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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

29
Mai14

Poema Infinito (200): o pecado de Deus

João Madureira

 

Cresce tanto a saudade como as árvores nos montes. A paisagem é a mesma. A saudade não. Necessito de cavalgar para conhecer os caminhos. Os vestidos das mulheres ficam longos como o tempo. O tempo longo que brilha. O tempo que cavalga. A beleza nasceu sem cálculo e sem palavras. Os teus olhos possuem a textura do veludo. Alguém junta as palavras prazer e dor e depois reza. Agora cavalgo dentro da noite. As palavras ficam luminosas como estrelas. Todos esperamos sempre por alguma coisa. Pela claridade do dia, pelos olhos que brilham, pelas mãos que acariciam. Alguém canta uma canção triste. Raparigas com os cabelos flutuantes acenam a quem passa. Por vezes é difícil distinguir o sonho da realidade. Há sempre muito céu por detrás das nuvens. Alguém grita como se lhe tivessem rasgado o sonho. O inimigo está sempre perto de nós a arder ou a rir-se. Alguém diz que o seu sonho correu para dentro da noite e que por isso não pode ser acordado. Lentamente as casas vão-se apagando. As orações são rezadas devagar e entram pelos quartos dentro. Tudo fica mais claro na minha cabeça. As janelas gritam. Alguém corre pelas escadas acima, começa a brilhar e incendeia-se. O silêncio amadurece e fica vazio. As horas ficam ainda mais pesadas. As anjas mostram as suas bocas cansadas a Deus e pedem-lhe que as liberte da divindade. Têm saudades de terem saudade. Têm saudades do pecado. Querem parecer-se com os outros e sentarem-se no jardim e serem beijadas e copuladas. Deus fala-lhes da melodia que as suas asas produzem quando voam e de não possuírem angústia. Lembra-lhes a sua justeza imperturbável, a gravitação vital em torno das estrelas. Glorifica-se por ser o centro imóvel dos astros, por ser o autor do Livro do Princípio e do Fim. As anjas choram. E ficam escuras de desejo. Deus permanece justo e imperturbável. Tudo começa a ficar mais longínquo. Deus anuncia às anjas que as vai tornar hermafroditas. Elas ficam desiludidas e tristes. Depois separam-se. Deus afirma: Eu sou o vosso Senhor. Eu sou o tempo. Eu sou tudo. Alguém escreve longas cartas e pede a Deus que arredonde os frutos nas árvores. Os caminhos ficam iluminados. Alguma dessa luz pousa nos meus dedos. As anjas choram no mundo. Deus chora o mundo. As horas inclinam-se como corpos metálicos. Deus eleva-se no meio de chamas. As anjas bebem o silêncio e aprendem o espaço e o tempo dos mortais. Alguém canta canções tristes. Sinto o brilho das páginas em branco. As palavras ficam imóveis. A escuridão aperta tudo dentro de si. As anjas transformam-se em imagens vacilantes. As mãos tremem-lhes. Sentem que vão ser novamente condenadas a construírem catedrais, a levantarem Roma, a aplicar mosaicos no chão do céu. E ainda a encobrirem o pânico, a glorificar o silêncio, a sonhar o sonho dos humanos, a deixarem-se esculpir em granito para serem assentadas em pelourinhos, a comunicarem aos outros para não terem medo quando elas estão cheias dele, a serem monólogos de solidão, a serem bocas fechadas ao prazer, a segurarem a hora da morte, a envolverem a sua pureza imposta em espadas de fogo, a serem tão estéreis como as areias do deserto, a serem vizinhas de Deus sem o amarem, a serem o sinal imortal da mortalidade. Deus olha para elas e então lembra-se que construiu o mundo com as mãos a tremer. Esse é sempre o pecado da primeira obra de qualquer artista. 

26
Mai14

191 - Pérolas e diamantes: não há acordos grátis

João Madureira

 

Era eu ainda miúdo quando ouvi falar pela primeira vez em altruísmo.

 

Lembro-me de escutar o reverendo a fazer o elogio a um senhor lá da terra, falecido recentemente, que, quando numa batalha qualquer foi ferido, não sei agora onde, e lhe foi oferecido um golinho de uma aguardente muito boa por parte de um camarada de armas, respondeu-lhe que nesse momento estava a rezar e que, por isso, o deixasse de fora da rodada e oferecesse a sua parte ao vizinho da maca ao lado, que estava bem mais necessitado do que ele.

 

“Esse espírito de sacrifício altruísta”, dizia o senhor abade, que gostava de molhar a palavra em boa aguardente velha, “era o que queria ver em vocês, meninos, especialmente em ti, João. E quantas vezes já te disse para não te pores a olhar para mim com esse ar emproado e averiguador.” Naquela altura limitei-me a engolir em seco.

 

A resposta encontrei-a apenas mais tarde, quando li a seguinte observação do imperador Marco Aurélio: “Acontece-te algo? É bom que assim seja. Faz parte do destino do universo que te está reservado desde o início. Tudo o que te acontece faz parte da grande teia.”

 

Diz-me a experiência que não adianta que nos tirem um peso de cima porque mal nos distraímos, logo outro peso, muitas das vezes um bocado maior, cai-nos logo em cima outra vez. Este é um jogo que não se pode ganhar.

 

Desta vez queria falar de realidades ligeiras, de coisas engraçadas. De episódios de sucesso. Por exemplo, do triunfo dos porcos no país. De facto, uma empresa de Rio Maior produz mais de 350 mil animais por ano, apenas em Portugal. É uma fartura de suínos. Em tempos de vacas magras medram, e multiplicam-se, os porcos.

 

De Boticas chegou-nos um aviso, e também um contributo, a bióloga Sónia Magalhães informa: “Os nossos cágados estão em perigo.” Ó pobres coitados! Mas também nos tranquiliza com o título da sua palestra: “Cágados, um Futuro a Construir.” E deixa um alerta: “É muito importante não largar espécies exóticas na natureza.” Quer sejam cágados ou animais de outras espécies, acrescentamos nós. É que as espécies exóticas devoram as autótones.

 

Estava eu nesta boa disposição, quando, ao abrir o jornal, dou de caras com a entrevista do senhor presidente da Câmara de Chaves.

 

Diz ele que se lembrou de fazer o balanço de meio ano de governação.

 

Todos os que por cá vivemos sabemos muito bem que nestes últimos seis meses nada na cidade foi feito que mereça, sequer, uma nota de rodapé. Mas o senhor presidente acha que não é bem assim. Por isso resolveu surpreender-nos com as suas boas intenções que, na sua douta opinião, passam por concluir obras, as tais da Santa Engrácia, e por consolidar as contas públicas, cujo défice já vai nos 60 milhões de euros. E a procissão dos números apenas ainda vai no adro.

 

Diz-nos o senhor presidente, com aquela carga de demagogia que lhe é muito caraterística e que nos intranquiliza a todos, que o concelho conseguiu captar algum investimento. Um na área da produção e armazenamento de cogumelos e outro na área da metalomecânica. Cá esperamos para ver. E sentados, como é prudente fazer-se.

 

Referiu que “os últimos 12 anos foram de investimento ímpar para a cidade” e afiançou que esse investimento foi “fundamental para o futuro”.

 

Concordamos que o “investimento” foi ímpar, já a dívida é par. O “investimento” foi realizado por políticos irresponsáveis e inconsequentes e a dívida galopante, que daí resultou, vai ser paga por todos nós.

 

O dito “investimento” criou um buraco de 60 milhões de euros. Essa é a realidade. Um buraco financeiro gigantesco. Já as obras apenas as conseguimos enxergar por um canudo.

 

Por isso é que refere que vai construir piscinas, reparar pavimentos, requalificar a rede viária municipal e os espaços verdes e promover o turismo.

 

A ser assim, afinal onde é que este poder autárquico gastou o nosso dinheiro? Onde estão as obras? Onde para o pilim?

 

Mas para palavras loucas orelhas moucas. Não é assim, senhor presidente?

 

Estamos em crer que foi por essas e por outras que resolveu afirmar que está bastante satisfeito com o acordo de governação estabelecido entre a Câmara de Chaves e o MAI. Só que isso que o senhor presidente afirma é falso. Rotundamente falso.

 

O único acordo que existe é uma atamancada combinação celebrada entre o senhor António Cabeleira, em nome de PSD local, e um senhor vereador, eleito em nome do MAI, que, nesta circunstância, apenas se representa a si próprio.

 

Nenhum eleito do Movimento, com a exceção de João Neves, participou em qualquer reunião com o PSD. Em nenhuma.

 

Não existe nenhum documento que fundamente, justifique ou esclareça em que consiste, ou se baseia, o enigmático acordo.

 

O putativo pacto é de conveniência. Apenas.

 

Serve, sobretudo, para estabilizar o instável poder de um e para outorgar um poleiro ao outro.

 

Pois que lhes faça bom proveito à barriguinha e ao peito. De uma coisa estamos certos: dali nada resultará de positivo, nem para o nosso concelho, nem para as nossas gentes.

 

O senhor presidente admitiu publicamente que o acordo deixou de imediato cair em saco roto a auditoria às contas da Câmara, proposta pelo eleito do MAI e aprovada por maioria.

 

Tal como os almoços, não há “acordos” grátis. 

22
Mai14

Poema Infinito (199): invocação

João Madureira

 

Tudo o que é belo se afasta com a velocidade da água dos rios. Tudo se transforma. Todos desaparecemos, um a um. Por isso sonhamos com a aurora. Por isso desejamos ter a serenidade dos grandes ramos das árvores solitárias dos bosques. Por isso murmuramos baixinho o vagar do desejo, enquanto a erva cresce na terra inquieta. Por isso as águas cintilam nos nossos olhos. Por isso morremos como os meteoros, a arder. As pombas dentro de nós são luminosas. As horas, de cansadas, declinam o amor. Este é o tempo da paixão e do esquecimento. Este é o tempo das almas exaustas. Dos beijos que se inclinam nos nossos lábios. Das lágrimas que caem como folhas de outono. Por isso o amor é uma criança descalça que trepa a neve com delicadeza. Por isso serei sempre um jovem louco que acredita em prodígios. Podem os outros vacilar, eu não. Apesar do meu rosto solitário. Possuo dois pés errantes. Tenho duas asas desprotegidas, como o arcanjo Miguel. Inclino-me perante as estrelas. Deus dilui-se nas águas que flutuam. No silêncio. No medo. Por isso a efémera beleza humana entristece a eternidade. Os deuses são loucos por almas inquietas. Por isso a tristeza vai alterando os nossos rostos. O passar do tempo aproxima-nos mais da tristeza. Os olhos ficam húmidos com o orvalho. E as estrelas ficam indiferentes. O amor agrava-se com as palavras. Também o tempo tem o rosto transfigurado. Sentimos a voz do vento como uma superstição. O tempo, esse inimigo inexorável, goteja a nossa decadência. Apesar do nosso espírito inquieto se alimentar do fogo, da angústia e da memória. Com o passar do tempo, as palavras têm tendência a amargar. Por isso as almas pecadoras fazem ricochete nas portas do céu. Com o coração cansado, penetramos no crepúsculo. O tempo muda de sítio. Tu ficas com o cabelo luminoso, com os olhos cintilantes e com o sexo resplandecente. Tu és a semente do fogo. As tuas mãos, como folhas esplêndidas, despertam-me o sexo. Este é o tempo de nos perdermos nos beijos. As palavras ajustam-se ao seu significado mínimo. Há quem sonhe em incendiar de novo Troia para igualar o desejo da morte. É impossível saber-se toda a verdade. Nem Deus tem coragem de aceitar essa derrota. Por isso, os loucos exultam com o mistério. Com o divino mistério da matéria e da vida. As memórias desaparecem como que por milagre. A fantasia da razão torna-se inoportuna. Tudo muda desde o princípio dos tempos. Por isso é que as aves voam para longe e com elas levam o olhar dos visionários. A beleza transformou-se num molde. Dela foi retirada o sangue e o deslumbramento. Presentemente já não sabe para o que serve. O amor é agora uma fúria que parte para lugar incerto. A madrugada é uma cavalgada fantástica. Regressamos a tempo de um novo coito para morrermos mais um pouco. Com os corpos inclinados, acendemo-nos como piras divinas. O pecado não é nosso. Nossa é a luz. Nossa é a alucinação. A sensualidade é uma gloriosa recordação que flutua no espaço como uma nave iluminada. Por isso alguém desenhou os céus onde cintilam as lágrimas da paixão. Por isso os lábios são vermelhos de sangue. Por isso a memória dilata e se torna doce. Por isso crescem flores de macieira nos teus cabelos. Este é o momento de invocar o espírito das palavras antigas. 

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