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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

29
Jun15

246 - Pérolas e diamantes: o Cânone Acidental…

João Madureira

 

 

Acabei de ler o livro de Harold Bloom O Cânone Ocidental, que é, salvo melhor opinião, um tratado de paixão sobre Shakespeare, pois “Shakespeare e o Cânone Ocidental são uma e a mesma coisa”. Talvez ao facto não seja estranha a situação de o autor ler e escrever em inglês, pois é norte-americano.

 

O meu cânone assenta essencialmente em Cervantes, o autor do magistral Dom Quixote, o livro fundador, o romance dos romances. Talvez porque me identifico com a sua condição e com o facto de ambos sermos latinos do sul da Europa.

 

Mas antes de ir ao Cânone propriamente dito, deixem que partilhe convosco o facto de ter descoberto a razão, e a inspiração, de a nossa presidente do Parlamento utilizar os estapafúrdicos substantivos com que resolveu espantar os portugueses, tais como “estranhamento” e “conseguimento”. Por incrível que possa parecer, foi a ler a obra de Harold Bloom, o distinto membro da Academia Americana, que utiliza generosamente essas palavras para compor a sua obra, que a presidente do Parlamento aprendeu a embasbacar os portugueses.

 

HB também emprega verbos como “emurchecer”, ou adjetivos como “parentética”, ou substantivos como “mimese”. Por isso, caro leitor, quando escutar palavras tão abnóxias saídas da boca da nossa segunda figura do Estado, não se espante, trata-se de cultura, da arte preformativa resultante da leitura d´O Cânone Ocidental. Apenas isso e não uma forma de delírio linguístico próximo da loucura ou do “conseguimento” político.

 

Depois do segredo revelado, posso voltar ao livro de Harold Bloom com a nítida sensação proustiana de que “os verdadeiros paraísos são aqueles que nós já perdemos”.

 

No fundo, eu partilho a ideia de Bloom de que “desde Dom Quixote todos os romances reescrevem a obra magistral de Cervantes, mesmo quando não têm consciência disso”.

 

O Cânone nasce do facto de o autor ter percebido que as instituições educativas estão atualmente “atravancadas de idealistas ressentidos que condenam a competição tanto na literatura como na vida, mas o estético e o agonístico são uma única coisa, como nos é dito por todos os antigos gregos”. Pois o “idealismo, relativo àquilo sobre que se faz o possível por não ser irónico, é agora moda nas nossas escolas e universidades, nas quais, em nome da harmonia social e do remedeio da injustiça histórica, estão a ser abandonados todos os padrões estéticos e a maior parte dos padrões intelectuais”.

 

Vivemos sob o estigma da “ansiedade da influência”, pois a “grande escrita é sempre reescrita ou revisionismo”, porquanto “o que é original nada tem de original”. “Mas nada se consegue por nada”.

 

Para Bloom nenhum outro escritor, antes ou depois de Shakespeare, nos dá uma ilusão mais forte de que cada personagem fala com uma voz diferente das vozes das outras personagens.

 

Pedindo ajuda a Harold Bloom, vou tentar explicar porque Dom Quixote é o meu Cânone.

 

Desde logo porque o cavaleiro da triste figura, apesar de à primeira vista parecer, nem é louco e muito menos é tolo. Pelo contrário, é alguém que joga e se diverte a ser cavaleiro andante numa época em que eles já não existem. Joga de forma intencional, que é bem diferente da situação de loucura ou da tolice. Dom Quixote é mesmo mais voluntarioso do que o seu fiel escudeiro Sancho Pança, pois só lentamente se entrega ao jogo ou ao divertimento propostos.

 

O que mais me fascina na obra de Cervantes é o facto de o seu personagem se transportar a si mesmo a um lugar e tempo ideais para representar o seu papel, mantendo-se fiel à sua própria liberdade, à sua fantasia, à sua indiferença ao julgamento dos demais, ao seu isolamento, bem como aos limites que lhe são impostos pelas circunstâncias. Isto até ao momento em que finalmente é derrotado, abandona o jogo, adquire a “sanidade perdida”, necessariamente cristã, e morre. 

 

Dom Quixote, como muito bem definiu Unamuno, redimiu-nos, pois a sua “perda de entendimento” foi realizada para nosso benefício, de modo a deixar-nos um exemplo eterno de generosidade espiritual.

 

Ele enxerga os gigantes nos moinhos de vento e toma os pequenos teatros de fantoches por realidade, mas ninguém o consegue ridicularizar, porque, como diz Bloom, “ele é mais vivo de espírito do que qualquer um de nós. A sua loucura é uma loucura literária…”

 

Foi com ele que aprendemos como é um Homem de Honra: simples, magnânimo, apaixonado, decidido, verdadeiro.

 

Nós por cá vamos vivendo a tragicomédia de Beckett, À Espera de Godot. Sempre à espera.

 

A explicação dada por Beckett para o facto de a Irlanda ter produzido tantos escritores modernos importantes era a de que um país sodomizado pelos ingleses e pelos padres era um país obrigado a cantar.

 

Para reflexão política deixo-vos com a moral Shakespeariana de Falstaff, segundo Harold Bloom: “A moral que se deve retirar desta representação é que nenhum homem é mais perigoso do que aquele que, sendo desonesto, tem o poder de agradar.”

 

 

 

PS – Água mole em pedra dura…. Na Assembleia Municipal realizada no passado dia 24 de junho de 2015, o senhor presidente da CMC, António Cabeleira, afirmou que “se durante o ano de 2015 não for feita a inspeção que está prevista pela Inspeção Geral de Finanças, no final do ano comprometemo-nos a realizar a mencionada auditoria.” Para que conste, aqui fica o registo público do compromisso e as nossas felicitações.

25
Jun15

Poema Infinito (256): o homem do medo

João Madureira

 

 

Um homem espera oculto pela esbelta sombra dos amieiros. Corre uma ligeira brisa. Pergunto-lhe porque está em silêncio. Ele responde-me irrompendo da sua obscuridade vegetal. A sua voz revela uma aveludada independência repleta de acentos brilhantes. Disse-me que veio das regiões inconcebíveis das auroras boreais, dos domínios frios do norte, lá onde os cisnes sulcam as águas serenas, repletas de sossego. Os sinais que transmite são inefáveis, cheios da benfazeja dissolução de tudo. O seu medo surge da polidez das rochas onde foi criado, das imagens geladas que lhe transmitiam os espelhos de água, dos sinais perpétuos difundidos pelos navegantes fantasmas. Também ele foi um navegante perpétuo até encalhar na nossa terra. As aves vigiam-no. Ele vigia as aves. Anuncia então os seus poderes, que agora sente serem espaços sem desígnio, nem evasão. Diz-me que cada um de nós existe para cumprir com o seu próprio exílio. Depois os seus gestos envolvem-no e uma brisa silenciosa desce sobre nós em forma de inquietação. No seu mundo tudo é nomeado em forma de proteção, para alívio dos transgressores. As vozes não têm eco. Na sua cultura não existem conclusões. O tempo tem a forma de paciência. As pessoas nunca esperam. O seu olhar é neutro como o das sentinelas ou dos cisnes que deslizam pelos lagos. Todos os gestos são ambíguos. Das torres mais altas das cidades partem as ordens dos que aprenderam a ordenar. As armas são ilusórias e surdas. As pessoas são sempre fiéis ao seu destino. Os apóstolos nunca saem dos seus abrigos com medo das palavras do seu Deus que reina sobre os hereges. As palavras desse Deus uno e indivisível são impiedosas, são como frutos amadurecidos pelos milénios. O povo de lá emigra e regressa constantemente, cego pelos 1022 versos hexâmetros da teogonia de Hesíodo, pela luta entre irmãos, pelas façanhas desenvolvidas em alto mar, onde se incendeiam os barcos, se massacram as tripulações, onde as maiores façanhas são engolidas pelas águas revoltas e os destroços descansam nos abismos mais profundos dos oceanos. Lá os santos são identificados pela febre alta que desenvolvem quando falam em nome de Deus. Naquelas terras de longe, o saber do futuro elabora-se sempre a partir da minuciosa ruína do conhecimento do passado. Os sonhos dos homens consomem toda a glória de Deus. O homem escondido mostra-me as suas mãos tão pálidas como as promessas da vida eterna. Noto-lhe no rosto todo o afastamento contido nele. Digo-lhe que na nossa terra chegou o tempo de trabalhar os campos. Ele tenta falar, mas apenas emite sinais de impaciência. Os seus olhos azuis estão cansados e já não olham para as coisas deste mundo. Conta-me que os seus antepassados foram andarilhos, navegantes, lunáticos de todos os credos, guerreiros audaciosos, defensores de reis altivos e reinos desventurados e de cavaleiros dedicados à conquista da Terra Santa, seguidores de profetas que tudo viam e nada diziam, que cavavam sepulturas com as suas próprias almas. A boca do homem oculto parece cinzelada, de tão perfeita. As suas narinas parecem as de um animal que pressente o risco de qualquer contacto alheio. Olha para mim com um ligeiro assombro. O sangue foge-lhe das faces. Agora parece um retrato. Olha fixamente para uma barca parada no meio do rio. Ergue os braços. De seguida desce-os na minha direção. A sua sombra percorre o meu corpo. Fecho os olhos. Oiço então a água a correr nos regos. Tudo em volta é agora silêncio. O esquecimento purifica, escrevo na minha memória.

22
Jun15

245 - Pérolas e diamantes: o pasteleiro de Massamá

João Madureira

 

 

Passos Coelho, como eficaz político medíocre, resolveu encomendar a uma funcionária do PSD um arremedo de biografia. 

 

Mas quem é, afinal, Passos Coelho? O que pensa sobre o futuro do país? 

 

Que eu saiba, nada de consistente e fundamentado. 

 

Que eu me lembre, na sua história recente, que é a que verdadeiramente interessa, pois a outra é tão insignificante que até dói, nos anos que antecederam a sua vitória nas eleições legislativas, foi liberal relativamente à revisão constitucional e um acérrimo defensor do Estado nos congressos do seu partido.

 

Evoluiu, em apenas ano e meio, do combate à austeridade e aos seus efeitos recessivos, para o combate ao aumento dos impostos e para a defesa com unhas e dentes da TSU.

 

Ou seja, tudo e o seu contrário. Agora é um “refundador do ajustamento”, da troika em versão ligth.

 

Quer tornar definitivos os despedimentos na função publica, reduzir significativamente as prestações sociais, cortar na educação, na saúde, nas forças armadas e nas forças de segurança. 

 

Um futuro com Passos Coelho passa inevitavelmente pelos sistémicos pacotes de austeridade, sobretudo sobre a função pública, o “inimigo permanente” do país. 

 

A não ser que o PS se deixe levar no canto de sereia da “boa” revisão constitucional defendida pelo PSD/CDS, Passos Coelho vai tentar ludibriar a Constituição Portuguesa através de “pequenos golpes de estado” assertivos, transformando Portugal num país, por um lado, de pelintras, pobres e desajeitados e pelo outro de ricos, papões e demais aves de rapina. 

 

Com Passos Coelho e Paulo Portas, a classe média lusa deixará pura e simplesmente de existir. 

 

Convém não esquecer que a sua chegada ao poder foi antecedida de um “pequeno golpe de estado constitucional”, que começou com o chumbo do PEC IV, através de uma conspiração de Cavaco Silva, o voto contra de Passos Coelho e com a “pequena” traição de Teixeira dos Santos (que teve até direito a uma medalha no 10 de Junho –  está visto que Roma paga aos traidores), o que levou à entrada da troika e à derrota clamorosa de José Sócrates.

 

Convém ainda não esquecer que Passos Coelho é o chefe de um governo com sucessivas previsões erradas, demonstrando uma ignorância atávica do país, patenteando uma incompetência generalizada, muitas das vezes governando em cima do joelho, avançando e recuando, revelando uma notória incompetência em aprender com os erros e, sobretudo, a arrogância face ao sofrimento dos portugueses e à destruição sistemática do tecido social e económico do país, em nome de uma “refundação da pátria”.

 

Sobre o livro de PPC, Pulido Valente definiu o PM de “diletante”, acusando-o de não se preparar para o seu trabalho, reincidindo num “amadorismo destrutivo e patético, no comentário néscio e numa biografia (Santo Deus!) que envergonha as pedras.”

 

Pacheco Pereira considera o livro de Sofia Aureliano “de uma vacuidade geral e de um terrível mau gosto”.

 

Rui Carvalho Martins, também no Público, diz acreditar “que o mau gosto é intencional”.

 

Mas a revelação que mais me tocou foi a de que em Massamá, lá em Lisboa, vive um primeiro-ministro que confeciona, com as próprias mãos, os papos-de-anjo no Natal e estende a roupa e a guarda.

 

Alguma coisa melhorou na Europa, e em Portugal, fruto da política neoliberal: as drogas estão mais puras.

 

Para não me acusarem de efabulador ou consumidor de substâncias ilícitas, transcrevo diretamente do Público parte do relatório do Observatório Europeu das Drogas e da Toxicodependência: “A cannabis nunca foi tão potente, a heroína nunca foi tão pura, o ecstasy nunca teve tanta MDMA.”

 

Bem vistas as coisas, Rui Carvalho Martins tem razão. Afinal vivemos num momento político “ em que verdade e mentira deixaram de ser opostas”.

 

PS – Tchékhov dizia que “a arrogância é uma qualidade que fica bem aos perus” (ou talvez aos pavões que são aves de cauda mais vistosa). Por isso, mais uma vez solicitamos ao senhor presidente da CMC e aos seus distintos vereadores, que aprovem uma auditoria independente às contas da nossa autarquia. Quem não deve não teme.

 

PS 2 – Em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior.

 

PS 3 – Era um ato de coragem redentora, o senhor presidente deixar-se de desculpas de mau pagador e pôr fim ao deplorável espetáculo dos esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro – Outeiro Seco.

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