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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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31
Dez15

Poema Infinito (283): tempo descontínuo

João Madureira

 

 

 

Proclamam os ventos que os homens não dormem nesta noite. O filho pródigo regressou a casa muito assustado, mas enganou-se na porta e não conseguiu subir as escadas. As suas terras foram engolidas pela enxurrada. As flores dos vasos das varandas murcharam. Na cidade, as praças ficaram vazias e as pombas foram perseguidas pelos mendigos. O fogo da lareira crepita vagarosamente. O pão endurece no armário. A água para o caldo já ferveu várias vezes. Não tarda que o dia se apague. Os bolos perderam a doçura. Os suspiros das mulheres são cada vez mais profundos. O rio continua a guardar o segredo dos nossos passos. A floresta é um labirinto. O seu chamamento é triste. Já ninguém acode à aflição das mães. As palavras atrapalham-se nas suas bocas. As suas memórias adormecem. As arcas guardam os antigos poemas engrunhados pelo tempo. Por vezes o sol adormece nos telhados. Os domingos ficam impregnados do cheiro do linho e da lã. Os sonhos são sonhados do avesso. Dormem dentro de nós. E nós dormimos dentro da tarde. A idade cuida dos nossos gestos mais pequenos. Os quadros antigos ficam cada vez mais solitários. Neles, os familiares mais antigos apertam as mãos para se acostumarem ao inverno permanente. Os seus olhares possuem a cor da luz da lua. O crepúsculo instalou-se nas paredes da casa. A vida doba a sua meada e espera. Os animais afastam-se das suas crias. Os avós contam histórias aos netos deliberadamente carregadas de datas, nomes e circunstâncias. Evitam os detalhes, a intranquilidade dos lugares, as personagens estranhas, os desejos, os demónios, o feitiço dos corpos, os gestos hesitantes, o símbolo do tempo que guarda as lembranças mais vagas e desprendidas. Por vezes perdem o sentido do tempo e tateiam às cegas o seu destino. Pela manhã, os corpos abrem-se como se fossem flores tranquilas absorvendo a luz azul e demorando-se na tranquilidade momentânea de um afago. As memórias chegam carregadas de espectros. Os amantes acreditam poder curar os seus desejos com palavras e infusões de malmequeres. Vivemos na época das incertezas. As mulheres gordas que pesavam dentro dos quadros dos pintores clássicos deram-se conta que são figuras transitórias e puseram-se a fazer dietas rigorosas e a praticar exercício físico. Agora são como livros brancos. Vivem em silêncio, sem memória, como formas incertas que adormecem à sombra doentia das figueiras. Os seus olhares são tão aleatórios como as estrelas atordoadas pela distância percorrida e pela que lhes falta percorrer até se extinguirem. É assim a eternidade, uma espécie de neblina cintilante acampada num vale de sombras onde o céu adormece e tudo espera. Aproxima-se um tempo descontínuo. Os caminhos levam-nos para longe. Os lugares são apenas lembranças viradas a poente. Os frutos continuam a crescer devagar, demorando-se no desenho redondo da forma. Tudo tem o mesmo nome. Alguém assobia uma velha canção triste. O vento ainda assobia do mesmo lado da casa. O medo e as sombras ainda descem as paredes da mesma forma. Mas eu agora sou outro. As palavras com que invoco a vida demoram cada vez mais a regressar ao seu local de partida. As noites dobram-me o sono. Sonho com as viagens que nunca farei. Eu sou o filho pródigo que nunca saiu de casa, apesar de ter comprado cavalo, sela, estribo e esporas. As razões de um possível regresso interromperam-me sempre a vontade de partir. Aplaudo a compaixão, mas os meus deuses são efémeros. A divindade é uma outra forma de conspiração.

28
Dez15

A sexualidade das pequenas coisas

João Madureira

 

 

O meu amigo M. chegou ao pé de mim, sentou-se, pediu um café e pôs-se a bebê-lo como só ele o sabe fazer. O seu porte é distinto, mesmo a tomar café. A sua maneira de o pedir ao empregado, a forma distinta como abre o pacote de açúcar, seja ele uma pequena bolsa rectangular ou cilíndrica, a maneira como o mexe, em movimentos lentos e exactos, como quem desenha uma circunferência com o auxílio de um compasso kern, surpreende qualquer um. Já vi pessoas a deterem-se no acto de tomar as suas bicas por se sentirem verdadeiramente impressionadas com a habilidade e o porte eletivo do meu amigo na execução perfeita do ato de tomar café. Mas, e para o amigo leitor se inteirar melhor do seu prazer, podemos igualmente acrescentar que o meu amigo M. toma a sua bica como se o fizesse pela primeira vez, como quem se regozija com a primeira namorada, como quem saboreia o primeiro beijo ou como quem se prepara para ter a primeira relação sexual.

 

Mas para chegarmos até aí, primeiro vamos deixar falar um pouco o meu amigo. «Caro João, ontem o meu filho chegou a casa com os bolsos cheios de preservativos, como no dia em que pela primeira vez foi à escola e o encheram de rebuçados. Só que desta vez vinha da universidade, da festa de recepção aos caloiros. Além de uma pasta, uma bata, blocos de notas, roteiros, um lista telefónica das Páginas Amarelas, um cordão com aloquete, uma proposta de abertura de conta numa instituição bancária, um cartão multibanco provisório e duas esferográficas, ofereceram-lhe vários e distintos preservativos em embalagens criativas, com distintos sabores, com ergonomias curiosas e mesmo um exemplar luminescente para a parceira, para, mesmo no escuro, saber sempre o que procurar e onde poder encontrar o membro fálico do mancebo sem ajuda do GPS do telemóvel. Ora, caro amigo, mesmo sabendo eu que a distribuição dos preservativos são uma forma de combater as doenças sexualmente transmissíveis, também são como que um apelo a que essas mesmas relações se efetuem. É um pouco como a história do ovo e da galinha. O meu filho mostrou-se desde logo interessado em utilizar tudo o que lhe tinham oferecido no kit universitário, afirmando que por algum lado se deve começar a vida universitária. E que se ela é constituída por sangue, suor e estudo, o melhor é começá-la com as experiências mais aprazíveis. Os psicólogos dizem que ter uma relação sexual no momento da entrada para universidade ajuda a libertar a libido e por isso mesmo é uma forma estimulante de potenciar as relações intergrupais que são essenciais para criar os laços de amizade e integração no grupo. “Representa o mesmo que no teu tempo”, disse ele para mim, “entrar com o pé direito”. Ao que eu lhe respondi: “Essa curiosa expressão utilizávamo-la como um amuleto, um talismã, um esconjuro. Mas dar preservativos como quem distribui rebuçados de distintos sabores e cores aos jovens parece-me um pouco excessivo. Olha, meu filho, lá diz o povo na sua sabedoria, o que não é visto não é lembrado. De seguida atendi o telemóvel e a conversa ficou por ali. Mas não deixa de ser irónica a circunstância de lhe oferecerem o objeto que permitiu o equívoco da sua gestação”.

 

O meu amigo M. foi um jovem adiantado para o tempo. Na época em que nos formámos, um preservativo era a modos como a teoria heliocentrista de Galileu no seu tempo, uma convicção contestada por quase todos. Por isso se fez forte e, numa ida a Lisboa em viagem de estudo, deslocou-se a uma farmácia e pediu um preservativo. Como a farmácia estava a abarrotar com pessoas a solicitar fósforo-ferrero para administrar aos estudantes por ser época de exames, nem sequer lhe pediram para mostrar o bilhete de identidade. A partir daí nunca mais deixou de transportar nos bolsos das calças o seu preservativo de estimação. Demorou foi muito a utilizá-lo. Não porque lhe faltasse a ousadia e a vontade. A ala feminina é que não lhe aparava os lances. Fizesse frio ou calor, chovesse ou nevasse, o meu amigo trazia sempre nos bolsos das calças o lenço, as chaves de casa e o preservativo. Apesar da fortaleza do invólucro, a textura começou a dar de si. Com o passar do tempo, e com a intensidade dos apelos da carne, um dia, um glorioso dia de primavera, o meu amigo conseguiu alcançar os seus objetivos. Passados nove meses nasceu o seu primeiro filho. Quando o questionámos sobre o facto, limitou-se a confessar que o preservativo lhe tinha saído furado. Naquela altura não havia ainda uma lei a exigir que os produtos exibissem o seu prazo de validade.

24
Dez15

Poema Infinito (282): a densidade do pecado

João Madureira

 

 

As flores nas leiras parecem mulheres condensadas pela névoa. O sol torná-las-á suplicantes, comovidas, ansiosas. Humanizámos as árvores. Arde a carne, porque é humana. A inquietação torna-se insana. A água vai para além do horizonte. O dia perdeu-se dentro da sua transparência. Um novo tempo está para surgir. A saudade esconde-se dentro da gente. Um dia regressará retemperada pela bruma. A memória voa alto como as aves mais corajosas. Aleluia ao teu corpo e à tua límpida alegria. A nossa verdade fica assim mais concreta. As bruxas da nossa infância pregam o medo lá em baixo. Aos seus olhos até as montanhas são ilusões. Todas as naves que daqui saíram foram construídas com pinheiros perfumados. As suas tábuas abrigaram sempre os marinheiros da fúria do mar. Navegando nos oceanos, os céus pareciam-lhes ainda mais ilimitados. Não conseguiam arredar o pânico. Casaram os sonhos com o espanto e abriram ainda mais os olhos para conseguirem seguir os astros. Uma nova certeza traz sempre consigo um novo brilho. Os homens ajoelham-se. E rezam. E engolem em seco o orgulho e a vaidade. Nascem-lhes pequenas asas de dor. A sua humanidade é sombria. A dor da fome não passa. O frio e a neve fazem-lhe invocar o agasalho do calor do verão. As ondas altaneiras são sinais de salvação. Grandes naus, enormes tormentas. Apenas deram à praia os náufragos que tinham escrito nos olhos o seu destino de poetas. A tristeza agravou-se-lhes nos tempos da adolescência, quando as raparigas lhes liam gloriosos sonetos vegetais e passavam as tardes a observar os caminhos que iam desembocar nas estrelas. O amor era tão ténue como o risco luminoso de um pirilampo na noite mais escura. As mulheres mais belas enchiam os seus lenços de lágrimas porque os homens eram todos uns brutos que montavam minotauros em vez de cavalos alados. Não havia disponibilidade de heróis indispensáveis. Esses estavam ocupados a rasgar o céu que lhes convinha. Era esse o seu destino. As suas mães e os seus pais tinham-lhes ensinado a conquista da glória como a sagração universal. Nela apareciam as virgens, os pastorinhos doentes e visionários, a luz cortada pelas azinheiras que a todos atingia e depois se transformava em orvalho. Os bichos do monte eram harmoniosos e todos tinham vontade de dormir logo a seguir aos milagres. Os pássaros de voos mais curtos fingiam abrir um pouco mais as asas para acompanharem a santa até às alturas. Depois o sol girava e as nuvens também, provocando uma cegueira momentânea que a todos atingia. Os sons mais estridentes diluíam-se no ar. Posteriormente as pessoas enfiavam-se dentro das suas conchas e rezavam até adormecer. Aprenderam a fechar os sonhos, a carregar a inocência como um virtude caprichosa, a andar de joelhos para se libertarem dos pecados. Transformaram-se em devotos frágeis e em organismos cobertos de heras e superstições. A história descalçou-os e deixou-os ao frio e ao vento. A memória transformou-se numa pedra tumular. As suas palavras são escuras. A sua confiança é turva. O seu conhecimento humano é feito de dor e arrependimento. Um misticismo vago amplia as pombas e o dorso dos cisnes. As fadas cavalgam em cima de ninfas. Os anjos queixam-se de falta de amor. Deus transformou-lhes os sexos em rosas e cravos. Por isso são escravos da sua impotência. A sua carne é vegetal. A simplicidade imerge dentro de si. Não existe oração que lhes valha.

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