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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

19
Out15

261 - Pérolas e diamantes: os esgotos do progresso

João Madureira

 

 

Vivemos tempos estranhos. Como dizia a atriz russa Ranévskaia, as velas do bolo de anos custam mais do que o próprio bolo e metade da urina vai para análise. E os nossos filhos, ou netos, trazem um computador na cabeça, que para pouco lhes serve, pois os berlindes eram um brinquedo bem mais redondinho. E matar, matar, mesmo que virtualmente, apenas o porco lá para dezembro ou janeiro.

 

A religião está reduzida a dois credos monoteístas: cristianismo versus marxismo, ou vice-versa. E daqui não conseguimos sair.

 

O mais estranho é que apesar de todos sermos, de uma maneira ou outra, religiosos, perdemos a crença. Apesar da iconografia e das orações, ficámos sem fé. As pessoas transportam uma espécie de vazio no olhar.

 

Uns acreditam em Deus, outros no progresso técnico. Todos dizemos defender os valores humanos universais, ou seja: o humanismo abstrato.

 

É tudo boa gente. Frequentamos indiscriminadamente os templos modernos das grandes superfícies, do Pizza Hut e do McDonald’s, onde rezamos para que o ordenado estique mais um pouco e dê para comprar um telemóvel topo de gama, umas sapatilhas de marca ou uns jeans esfarrapados como os usados pelos principais ídolos da juventude e que ainda sobrem uns trocos para o lanche de um super-hiper-mega-burger king ou pizza extra extra.

 

Nas lojas há muito de tudo mas não há felicidade nos olhos das pessoas.

 

Atualmente, dá-se a liberdade aos jovens para aprenderem abaixo do nível mínimo de conhecimento, estimulando-lhes a crítica insensata e ineficaz a todos os valores, para que amanhã sejam uma massa de cidadãos dócil, abúlica e apática, apenas com o nível suficiente de alfabetização para possibilitar a aceitação da administração. E isto é feito intencionalmente, disfarçado de bom eduquês, seguindo a lógica dos tolos.

 

Os clichés do facilitês que lhes são sabiamente sugeridos torna-os incapazes de formular dois pensamentos seguidos sem recorrer ao auxílio de uma mnemónica digital.

 

As nossas sumidades são pessoas que permanecem em ponto morto, numa pose morna, num cuidado e estudado meio-termo provinciano, que nas ocasiões apropriadas exibem cara de circunstância.

 

Por vezes basta uma observação um pouco mais atenta para nos apercebermos que as tais celebridades que têm vistas largas afinal apenas possuem as vistas curtas. E mesmo possuindo dois olhos, quase sempre olham para o mundo com um só.

 

Nós até somos gente para concordar uns com os outros. Mas convém não esquecer que mesmo a concordância entre dois homens é sempre um fenómeno temporário, quer seja no disfarce da forma, no encómio da reflexão, no apoio ao clube de futebol, na celebração da moda, na escolha política, ou ainda na seleção da mulher mais linda do mundo ou sobre os atributos intrínsecos do bolo de bacalhau. 

 

Numa coisa somos bons, nos atos de contrição (versão católica) e na crítica e autocrítica (versão marxista). Aproveitamos sempre para dizer mal uns dos outros e fazer queixinhas.

 

Sabemos que na sombra todas as atividades políticas se assemelham e as alianças que contrariam a lei natural das coisas proliferam.

 

Dwight W. Morrow, um republicano americano bem avisou: “Se um partido político se atribui o mérito da chuva, não se deve estranhar que os seus adversários o façam culpado pela seca.”

 

Os nossos políticos aparecem nas televisões como os pregadores evangélicos americanos, maneiristas, cheios de atitudes untuosas, seráficos, queixosos, especuladores, como os antigos vendedores que apregoavam nas feiras as virtudes da banha da cobra.

 

Não esperam convencer. Pretendem sobretudo converter os incautos. E os incautos compram a mistela palavrosa com nota de conto. Gostam de botar figura.

 

Por cá há comerciantes honrados, empreiteiros megalómanos, trafulhas de bom coração, políticos que gostam das luzes da ribalta, e também apreciam deitar mão do alheio, e alguma gente tão generosa e honesta que por vezes fico com a estranha sensação de que só podem ser tolos. 

 

Dizem-nos os políticos feirantes que já somos um país desenvolvido, mas eu duvido. Desenvolvida é a Holanda, país dos campos de tulipas, dos moinhos que possuem rodas que giram serenamente, onde há pirâmides de queijo, diques e raparigas loiras e disponíveis e, pasme-se, onde, como nos conta J. Rentes de Carvalho, a câmara de Amesterdão distribuiu a seguinte informação aos moradores de um novo bairro: “Em lugares previamente determinados serão plantadas silvas e plantas daninhas.”

 

Esse tipo de desenvolvimento, no distrito de Vila Real, apenas é visível em Outeiro Seco, aldeia do concelho de Chaves, num sítio chamado de Vale de Salgueiro, onde os esgotos continuam, há mais de 8 anos, a correr a céu aberto sem que se descubra o autor, ou autores, de tal fenómeno. Uma coisa sim sabemos, a Câmara Municipal, liderada por António Cabeleira, não o é certamente. Trata-se, com toda a certeza, de um fenómeno natural que a natureza se encarregará de resolver. Aguardemos pois. E sentados, para não nos enfadarmos.

 

Termino citando Tocqueville: “Creio que em todos os governos, quaisquer que eles sejam, a baixeza procurará sempre aliar-se à força e a lisonja ao poder. E apenas conheço um único meio capaz de evitar que os homens se degradem: é não dar a ninguém, juntamente com a autoridade ilimitada, o soberano poder de os aviltar.”

15
Out15

Poema Infinito (272): a luz tímida da descoberta

João Madureira

 

 

Conjuguei primeiro a paixão do que os verbos. A felicidade é uma espécie de desgraça ignorada. Obrigaram-me a acariciar a ideia dos impérios. O sangue renova a primavera. A aurora abre as suas portas ao deslumbramento, as portas do tempo, as portas entre as tuas pernas. As flores notívagas abrem também as portas à fúria. Embalado pelo mar de estrelas, sinto a tua fome, a tua sede, o teu devaneio, a minha embriaguez. Apercebo-me da semelhança dos opostos, da apatia da inspiração, da insensibilidade das imagens. Infâncias indefinidas penetram nos sonhos em espirais coloridas. A dor impõe os seus muros ao longo da rua calma. Eu sou um homem dentro do seu próprio vácuo. O esquecimento não possui limites. Mulheres sagradas seguem pelo caminho dos nossos olhos. Amar é uma outra forma de realidade. A primavera pôs fim ao inverno. Acendemos o lume. As chamas consomem as mágoas. As flores fortificam-se com o orvalho. Os insetos lançam-se em voos irregulares. O céu está limpo. O espesso vapor do inverno começa a dissipar-se. As cinzas e o estrume floriram em frutos. Tudo tem a cor da aurora. O enorme acaso faz as coisas acontecerem. Os sentimentos nascem no esforço do quotidiano. As palavras hibernadas despertam da sua prolongada letargia. Temos uma recordação vaga dos seus sonhos. A terra e os homens mudam de sentido sem disso darem conta. O nosso caminho é agora infinito. Multiplicamos os nossos desejos de claridade. A noite pesada acaricia e absorve as sombras. O passado é uma forma de cantiga entoada pelos outros. A luz eterniza o voo das andorinhas. As estações perduram fiéis ao seu ciclo. A névoa mistura-se com a luz, o céu expande-se. Tudo entrou em movimento: o vento, as folhas, os pássaros, o desejo, o tempo, as ilusões. Deitamo-nos como mortos em cima das nossas ilusões. Zangamo-nos com os nossos corpos quando vemos chegar a manhã. Somos transportadores de evidências. Vimos arder as searas. Contemplámos o seu renascimento, o brilho da sua primavera, as flores gastas pela chuva, o peso claro da obscuridade, a memória perseguindo o futuro e esquecendo o passado, as imagens deprimidas, as manhãs envergonhadas pelas sombras, os passos displicentes da nossa juventude, os caminhos que cruzam o deserto, a confiança das sementes, as ruínas do tempo, os corações desenhados pelo sangue, os corpos reduzidos à reminiscência do desejo, a luz tímida da descoberta, os olhares em espelho, a mudança do tempo. As sombras mais pesadas desapareceram com os primeiros raios da manhã. Dividimos entre nós os sonhos e os beijos mais serenos. Tentamos ludibriar o lado mau do tempo. Do futuro chega-nos o declínio, a expectativa do rejuvenescimento, o mutismo dos gestos, a desilusão das palavras, a forma natural da ignorância. O vazio. Abro os olhos dentro do meu sonho. Os nossos corpos ficam transparentes como o frio. O bem nunca se instala definitivamente. O silêncio vem dentro das próprias palavras. Mudamos de aparência. As ilusões começam a dissolver-se. Mergulhamos na bruma. Beijamo-nos com palavras. Tudo começa com um novo gesto teu.

12
Out15

260 - Pérolas e diamantes: o medo

João Madureira

 

 

Nos tempos dissolutos que vivemos, as invetivas alastram enquanto os argumentos minguam.  Este é o tempo dos homens úteis dentro da sua inutilidade. Cesteiro que faz um cesto faz um cento.

 

Os atuais membros do poder – os tais de Bilderberg –, são tão dissimulados que nos contam a verdade para nos enganarem. A afirmação da narradora do romance Os Enamoramentos, de Javier Marías, é pertinente: “É ridículo que depois de tantos séculos de prática, e de incríveis avanços e inventos, não haja ainda uma maneira de saber quando alguém mente; é claro que isso nos beneficia e prejudica a todos por igual, talvez seja o único reduto de liberdade que nos resta.”

 

Na época da vertigem da informação, e da rapidez no seu acesso, a gente que manda sabe que não nos pode manipular com a mentira, por isso tenta neutralizar-nos com a verdade, ou melhor, com a sua aparência, até porque a aparência da verdade não é a própria verdade, mas também não é a mentira. Os mentirosos de agora não mentem, antes partem a verdade em segmentos e servem-na em bonitas salvas de prata. 

 

Mas isto já vem de longe. O poder económico tem-nos atados de pés e mãos. O presidente norte-americano Theodore Roosevelt, que se debateu no início do século XX com os que então detinham o monopólio económico e pretendiam o controlo político, afirmou: “Por trás do governo aparente está entronizado um governo invisível que não deve lealdade nem reconhece responsabilidade alguma perante os cidadãos”.

 

E Franklin D. Roosevelt, também presidente norte-americano, declarou que na política nada acontece por acaso, pois cada vez que surge um acontecimento com toda a certeza que foi previsto e levado acabo da maneira prevista. Ou seja, em política tudo o que parece é.

 

Foi também Theodore Roosevelt que nos ensinou: “O mundo divide-se em três categorias de pessoas: um número muito pequeno que produz os acontecimentos, um grupo um pouco maior que assegura a sua execução e vigia como acontecem e, por fim, uma ampla maioria que não sabe nunca o que aconteceu na realidade”.

 

É agora claro para todos que as crises não acontecem por acaso. Mas afinal para que servem elas? Ou melhor, a quem servem? Por que carga de água é que os bancos utilizam o dinheiro dos cidadãos para os resgatar?

 

O primeiro a fazer é instalar o medo nos mercados, pois o medo é o gerador mais potente de riqueza para certos centros de poder.

 

Cristina Martín Jiménez, a autora do livro O Clube Secreto dos Poderosos, a propósito dos temidos resgates, escreve que para se resgatar alguém é necessário tê-lo previamente raptado.

 

Para se resgatar um país é necessário primeiro sequestrá-lo. E outra questão se coloca de imediato: Como é que se realiza um plano de resgate para a economia real quando, como lembra Cristina Jiménez, na realidade a economia financeira se baseia em dívida virtual?

 

De facto, pouco ou nada do que os denominados especialistas afirmam encaixa na realidade.

 

Ouvimos milhentas vezes os diretores da Comissão Europeia dizerem que aprovaram planos que pretendem apoiar a economia e proteger o emprego perante a eminente recessão, tentando minimizar o impacto da crise sobre o emprego, o poder de compra e a prosperidade dos cidadãos.

 

Metade das afirmações são mentira e a outra metade é pura incompetência dos mandantes. O que aconteceu, como todos sabemos e sofremos, foi precisamente o contrário.

 

Vieram então com o argumento de que é necessário refundar o sistema financeiro, pois de outro modo vamos para o abismo. É o medo. O argumento do medo.

 

A intenção dos poderosos de Bilderberg é gerar o medo para que as nações e os cidadãos aceitem sem reclamar as suas soluções.

 

No seu livro, Cristina Martín Jiménez, dá o exemplo paradigmático de um dos grandes “mercadores do templo”, George Soros, que ganhou mil milhões de dólares numa semana de setembro de 1992 especulando com a libra esterlina, ao obrigar o Banco de Inglaterra a desvalorizá-la. Passado um mês apareceu nos jornais fotografado com um copo na mão encimado por um título a cinco colunas: “Ganhei mil milhões com a queda da libra esterlina”.

 

Numa entrevista publicada no XS Semanal, a 3 de agosto de 2008, o mesmo Soros, afirmou: “Sim, sou especulador. Especulo no terreno das finanças, mas também no das atividades beneméritas e no da filosofia”.

 

Esta crise tornou as palavras do terceiro Presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson, de uma atualidade desconcertante: “Considero que as entidades bancárias são mais perigosas para as nossas liberdades do que as forças militares”.

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