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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Jul15

Poema Infinito (261): inquietação

João Madureira

 

 

Veste-se o tempo com o tecido invisível e os dias ficam cobertos com mantos diáfanos de inutilidades. A nudez é o começo de tudo. Povoamos a demora com a morte que nos há de despir totalmente. A paisagem devolve-nos a glória silenciosa da angústia, esse eco calmo da vontade. O mar amanhece possuído pelo seu tamanho. A sua vontade é feita de sal. Essa é também a sua fatal necessidade. Somos animados por uma estranha inquietação. A terra transforma-se numa aventura apetecida. Os olhos são por vezes profanados pela paisagem, os seus devaneios são indiscretos. O prazer devora a acidez do desejo. Sinto-me como um pomar varejado em pleno outono, com os versos caídos a meus pés. Saboreio a sua jovialidade antes que apodreçam. Já ninguém os apanha. Durante o inverno ruminarei a amargura que me ficou. A minha infância continua em hibernação. As bruxas e as fadas velam-me o sono. O passado respira docemente. Custa-me respirar no presente. Continuo a roubar fruta doce e fresca no pomar do tempo. As sementes são de outro futuro. Cheira a terra lavrada e a chuva. A sombra que nos cobre é prenúncio de nova luz. Desenterro do tempo a imagem do que agora sou. Algum dia há de ser um novo dia, pois dizem que o tempo se renova. Vivo numa espécie de serenidade inquieta esperando pela próxima alvorada. Esta luz de agora é monótona e cansada. O tempo faz os seus danos ao fim de cada dia. Os meus versos são o silêncio do avesso. O trovão precede a trovoada. O purgatório é indefinido. As criaturas são alheias e, mesmo não parecendo, mudam constantemente de caminho. A seiva canta nas árvores, a tarde olha o poente, as horas parecem distraídas, a solidão é outra forma de desassossego. O meu jardim continua a conquistar o sol da vida. Parece outra forma de recomeço. Limpo o suor do rosto e continuo a atravessar os anos. As fábulas mais célebres transformaram-se em pesadelos dentro do sono. E dos sonhos. Até a eternidade se transfigura num instante e dorme na tarde calma. O poema continua a percorrer o mundo íntimo das coisas, a agitação das folhas do silêncio, a evidência das vozes, a ilusão da madrugada, a fome dos cavalos quando avistam os prados. A hora anterior devora a hora seguinte. Colho circunspecto a flor do teu sorriso e por instantes tudo se transfigura à minha volta, o céu fica mais azul e nele navegam as aves. Os dedos das mãos transformam-se em pétalas. Os poemas erguem-se difundindo uma espécie de luz inconformada que só os loucos conseguem enxergar. Continua presente o jogo contra o destino, o desafio da liberdade humana, a consciência da necessidade dos atos arriscados. Batidas pelo vento, as cinzas dos meus antepassados ajudam a crescer as sementes do que está para vir. As suas raízes continuam profundas conservando a certeza do esquecimento. Os insetos abrem as suas asas à luz. Também eu tive os olhos brilhantes de inocência, agora guiam-me no sentido do entardecer. Logo chegará a noite. A luz do tempo que está para vir é mais adivinhada do que certa. A minha inquietação pousa sobre a madrugada. Vou tentar adormecer de novo. A inquietação continua serena. A inquietação continua. A inquietação. A puta virgem da inquietação.

27
Jul15

Epístolas

João Madureira

 

 

Epístola primeira

 

Escrevo-te cá de baixo, mesmo muito mais abaixo do que é costume. Ando eufórico, extravagante, frenético. Agora tomo uns comprimidos que me põem elétrico. Estabeleci contacto com estas pílulas milagrosas uma noite quando um jovem simpático, que conheci por caso, mas aconselhou como antídoto contra as minhas crónicas dores de cabeça. Deu-me uma para experimentar e depois vendeu-me um saquinho delas, caras, razoavelmente caras, mas artigo com propriedades muito apreciáveis. Não é que com elas a dor de cabeça me passe, mas quando engulo uma ponho-me logo aos pulos. Por isso agora tomo-as e dirijo-me logo de seguida para um local onde se dança toda a noite ao som de música latina. E por ali fico aos saltos até que se faça dia. Depois de tomar a medicação só bebo água e sumos naturais, pois foi o que mais me recomendou o meu jovem amigo. Eu, que detestava música de baile, eu que só conseguia ouvir música de câmara em ambiente adequado, agora derreto-me por salsa e merengue. Mas vou terminar esta minha missiva pois acabei mesmo agora de tomar uma pílula verde e já estou que me desmembro. PS - Não te esqueças de dar as vitaminas ao tritão (Lissotriton boscai), pois se as não tomar o bicho perde a cor e a elasticidade dos músculos e da pele.

 

Epístola segunda

 

Escrevo-te ainda de C. Por aqui continuo a gastar os meus parcos rendimentos mas faço-o cada vez mais com redobrado prazer. O prazer de gastar, de nada deixar a ninguém, nem sequer à Misericórdia, nem a nenhuma outra instituição, seja ela de caridade, cultural, cívica, militar ou protetora dos animais e afins. Por cá a gente atrapalha-se nas ruas. São tantos os que por aqui andam de um lado para o outro que parece que o ar para respirar nos falta. Este formigueiro em constante movimento por vezes põe-me louco. Como louco fiquei quando soube que o canguru que deixei à tua guarda desapareceu na noite. É que eu tinha uma consideração peculiar pelo animal. Além de ser de estimação, era um ser estranho, mas profundo. Eu costumava falar muito com ele. E ele ouvia-me com muita atenção, interesse e bonomia. Interlocutor assim nem mesmo tu o consegues ser. Digo-te que ando um pouco desconfiado que foste tu quem o deixou fugir. Bem, fugir não, pois o animal não era de fugidas. Estava muito habituado à minha casa. Andava pelo jardim com muito estilo, cantava lindas canções de embalar que ouvia à governanta, assobiava com bastante intensidade e tocava muito bem o tambor. Por vezes até tratava da horta e tinha um carinho especial pelo talhão dos tomates e das cebolas. Desconfio que o expulsaste de casa ou o vendeste ao circo. Se tal fizeste juro que to farei pagar em duplicado, pois sou muito bem capaz de te esganar a catatua que te trouxeram do Brasil e depois assá-la e comê-la na companhia do meu cão de caça. Que te desfizesses do esquilo esquizofrénico ainda vá que não vá, agora expulsares-me o canguru da quinta ou vendê-lo ao circo, isso é uma afronta muito séria à minha pessoa e à nossa profunda amizade. E sabes bem que uma amizade pode resistir a tudo menos aos golpes baixos e aos ciúmes. Como me dói muito a cabeça, vou-me até ali à farmácia comprar umas aspirinas. Despeço-me até à próxima, enquanto aguardo que me restituas o canguru, senão vai ser o cabo dos trabalhos para nos tornarmos a dar como irmãos. Que é aquilo que somos na realidade. Envio-te este postal com um pedido de desculpas, é que no quiosque não havia outro e este é um pouco enigmático, mas nalguma coisa tinha de escrever. PS - Peço-te encarecidamente que continues a dar de comer e beber aos meus queridos animais. Especialmente à serpente coral do Texas (Micrurus tener).

 

Epístola terceira

 

Escrevo-te cá de baixo, mas mesmo de baixo, debaixo de chuva, debaixo de vento e debaixo de uma depressão estupenda. Estupendamente estúpida, hieroglífica. É que estou mesmo em baixo. Aqui todos me tratam por pá, pá isto, pá aquilo, pá aqueloutro, pá para a frente, pá para trás. E eu não estou nada habituado a este tratamento que, ao mesmo tempo que parece íntimo, resulta numa perfeita imbecilidade informativa e informal. De informal tem pouco, tem mais de desleixo, de não te rales, de displicência e de frustrante indiferenciação social e humana. Fora isto, estou bem mal. Estou desnorteado. Ando desaustinado. Amorfo. Tenho saudades de tudo o que por aí existe e continua a existir mesmo sem mim. Até já tenho saudades das pedras da calçada. Tenho sentidas saudades de falar com os amigos. Sim, eu sei que são poucos e maus, mas, mesmo assim, são os meus amigos. Tenho muitas saudades de descer a rua Direita e depois subir a de Santo António. E tenho muitas saudades da minha doninha. Por favor não te esqueças de lhe escovar os dentes e de lhe dar banho de imersão. Ela adora banhos de imersão. Fora isso, tenho muitas saudades tuas. Mas, reconheço, a opção deste retiro espiritual tem muito de esquizofrénico. Ainda não consigo pensar no Largo das Freiras sem me arreliar. Eu adorava aquele sítio. Foi durante décadas o mais dileto e acarinhado ponto de encontro de vários grupos de amigos que ali se juntavam para conviver, dizer umas larachas e discutir o sexo dos anjos. E por aí ficávamos até altas horas da madrugada, só pelo prazer do convívio, de nos ouvirmos uns aos outros, por sentir que estávamos vivos e que alguém nos considerava necessários na sua vida. Alguns já morreram. E não há memória que doa mais do que lembrarmos vários amigos já desaparecidos sem os podermos associar ao seu espaço preferido. Sem os lugares, a memória é irrisória, não se fixa, não se completa. Com o desaparecimento das Freiras, esses meus amigos morreram duas vezes. E eles não mereciam isso. O respeito pela memória é bem mais importante do que algum progresso. Muito do denominado progresso atual é muito parecido com um retrocesso. A memória, digo-te do fundo do coração, é fodida. PS – Não te esqueças também de alimentar convenientemente o ouriço-cacheiro (Erinaceus europaeus). Mas cuidado, não te piques. É que ele é muito sensível.

23
Jul15

Poema Infinito (260): o delírio e o desalento

João Madureira

 

 

O homem reclinou a cabeça e desmaiou enquanto olhávamos o sentido furtivo das searas. Uma conspiração de palavras tomou conta do delírio. Levantámo-nos e começámos a caminhar pela manhã dentro. Houve épocas em que um deus furtivo enchia o regaço das mães de dias suaves, onde o tempo se dividia em quatro estações bem definidas, onde a primavera era uma árvore singular trajada de palavras e flores. As palavras cobriam tudo e os olhares vestiam-se de folhas verdes. As avós fixavam o olhar na chuva que lhes molhava os olhos e deles saíam pequenos rios que desaguavam lá no cimo das montanhas. Os sinais pertenciam aos dias e todos na família passavam por assombros que eram gestos que morriam mal a noite chegava. Em volta da casa, as crianças punham as rodas em movimento e iniciavam o ensaio das suas atitudes desmedidas. À tardinha, o vento varria as ruas e as eiras e os homens deixavam cair os braços e disfarçavam os rostos por detrás da vergonha e das outras palavras a ela associadas. Eram quase apostólicos, como o senhor padre lhes ensinava. Sentiam-se portadores de um grande coração. Sabiam abrir o seio da terra, temiam as grandes palavras de negação do redentor, estendiam a mão com vergonha de compreenderem o mundo. Os dias vinham. Os dias iam. Eles riam, sofriam e recolhiam nos celeiros o que as estações lhes permitiam. No lume da lareira aqueciam as mãos e no fim do fogo deixavam-se cair em tentação. As suas atitudes implicavam apenas diminutas consequências. Alguns partiam para não mais voltarem. Alguns morriam longe invocando o nome de deus e também a sua responsabilidade no abandono. Outros suspiravam pela vida simples que trocaram por um infinito desalento. Os que ficaram viveram sempre muito perto do chão arredondando as tardes mais quentes e aguçando as manhãs mais frias. Eram como as aves solitárias que voam lá no alto perseguindo com o olhar os animais que vão caçar. Enchiam o peito com o ar vespertino, puxavam os seus corpos delgados contra a chuva, o vento e as nuvens densas do inverno. Por vezes chegavam a ter desejos. Quase sempre os emborrachavam nas adegas uns dos outros. As mulheres cantavam aliviando ideias diversas, como se procurassem poiso para as suas cabeças sonhadoras. Duravam-lhes pouco os sonhos. As cabeças ficavam-lhes pesadas e as mãos caíam-lhes no regaço. Desciam até à parte mais funda dos seus olhos e choravam. Passavam então a transportar a alma à flor da pele. No coração guardavam a infância até ao último suspiro. As mulheres apreciavam ver as tardes morrer quando chegava o outono. O seu olhar partia com as aves. Os seus homens estavam sempre por perto, na esquina das ruas, vendo passar o tempo, enrugando a pele do rosto. Recordavam os seus velhos pais que já por ali não pisavam os prados e talvez existissem no fugitivo brilho de deus. A morte lá continuava fixa instalada confortavelmente no céu. Mais manhãs desfilaram umas a seguir às outras cobrindo a memória. Sobre as macieiras, os seus olhares descreveram a órbita da terra. Os seus olhares pousaram dolorosamente sobre a superfície do tempo. Pensaram que a natureza há de continuar a propagar a primavera de árvore em árvore.

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