vence a verdade deles: a do Partido.”


Silêncio.


Desesperado, o camarada funcionário disse: “Proponho aos restantes camaradas que o camarada Graça seja também considerado traidor e rachado, à semelhança do rachado e traidor José.”


Mas em vez dos camaradas votarem a proposta, sentindo a porta a ranger nas dobradiças, olharam nessa direção e, para seu espanto e temor, viram entrar Jesus Cristo amparado após a sua via crucis

04
Set13

O Poema Infinito (162): guerra

João Madureira


Antigamente os filhos mais valorosos matavam-se para libertarem o bem. Antes do sacrifício saciavam-se de vinho. E de verdade. E morriam combatendo todo o dia contra o inimigo. Os seus corações eram audazes. Incendiavam os vales e rodopiavam em volta das labaredas. O vento soprava por todos os lados. Os carros ficavam manchados de sangue dos cadáveres. Mas eles continuavam a lutar salpicados de púrpura viva e de pó para atingirem a glória. Os homens encontravam a morte abandonados. Os seus inimigos e os seus deuses eram cruéis. Alguns morriam olhando para ilhas distantes. E a desgraça chegava quando todos perdiam a razão. A desonra era chegar a velho. Ninguém aguentava presenciar tanta desgraça. E não lutar. Os filhos morriam depois dos pais, as filhas eram maltratadas, as câmaras nupciais eram vandalizadas, as crianças de tenra idade eram atiradas ao chão. Por fim, os cães vorazes dilaceravam os corpos inertes. Os ainda vivos arremessavam as suas armas aos cães. Nos palácios, os ciclopes guardavam as portas enquanto os reis enraivecidos bebiam o sangue dos guerreiros mais intrépidos para lhes ficarem com a coragem, com a força. E a loucura. Os cadáveres dos filhos dos reis eram expostos em câmara ardente atravessados por espadas agudas de bronze. Tudo neles era belo. Até a morte. Cá fora, os mastins devoravam os órgãos genitais dos pobres mortais. As viúvas, dentro dos casebres, mergulhavam num luto terrível. E amaldiçoavam a guerra. Para elas não havia futuro. Outros se apoderavam das suas terras e dos seus corpos. As crianças órfãs andavam sempre de cabeça baixa e com as faces molhadas de lágrimas. Além da dor que sofriam, eram obrigadas a dirigirem-se aos amigos dos pais para lhes pedirem vinho. Puxavam-lhes pelas túnicas e pelas capas. Eles estendiam-lhes rapidamente as taças e apenas lhes deixavam molhar os lábios. Mas não a boca. Aos que tinham ainda os pais vivos batiam-lhes, injuriavam-nos e expulsavam-nos dos festins. Os meninos voltavam então para junto das suas mães viúvas e tentavam dormir. Nunca sonhavam. Não sabiam sonhar. Quando cresciam iam defender as portas e as altas muralhas das cidades. Então olhavam para as naus e também para os palácios onde os seus senhores vestiam longas túnicas douradas e as respetivas esposas se saciavam de sexo e luxúria com escravos de cor de ébano. Os senhores riam-se. As mulheres gemiam. Os deuses espalhavam a sua loucura ventosa pelos mares. As rochas fendiam-se. A população andava pela terra em enxames compactos cumprindo a vontade dos deuses. O chão ressoava terrivelmente debaixo dos seus pés. Eles não sabiam que era a sua coragem louca aquilo que os matava. E os fazia matar. Não havia consolação. Não havia destino. As cidades eram inacessíveis. Mesmo assim, os mais corajosos tentavam assaltá-las. As suas mulheres tinham vergonha de tudo. E preocupavam-se. E batiam no peito, porque sofriam imenso. Os melhores guerreiros domavam os cavalos. Os melhores senhores domavam os guerreiros. E os melhores reis domavam os senhores. No céu as estrelas brilhavam. Os deuses bem-aventurados tocavam o cume dos céus para sentirem a sua suprema glória. Os ricos ofereciam aos seus deuses ovelhas, bois e vinho adoçado com mel. Mil fogueiras ardiam. O vento invadia a planície. O céu rompia em pranto. O clarão cegava os deuses da paz. Do alto do seu trono dourado, o supremo deus da guerra avisava os homens que estava novamente no momento de mais uma guerra começar. Ninguém era capaz de dizer se o sol, a lua e as estrelas continuavam a existir. 

02
Set13

Pérolas e diamantes (53): petas, golfinhos, peter pan’s, coragem e corações

João Madureira


Dizem que foi Charles Dilke, um político republicano liberal inglês, que classificou as afirmações falsas desta maneira e segundo esta ordem: petas, mentiras e estatísticas. Eu, depois de ver aquilo que tenho visto, e lido por aí, acrescentarei, com vossa licença, uma quarta: as sondagens.

 

Mas não é de sondagens que hoje pretendo falar, mas sim das estatísticas que o Governo diz possuir sobre uma ténue – qual brisa passageira – recuperação económica. Mas, para ser honesto, a crónica acabava logo aqui.

 

Li nos jornais, e vi na televisão, que nasceu no Estuário do Sado, há poucas semanas, um golfinho. No entanto, rapidamente a boa notícia passou a má, pois o bebé golfinho morreu.

 

As autoridades aperceberam-se da sua morte quando viram a mãe trazer o corpo do pequeno roaz à superfície, forçando a respiração, que é o comportamento habitual nestes casos. O golfinho representava a esperança de um estuário que está ser abandonado pelos golfinhos.

 

São os golfinhos a abandonar o Estuário do Sado e os portugueses, sobretudo os mais jovens, a abandonar o país. Mas para o executivo de Pedro Passos Coelho isso até é bom. Saudável mesmo.

 

Entrementes, o Governo bafejou-nos com outra peta: a subida do emprego. Ao que veio nos jornais, o emprego aumentou, mas apenas em fundações e gabinetes de ministros. Ou seja, para sermos claros, o número de colaboradores dos nossos governantes cresceu 4,7% desde que o executivo está em funções.

 

António Capucho, ex-secretário-geral do PSD, olhando para o país e para as escolhas autárquicas do seu partido, afirmou textualmente que o PSD está dominado “no governo pelo CDS e no partido por organizações secretas”. Mas foi mais longe: “o PSD está a apunhalar a social-democracia e a transformar-se num bando de oligarcas que se encerram em si próprios e não permitem a democracia interna. A culpa é da influência das organizações secretas.”

 

Quando estava a ler isto no jornal, veio-me à ideia o PSD de Chaves e o seu líder e não consegui conter o riso.

 

“Não tenho dúvidas pelo que vejo publicado em livros e artigos jornalísticos que há influência excessiva de certas sociedades secretas dentro do PSD, mas considero ainda pior a influência das oligarquias que vieram acabar com o debate interno.” Isto foi o que António Capucho disse, não fomos nós, é preciso que se note. Mas assemelha-se demasiado ao que muitos militantes do PSD da concelhia flaviense nos confidenciam, quase em segredo, não vá o líder saber e pô-los fora das listas ou no olho da rua.


O grande problema desse monólito político conhecido como António Cabeleira, nem sequer são as sondagens, que o prejudicam, mas que ele quer que prejudiquem outros. O grande problema é a sua falta de credibilidade. Ele não inspira, nem transmite, confiança.

 

De facto, António Cabeleira, qual Lucky Luke, intriga e cria inimigos mais rápido que a própria sombra. 

 

Outro social-democrata, dos antigos, é preciso que se diga, José Miguel Júdice, afirmou ao “Jornal de Negócios” que “era necessário um golpe de estado, ou uma revolução, que mudasse o sistema político português”.

 

E aponta algumas razões para a atual crise. “A geração dos meus filhos, e a geração seguinte, está a pagar um preço injustíssimo da bandalheira, do abuso, do egoísmo, da falta de sentido de Estado e de futuro, de gerações sucessivas que tomaram conta do poder a seguir ao 25 de Abril. Vão pagar um preço trágico que podia ter sido evitado.”

 

Na sua opinião, que por acaso também partilho, em parte, “estamos a viver um momento de complexo de Peter Pan”. “Esta crise política que estamos a viver é um caso típico de dois adolescentes tardios. Duas pessoas [Passos Coelho e Paulo Portas] que têm enormes qualidades, mas que nunca fizeram a sua maturação.”

 

Descontando as “enormes qualidades”, que pensamos ser um sinal de boa educação, podemos transpor as duas afirmações para a política local, pois tanto o candidato do poder como a sua congénere da oposição, a nosso ver, sofrem, a nível político, do complexo de Peter Pan.

 

Além disso, tanto no país, como nosso concelho, os partidos do arco do poder têm grandes dificuldades em enfrentar os poderosos grupos de interesse. Também eles se deixaram iludir pelo excesso de dinheiro. Por isso o país está falido. E a nossa Câmara também.

 

Poderão os estimados leitores falar da diferença ideológica que separa os partidos, mas, até nisso, Júdice tem razão. Ele, um agnóstico do Estado. “É uma ilusão pensar que o socialismo não se dá bem com o capitalismo – dão-se muitíssimo bem. Os grandes grupos conseguem tirar vantagem [recebem dinheiro aos montões do Estado], as pequenas e médias empresas é que têm dificuldade [até em chegar às migalhas].”

 

Posto perante a sugestão de uma solução política para o sistema político português, Júdice não teve papas na língua: “Precisávamos de acabar com estes partidos.” Eu não consigo chegar tão longe, a isso me obriga a coerência e a minha militância democrática, mas…

 

Mas contra a raiva e a vontade dos partidos, e com a determinação e o entusiamo da população, os Movimentos Independentes são uma força enorme pelo país fora e também no nosso concelho.

 

É como diz o poeta: quando toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.

 

Ter Chaves no Coração não é apenas uma expressão feliz, é, sobretudo, um sentimento imorredoiro.

 

E os flavienses sabem-no tão bem ou melhor do que nós.  

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