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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

29
Nov13

O Homem Sem Memória - 185

João Madureira


185 – O golpe final na fé comunista do José aconteceu quando leu o discurso de Nikita Khrushchev feito no XX Congresso do Partido Comunista, depois de pedir a todos os convidados estrangeiros que abandonassem a sala. Perante 1400 congressistas atónitos, o poderoso secretário-geral do PCUS discursou durante quatro horas e descreveu com pormenor os terríveis crimes de José Estaline, o homem que foi adorado por milhões de comunistas do mundo inteiro. Talvez ainda mais que Lenine e Marx.


Foi perto da meia-noite do dia 23 de janeiro de 1956 que Khrushchev acusou Estaline do massacre de milhões de pessoas. Constou que depois do discurso, muitos dos delegados choraram como crianças, outros puxaram os cabelos e outros ainda desmaiaram ou tiveram ataques cardíacos. Dois suicidaram-se após aquela noite. Mas nem uma única palavra foi publicada pelos meios de comunicação soviéticos. Alguns excertos do discurso foram lidos em sessões fechadas para os corpos máximos do Partido. Muito poucos comunistas estrangeiros tiveram acesso a essa informação. Alberto Punhal foi um deles. E nem pestanejou aquando da leitura do documento. Dele nada contou aos seus camaradas. Guardou-o num cofre-forte em parte incerta. Mas mãos milagrosas, passados 24 anos, descobriram-no e fotocopiaram-no. Para os comunistas, e para a maioria dos cidadãos em geral, o relatório continuou a ser escondido. Muitos, dos poucos que o leram, continuavam convictos de que o que lá estava escrito era tudo, ou quase tudo, mentira. O que diziam uns aos outros para se convencerem era que Khrushchev não passava de um demente mentiroso e fraco.


Quando as dezenas de folhas com os excertos mais importantes do discurso chegaram às trémulas mãos do José, ele tratou logo de as guardar em lugar seguro. Com paciência e determinação fez a respetiva leitura e os inevitáveis cálculos. A seguir elaborou um pequeno documento com a intenção de o distribuir através das células clandestinas do campo. O problema era que tanto ele como a meia dúzia dos seus camaradas contrarrevolucionários não atinavam com a forma de o imprimirem para posterior distribuição. Primeiro pensaram na forma de arranjarem papel ou algo pelo estilo. Conformaram-se em acondicionar e secar folhas de cana ou outras idênticas. Mas faltava-lhes a prensa e as letras para organizarem um texto que fosse possível de imprimir e também a tinta.


A tinta fabricaram-na utilizando suco de frutos silvestres. Mas continuava a faltar a prensa e o tabuleiro com os carateres gráficos. Depois de muito pensar, o José descobriu uma forma. A solução encontrou-a na cortiça. Desenhou as palavras em placas e depois, com a ajuda de uma navalha bem afiada, esculpiu-as em relevo para serem embebidas em tinta consistente e posteriormente, através de uma prensa de pedra, as imprimir em folhas de plantas. Toda aquela tarefa demorou o tempo que tinha de demorar. Num campo de prisioneiros o que mais sobra é tempo.


Foram impressos e distribuídos cerca de quinhentos prospetos. As pessoas que liam os textos, ou que os ouviam ler, pois a maioria era analfabeta, também se recusavam a acreditar em números tão cruéis.


A primeira leitura realizada em grupo levou aquela meia dúzia de ex-comunistas desiludidos às lágrimas. Podiam já não ser comunistas, mas muitos deles ainda se sentiam de esquerda e até revolucionários. Consideravam que era possível a utopia do comunismo, mas de um comunismo com rosto humano. Não sabendo que todo o comunismo leva sempre à ditadura e à barbárie. Por isso é que eram considerados pelo Partido uns insensatos e uns contrarrevolucionários perigosos.


O texto rezava assim: “Em 1956, Khrushchev revelou que Estaline, durante os seus anos de poder, cometeu crimes monstruosos e ordenou o assassínio de milhões de pessoas. Lembrou ainda que Lenine avisou o Partido para que tivesse cuidado com Estaline. Nessa altura Khrushchev condenou o culto da personalidade do homem que foi apelidado de “o Sol das Nações”. Revelou a deslocação forçada de grupos étnicos na União Soviética, que conduziu a milhões de mortes. Nas grandes purgas (1936-1937), um milhão e meio de comunistas foram presos e 680 mil executados. Por altura do XVII Congresso do Partido, 848 foram executados a mando de Estaline, assim como 98 dos 138 candidatos ao Comité Central. Ou seja, Khrushchev revelou Estaline como um assassino de massas, responsável pelo massacre de milhões de russos e pessoas de outras nacionalidades, muitas das quais comunistas leais. Afinal o Messias comunista não passou de um monstro sanguinário.


Mas o pior de tudo é que o camarada Alberto Punhal sempre soube disso e escondeu-o dos seus camaradas e do seu povo. Ou seja, mentiu-nos. Sim, mentiu-nos, porque quem esconde a verdade aos seus camaradas e ao seu povo, mente. E, como diz o povo, mentiroso que mente uma vez mente mais uma dúzia ou três. 


Alberto Punhal, sempre apoiou de forma inequívoca a ditadura totalitária na URSS e nos restantes países do Leste signatários do Pacto de Varsóvia que provocou a morte de mais de 21 milhões de pessoas.


Eles pretendem que nós esqueçamos ou que sejamos coniventes com esta hedionda mentira, mas o comunismo e o nazismo são duas faces da mesma moeda: o totalitarismo, onde cada indivíduo é subjugado à vontade do Estado. 


Mas não pensem que isto aconteceu apenas na URSS. Aconteceu, e acontece, em maior ou menor escala, em todos os países comunistas. Inclusive no nosso. Disso todos vamos sendo testemunhas. A morte aqui nos campos é seletiva, mas não deixa de ser extinção de uma parte do nosso povo. Está na hora de esse mesmo povo se revoltar contra os tiranos que em nome da liberdade e da igualdade mais não fazem do que aprisionar e aniquilar os seus melhores filhos. Agora todos sabemos que o comunismo é uma doença incurável.


O esqueleto do camarada John Cleese que ao sol expõe a sua brancura acusatória, ali no meio da planície, diz-nos que os tiranos são todos iguais.


E povo que não tem memória nega o seu futuro para sempre.”

27
Nov13

Poema Infinito (174): arte insensata

João Madureira


Sou incendiado pela tua forte delicadeza, eu que sou esguio e alteroso. Os dedos trabalham o movimento branco das aparições. Sou dominado pelas paisagens constituídas por letras e pela sua ardente cavalgada e pela luz impressa em papel esférico e pela eterna solidão do céu e das estrelas. Os cavalos são números e os homens que os montam tremem e por isso as mulheres se transformam em catedrais góticas e esgotadas. Essas mulheres enchem-se de maçãs e de pecado e trepam as cobras e amassam os homens como se fossem de barro. O problema dos homens é que não desistem de pintar quadros insidiosos, tentando dar-lhes uma ordenação, experimentado forçá-los a constituírem a ordem dentro do caos. Todas as paisagens são escorregadias. Todas as paisagens são mulheres ardentes cavalgando palavras vermelhas. O mundo é um lugar ameaçado porque não percebe as metamorfoses da imaginação. E também não entende os homens que amam as mulheres e a sua prestidigitação amorosa. Toda a arte é uma espécie de fidelização aos abismos primitivos. As mãos multiplicam-se por causa das vozes que são cores e que são estátuas que abrangem os parques inteiros. Todas as vítimas caminham com a boca impressa de uma amabilidade biliosa. E escutam a nudez do silêncio e as fotografias bêbedas e a perfeição repentina do amanhecer e a urgência terrível da beleza e ainda os outros homens e as distintas mulheres que habitam as montanhas violentas. É durante a noite que se plantam os espelhos nos jardins, enquanto o luar desce até ficar imóvel nas ruas. Todo esse assombro linear cavalga de cidade em cidade espantado com a ambígua fama do amor. Por isso as cores são silenciosas. Por isso o seu perfume dança fazendo nascer novos espaços. Todas as pessoas são duas pessoas criadas pelo Deus supremo da imprevisibilidade. Por isso os anjos se escondem atrás das portas e lá penduram as suas asas de cera arrefecida. O meu tempo é feito de uma seda ambígua nascido na interseção dos espaços que dançam. Tenho por vezes aparições de frases escritas que lacrimejam gotas de sangue geométrico. Costumo pensar em ti a dançar ao ritmo da tua respiração, como se a beleza fosse um pavor de destinos. E depois tremo. Então desapareces antes de te revelares. Sinto a música como uma sucessão de crianças que desaparecem nas pautas. Agora o luar de inverno devora as aldeias. E as varandas desaparecem das casas a uma velocidade branda. Novamente os dias se atrasaram em relação à razão. O fim é uma dança leve e silenciosa. Vejo nos lugares o começo eterno da vida e a dança da morte. E o princípio das linhas puras e o vento que atiça a solidão. Atrás de mim ardem as noites e as imagens e a ressurreição do tempo e as raízes brancas da paciência. Sou um pintor de letras que se evaporam. E de mulheres que se vestem de magnólias e que suspiram temeridades e que são livros tranquilos que observam os factos como se fossem corpos nus. Ouve-se a água a levitar por cima da extensa profusão da terra. Absorvemos a delicadeza das estações que empunham a pressa invulgar dos camponeses. As montanhas descem pelo lado esquerdo do quadro contrariando a intenção impressa do pintor. Os animais estremecem antes de adormecer. Adivinham outra alvorada monótona. A minha voz emigra para a terra do silêncio. É aí onde se encontra o perfume implacável da razão. Ter razão antes de tempo é uma arte insensata.

25
Nov13

Pérolas e diamantes (65): Com D. Quixote no Coração

João Madureira


Santo Agostinho dizia que até os corações bons têm um abismo. Descobri agora que também o meu sofre da mesma sensação de vórtice.  Isto partindo do princípio de que o meu coração é bom. É isso que quero crer, mas será assim?

 

É que corações há muitos, tal e qual como os chapéus. E para todos os gostos, feitios e medidas. E também para todas as declarações de intenção ou outras manobras de diversão ou inversão de rumo. É por isso que continuo a ser uma pessoa agreste que ri como uma criança perante os factos mais inexplicáveis que muitos insistem em tornar compreensíveis. E de coração aberto. É que para esse peditório já dei o que tinha a dar. E quem dá o que tem a mais não é obrigado.

 

Li algures uma coisa que me deixou a meditar de inquietação. Um homem disse que cegou quando era pequenino. Estava deitado na cama a dormir e quando acordou disse à avó para abrir a janela porque não via nada. Descobriu então que estava cego.

 

Confesso que também eu tenho medo de cegar de repente. Por vezes fecho os olhos para me aperceber da sensação. Então consigo compreender as palavras do artista basco Eduardo Chilila: “O espaço é uma matéria rápida. A matéria é um espaço lento.”

 

E também as de Churchill: “Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir.” Ou: “Uma meia mentira nunca será uma meia verdade.” Ou ainda: "Algumas pessoas mudam de partido em defesa de seus princípios. Outras mudam de princípios em defesa do seu partido."

 

Muitos dos que nos rodeiam parecem personagens de Beckett, pessoas sem liberdade, porque, apesar de a possuírem em excesso, não sabem o que fazer com ela.

 

Um dos meus livros de cabeceira, que leio para não enlouquecer, ou melhor, para tentar dar algum sentido ao mundo e àquilo que nos rodeia, é o Dom Quixote. Tenho por ele uma admiração infinita. Para mim é o livro de todos os livros. Nele está incluído o género de exaltação que os idealistas voluntariosos quase sempre nos provocam.

 

Hoje continua a ser mal visto, ou incompreendido, manifestar a diferença. As pessoas têm sempre medo do que os outros vão dizer. Mas, talvez por isso, não me vou coibir de citar o escritor Pedro Badarra, numa entrevista recente: “O que é que o faz amar e odiar Portugal? É muito simples e está destilado. Já destilei esse pensamento de taxista. Gosto e amo o cheiro, e a cor, e o mar, e os robalos, e a praia. E detesto gente. Não são as pessoas. A parte das pessoas que é animal, que é como os robalos, os cães, os gatos, gosto. Aquela parte que é a nossa construção social cheia de convenções, cheia de gentinha, cheia de grupinhos, não gosto. É tudo muito conservador. Somos pequenos.”

 

De facto, o escritor tem razão. Aqui tudo é pequeno, especialmente na província mais provinciana. Os ricos são pouco ricos e os líderes são pouco líderes. Muitos dos líderes são risíveis, quando não patéticos. Toda a gente parece que tem muito a perder porque tem pouco.

 

E ainda há quem divida isto ao meio, entre a esquerda e a direita. Isso é agora uma irracionalidade. Aqui ninguém fala verdade. E o discurso dos que apoiamos chama-nos estúpidos a todos.

 

É a pequenez. A nossa pequenez. Eu abomino a pequenez. Não é a pequenez das casas ou das aldeias. É a pequenez de espírito. É o espírito destes dias do lixo, como diz Pacheco Pereira. Estamos mais preocupados em conservar o pouco que temos do que em arriscar o que temos para conseguir mais.

 

Sim, nós somos bons alunos, só que de maus mestres. Já fizemos tantas vezes de Sísifo que estamos cansados. Sempre a levar a pedra pela encosta e ela, antes de chegar ao cimo do monte, cai-nos sempre e rola pela encosta.

 

A cidade nesta crise imensa, nesta dívida colossal, que se calcula em cerca de 70 milões de euros, e os nossos subordinados regentes apenas se mostram dispostos à politiquice e à troca de cadeiras, da busca de lugares, de tachos, de panelas e potes. Mas há pessoas que apenas aceitam o caldeirão do Astérix, mas atenção, com a poção mágica incluída para combater os romanos.

 

A política da verdade, do trabalho e da competência deu nisto. Nesta governação subordinada à vaidade e à prepotência de gente que não se enxerga na sua irresponsabilidade, na sua arrogância, no seu despotismo.

 

Por isso é que esta gestão autárquica já é irrelevante.  

 

Hoje vou terminar com as palavras do político e intelectual brasileiro Ruy Barbosa (1849-1923), e um pouco emocionado, sabe-se lá bem porquê: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

22
Nov13

O Homem Sem Memória - 184

João Madureira


184 – O José estava sentado num banco à sombra de uma parede alva como a cal quando viu chegar a brigada de perseguidores. Além de suados, vinham todos perplexos, montadas incluídas. Apenas os cães e o camarada capataz denotavam uma satisfação acrescida. O José nem se mexeu. Fez-se de mexicano a dormir a sesta. Quando a ocasião se proporcionou, perguntou a quem sabia pelo paradeiro do seu amigo. “Será que escapou?”, questionou curioso conjeturando algum milagre. “Do inferno ninguém escapa”, responderam-lhe. Ele voltou a perguntar pelo amigo. A trupe limitou-se a apontar na direção dos cães. Como ninguém dizia nada de esclarecedor, um camarada menos camarada, resolveu contar-lhe a verdade nua e crua. Ele recusou-se a acreditar.


Nessa mesma noite, o José resolveu vingar a morte do contador de anedotas. Mas com paciência e método. Decidiu combater os comunistas com as suas próprias armas: organizando células clandestinas e espalhando a incerteza, a dúvida, a desconfiança e a desobediência.


Fez-se amigo de vários dirigentes e transformou-se num prisioneiro exemplar. Obedecia a todas as ordens e não contestava nada nem ninguém. Devido à sua conduta exemplar, resolveram conceder-lhe mais liberdade. E ele aproveitou-a. Ia de monte em monte fazendo amizades e tentando desenvolver cumplicidades.


Saía de manhazinha e caminhava enquanto o sol não apertava. Por volta das dez matava o bicho com pão e algum conduto que conseguia desenrascar entre a malta conhecida. Depois punha-se a olhar para o horizonte até se perder no infinito. Desesperado com a monotonia das vistas, adormecia. E sonhava. Sonhar era a forma de se manter mentalmente são.


Sonhava com a família, com a infância, com o verde dos montes, com os amigos. Sonhava com a sua terra. Quando acordava punha-se a gritar muito alto canções que tinha aprendido na infância. Quando chegava a algum monte habitado disponibilizava-se a ajudar no que quer que fosse. Transformou-se num bom trabalhador agrícola. Aprendeu a viver com as dificuldades do dia-a-dia, com a pobreza, com a indiferença, com a solidão. Amigos verdadeiros deixou de ter, por vontade própria. A sua inseparável amizade passou a ser a sua sombra. Afinal, o José dava azar a quem com ele convivia. Limitava-se a ter conhecidos, que respeitava. Mas nada mais do que isso. Contava histórias às crianças e entretinha-se a ensinar alguns adultos a ler e a escrever. Nunca falava de política, nem de religião e muito menos de futebol. Quando alguém lhe perguntava algo sobre a situação política do país respondia que nada sabia e que pouco lhe importava. Além disso ele era do Norte. E no Norte as coisas são diferentes. “Para pior?”, perguntavam-lhe a rir. Ao que ele respondia que apenas eram diferentes. “E diferentes, como?”, insistiam. O José mudava então de conversa. Falava do tempo e da natureza. Entretanto ia tirando algumas informações sobre o camarada capataz.


Contaram-lhe que era um homem que se tinha feito a si próprio, de origem humilde. Não se lhe conheciam amigos do peito. Tinha sido um jovem solitário que cedo se inscreveu no Partido. Era carreirista, ou, melhor dizendo, um homem de partido. Não discutia ordens nem admitia que as discutissem. Ascendeu rápido na hierarquia, o que não é de admirar. Ainda no tempo do fascismo ficou ligado ao assassinato de uma patrulha de dois soldados da GNR que tinham ido em serviço inspecionar uma greve numa herdade de um latifundiário. Perseguido pelos militares, e pela polícia política, o Partido resolveu enviá-lo para Moscovo. Foi na pátria de Lenine que decorou toda a parafernália de textos sobre a reforma agrária nos países socialistas. Visitou várias herdades coletivas e familiarizou-se com a retórica marxista-leninista. Não entendia nada de agricultura e muito menos percebia o que quer que fosse do conteúdo da ideologia que tinha jurado abraçar, mas era um ás na repetição das palavras dos camaradas do Comité Central que vinham plasmadas no jornal do partido. Com a queda do Estado Novo, voltou ao seu querido Alentejo e encabeçou todas as lutas que pode contra os latifundiários e os seus lacaios. A muitos deles derreou-os de porrada, ele mais as suas brigadas revolucionárias. Não olhava a meios para atingir os fins. Nisso era um leninista genuíno. Com a conquista do poder pelo Partido, manobrou as estruturas dirigentes para o nomearem diretor da primeira Unidade Coletiva de Produção da Reforma Agrária. Mas não tardou que muitos dos camaradas começassem a contestar os seus processos autoritários. Conseguiu saneá-los a todos, sem exceção. Ele mal comia, visitava a família muito de vez em quando e à mulher e aos filhos tratava-os com a mesma autoridade que os demais, como militantes de base do Partido. Muitos dos que lhe fizeram frente foram encontrados mortos nas encruzilhadas dos caminhos. Espalhava aos quatro ventos que era tudo manobra da reação ou de uma seita de fanáticos religiosos. E com esse argumento perseguia ainda mais os já poucos reacionários que por ali existiam, se é que nessa altura sobravam alguns. Como a UCP era um primor de organização política, mas um desastre na produção agrícola e pecuária, resolveram, para bem do povo e da revolução, transformar a UCP num projeto piloto, conferindo-lhe o estatuto de uma Unidade de Produção Agrícola e Pecuária destinada a albergar e a reabilitar prisoneiros políticos, quer reacionários, quer dissidentes. Pois todos sabemos desde o tempo dos campos de concentração nazi que o trabalho dá liberdade, confere igualdade e irradia fraternidade.


Ele, como bom comunista, detestava ambos os tipos de prisioneiros, mas odiava ainda mais os dissidentes. Não conseguia conceber como é que depois de terem sido iluminados pela verdade revolucionária eram capazes de renegar a revolução, ou os camaradas dirigentes, ou as orientações partidárias, ou contestarem as verdades ideológicas criadas por Marx, Lenine, Estaline e Alberto Punhal.


As orientações do Partido tinham sido explícitas: Os prisioneiros políticos apenas podem sair da UCP reabilitados ou mortos. E ele, como bom comunista, sabia que a reabilitação de um ex-comunista é pura e simplesmente, impossível. E os prisioneiros cada vez eram mais e piores. A dúvida num corpo comunista é uma doença epidémica e mortal. 

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