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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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08
Jun15

243 - Pérolas e diamantes: Vamos fazer política… finalmente

João Madureira

 

 

Basta dar uma vista de olhos pelos órgãos de informação para nos inteirarmos de que a mediocridade está muito arreigada no nosso país.

 

Os portugueses sonham com a pessoa que gostariam de ser, desperdiçando a pessoa que são.

 

Mas este não é, definitivamente, o caso de Marinho Pinto. A verdade é que o ex-bastonário da Ordem dos Advogados, e agora líder carismático do PDR, não tem papas na língua, nem sequer memória curta. E foi isso mesmo o que demonstrou numa interessante entrevista dada ao Público.

 

Sobre a memória. Há 20 anos Fernando Nogueira, líder do PSD, propôs um “pacote da transparência” que previa o conflito de interesses dos advogados. Almeida Santos, então presidente da AR, num dos seus primeiros despachos revogou a aplicação da norma relativa aos advogados.

 

Marinho Pinto, posto perante o episódio, afirmou que a razão deste procedimento tem tudo a ver com o facto de Almeida Santos ser “um dos advogados que mais negócios fizeram neste país à custa do que é público”.

 

Desprezando o registo off, foi ainda mais longe em on: “O dr. Almeida Santos é um advogado de negócios e é uma das pessoas que mais negócios fizeram em Portugal na sua condição de líder político e de advogado, mesmo que tenha tido em alguns momentos a sua inscrição na Ordem suspensa. É vergonhoso esse ato que ele praticou contra a essência da democracia, porque permite que a Assembleia se tenha transformado numa plataforma onde circulam interesses absolutamente opacos, muitas vezes ilegítimos, e tráficos de influências.”

 

Sobre o seu partido, e sobre a necessidade da sua criação no atual contexto político, foi esclarecedor: “Fundámos o PDR não para engrossar o folclore partidário, mas para, justamente, ter soluções de Governo. (…) Para ser poder. (…) Aqueles que pensam que vão conseguir o apoio do PDR apenas dando lugares estão enganados. (…) Nunca seremos muleta de qualquer desses partidos.” E lançou um aviso à navegação interna: “Quem entrou para este partido convencido que vai ter lugar (de ministro) enganou-se.” Com o PDR não haverá “queijo limiano”, não haverá trocas, não haverá tráfico. “Vamos fazer política.”

 

Isto porque o PS não tem capacidade para fazer coligações, dado que à direita existe o seu principal adversário, o PSD – que perdeu a sua dimensão social-democrata, pois foi capturado pela deriva direitista do CDS –, e à sua esquerda persiste a eterna “muralha de aço”.

 

O PDR nasce da necessidade de criar alternativas que desbloqueiem esta situação que tem causado graves entorses ao funcionamento do regime democrático. Metade dos portugueses já não vota nas legislativas e dois terços nas europeias. O PDR, segundo Marinho Pinto, tem como objetivo essencial a mobilização desse eleitorado.

 

A ideologia do PDR, segundo MP: “Defendemos os valores da democracia e dos modernos Estados democráticos e republicanos. A liberdade acima de tudo. A justiça, no seu sentido concreto e amplo de justiça social, de todos participarem no progresso e desenvolvimento. E a solidariedade, enquanto operativo ético-político dos Estados modernos. Não na dimensão assistencialista, caritativa, associada às religiões, mas no sentido político. O Estado tem o dever de permitir condições de dignidade aos setores mais frágeis.”

 

Marinho Pinto situa o seu partido na área da social-democracia, defendendo a economia de mercado, a liberdade de empresa e de investimento, pois “a ideia de que o Estado socialista conduzia à abundância morreu”. Sustenta a ideia de um Estado regulador, não para intervir na dinâmica do mercado, mas para “moderar os seus excessos e suprir as suas deficiências”. E reafirmou a convicção de que “o Estado tem a obrigação de garantir determinados bens: o ensino, a saúde e os transportes públicos”.

 

Definiu a privatização da água como uma traição e disse que a EDP em vez de estar ao serviço do povo português está ao serviço dos chineses.

 

Manteve a sua convicção de que os partidos do BCI (PSD/CDS e PS) puseram este país em saldo. Acusou Costa de “virar” esquerdista, pois, como bom demagogo, “está a prometer tudo e o seu contrário”.

 

Defensor da transparência na política, propõe que a Assembleia divulgue todos os anos as subvenções que dá aos partidos.

 

A terminar lembrou que “os Estados só são independentes quando pagarem as suas despesas.”

 

 

 

 

PS – Para que se faça luz sobre os milhões de euros gastos na construção do Mercado Abastecedor, na Plataforma Logística e também nas instalações do antigo Magistério Primário, que não estão a ter nenhum tipo de utilidade prática no desenvolvimento da nossa região, é necessário e urgente realizar uma auditoria externa às contas da CMC. Tchékhov dizia que “a arrogância é uma qualidade que fica bem aos perus” (ou talvez aos pavões que são aves de cauda mais vistosa). Quem não deve não teme.

 

PS 2 – Em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior.

 

PS 3 – Era um ato de coragem redentora, o senhor presidente deixar-se de desculpas de mau pagador e pôr fim ao deplorável espetáculo dos esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro – Outeiro Seco.

04
Jun15

Poema Infinito (253): mapa mental do delírio

João Madureira

 

 

Os meus mapas mentais estão espalhados pela casa, parecem póneis amarrados às árvores antes das grandes batalhas. Os olhos estão fixos no vazio. As torres mais altas da cidade foram já incendiadas. Os homens mexem-se vagarosamente dentro da sua solidão. A vida é um lugar solitário. Primeiro foi Adão e os seus pensamentos imperfeitos: uma mulher feita por partes e crianças burlescas. De seguida surgiram as aves com os seus olhos redondos. No paraíso tudo era mumificado e seco. O céu era longínquo. Eva nasceu dentro do seu próprio vazio. O tempo ainda não existia na sua forma mais acelerada. A luz de Deus era assustadoramente magnânima, caraterística que ainda hoje conserva. As fêmeas aprenderam rapidamente a delicadeza na sua configuração mais correta. As formas evidenciam corretamente a sua essência. É a ordem natural das coisas. Deus viciou-se em soprar fragmentos. Faz parte da sua natureza compósita. A divindade compõe as extremidades entre a vida e a morte. Ninguém sobrevive ao tempo, ao seu sopro de bronze e cinza. Sinto a dor da minha imaginação, os seus olhos austeros e delirantes. O mundo tornou-se indecoroso, sobrevivendo entre o declínio e a queda. As gerações desprezíveis tornam-se célebres. As gerações mais célebres desaparecem. Os palhaços e os farsantes escarnecem dos sonhos mais heroicos. Os poetas curvam-se de tristeza e deliram. Nos seus sonhos aparecem cavaleiros de cabelos esvoaçantes que bebem mel e vinho por cálices sagrados. Dançam aos pares. Acordam de madrugada com corpos brancos deitados ao seu lado. Nas suas histórias as palavras são breves e mais leves que o ar. As damas fixas ostentam a sua palidez perlada. Os seus lábios são como o sol que nasce. Mesmo nos sonhos entardece quando menos se espera. Os bravos guerreiros continuam a cavalgar. E conseguem chegar à sua tristeza, que é profunda como o mar. A alegria é sempre passageira. Nas terras semeadas despertam os cereais. Os animais crescem para cumprirem com a sua utilidade. Houve tempos em que os corações dos homens eram como fornos que fundiam o metal mais denso. Acreditavam nos druidas, nas leis naturais, no destino e no acaso que lhes definiam a vida. Mesmo assim conseguiam sair dos seus átrios fechados e contemplar as gotas do orvalho, a espuma do mar, o júbilo dos corpos navegantes. Conseguiam suspender as trevas e penetrar nos bosques mais sinuosos ou serrados de onde observavam os meteoros a rasgar os céus. Receavam as horas vãs e abominavam a traição. Apesar de fortes, por vezes pareciam aves assustadas temendo não conseguirem levantar voo. Vertiam lágrimas quando escutavam as canções de embalar. Cobriam-se de névoa e contemplavam os fantasmas. Os seus pénis iluminavam-se quando penetravam as fadas mais atrevidas. Chamavam-nas pelos seus nomes mais doces. Subiam as imensas escadarias dos castelos iluminadas pelo luar ou recolhiam-se nas ilhas do medo onde brilhavam as flores mais bruxuleantes. Devido aos feitiços que a rainha das fadas lhes fazia por causa das suas atrevidas cópulas, ficavam com os seus olhos brandos e sombrios, as bocas tristes, as mãos trémulas. E choravam. No palácio das fadas, as grávidas pariam os filhos que tinham a forma de mariposas róseas. Os bravos guerreiros erguiam então as suas espadas e ficavam a saber que tudo tem o seu preço. O estúpido preço da resignação.

 

 

01
Jun15

242 - Pérolas e diamantes: enigmas, desalentos e esperança

João Madureira

 

 

Pode até parecer que não, mas depois de provarmos a beleza da arte a nossa vida muda. Depois de ouvirmos  os Concertos de Brandenburgo de Bach ou a música “maluca” de Frank Zappa, a vida muda. Após observarmos um quadro de Vermeer ou de Van Gogh ao vivo, a vida muda. A seguir a lermos Cervantes, Fernando Pessoa ou Herberto Helder, a vida muda. Sem nos darmos conta, nunca mais somos os mesmos.

 

O que ninguém sabe ao certo é onde reside o poder da arte e o efeito que tem sobre as pessoas. Daí o seu fascínio. O seu encanto. Razão tem Adrià, o protagonista do excelente romance de Jaume Cabré, eu confesso: “A obra de arte é o enigma que nenhuma razão consegue dominar.”

 

Também eu, nesta altura da minha vida, tal como disse Pedro Mexia, “ já não tenho livros, sou possuído por eles”.

 

Fernando Pessoa tinha razão: “Custa tanto ser sincero quando se é inteligente. É como ser honesto quando se é ambicioso.”

 

A política está carregada deste tipo de gente. Vou permitir-me adaptar três versos de Marcelo Navarro (Especulações em torno de um poeta): “O político é um fingidor/ de fachada/ Finge tão completamente a dor/ que não sente nada.”

 

Afinal, toda a lealdade é uma espécie de intolerância. Vale a pena lembrar a afirmação de Alberto Camus: “O direito de nos contradizermos foi esquecido na enumeração dos direitos do homem.” Pois como escreveu Vergílio Ferreira, “a coerência total é a das pedras e talvez dos imbecis”.

 

Afinal “Deus criou o gato para dar ao homem o prazer de acariciar o tigre”, como nos lembra a epígrafe de Fernand Méry.

 

O tipo de política a que estamos habituados parece-se muito com o tipo de romance sem enredo, onde o personagem vai sendo construído a partir de muitas influências.

 

No fundo a defesa dos ideais, que nos servem para sermos outros, paga-se caro. Os portugueses até sentem as coisas, o problema é que não se conseguem mexer, nem mesmo interiormente.

 

Por isso é que se deixam ludibriar pelos políticos (maus leitores de Maquiavel), que fazem o que fazem por necessidade mas deixam transparecer que agem por vontade própria. 

 

São seguidores de um preceito prático pouco moral: Se quiseres enganar alguém por intermédio de um enviado, engana primeiro esse enviado, porque então ele mentirá com convicção.

 

Os políticos tradicionais são como os chefes religiosos, pois apelam para o que de menos elaborado há no homem – os seus sentimentos. Com isso conseguem manipular e fanatizar.

 

A nós não nos deve preocupar o sermos vencidos. Isso até nos deve dar prazer, quando quem nos vence é a Razão, seja lá quem for o seu representante.

 

Acerca do génio de Fernando Pessoa, José Paulo Cavalcanti Filho escreveu: “Pode-se admitir que o génio não é apreciado na sua época porque é a ela oposto. Um pequeno génio ganha fama, um génio ainda maior ganha despeito, um deus ganha crucificação.”

 

Uma meia mentira, ou uma meia verdade, ou algumas mentiras de dimensão variável unidas por uma lógica que as torna plausíveis, aguentam-se durante algum tempo. Por vezes até muito tempo. Mas nunca se aguentam durante uma vida inteira, porque existe uma espécie de lei primordial que nos explica que existe a hora da verdade em todas as coisas. É aí que reside a nossa esperança.

 

 

 

 

PS – Para que se faça luz sobre os milhões de euros gastos na construção do Mercado Abastecedor, na Plataforma Logística e também nas instalações do antigo Magistério Primário, que não estão a ter nenhum tipo de utilidade prática no desenvolvimento da nossa região, é necessário e urgente realizar uma auditoria externa às contas da CMC. Tchékhov dizia que “a arrogância é uma qualidade que fica bem aos perus” (ou talvez aos pavões que são aves de cauda mais vistosa). Quem não deve não teme.

 

PS 2 – Em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior.

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