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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Out14

Poema Infinito (222): história clássica

João Madureira

 

Deusas antigas gregas continuam a habitar os vastos céus, ainda escravas. Ainda estranhas. E suplicantes. Todas muito próximas da sua antiga formusura. São filhas dos homens, das suas humildes grandezas e dos seus singelos dons naturais. Filhas dos homens mil vezes ditosos que habitam a terra e veneram as suas mães e os seus irmãos. Elas continuam a sentir intensamente uma contínua alegria na alma. E, mesmo grávidas, dançam. Apesar da felicidade e da riqueza, os seus olhos continuam mortais. A sua destreza ergue-se no ar como palmeiras bravas. Por vezes acompanham os seus amantes nas viagens e assistem às guerras, espantadas e surpreendidas. E sentem um medo terrível de tocar os seus corpos afetados. Permanecem junto ao mar vendo os conquistadores embriagarem-se de sexo. E vinho. E sangue. Sobre as montanhas sopram fortes rajadas. O tempo encolhe. Alguns deuses superiores trazem-lhes, para proveito conveniente, novas desgraças. E dizem-lhes que têm piedade deles por conseguirem suportar tanto mal com tamanha paciência e submissão. Dizem-lhes ainda que aos que conseguirem triunfar lhes concederão a ventura do desassombro. E que atarão as suas deusas amantes à cintura. E que as envolverão de sentimentos harmoniosos. E que compensarão os seus desgostos e as suas insatisfações. E que distribuirão felicidade às insensatas e paciência às inférteis. As deusas, desiludidas, suplicam então que as deixem amar os deuses imortais. Essas criaturas divinas que fazem tremer de medo os homens simples e que vivem lá longe no mar, rodeadas de ondas alterosas e de expectativas celestiais. Mas eis que a felicidade chega errante, bajulando de magnanimidade as divindades embuçadas. Elas banham-se nos rios de púrpura, permitindo que os mortais lhes ofereçam os seus óleos sacros dentro de frascos dourados. Os mortais rejubilam e oferecem-lhes os filhos mais belos para que os utilizem em privado. Os filhos dos mortais limpam dos corpos o óleo com que foram ungidos e vestem roupas limpas. E derramam sobre os deuses ocultos ouro em pó. E exibem as suas artes e os seus engenhos. E imploram que as celestes divindades espalhem a graça pelas suas cabeças. Vendo-os indiferentes, os jovens choram irradiando beleza e desespero. E humildade. Afinal, tudo foi feito contra a secreta vontade dos deuses. E eles afastaram-se ainda mais. E avisaram que os mortais não sabem obedecer. Pois não obedece quem quer, mas sim quem sabe. Obedecer, todos os mortais o deviam saber, é uma arte difícil. Isso foi o que lhes ensinaram. Desde sempre. E para sempre. Adestraram-nos eternamente na difícil arte da obediência. Na delicada arte da submissão. Desesperados, os mortais foram-se dali percorrendo os campos, caminhando rapidamente como servos que são, atrás das cavalgaduras e dos carros. E percorreram os caminhos velhos. E cercaram a cidade, que já estava sitiada por outros servos, e quando conseguiram penetrar por uma entrada secreta, mataram os servos, os servos dos servos e os servos dos servos dos servos. E estupraram todas as mulheres, sem distinção alguma. E incendiaram as casas, os castelos e até as naus que se encontravam em porto seguro. Depois, despojados das armas ensanguentadas, entraram no templo e puseram-se a rezar.

27
Out14

212 - Pérolas e diamantes: falar explicado

João Madureira

 

A maior parte das vezes é preciso coragem para falar explicado.

 

Apesar da contundência da verbalização, da mímica agressiva e da alteração de voz, ao primeiro-ministro de Portugal já só lhe falta espumar pela boca.

 

Afinal Pedro Passos Coelho não é só desmemoriado – pois todos nos lembramos muito bem do que disse durante a campanha eleitoral –, é, também, incompetente e videirinho. Ele e quase todo o seu governo.

 

Então dos exemplos da ministra da Justiça e do seu colega da Educação nem é bom falar.

 

Agora tudo é clarinho como a água. O executivo do PSD/CDS teve, desde o início, um propósito deliberado: degradar a tal ponto o Estado e os principais serviços que presta para que cada português fique a pensar que o melhor é desistir da defesa da oferta pública de saúde, da educação e da proteção social. Que o melhor, mesmo, é privatizar os ativos saudáveis e deixar para o Estado apenas o lixo tóxico.

 

O governo de Portugal resolveu fazer ao país o que aconselhou para o BES: dividi-lo num Portugal bom e noutro Portugal mau, sendo que o bom é para privatizar e o mau para ficar sob a alçada do Estado.

 

PPC, atualmente, apenas consegue sorrir num registo cínico e macilento, de quem sabe mais do que anuncia e de quem patenteia mais do que diz.

 

Tudo fez para que a maior parte dos portugueses adotasse a estranha convicção de que a política é como uma corrida de cavalos. De quatro em quatro anos apostamos num vencedor. E seja o que Deus quiser.

 

Passos Coelho exerce o poder tirando-o às pessoas.

 

É dessa subtração que se alimenta.

 

Convenceu-se de que consegue persuadir os portugueses de que quando os castiga é porque a culpa é deles, devido a não seguirem as suas ordens e os seus conselhos.

 

No fundo acredita que a culpa é nossa porque somos assim: crédulos, apáticos e desobedientes.

 

Gonçalo M. Tavares conseguiu definir este tipo de pessoas muito bem. “O homem que só consegue ser forte é evidentemente mais frágil do que o homem que por vezes é fraco. O homem que só consegue ser forte tem aí, como é óbvio, a sua principal fraqueza.”

 

Relativamente à Tecnoforma, e à trapalhada do dinheiro lá ganho, um homem que não devesse e não temesse teria dito taxativamente que nunca na sua vida tinha recebido tal quantia. Assim todos perceberíamos. Mas não. Passos Coelho afirmou que não se lembrava se estava ou não em exclusividade como deputado e muito menos se tinha auferido os tais mil contos.

 

O comentador político Pedro Marques Guedes, um simpatizante confesso do PSD, disse em entrevista ao jornal Negócios que o neoliberalismo do governo de Passos e Portas “é de badana, de quem só leu metade do livro.” “Deste governo apenas vai ficar um terramoto social…” “É uma confusão sem nome.”

 

E a concluir: “Há um traço brutal neste governo: Incompetência.”

 

Já quase no fim da entrevista, refere que para voltar a rever-se no PSD gostaria “que se regenerasse na perspetiva de aparecerem menos pessoas que, se não fossem deputados, ou não fosse o partido, dificilmente arranjariam emprego nas obras”.

 

 

PS – Porque todos sabemos que quando se quebra madeira saltam lascas, renovamos o apelo ao senhor presidente António Cabeleira, e aos seus distintos vereadores, João Neves incluído por inteiro, para que aprovem uma auditoria externa às contas da autarquia.

 

É que o buraco da dívida camarária é de tal dimensão que tememos que nos arraste a todos para dentro dele e nos devore.

 

Além disso quem não deve não teme e à mulher de César… o senhor presidente sabe, com toda a certeza, o resto do refrão.

 

Assim o saiba rematar, não apenas com as palavras, mas, sobretudo, com a ação.

23
Out14

Poema Infinito (221): o dilúvio da criação

João Madureira

 

Trazes junto a ti o meu sossego, como se fosses um barco enfunado de silêncio e júbilo. As velas são o arroubo do pensamento. Por isso és o meu rumo certo. Por isso repetimos os olhares. O nosso rio vem do mar e entra pela floresta dentro. O vento fica cada vez mais concreto. A brisa é lenta. As aves regozijam-se com o azul da abóbada celeste. A solidão exige um eixo que a dirija. As andorinhas e as gaivotas sossegam com a persistência do rio. As imagens frustram-se com o tempo presente. A primavera é perene. O verão é altivo. O inverno é industrioso. Apenas o outono é uma imagem de sossego. O nevoeiro esconde-se no norte e escuta o rigor do pensamento. O tempo torna-se impercetível e espiritualiza o curso lento do rio. O tempo fica com rugas e transforma-se em memória. O espanto sobrevém sempre de dentro de nós. A sua magnificência é convincente. A eficácia torna as pessoas infelizes. Por isso as suas almas ardem como se fossem ocasiões de assombro. O amor requer uma eficácia exata. Ao crepúsculo, as gaivotas e as andorinhas escurecem os seus voos. Os olhares designam os dias de aflição. São como imagens de sossego invertidas. Contemplamos o limbo e ouvimos as asas dos anjos e o justíssimo gemido das anjas. O espaço torna-se nítido. Os espíritos duplicam-se. As imagens santas transformam-se em barcos. São agora veleiros dos tempos antigos. Os domingos continuam a ser dias santos. Por isso as pessoas vão às igrejas observar as abóbadas do tempo. As luzes dos domingos são sempre antigas. Os seus alicerces são nus. Hoje o nevoeiro vai comendo as casas e a felicidade transformou-se numa coisa abstrata. Os anjos e as anjas elevam-se nos céus e fulgem repletos de glória. Quando o sol se ausenta ficam escuros e as suas asas ficam sonolentas e frias. A sua tarefa divina consiste em recolher as palavras malditas do fundo da memória dos humanos pois sabem que toda a glória se consuma no pecado. O mar absorve-lhes a exaltação. As anjas e os anjos enaltecem-lhe a espuma. As luzes do crepúsculo tornam-se difusas. O rio oculta as suas águas mais profundas. Deus calcula o peso do silêncio e desespera. O seu pensamento ajusta-se à drástica abundância da angústia. Deus possui a doce exaltação dos citrinos. O mar repete-se nas suas ondas. E ergue a luz dos barcos que naufragaram. Deus é como o mar, uma resplandecência antiga inundada de sal. Deus é a porta do tempo. O mar brilha na escura rebeldia dos penhascos. Deus procura o ímpeto da certeza na força oculta do mar. O próximo dilúvio será constituído por tempestades de palavras. Nessa altura, Deus bloqueará a mecânica efetiva do tempo. Tudo parará. Os pássaros ficarão sem o conforto do seu calor. Todos os animais passarão ao estado letárgico. Os anjos e as anjas ficarão encurralados num sono vigiado. As palavras transformar-se-ão em fogo. O poente ficará em brasa. Tudo o que é vagaroso e humano será submerso pela imensa redenção do apocalipse. Então os anjos e as anjas lembrar-se-ão de como eram abençoados quando voavam sofrendo a eterna felicidade da sua lisura assexuada, quando o tempo possuía a fluência imortal da redenção, quando Deus dançava dentro da sua fluência abstrata, como se quisesse morrer, e quando o mundo se abria à tormentosa perpetuidade do Criador.

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