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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

18
Jun15

Poema Infinito (255): a baleia branca e os cordeiros elétricos

João Madureira

 

 

Acreditamos que os gestos humanos são uma forma da aceleração do universo. Por isso apreciamos o avanço dos mundos afastados. Ou o amor que fica entre o peito e a camisa. Ou a respiração de tudo o que não é visível. Percorremos toda a distância possível à procura do impossível. Aí encontramos a sabedoria. Aprendemos enquanto andamos. A matéria iniciou o seu efeito de suspensão. É a sua forma de recuar no tempo. O quotidiano avança, os dias decorrem dentro da sua previsível imponderabilidade. Olhamos o vento que se movimenta para a parte mais alta do mundo. O azul do mar é entediante. Todos os heróis náuticos morrem calmos observando a inutilidade da sua gesta. Certos indivíduos deslocam-se sobre a realidade sem a compreenderem. Esses são os mais felizes. A lógica dos homens é em tudo igual à enciclopédia itinerante da loucura. Todos julgamos aguardar mudanças entre os momentos intermédios. É tempo de agir. Os dias possuem agora um revestimento espesso. A dimensão das baleias continua a ser um absurdo. Por isso o capitão Ahad enlouqueceu e quis enlouquecer os leitores de Moby Dick. Explicas-me de forma sucinta a forma correta de aceitar a existência. Eu continuo a habitar um sítio intermédio. As fisionomias bonitas encerram dentro de si uma metodologia impartilhável. As suas impressões digitais circulam de umas mãos para as outras. Os seus corpos passaram por processos exuberantes. Sinto-me tão estranho dentro do meu país! Por vezes a amizade chega em forma de relâmpago. Repetimos os acontecimentos. Contamos as nossas infâncias. Os seus pormenores mais finos, a sua futilidade, as suas leis descritivas. A sua minúcia, a sua pressa. A sua lentidão. A vida dos outros não nos comove. Apenas nos impressiona a poesia. A felicidade continua a ser uma equação que não conseguimos resolver. Os sonhos são líquidos como o vinho. Oferecem o mesmo desencanto. Os dias luminosos fogem de nós lentamente. Voltamos a dissertar calmamente sobre a infância, sobre os seus hábitos particulares, percebendo que a sua urgência não voltará nunca. Olham-nos os olhos fixos dos velhos com a sua aparência de armários vazios, com a sua discordância profunda. Apercebemo-nos então da utilidade das coisas desnecessárias, da sua redundante ineficácia, da linguagem aborrecida dos heróis, do dialeto desconhecido da perturbação. Partimos de uma cidade marítima para o outro lado do mundo à procura de uma alegria nova. Lá encontramos o tédio. Cada homem julga ser o portador da verdade mais exata. Descobre depois que o que carrega consigo é o mais perturbante dos problemas. Depois descobre a alma, a mais antiga alma de que há memória. E com a sua ajuda inventa palavras e escreve versos viscerais sobre acontecimentos humanos ou divinos. Descobre que pensar não é assim tão fácil. A inteligência é uma espécie de murmúrio ensurdecedor que ninguém consegue calar. A bondade e a maldade preparam uma nova batalha. No mundo circula agora um novo léxico que provoca um efeito muito parecido com os alucinogénios seculares. Certas paisagens altas e delirantes ficam presas nos teus olhos. Mesmo os grandes conquistadores perderam tudo na hora em que morreram. Foram os unicórnios quem ocupou o lugar dos imperadores. Blade Runner está para morrer e ainda não descobriu se é humano ou um replicante. Afinal, a quem é que isso interessa? Philip K. Dick tinha razão e nós não. Do Androids Dream of Electric Sheep?

15
Jun15

244 - Pérolas e diamantes: memória e esperança

João Madureira

 

 

Mesmo que a esquerda – e muito provavelmente a direita, porque desta forma perde o inimigo congregador –, teime em querer confundir a árvore com a floresta, a verdade é que vivemos já na era pós-era marxista.

 

De facto, não podemos continuar a acreditar que a redistribuição da riqueza consegue resolver alguma coisa de significativo. Afinal já todos compreendemos que tornar mais pobres os ricos não faz com que os pobres fiquem mais ricos.

 

É a morte, não propriamente da ideologia, mas das ideias, sobretudo das ideias feitas.

 

No debate político a que assistimos, nenhum partido do Bloco Central dos Interesses (BCI) se apoia em convicções firmes e consolidadas.  

 

A direita continua a apregoar a vaga fé do investimento estrangeiro e da privatização do Estado.

 

A esquerda teima em insistir no argumento mal articulado sobre o medo do tal investimento estrangeiro e de toda e qualquer privatização.

 

A esquerda escarnece da direita e lá se vai desculpando por ser esquerda (sobretudo o PS).

 

A direita agita o espantalho da esquerda e da sua propensão para o desperdício e para o esbanjamento dos recursos financeiros nacionais.

 

Uma coisa é certa, após quatro décadas de experiência “socialista e social-democrata”, ninguém consegue sustentar o argumento de que o planeamento central feito em Lisboa é resposta para a pobreza, para o atraso e para o subdesenvolvimento.

 

Os propagandistas do slogan “erradiquem a pobreza” esgotam-se nas suas próprias palavras.

 

Parece que as duas partes do espectro BCI (PSD/CDS, PS) estão de acordo em que a pobreza é insuperável, de modo a transferir os argumentos políticos e eleitorais para outro campo, o da dívida externa, das multinacionais e da corrupção. Enfim, chutam a bola para canto.

 

Agora refugiam-se na religião. Os mais desavergonhados (aqueles que acreditam que não há inferno) assistem à missa dentro do templo e têm até o descaramento de comungarem a hóstia com os olhos fechados e as mãos postas. A esmola, para os pobres (talvez uma moeda de um euro chorada e suspirada), depositam-na na salva da igreja.

 

Os outros, os mais tímidos por causa do seu aparente agnosticismo (aqueles que acreditam que não existe céu, nem inferno, mas apenas purgatório), assistem à missa junto à porta da igreja, benzem-se envergonhadamente e no fim depositam a moeda de cinquenta cêntimos destinado à caridade na boina dos mendigos.  

 

Temos de ter memória.

 

Embora a esperança seja reduzida, hoje em dia o partido da Memória é o partido da Esperança.

 

O paradigma político e partidário tem de mudar. Temos de conseguir romper com a lógica da alternância entre pares, que, como já nos todos nos demos conta, não é alternância nenhuma, pois assenta na prática serôdia e infantil do jogo das cadeiras.

 

É sempre bom lembrar as palavras de São Francisco de Assis: “Onde jaz o erro, que haja esperança. Onde existe dúvida, que haja fé. E onde houver desespero, que exista esperança.”

 

 

 

PS – Para todos percebermos a razão do facto de a nossa autarquia ter de pedir, todos os anos, empréstimos de longo prazo para pagar a despesa corrente, é necessário e urgente realizar uma auditoria externa às contas da CMC. Tchékhov dizia que “a arrogância é uma qualidade que fica bem aos perus” (ou talvez aos pavões que são aves de cauda mais vistosa). Quem não deve não teme.

 

PS 2 – Em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior.

 

PS 3 – Era um ato de coragem redentora, o senhor presidente deixar-se de desculpas de mau pagador e pôr fim ao deplorável espetáculo dos esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro – Outeiro Seco.

11
Jun15

Poema Infinito (254): a subtileza do desejo

João Madureira

 

 

O leitor vê as sombras das ninfas projetadas pelas lâmpadas fortuitas. Os movimentos dos pequenos seres são silenciosos. Os monstros exíguos são feitos de pedra e cinzas. A noite está obscenamente bela. O espaço abre-se na margem do silêncio. O bosque tinge-se de um azul possível. O poeta cinge os versos com os seus braços em rede. O firmamento enche-se de passos de veludo. A transparência surge através dos pulsos firmes do poeta. As veias transparentes desenham-lhe a loucura. Os lábios beijam a brancura incompleta do desejo. As lâmpadas transformam-se em flores. No poema, as mulheres são feitas de chuva e transportam a felicidade dentro de uma caixa. O seu corpo deixa-se adivinhar pelo leve perfume de lírio. De repente, as palavras ficam curvas e respiram lentamente sobre as páginas. O céu enche-se de rosas. Nas janelas, as mulheres espargem o pólen dos livros. Nasce mais um dia. A minha idade fica um pouco mais cansada. A terra dissolve os seus fantasmas e os nossos sonhos. O mundo revela as suas torres de babel, os seus olhos em chama, o seu rosto tatuado de desespero e água salgada. As raparigas dormem nuas sobre a erva. Os velhos escrevem poemas como se fossem muros de basalto. A espuma dos mares inunda os sonhos e torna-os desesperados. O tempo fica branco dentro do seu círculo vazio. A divindade vibra como se fosse um movimento perpétuo. Sonho com um corpo ardente, com o fragor dos labirintos, com a nudez dos campos. Encontro-te para além da névoa, perfeita como a fragância dos teus olhos matinais. As aves voam na penumbra dos limites. Fixo o teu rosto quotidiano. A penumbra adquire olhos e as raízes das árvores veem através das sombras. A casa adquiriu o húmus do silêncio. O rosto dos meus mortos tem a dimensão da terra. Há sempre muros. E muros. E mais muros. Os dias estão impregnados de nevoeiro. Concentro-me no amor. Amo o teu recatado candor de estrela, a tua delicada integridade, o segredo da tua adolescência persistente, a tua altivez acesa, a leve segurança do teu olhar, a chama do teu peito, a leve inclinação do teu hálito de mariposa, o orvalho que guardas na palma das mãos, a paz de um sonho aberto, o perfume lento do teu sexo, a delicadeza verde e fresca dos teus orgasmos. Por ti escrevo. És o meu horizonte. A felicidade, mesmo imperfeita, sossega. Identifico-a pela sua breve limpidez. Sinto em ti um ligeiro tremor a primavera. O teu rosto tem inscrita a bondade solar dos pássaros, a pureza do trigo, a luminosidade branca da lua. Entrego-me agora ao indeterminado repouso da luz. Desejo a sequência quotidiana das rotinas. No interior do meu corpo dormem novas sombras do teu corpo. As palavras procuram a nudez, eu procuro um universo para além desse, onde cintila a fragilidade que equilibra o mundo. No mar navega um navio que cintila. Em terra voam os pássaros como se fossem chamas brancas. Os livros encheram-se de musgo. A sua sombra parece ferida. O meu poder é uma forma de fragilidade orientada. As presenças dos distintos elementos são novos presságios. O peso do tempo é redondo. O destino é esguio como uma curva gelada. Estremeço antes de abrir a porta do teu corpo. As palavras ficam mais lentas e obstinadas. A casa transformou-se num sinuoso labirinto. A solidão acendeu-se dentro dos quartos. Começo a entender a subtileza horizontal do desejo, o seu espaço harmonioso, a sua fronteira, a sua vibrante impaciência.

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