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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

10
Set15

Poema Infinito (267): simulacro

João Madureira

 

 

Bela é a dignidade dos simples pois não se apercebem da sua caducidade. A sua nobreza tem a exatidão do pó. Os outros possuem a retórica do mármore e a solenidade desejável da sombra. Despidos do latim, enganam a paz com a morte. Já não vibram as espadas, apenas restam o sono e a indiferença. O espaço e o tempo apagaram-lhes a alma. O vento e as aves ondeiam sobre as árvores. A tarde apaga-se. As estrelas mais antigas começam a surgir no céu. A sua luz é dispersa. Nos círculos de água ordenam-se as constelações. Cheira a jasmim e a madressilva. Os poemas começam a adquirir humidade. Chegam os plebeus com os seus passos entorpecidos, ignoram as ruas, esgotam-se no suave declínio das horas, comovem-se com a mediania das casas, limpam as suas lágrimas, recuperam as canções que lhes ensinaram quando eram quase meninos. As casas são como candeeiros onde arde a vida dos homens. Os rostos dos simples ficam claros. Acalmam-se. As árvores atenuam a sua rigidez de estátuas. Esquecem o destino, o tempo que lhes roubaram, as mitologias domésticas e o aroma das suas brincadeiras mais floridas. Acreditaram na autoridade das espadas, nas palavras indolentes, nos deuses do jogo. Dominaram o espaço, enfrentaram a luz, eternizaram as encruzilhadas, expandiram a valentia, arrostaram montanhas e exércitos, foram audazes no hábito e no uso das lanças, alguns escolheram o desterro. No fim tudo ficou reduzido a cinzas e a uma espécie de glória enferrujada. O tempo agora veste-se com as cores do perdão, já não possui a linguagem da aventura e do assombro. As vozes dos seus antepassados ficaram definitivamente frouxas. O esquecimento apagou o índice dos mortos, mas as feridas continuam abertas. Nem os deuses as conseguem sarar. Os factos são os factos. Por isso vivem numa aflição quotidiana, digerindo as exaltações, as penas e as incertezas. Deus esqueceu-se deles. E eles esqueceram-se de Deus. O ódio é a sua esmola. A sua bebedeira permanente. Convocam a morte por metáforas e obrigam-na a esperar. O acaso do tempo é como uma fonte de onde jorram os milagres derradeiros. Os arrabaldes onde habitam são o reflexo do tédio. Os seus passos vacilam quando pisam a linha do horizonte. Libertaram-se da memória e da fé. Libertaram-se do futuro. Os seus olhos já não partilham a esperança. As suas sombras adiantam-se-lhes. Os jardins vestem-se de um verde inútil. Festejam um dia de festa em honra da pobreza da terra. Não têm opinião, não possuem nem nome nem pátria. São uma espécie de almas arbitrárias que dizem acreditar no milagre implacável da dor e na estupefação do prazer. No fim do desterro voltaram às casas da sua infância. Estranharam os espaços, repetiram os caminhos velhos, tocaram as árvores, acarinharam as palavras esquecidas, observaram os céus, a multidão de estrelas, a fragilidade da lua, compreenderam os pátios e os muros e os abismos que povoam as ruas. Identificaram, e identificaram-se, com a universalidade da noite. Acreditaram no líder que os convenceu de que o mundo é uma atividade da mente. Mergulharam num sono desordenado. Ressurgiram no meio do dia. Procuraram as suas casas, que refletiam a glacial luz branca do silêncio. Quando acordaram estavam dentro dos espelhos apagando a sua própria imagem.

07
Set15

255 - Pérolas e diamantes: a verosimilhança e a verdade

João Madureira

 

 

 

Juan Marsé, colocou na boca do seu personagem David Bartra (Rabos de Lagartixa) estas sábias palavras: “Aprende a olhar aquilo que ainda não chegou, e perceberás muitas coisas.” Eu assim faço, para mal dos meus pecados. Mas cada um é para o que nasce. E para que me serve, perguntarão os estimados leitores. Pois para pouco, mas eu tenho o defeito de ser teimoso e muito agarrado às minhas convicções. O que tem de ser tem muita força.

 

Não há como ler os jornais e revistas para nos mantermos informados e, sobretudo, cultos, ou cultivados, ou mergulhados nesse renascimento salvador que ocorre de quatro em quatro anos e que é conhecido por campanha eleitoral.

 

Marcelo Rebelo de Sousa, o putativo candidato a candidato pelo PSD a Belém, e comentador político que tudo sabe e tudo explica, com a sapiência que se lhe reconhece, pois até sobre ténis, windsurf e física quântica emite a mais sábia das opiniões, confessou, também ao DN, que “rezo o terço nos sítios mais inspiradores. Rezo normalmente no trânsito. Já me aconteceu rezar em estádios de futebol. Um sítio onde é sensacional rezar o terço é a nadar no mar”.

 

Estamos em crer que, tal como Camões quando salvou Os Lusíadas no naufrágio quando regressava de Goa,  junto à foz do rio Mekong, salvando-se apenas ele e o manuscrito, também este incrível católico nada com uma mão e com a outra vai contando as contas do seu rosário, com que pensa ganhar primeiro as eleições presidenciais e só depois o céu. Nós temos o purgatório garantido.

 

Na Sábado, lemos uma reportagem sobre o Meco e dela extraímos a pertinaz informação de que Ricardo Salgado, o tal “senhor dono disto tudo”, e do BES também, tinha por hábito ir almoçar ao Peralta – um espaço que ganhara fama pelo marisco fresco e pelas especialidades de peixe –, que chegava de helicóptero, com a mulher, e aterrava no parque de estacionamento, almoçava e ia embora.

 

Outro frequentador da “praia da liberdade” era José Sócrates, que certa vez pediu uma coisa aos proprietários do restaurante, depois de jantar tordos. “Por favor, se aparecer algum jornalista não diga o que almocei. Não é bonito um secretário de Estado do Ambiente comer passarinhos.”

 

Mas todos estes fait divers não nos podem fazer esquecer, a nós pobres eleitores permanentemente enganados e ofendidos, que foi Passos Coelho que defendeu, e defende com unhas e dentes, um modelo de rutura com o nosso Estado Social e que a pretexto da chegada da troika foi muito para além das suas imposições. Privatizou o dobro do exigido, aumentou o IVA de forma brutal e cortou o 13º e o 14º meses, exigência que não estava no memorando.

 

Não satisfeito com a obra, cortou no subsídio social aos idosos, no rendimento social de inserção, aumentou as taxas moderadoras na saúde, alterou a legislação laboral e privatizou quase tudo o que havia para privatizar. Atacou a Segurança Social, a Saúde e a Educação. E agora, porque estamos com as eleições aí à porta, tem a distinta lata de afirmar que é o paladino do Estado Social.

 

Tudo o que eles afirmam, na melhor das hipóteses, tem sempre duas partes de mentira e apenas uma de verdade.

 

Os números falam por si: 600 mil desempregados, sendo metade deles de longa duração, 350 mil emigrantes e 126 mil portugueses entretidos em programas ocupacionais. Este é o estado do Estado Social edificado pela coligação PSD/CDS.

 

Quando os oiço falar lá do alto do seu palanque partidário comento para mim mesmo: que admiravelmente bem eles argumentam baseados em factos errados.

 

Esta é a razão por que já não acreditamos no país, nem nos políticos, nem na Europa. Não acreditamos em comícios, nem em cartazes, nem em promessas. Já não acreditamos em nada porque os “grandes partidos” do “arco da governação” nos têm sucessivamente mentido e enganado. Foi a este estado de alma que nos levou, em alternância falaciosa, a “coligação democrática” de PSD/CDS/PS.

 

Estamos todos muito cansados das pessoas, das intrigas, dos esquemas, das lógicas partidárias e da promiscuidade de interesses entre a política e os negócios.

 

Não nos podemos resignar à desilusão. Isso é o que eles pretendem, que não votemos ou que votemos nos mesmos de sempre.

 

Temos que procurar outra coisa. Temos de dar espaço à cidadania. 

 

“Quando se está em campanha eleitoral a tendência da maioria dos políticos, se não de quase a totalidade, é terem uma opinião às segundas, quartas e sextas e às terças, quintas e sábados terem uma opinião mais ou menos contrária àquela que tiveram nos dias anteriores. Têm muita tendência para dizerem aquilo que as pessoas querem ouvir e não aquilo que pensam genuinamente”, afirmou Manuela Ferreira Leite, no programa «Política Mesmo» da TVI24.

 

Sobre as palavras dos políticos tradicionais convém lembrar o que escreveu Adrien Baillet: “La vraisemblance n’est pas toujour du côté de la verité”. O que traduzido para português quer dizer: “A verosimilhança nem sempre está do lado da verdade.”

03
Set15

Poema Infinito (266): a lei da gravidade

João Madureira

 

Quando te conheci vinhas sentada na primavera, aconchegada por sorrisos e o teu olhar estava repleto de lírios. Os meus olhos emitiam sombra, vento e desassossego. Mordia o tempo em busca das raízes do amor e da razão sem saber que eram incompatíveis. Todos nos esquecemos da casa dos pais, dos dias vazios, das mãos ásperas da solidão, da dor de Deus, do assombro dos momentos, das árvores importadas pela manhã, dos frutos com cheiro a vento e a sol. A ausência de quem amamos cresce como os nossos passos. A aurora compromete-nos com o futuro. O mar insaciável está repleto de infâncias, de pequenos destinos, do grito das gaivotas. Reparo ao espelho que meus olhos possuem o brilho da desilusão. Os meus passos afastam-me do destino, das grandes fontes de água cristalina, do meu anjo da guarda. Sou da condição da terra, vestem-me as árvores mais altas e as estações mais frias. Aprendi a perseguir-te pela doçura acre dos teus lábios. Equilibro-me entre o ser e o tempo. Molho os meus pés com palavras para caminhar até ao sítio onde nasceram os primeiros homens. Por vezes a alegria desce às ruas e aceita o sacrifício das manhãs. O sol afasta a neblina. Os candeeiros transformam-se em sentinelas do tempo. O vento veste as esquinas e leva-nos os pensamentos mais dolorosos. Os livros vão envelhecendo por dentro adivinhando a chuva, os dias morrem todas as noites pousados nas nossas mãos. A terra fica sem caminhos. As silvas e as rugas crescem por todo o lado. Quando tu vens, a solidão começa a correr na direção do mar, as aves levantam voo levando nas asas o orvalho da manhã. Caem-nos os gestos aos pés desintegrados pelas palavras que carregam o desejo. O dia fica redondo como a tua boca onde cabe o instante da paixão. A chuva cai curvada de circunstâncias e liquidez. Abrem-se as janelas. Os olhares levantam-se como se fossem nuvens empolgantes. A memória dos séculos caminha sobre o pó. As árvores mais radicais imolam as palavras insolentes envolvendo-as de verde e glória. Com as suas mãos pecadoras, os poderosos ungem as cidades para ganharem mais espaço onde irão plantar as sementes de betão e ferro. Abres-me os braços para recolher o meu corpo e a minha aflição. Os agiotas roubam-nos os abraços, hipotecam-nos os sorrisos e expropriaram-nos os beijos. Possuímos pequenas coisas gloriosas dentro de nós com que construímos o princípio da salvação. Um rio irrequieto desagua no nosso interior. As lágrimas de prazer são as nossas mais íntimas metáforas. No teu amor começam as minhas ruas mais íntimas, nele invento o céu azul, os choupos que deliram, pássaros impossíveis que levantam voo com mil cuidados. No teu amor acolho a minha infância mais profunda, as palavras mais ousadas, os números mais improváveis, as tardes mais interiores, os gestos que arredondam a luz e erguem os templos, a voz que aquece o voo melancólico dos melros. E aqui estou eu, na estrada das palavras, devorando o tempo, procurando a fonte da vida, pousando suavemente o olhar sob a nossa juventude, quando dávamos as mãos como se fossemos os anjos da ingenuidade e da transparência. Cada vez estamos mais perto do chão. Esta é a lei máxima da gravidade da vida.

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