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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

09
Jun14

193 - Pérolas e diamantes: o faz de conta

João Madureira

 

Os portugueses, honra lhes seja feita, não detestam apenas o cinema português. Basicamente detestam o país em que vivem. E até tem razão para isso. E de sobra.

 

Alguns de nós ainda nos aninhávamos nas nossas cidades como se elas fossem território de democracia, onde podíamos confrontar as nossas diferenças com os outros, onde negociávamos permanentemente a dificuldade de vivermos juntos, desde há séculos.

 

No fundo, a cidade era um território de imprevisibilidade, porque éramos muitos, porque estávamos juntos, porque podíamos aspirar a ser diferentes.

 

Chaves é um território com uma história anterior a nós e que, pensávamos com orgulho e esperança, perduraria depois de nós.

 

Mas pelo caminho que isto leva, qualquer dia somos uma aldeia com muitas casas. Umas de gosto duvidoso, muitas amontoadas em caixotes e ainda outras em ruínas.

 

A cidade definha e nós definhamos com ela. Muitas das pessoas que, nestas últimas décadas, passaram pelo poder autárquico, prometeram-nos desenhar a cidade com a subtileza de um prato de cozinha francesa, sustentando as suas ideias num espavento teórico que nos iludiu a todos. Ou quase.

 

Mas, como todos sabemos, por muito refinado que seja o aparato da cozinha francesa, não há nada que chegue a umas febras de porco bísaro salpicadas apenas com umas pedrinhas de sal e assadas nas brasas.

 

É na simplicidade que encontramos a exigência das coisas. É nela que reside o saber. É ela a mãe da criação.

 

Li em algum lado que o ato de construir teorias é um sinal de inteligência, mas que abster-se de teorizar é um sinal de sabedoria.

 

A teoria recorrente de que os nossos autarcas andavam a criar uma nova cidade, uma cidade sustentável e com futuro, foi um logro do tamanho da torre de menagem. O que sobra é uma cidade a cair aos bocados, sem energia, sem vitalidade e gerida em cima do joelho. E com a astronómica dívida de 60 milhões de euros, mais o IVA. Perdemos tudo o que de valor conquistámos ao longo dos anos: o Tribunal, o Hospital e a Universidade. Menos a honra.  Mas mesmo essa é caso para duvidar.

 

Até porque, depois de perdida a inocência da puberdade, constatámos que o ser humano é, afinal, bem menos simples e idílico do que parece.

 

É uma realidade que Portugal é um país demasiado centrado em Lisboa. Mas também é verdade que isso só acontece porque os políticos originários da província não possuem nem o ímpeto, nem a coragem, de afirmar e defender o interior, como é sua obrigação.

 

Lá vão para a capital e voltam, os que voltam, da capital, acabrunhados, silenciosos, desistentes e frustrados. E assim tem sido sempre. E assim continuará a ser.

 

A política tem a qualidade que os homens e as mulheres que a protagonizam lhe conferem. Nem mais, nem menos.

 

O povo bem continua a apontar aos políticos a estrela polar com o dedo, mas eles, propositadamente, apenas se dedicam a escalpelizar escrupulosamente a ponta do indicador.

 

Perante o descalabro nacional, e concelhio, a maioria dos indivíduos continua ou a assobiar para o lado ou a falar de cor. Comportam-se como as pessoas que, assistindo a um terrível acidente de carro, param no passeio, ou no cruzamento, a comentar o sucedido.

 

Em Chaves, o poder autárquico continua a fazer de conta. No entanto, os flavienses continuam a dizer que não têm culpa. Mas talvez não seja muito acertado falarmos de culpa. Há muito tempo que a culpa já não existe. 

05
Jun14

Poema Infinito (201): chamamento

João Madureira

 

Inauguramos as novas vestimentas das espécies. A sofreguidão da vida demora-se nas nossas gargantas. Os meus olhos são agora dois túneis quietos e incolores. Os meus braços pousam sobre a terra como dois instrumentos solícitos. Todas as surpresas terminaram. As crenças firmes já morreram há muito tempo. A fé é um símbolo categórico que acompanha sempre a miséria dos outros. Sou uma luz de ansiedade. Ninguém consegue satisfazer sempre os seus desejos. Vivemos sob o signo da decomposição. As sombras são as testemunhas da lascívia. A palidez da morte espalha-se pelos sítios tranquilos. As espécies animais descansam na arca de noé e agradecem a deus. Pelas janelas irrompem aves em fúria. A música do chão raso tomba sobre o pranto. No fundo das águas repousa o arco-íris. Cavalos cegos galopam na tarde. Os cavaleiros conheceram hoje o medo das suas misérias, o seu pavor mais secreto, o vazio da história e das paisagens. Descobriram, quando a alvorada começou a ficar extensa, que nem o amor, nem a adversidade, nem a esperança, nem a raiva voltarão a ser o que eram. A teologia agora é outra. Como é outro o tempo e a sua vocação pela queda. Somos visitados pela dúvida. As palavras viajam por dentro dos objetos. A experiência diz-nos que devemos desconfiar da serenidade. A prudência já não conta para nada. A natureza tem um novo rosto. Com o passar do tempo, as palavras vão tecendo uma nova teia de cumplicidades. O tédio é-nos mais familiar. Todas as mortes são similares. Por isso os santos sobrevivem à mortalidade frequentando o insuportável cansaço da quietude. Por isso, o seu olhar é sempre oblíquo e cansado. O nosso silêncio é neutro, o dos outros é insuportável. A agitação das máquinas distrai-nos do tédio. Todos os pecados são penitências de deus. A felicidade da infância consente a brevidade da vida, mas não a justifica. Afinal não existe saída de emergência. As palavras são armadilhas. Os nossos sonhos são signos incomunicáveis. Ninguém pode exprimir verdadeiramente aquilo que sente nem aquilo que é. Os olhos de deus adquiriram a frieza do chumbo: são espessos e de proporções colossais. A desilusão de deus invoca a fúnebre energia das catástrofes. Oremos, pois. A fé mantem-nos num constante delírio. Ninguém consegue identificar deus pelo tom de voz. Não sei porque escrevo isto. Afinal vim a casa para deixar estes papéis datilografados com a brisa da manhã. E encontrei, por acaso, uma cruz de ferro e uns ossários de alguma divindade antiga. De mim já tudo foge. Decidi passar a última noite na minha velha casa antes de me ir embora. Definitivamente. Os meus passos ressoam no silêncio do edifício. No fundo da rua existiram floridos jardins e gaiolas com pássaros dentro e signos quase apagados de grandeza. Os séculos repousaram nela com a impossível certeza das epifanias. Também se deram ali milagres e muitos homens recordaram batalhas, aromas, paixões e lamentos. Sei agora que não podemos antecipar os sonhos. A vida é um instante de esplêndida desordem. O fundo da rua foi o insubstituível lugar onde tudo se cumpria. Mas não resistiu ao esquecimento. A morte tudo vence. Até os milagres. Até deus. O sítio que agora procuro será o meu último lugar na terra. Já não aguento mais os gemidos do rio da minha puerilidade. O cheiro da terra maltratada toma conta de tudo. Os deuses antigos são agora como a vegetação que arde todos os verões sem préstimo e sem sentido. Senhor. Senhor. Senhor. Porque fugiste?

02
Jun14

192 - Pérolas e diamantes: em defesa da contradição

João Madureira

 

Há muito de aleatório na maneira como crescemos e nos vamos educando, embora seja pertinente a velha máxima que diz: “Só se encontra aquilo que se procura.”

 

Dei-me conta, tarde demais, mas mais vale tarde do que nunca, que não sou feito para a servidão, nem para a bajulação, que, como todos sabemos, são as passadeiras para o poder.

 

Depois de tantos anos de teimosia política e cultural, acho que sou um sobrevivente. Sou também um terreno de contradição.

 

A política ensinou-me sempre o contrário. No entanto, a cultura demonstrou-me que a vida é múltipla e de que tudo resulta da contradição. A política ficou triste, coitada.

 

São a contradição e a violência o que faz mexer o mundo. Eu sei que é duro de admitir. Mas é mesmo assim.

 

Da violência, mesmo que revolucionária, desisti quando soube dos gulags, dos muros construídos para separarem a verdade da realidade e a realidade da verdade, dos assassínios dos camaradas bolcheviques consumados pelos camaradas bolcheviques, dos massacres, das perseguições e dos fuzilamentos em massa. E da falta de liberdade. “Das mais amplas liberdades”, como gostava de afimar o camarada Cunhal.

 

E da reacionária nem é bom falar. Ainda não consegui entender como é que da sociedade alemã da altura conseguiu emergir um líder como Hitler e todo o “mal” que sempre o acompanhou.

 

Todos sabemos que não foi um problema de estupidez nem de falta de formação o que levou as pessoas, até as mais ilustres (lembremo-nos de Heidegger ou de Ernst Jünger), a aderirem, a suportarem e justificarem tudo aquilo. E nunca é demais lembrar que Hitler chegou ao poder de forma democrática.

 

Salazar, diz o professor Adriano Moreira, era um homem inteligentíssimo, muito atento e com muita graça. Também escrevia muito bem, como o próprio Fernando Pessoa chegou a reconhecer.

 

Como é que uma pessoa com essas capacidades conduziu o país, durante 48 anos, ao atoleiro de ignorância, marasmo e sufoco cultural, é que ainda está por explicar convenientemente.

 

Toda a sua tacanhez e pequenez dão que pensar. Como bom fascista (lembremos Mussolini e Hitler), possuía o tipo de inteligência habilidosa e sorrateira que fazia vir ao de cima o pior do ser humano: a manipulação. Era, como também escreveu Pessoa: “Uma alma sordidamente campestre.”

 

A psicoterapeuta psicanalítica, Clara Pracana, entende que a “grandeza” maléfica de Salazar assentou em dois pontos cruciais da sua governação: a promoção da ignorância do povo e a habilidade em exauri-lo da sua vitalidade criativa.

 

Por isso acha que há qualquer coisa nos portugueses que os faz “tender para o pequenino, para o lamuriento, para o dependente (de messianismos vários), para uma espécie de cinismo trapaceiro, de trazer por casa”. 

 

Provavelmente tivemos o ditador que merecemos. Foi-nos bem feito.

 

Mas voltemos à contradição. Ela, a impertinente, tem o aspeto muito positivo de tender para a problematização. Como adepto da contradição, não tenho ideias fixas sobre nada, à parte algumas convicções sólidas sobre a verdade, a palavra, a honra e a cultura.

 

Inerente à contradição está a ideia de movimento. Que é o princípio da natureza. Desde novo que essa ideia me persegue. Daí o não conseguir manter-me nos partidos políticos, porque são estáticos. Além disso, falta-me o jeito para respeitar as diretivas partidárias, até porque sou incapaz de defender ideias com as quais não concordo. E também porque me sinto confortável a pensar e a refletir sozinho.

 

Isso fez de mim alguém que, por não ter certezas, não consegue aceitar o pensamento unívoco, totalitário.

 

Prezo muito a minha liberdade (ó cultura, estouvada mãe, a quanto obrigas!) e quero mantê-la. Quero continuar aberto ao confronto de ideias com os outros, porque sei que sou incapaz de viver de outra maneira.

 

Temos de ouvir toda a gente. Não podemos ter posições doutrinárias rígidas.

 

Gosto de eu próprio ir percebendo as coisas à medida que as explico. Confio em três características: a capacidade de ler o mundo, a capacidade de negociar as diferenças e de as traduzir e explicar aos outros. 

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