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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Jun14

196 - Pérolas e diamantes: António, o Lamentador

João Madureira

 

A Câmara de Chaves vai fazer aquilo que sempre negou vir a fazer, porque está à beira da falência. A autarquia liderada por António Cabeleira vai pedir um saneamento financeiro.

 

A má gestão do executivo PSD tornou a dívida insustentável.

 

Segundo a lei, o plano exige a tomada de medidas específicas de redução de despesa.

 

Essas medidas têm sempre a ver com a redução da despesa com o pessoal e com o investimento. E também, conforme é do costume, com o aumento de impostos, tais como o IMI e as restantes taxas municipais.

 

Os erros de gestão, aliados à incompetência e à demagogia saloia dos responsáveis autárquicos, vão custar ao erário público, ou seja a todos nós, a módica quantia de 30 mil euros, que é quanto a CMC vai pagar à empresa contratada para o efeito.

 

Coisa que parece não afetar sobremaneira os responsáveis pela calamidade. Outro galo cantaria se esse dinheiro saísse diretamente dos bolsos de quem nos meteu neste buraco sem fundo da dívida.

 

Nos últimos doze anos, a gestão camarária protagonizada pelo PSD de João Batista (agora Secretário da CIM, um tacho dourado feito à medida do ex-autarca) e António Cabeleira, fez aumentar a dívida, isto num cálculo conservador, em cerca de 40 milhões de euros.

 

Ou seja, em três mandatos a dívida camarária, com a gestão de JB e AC, quadruplicou. E as obras, caros flavienses, só as conseguimos ver por um canudo.

 

Por exemplo, a má gestão respeitante ao Mercado Abastecedor, custa 3,5 milhões de euros. E nunca é de mais lembrar a dívida às Águas de Portugal, de cerca de 20 milhões de euros, motivada pelo não pagamento repetido, durante quatro anos consecutivos. Isto depois dos serviços camarários terem cobrado esses serviços aos flavienses.

 

Ripostavam, os prestidigitadores, quando acusados pela oposição de que a dívida era insustentável, que a situação financeira da autarquia era saudável.

 

Quando a oposição propôs uma auditoria às contas, António Cabeleira disse que não, argumentando que as contas estavam bem, porque ele era honesto, porque a gestão do PSD era honesta, verdadeira e transparente.

 

Afinal o que o presidente da Câmara tentava, e tenta, evitar, é que os flavienses se venham a inteirar do enorme embuste que rodeia todo este imbróglio.

 

Daí o “acordo” feito com João Neves. Essa manobra desesperada – pois nem AC se entende com JN nem JN emparelha com AC –, apenas serviu para, no limite, inviabilizar uma auditoria séria e isenta às contas da autarquia.

 

Para nos apercebermos da força política do atual presidente da Câmara de Chaves, basta lembrar a resposta que deu aos jornais quando lhe perguntaram qual a sua posição sobre o encerramento da UTAD de Chaves e sobre a incapacidade da autarquia em conseguir segurar no concelho mais este importante serviço público.  

 

O senhor presidente demonstrou o seu descontentamento e “lamentou” o sucedido. 

 

Quando nos levaram o Hospital AC lamentou, quando nos confiscaram o Tribunal AC lamentou.

 

Aqui ninguém investe, AC lamenta. As obras do Arrabalde transformaram-se em perpétuas, AC lamenta. As estradas do concelho estão num estado lastimável, AC lamenta. Os esgotos correm a céu aberto ali para os lados do Parque Empresarial, em Outeiro Seco, AC lamenta. As pessoas vão-se embora, AC lamenta. As escolas fecham, AC lamenta. As Caldas não conseguem abrir para a época termal, AC lamenta. As casas do Centro Histórico desmoronam-se, AC lamenta. O Comércio Local definha, AC lamenta.

 

Afinal, os flavienses elegeram para estar à frente da autarquia não um líder mas um homem piedoso que apenas reza frente ao muro das lamentações.

 

Já Salazar dizia que cada povo tem o governo que merece. 

26
Jun14

Poema Infinito (204): a castidade das pombas

João Madureira

 

As plantas agitam o seu magnetismo. Os animais gemem lentidões. Nós choramos mansamente dentro da nossa pequena felicidade. O tempo hoje nasceu limpo e puro como a alvorada. A conversa durante a noite foi carregada de saudade. Até a escuridão ficou espantada. Todos os poetas são estranhos quando surgem possuídos pela sua luz mais densa. Os seus olhos são como diamantes longínquos. Os seus rostos enchem-se de uma palidez visionária. As suas visões são como sonhos dissipados. Em si germina a luz que purifica as flores. Depois tudo muda. E eles ficam ternos como suspiros e desfalecem lentamente. E ficam místicos. E olham o céu com os seus olhos crepusculares. O mundo fica com a amplitude do voo das aves de grande porte. Os poetas ficam amplos e inquietos como ondas marítimas. E desejam ser amplos e consistentes. E meigos. E desejam cavalgar fadas e alvejar cisnes e falar com os deuses que fecundam a poesia com o seu sémen que é casto e culto. O espaço fica curvo. A noite fica muda e atrapalhada como um ideal ereto. É o tempo da magia. A natureza sente a idolatria dos malmequeres e o odor das amendoeiras e a magia do riso e a dor do esquecimento. A lua banha-se no mar. Fazemos-lhe companhia. Sonho com o macio regaço de minha mãe. Algumas flores deliram dentro do seu azul brilhante. Depois adoecem e soluçam e desfazem-se como espuma. Os poetas gemem as canções dolentes. Já não há almas puras, mas aparências. Sobretudo a aparência da paz. O mar chora. Os anjos ficam como pedra dura. Ficam rijos e soluçam. A seguir voam como se estivessem em Jerusalém junto ao calvário onde morreu Jesus. A luz redentora tornou a fenecer. Cristo também. A sua mãe morreu cheia de luz. O Sol imitiu as suas vibrações magnéticas. Deus não respondeu. Nem desta vez. Cristo morreu com a lividez humana estampada no rosto. A sua voz ficou santa. E ecoou pelos vales e pelas cidades e vilas e aldeias em redor. Mulheres virgens e viúvas começaram a dançar em volta do altar. Deus inundou o mundo de sonhos brancos. A Igreja ficou alva e tão gelada como a neve. O sonho desfez-se. Apareceu então Ofélia gabando-se de ter beijado Fernando Pessoa depois de ter bebido um copo de vinho branco e outro de vinho tinto e depois vomitar. Todos os sonhos se cumprem. Foi quando Alberto Caeiro descobriu que o pai de Jesus Cristo era duas pessoas, um velho carpinteiro chamado José e uma pomba estúpida que não era nem deste mundo nem do outro e nem sequer era pomba. E que a sua jovem e amada mãe não tinha amado antes de o parir. Então o amor começou a vicejar na dor. E começou a dirigir-se às pessoas a partir do altar e dentro da voz de homens que falavam na bondade dos cordeiros e das suas almas. Homens, apenas homens, exclusivamente homens que ouviam os pecados dos pecadores e das pecadoras em segredo e baixinho. Não fosse Deus enfurecer-se e acabar com o sonho das crianças batizadas que são como pombinhas brancas. E mansas. Pombinhas que aprendem a confortar-se com a dor. Sobretudo com a dor dos outros. Agora percebo a castidade de Jesus. E o seu pranto. E porque cantam as estrelas no céu. E qual a razão por que tais estrelas dormem no firmamento durante o dia e acordam à noite. E a razão dos beijos dos cristãos serem serenos e castos. E a razão de, definitivamente e para sempre, Deus corar quando lhe falam no pecado da carne. 

23
Jun14

195 - Pérolas e diamantes: sinais

João Madureira

 

Foi durante a campanha eleitoral para as eleições europeias que me apercebi de que não existe debate político, nem ideológico, em Portugal. Daí os resultados.

 

A seriedade não quer nada com a política.

 

Do lado do PS apenas vemos que continua a hastear a bandeira do Estado Social. O que não é mal nenhum, só que é muito pouco para perspetivar o futuro.

 

Já o PSD insiste em emagrecer o Estado. Só que o Estado já não tem por onde emagrecer. O Estado é só pele e osso.

 

Durante os últimos três anos assistiu-se a uma quebra abrupta do nível de vida dos portugueses. O senhor primeiro-ministro convenceu-se, e tentou convencer-nos, que os portugueses teriam apenas de substituir quinze dias de férias nas Baleares por uma semana no Algarve e o bife dia sim, dia não, por uma costeleta de porco aos domingos. Mas a pobreza que emergiu com a austeridade do governo PSD/CDS é muito mais grave e profunda. E até muito mais perigosa, por ser menos visível.

 

Agora acenam-nos com o fim da crise, porque a troika foi embora. Mas a má notícia é que ficámos com o país de pantanas.

 

Subiram os impostos, a gasolina, a água, o vinho, a luz, o pão, a sardinha, a febra, o bife, os telefones, as portagens, as rendas de casa, etc.

 

Apenas uma coisa desceu, e muito, os ordenados. Não tarda nada, o governo, para tapar mais um buraco orçamental, taxará o ar que respiramos e o sol que tomamos ao domingo, quando espreita.

 

Este governo de má memória parece que tem prazer em aparecer aos olhos dos portugueses carregado de hostilidade, sobretudo para com os pensionistas e os funcionários públicos.

 

A governação resume-se cada vez mais à arte de “aparecer”. O fazer é o que menos importa. Este governo demonstrou que além de ser constituído por políticos fracos, é um alfobre de “rapazes” incompetentes, produzidos pelas máquinas partidárias ou trazidos dos bancos das universidades privadas e dos grupos económicos.

 

Quem manda em Portugal já nem sequer são os políticos. São os banqueiros.

 

O nosso parlamento é cada vez mais entendido como um corpo inútil. E por detrás de toda esta crise do Estado persiste o modo como os partidos políticos se movem entre o poder local e o poder nacional.

 

São evidentes os sinais de crise do regime democrático. O tráfico de influências e lugares, o nepotismo e a corrupção no interior dos partidos vai corroendo a já pouca confiança que ainda poderão inspirar.

 

Se a tudo isto juntarmos a crise na justiça, a crise da representação partidária e a subordinação do poder político ao poder económico, ficam desta forma definidos os principais fatores da crise do regime.

 

A prostituição dos corpos e dos espíritos, a mesquinhez e o salve-se quem puder cresce dia a dia. Basta ler os jornais para disso nos apercebermos.

 

A fome é grande, os bens escassos e os empregos desaparecem todos os dias. O reino das cunhas mantém-se incólume. Daí resultando a obediência cega, o silêncio temerário e a “gestão individual da carreira”.

 

As oligarquias partidárias continuam submissas aos grandes interesses, ao tráfico de influências, à corrupção. É normal escutarmos, em relação aos políticos, a expressão: “São todos uns ladrões.”

 

Infelizmente, os portugueses pouco mais são do que um pano de fundo, em toda esta crise. E os de sempre continuam a jogar o seu jogo simples: manobrando quem tem poder ou quem poderá vir a tê-lo, quem ganha poder hoje para ser apoiado amanhã, quem sobe e quem desce, quem come e quem é comido.

 

Por isso é que o povo continua a votar em autarcas demagogos e naqueles que numa dezena de anos endividaram as câmaras até ao limiar da bancarrota.

 

E o mais triste de tudo é que o patriotismo dos portugueses se resume apenas ao futebol. 

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