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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Jul14

Poema Infinito (209): a luz e as sombras

João Madureira

 

Junto às janelas nasceu hoje mais uma aurora e uma linda árvore coberta de flores. As minhas mãos abandonaram-se no oceano claro do teu corpo. Por vezes ficamos com o rosto de água, o que nos transmite uma pureza líquida. A terra fica nua. As mãos ficam repletas de ternura. Os nossos olhares transmitem paz. Entre as pedras cresce a erva. O amor continua a germinar como se fosse um clarão no meio da tempestade. Toco os objetos esquecidos com os dedos. Tenho saudades de adormecer junto às pedras do rio. As saudades crescem como nuvens. Os poetas inventam ruas. Um louco descobre Deus escondido atrás da sua infinita solidão. O meu rosto recebe a brisa da manhã. Fantasmas patéticos cavalgam olhando as nuvens. As águas do rio sobem. Penso nas pessoas que me viram crescer, nos seus olhos inclinados, nas suas mãos que eram como plantas, na sua vontade de chorar sobre as ruínas do tempo. Essas pessoas eram tristes como cavalos cansados. Possuíam a avidez do desastre, a esperança do gelo, a memória da solidão. Sentiam as raízes das suas casas, reconheciam o timbre das vozes dos seus familiares e amigos, passeavam os animais pelos campos e, por vezes, sem explicação alguma, batiam-lhes excessivamente. Ainda hoje lhes sinto a presença como se fossem bois no campo, ou potros ariscos. Estavam sempre sós na sua simplicidade. Acreditavam governar as manhãs quando davam as mãos aos seus filhos ou quando ficavam nus dentro da sua cor parda. A chuva lavava-os como se fossem animais despojados de pecado. Gravavam as suas emoções nas cascas das árvores mais fortes e solitárias. Evitavam observar os pássaros por causa dos seus voos incómodos. Evitavam sonhar à noite para não se deixarem embrulhar nas utopias. Cresceu entre nós um muro de silêncio branco. Sem nenhuma explicação. As magnólias secaram. O tempo e a desilusão tudo desvendam e tudo atingem. Cada um de nós mora dentro do seu próprio abismo e sorri. As borboletas da adversidade pousam sempre dentro da solidão. As suas lembranças são agora sombras que surpreendem as paredes e as árvores moribundas. A chuva já não os incomoda. Apenas os torna líquidos e transparentes, como se fossem lágrimas misteriosas. Agora acham lógico desprezar o encanto. E questionam os sonhos que são perguntas sem resposta. Desconfiam do dia. Desconfiam da noite. Depois adormecem como pássaros friorentos. E enchem a boca com trepadeiras acordadas. E lavam as suas raízes com enormes silêncios. Assusta-os as bombas e o canto dos rouxinóis. Têm o sono tão leve que sentem as flores a desabrochar no escuro. Temem ser blindados pela luz do sol e ficarem cegos. Agora pertencem por inteiro às coisas mudas. São como peixes naufragados. Rezam mentalmente para que o dia lhes amanheça nas mãos, nem que seja pela última vez. Deitam-se numa cama de musgo e cobrem-se com lençóis de fetos. E assim puros entre ruínas esperam por uma morte serena e desencantada. Sabem que a inércia acabará por devorá-los. Os cardos começam a nascer-lhes nas pontas dos dedos. Os cogumelos começam a brotar-lhes nas articulações. A terra fica repleta de poros. As flores ao seu lado oferecem-se todas as noites ao luar. Antes do último suspiro, tatearão a luz. 

28
Jul14

200 - Pérolas e diamantes: inversões

João Madureira

 

Vai bom o tempo para banqueiros e para cães de fila.

 

Não sei por que carga de água me lembrei de Yeats, mas as suas palavras soaram-me estranhas: “É a instrução no sobrenatural que nos salva das más companhias.”

 

Assim fosse e muito boa alma não tinha penado o caminho da desilusão.

 

Acreditei em tempos que Portugal era uma boa metáfora. Mas, sei-o agora, as metáforas também cansam.

 

O homem é o único animal que conta histórias, a única criatura que conta histórias a si própria para tentar compreender que espécie de animal é.

 

Foi também Yeats que escreveu: O intelecto do homem é forçado a escolher / A perfeição da vida ou do trabalho.

 

Porque a vida perfeita não existe para pessoas como eu, apenas me restou, e resta, virar-me para o trabalho.

 

Por causa das coisas, e para lembrar aos videirinhos da política local, evoco o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos do Homem: “Todo o individuo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e de procurar receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideais por qualquer meio de expressão.”

 

John Kennedy disse o mesmo em apenas quatro palavras: “A liberdade é indivisível.”

 

Há muita gente por aí que pensa que por pintar as asas de preto passa de repente a ser melro. Mas não, apenas fazem lembrar aquela gaivota que aparecia na televisão, durante a Guerra do Golfo, que, besuntada de petróleo, perdeu a capacidade de voar.

 

Boa gente cedeu ao medo, apelidando-o de respeito. Mas não é. É mesmo medo. O respeito é outra coisa bem mais nobre e simples.

 

Eu, por causa das coisas, inspiro-me em Edmund Burke: “Quem luta contra nós fortalece os nossos nervos e aguça as nossas capacidades. O nosso antagonista é quem mais nos ajuda.”

 

Ou seja, apenas os fracos e os autoritários viram as costas aos adversários e chamam-lhes nomes e, por vezes, pretendem fazer-lhes mal.

 

No mundo da política, muitos fazem que argumentam com base nos princípios. Mas à porta fechada, nas salas onde se tomam verdadeiramente as decisões, os princípios caem logo à primeira contrariedade.

 

José Saramago disse: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome; essa coisa somos nós.”

 

Salman Rushdie escreveu que “o espírito criativo é frequentemente tratado como inimigo pelos poderosos ou pelos mesquinhos potentados que não gostam do nosso poder de construir imagens do mundo que são contrárias, ou põem em causa, os seus mais simples e menos confessos pontos de vista.”

 

Charlie Chaplin bem nos avisou: A vida vista de perto é uma tragédia, mas vista de longe é uma comédia.

 

Tanto na autarquia como no país, os ilusionistas do costume, dizem-nos que a realidade pode esperar para o dia seguinte. Eu não sei é se isso ainda é possível. 

24
Jul14

Poema Infinito (208): os salmos

João Madureira

 

Os meus dedos têm uma bonita história de respostas. São como pássaros que falam. Os meus dedos querem voar. Hoje as palavras têm um sabor tropical. Por isso beijo as memórias que são como feridas já cicatrizadas. As palavras ficam levemente musicais. Os meus dedos, por vezes, ficam mudos. São como animais excecionalmente enfeitados. Então escurece. Durante a noite chamamo-nos uns aos outros como se fossemos crianças. A janela continua aberta sobre a aldeia. Daqui não se distinguem os machos das fêmeas. O mundo fica de repente limpo e organizado, como se fosse real. As tuas explicações são maravilhosas porque não explicam nada. As tuas explicações são como espelhos pequeninos. Toda a inocência é abjeta. O pecado espalha-se como uma partícula radioativa. E toma conta do espaço. As minhas viagens são curtas e distraídas. Os teus olhos são como salmos. Espero. Espero-te como se fosses um nome divino. A resposta transforma-se numa ânsia. E passa a ser uma nova pergunta. Os corpos transportam a espuma da alvorada. O desejo percorre os corpos. Combatemos o tempo da desilusão. É já um hábito antigo. As tuas mãos murmuram uma claridade feroz. Os versos complicados assustam as flores. A manhã parece que chora. Transpiro enquanto me beijas. O teu corpo é como um cofre. A tua boca abre-se como se fosse um lírio. Os teus olhos verdes andam à deriva no mar. Os teus olhos são como salmos. A noite ergue-se como se fosse uma pirâmide repleta de segredos. Voamos por cima das dúvidas. Ignoramos o que está escrito. As estrelas, de repente, ficaram centrífugas. Os corpos possuem a cadência dos desastres. Perguntas-me pelo sentido do riso. Eu apenas consigo sorrir. Imagino o desejo como se fosse um mandamento científico. Imagino a sua possibilidade libertadora. Junto ao rio continuam a nascer os jasmins. Nos campos próximos as tulipas abrem-se ao sol. Continuo a ser um jardineiro de espantos. É preciso ter cuidado no momento dos corpos se desligarem. É necessário conhecer os limites da sua beleza. É indispensável reconhecer as fontes do calor que nos enlaça. É urgente combater o irremediável arrefecimento da memória. As lágrimas enrolam-se dentro do desejo. Vivemos no intervalo que existe entre a explosão primordial e o momento derradeiro. A boca segura-nos as utopias. As palavras são filamentos incandescentes de esperança e desespero. Chega a ser absurdo pensar na redenção, na sua utilidade sincrética. É possível que a leveza exista dentro de nós. E terá, com toda a certeza, o esplendor odorífero das pavias. E também a potência ácida dos limões. E ainda a honestidade tímida dos sorrisos das avós. É nessa leveza onde moram os milagres, onde se esconde a ânsia, onde mora a verdade. Todos necessitamos de pequenas felicidades delirantes. A luz aproxima-se. O tempo escasseia. Não temos nada a perder. Somos projetos de pássaros. Ainda esperamos pela navegação do espanto, pela coloração inclinada da imaginação. Ainda aguardamos pela promessa da multiplicação dos caminhos. Os teus olhos são como salmos.

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