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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Dez13

Pérolas e diamantes (70): o trigo e o joio, as pérolas e os porcos

João Madureira

 

Como transmontano sempre me senti um pouco como os índios inuítes americanos. E atualmente ainda mais do que nunca. Se os bons americanos, como os úteis portugueses da capital, dependem do sistema, pois são o próprio sistema, os índios americanos, tal como os transmontanos, dependem da ajuda do governo e do álcool.

 

Os inuítes, tal como os transmontanos, são livres mas estão circunscritos a jardins zoológicos para seres humanos aos quais chamam reservas (na nossa dimensão, província), onde estão condenados a repetir a lastimável dança da chuva em frente de um aglomerado de turistas.

 

Afinal ninguém é livre. Somos sempre prisioneiros dos outros e de nós próprios.

 

António Vitorino de Almeida conta na sua autobiografia o que lhe aconteceu quando, ainda jovem, andava a mostrar a sua arte aos portugueses poderosos. Apesar da excelente impressão causada por alguns dos seus recitais, a obtenção de um trabalho fixo, à altura das suas capacidades concretas e que lhe garantisse um ordenado ao fim do mês e uma reforma para mais tarde, ficou na estaca zero.

 

Mas, para seu desalento e desespero, via constantemente determinados lugares serem ocupados por pessoas que não possuíam efetivamente nada que se equiparasse, em termos de habilitações académicas – já para não falar do seu trabalho concretizado como pianista e compositor – com o currículo q ue enviava para os devidos lugares, normalmente sem receber qualquer tipo de resposta.

 

Conta que começou a habituar-se a uma explicação recorrentemente dada em relação à sistemática nomeação dessas figuras cinzentas, apenas mais coloridas, na maior parte dos casos, nos salários que auferiam.

 

Diziam-lhe tentando explicar: “Coitado, tem uma personalidade muito fraquinha e complexada, praticamente nunca passou da cepa torta, falhou em tudo o que tentou, mas é um apaixonado pela arte! E, por isso, achámos bem dar-lhe este apoio… Foi uma questão de humanidade!”

 

De facto, como relata o mestre compositor, o problema não reside no simples ato caritativo – “a alegada questão da humanidade…” –, mas sim no facto muito mais relevante, de que tudo isto faz parte de um sistema infindável, o famoso “círculo vicioso de mediocridade organizada”, dado que o presente protetor já foi ele mesmo protegido e, por isso mesmo, gera novos incapazes com idênticas caraterísticas.

 

E, passado pouco tempo, o tal coitadinho frustrado que dizia amar as artes sem ser correspondido por nenhuma delas, estava transformado numa genuína autoridade, pois todas as deliberações artísticas dependiam agora das suas doutas opiniões, quando não dos seus caprichos, tais como o direito ao trabalho, à carreira e à própria vida de verdadeiros artistas.

 

Para rematar o relato, António Vitorino de Almeida, parafraseando um poema de David Mourão-Ferreira, que acabara de conhecer naquela altura e com quem tinha gravado um “ótimo” disco, cuja matriz parece que desapareceu no incendio do Chiado, escreve que dessa forma “se perpetuava a dramática luta entre os capazes e os capados…”

 

Em Portugal a crise está mesmo a sugerir-nos que façamos como Salazar, que evitava cerimónias públicas em que tivesse de se expor em varandins mas que não descurava a economia doméstica, bastando-lhe o recato do seu gabinete de trabalho, onde a par das decisões relativas aos destinos do país, reservava um tempinho para dar enquadramento a algumas preocupações de tipo caseiro, nomeadamente o elevado preço a que tinham chegado os ovos na capital, razão pela qual escrevia cartas para Santa Comba a solicitar que lhe enviassem uma galinha pedresa com o objetivo de estabelecer regras específicas de contenção de despesas na economia do lar.

 

Nestas alturas lembro-me sempre da parábola bíblica da separação do trigo e do joio. O problema que se me coloca sempre é que não se pode arrancar o joio sem destruir o trigo.

 

O joio é uma erva daninha cujas raízes se entrelaçam nas raízes do trigo, do centeio ou da cevada e não há forma de as arrancar sem arruinar a colheita.

 

E lembro-me ainda, e sempre, sei lá bem por que ordem de razões, do seguinte texto bíblico: "Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda de que eles as pisem com os pés e que, voltando-se contra vós, vos dilacerem." — Bíblia, Novo Testamento, Livro de Mateus, Capítulo 7, versículo 6.

25
Dez13

Poema Infinito (178): uma canção deserta

João Madureira

 

Foi a década de todas as convulsões. Uma época diferente, onde todos aprendemos que o mundo era maior do que a guerra eterna entre o bem e o mal. Aprendemos a ler coisas estranhas e fascinantes, a questionar o infinito, a ouvir as madrugadas e a tornar inofensivo o maio de 68, os beatles, os stones e o bob dylan e a buscar as mil e uma razões para salvar o mundo e a contemplar os logros e a comover-nos com os mitos europeus e a procurar o mar e o tempo que move as ondas. Encontrei-te debruçada sobre o frio de fevereiro a recolher pétalas de amores-perfeitos prensadas dentro dos livros. E os teus olhos procuravam a luz. O céu estava ainda fora do nosso tempo. Os pássaros voavam em círculos. A vida enrolava os sonhos nos labirintos das ruas. As mulheres mais secas morriam nas janelas observando o absurdo das rajadas de vento. Cá fora, as multidões abriam madrugadas e cantavam canções desertas. As palavras aprendiam a viver de novo nos teus lábios incertos. A noite era inútil. As saudades eram perpétuas. Os sonhos eram abismais. E o tempo era um rio que se repetia nas suas margens. A vontade mudava. O prazer era um novo desencanto. E nós queríamos mudar tudo o que ninguém ainda tinha conseguido mudar. Os desejos eram iguais à vontade. E a vontade enganava a esperança. E a esperança ficava fria. Nós queríamos as fantasias perpétuas. Perseguíamos a ilusão das imagens. Tudo se transformava noutra coisa. As horas eram como flores de papel. Os pirilampos voavam e acendiam a infância. E nós aprendíamos a respirar como os peixes. E a procurar a razão da vida. E o seu sentido. E deixávamos que as paixões despontassem dentro de nós e nos atravessassem com os seus golpes de destino. E o destino éramos nós e por isso começávamos a arder e a chamar as paisagens e a aproximarmo-nos rapidamente de tudo e a escrever palavras compactas que não queriam dizer nada e diziam tudo. Tínhamos orgulho no desejo e ardíamos dentro das metáforas e sofríamos com a escuridão do mundo e com as estrelas que caíam no mar e se afogavam. Então o mundo ficava escuro e os nossos sonhos naufragavam como se fossem sinais do destino. E crescemos com os anos e deciframos as máscaras da destruição. Custava-nos respirar por entre as angústias. Imaginávamos os sonhos a correr por entre as sombras e a atravessar o medo e a sintonizar a estupidez do mundo. Pensávamos que as pessoas eram feitas de vento e saudade, por isso repetiam sempre os mesmos gestos. O crepúsculo prometia salvar-nos. No fundo, as coisas eram inofensivas. Prosseguíamos o nosso caminho, regressando sempre ao labirinto onde se ocultavam as certezas. As galáxias dos nossos olhos tinham mil sóis. Por isso brilhavam muito e incendiavam as alvoradas. Toda a gente atravessava a rua à procura de sonhos e de símbolos. E os poetas não amavam. Apenas eram lúcidos. Parecia que tudo era igual. As pessoas eram automáticas e queixavam-se da inutilidade dos dias. Agora as imagens sobrepõem-se e assombram o vazio e esperam em silêncio. São como aquelas pessoas que regressam à sua solidão e choram dentro dos seus sonhos de pedra. Antes das luzes se apagarem, espero que me segredes o assombro da próxima madrugada. Se ainda for possível. 

23
Dez13

Pérolas e diamantes (69): entre a alegria e a mudança de pelo

João Madureira

 

A minha melhor banda sonora mistura um sussurrar no fundo da casa com um rumor calmo de palavras ensinadas aos meus filhos e o frigorífico a ronronar, a panela da sopa a borbulhar, a colher do Axel a bater no prato, a água a correr para encher a banheira, a publicidade idiota na televisão, a tagarelice dos meus dois filhos, o sorriso da mãe. E eu ali a escutá-los, a rir embaraçado com um misto de felicidade atrapalhada e a pedir que aquilo perdure para sempre. Que nunca acabe.

 

Sinto que possuo um tipo de alegria kafkiana. Por vezes corto as memórias e as palavras de maneira abrupta. Um amigo disse-me que, por vezes, quando falo, perturbado por algum acontecimento recente, corto o ar de tal maneira com as mãos que se sente de imediato a outra metade a cair do outro lado da espada.

 

E isso acontece-me mais a cada dia que passa, neste país que reserva alguns mistérios por desvendar, tais como pagar mais às pessoas quando estão desempregadas do que quando trabalham, de retribuir melhor os pedreiros que os professores, de andarem por aí almas caridosas a angariar fundos para acudir às vítimas das cheias em Moçambique quando a maioria dos nossos pensionistas vivem da esmola do Estado. 

 

Ou ainda por viver num país onde a segunda figura da Nação, militante distinta do PSD, está reformada desde os 42 anos e recebe 7000 euros mensais, por 10 anos de trabalho no Tribunal Constitucional, enquanto a quase totalidade dos portugueses no ativo ou não terá reforma ou só a conseguirá usufruir quando estiver mesmo com os pés para a cova.

 

Ou ainda por habitar numa cidade onde António Cabeleira, por manobras mirabolantes, indo contra a lógica política, e contra toda a palavra dada, conseguiu um acordo de governação, que, a meu ver, não passa de uma manobra de diversão e de uma carta de intenções tão vaga quanto demagógica.  

 

Não sei porquê, mas lembrei-me de Tom Sharpe, mais concretamente do seu livro “Uma Mancha na Paisagem”, onde sobre uma sua personagem escreve: “Privado de dignidade, pretensões, autoridade e razão, Dundridge estava quase humano.”

 

Tenho a certeza que quando determinadas pessoas disseram aquilo que disseram em defesa do acordo de governação entre o PSD e o cidadão eleito pelo MAI sentiram que a língua lhes pesou dentro da boca.

 

Todos sabemos que a felicidade é sempre prematura. E quando o fim da vigência do acordo estiver para acontecer aí é que os eleitores se vão rir. É que tristezas não pagam dívidas e muito menos as da Câmara de Chaves.

 

Já sinto as dúvidas de muitos leitores questionando-me sobre o porquê da minha zanga. Mas olhem que não estou nada zangado. Sobre o assunto já emiti a minha risada antibiótica. Afinal qual a razão por que havia de estar zangado? Pelo contrário, eu devia estar feliz, não é?

 

Mas caros amigos, Robert Evans, um produtor de filmes da Paramount, escreveu um dia: “Há sempre três lados em cada história: o teu… o meu… e a verdade.”

 

Mas qual verdade? Pergunto eu. E será que é a verdade o que nos interessa saber?

 

De facto houve gente que tentou tratar os eleitores flavienses como companheiros. Outros trataram-nos como clientes. Mas talvez levados pela vaga liberal, a maioria dos flavienses preferiu os segundos.

 

Ficou mais uma vez provado que os políticos são cada vez mais atores que representam interesses alheios.

 

Por vezes encolhem os ombros e, quando questionados sobre alguns assuntos mais melindrosos, gostam de dizer: Perdido por cem… e depois calam-se para que sejamos nós a concluir o raciocínio. E nós, como bons aprendizes de maus mestres, lá fazemos avançar o pensamento.

 

Mas, caros leitores, o que esses senhores não dizem, mas pensam, é “perdido por cem… ganho por mil.”

 

Ou seja, todas as verdades são reversíveis.

 

Charlie Chaplin, por exemplo, acreditava que a força da arte é efetivamente mais poderosa do que as doutrinas políticas. Mas isso, estou em crer, apenas acontece nos filmes e nos livros.

 

Pensando ainda mais uma vez no acordo autárquico realizado por António Cabeleira e João Neves, lembrei-me do adágio popular que diz que as raposas podem mudar de pelo mas nunca mudam de hábitos. 

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