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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

28
Jan16

Poema Infinito (287): sequências e ambivalências

João Madureira

 

 

A minha memória habita ainda a arca castanha: o seu sereníssimo sossego, o seu mundo antiquíssimo, a sua ascendência lunar, o sol por cima das montanhas verdes, a ligeira ondulação das nuvens, a unanimidade do ar. Lá dentro o tempo fragmenta-se, o universo expande-se e os corpos mexem-se como os peixes dentro de água. O cheiro do fumeiro e das leguminosas a ferver no pote perfuma as paredes da cozinha. A casa parece uma ilha nos confins do tempo, vagueando tranquilamente entre as ilhas, o mar e os montes. Deponho a minha frágil cabeça sobre as tuas mãos em concha. Lá fora a chuva jorra pelo meio das pedras dos muros. As nascentes ficam claras. Arde-nos o sangue no peito. O teu sexo transforma-se num cálice incandescente e abre-se como uma orquídea. A lenta pulsação da vida sobe por nós como um vinho denso. O outono virá profundo, nele dormirá o sol, as estrelas aparecerão simultaneamente dentro dos nossos olhares. As noites serão povoadas por deusas sonâmbulas que deslizarão por nós como rumores de folhas. A nova arquitetura do tempo é livre, o espaço expande as suas enormes raízes transformando os olhares numa luz incompreensível. As linhas do teu corpo escrevem desejos deslumbrantes. Depois do amor adormeço languidamente no teu sexo. Os sonhos parecem reais vestidos com a sua transparência fugidia. O espaço irisa uma espécie de adolescência aérea, adensando a sua frágil maravilha. Os passos são leves como os sorrisos. A tua boca roça na minha boca. O dia fica novo. O mundo começa agora outra vez. A ingenuidade dos nossos corpos flui como um sopro. O vale é extenso. As mulheres traçam linhas no horizonte. Nas suas bocas surgem palavras impregnadas de ausência. Elas aprenderam a acariciar as sílabas mais delicadas. As folhas secas rodopiam à sua volta. Alguém desfolhou as árvores com o léxico violento das sombras. O seu silêncio é visível. O fogo murmura uma espécie de dor inflexível. Aprendemos que as fábulas germinam em todas as idades, são como filhos que dançam dentro da sua infância inextinguível, refletindo-se nos nossos olhos com o seu brilho aveludado, bebendo longamente a lonjura permanente do tempo nos gestos sossegados dos progenitores. Acariciamos a sua sede, os seus jogos, os seus caminhos feitos de água e esperança. O seu espaço vital é a nossa vertigem permanente. Ouvimos o estranho som das palavras a despirem-se dos seus preconceitos, das pedras a libertarem-se do seu peso, do vazio a desfazer-se da sua carga submersa, do surdo arrependimento do ar, da terra a ser comida pela noite. A lentidão dos dias vai apagando as formas dos rostos dos que partiram. O espaço aumenta a distância entre as memórias. Os bichos que andavam nos montes são agora apenas nomes obscuros e inesperados. Tudo se define de outra forma. A brancura é uma espécie de lâmina, a alegria é uma espécie de tensão ofegante. A vida continua nua dentro do seu ninho, como o cuco. Os anjos foram abandonados por Deus e dormem agora em cima das ervas e do silêncio, agitam-se em jogos de impaciência, são como ruínas amarradas ao seu pó. As palavras divinas caem ao chão como os melros no inverno. As evidências divinas são cada vez mais inacessíveis. Vivemos dentro de um caos verde alimentado pelo ardor completo do verbo. Aproximamo-nos das origens impregnadas da neutralidade dos animais. Somos a sequência viva do movimento das palavras.

25
Jan16

274 - Pérolas e diamantes: a serenidade dos sorrisos

João Madureira

 

 

Continuo a pensar que Jorge de Sena, no seu agreste discurso proferido a 10 de junho de 1977, nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, presididas por Vítor Alves, resumiu a alma portuguesa de forma crua, mas real, bem ao jeito dos visionários desprezados pelos medíocres de sempre.

 

Passo a citá-lo, socorrendo-me do livro Vítor Alves – O Homem, O Militar, O Político, de Carlos Ademar: «Continua vivo “esse vício centralista da nossa tradição administrativa”, que, “sem perda da autoridade central”, continua a “manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e o menos realista quando de política se trata (…). Os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista quando se veem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade.”

 

Foi com ele que aprendemos o poder de um sorriso sereno.

 

Triste continua a ser o nosso fado. Nos tempos que correm, salvo raras e honrosas exceções, não votamos em alguém. Votamos sempre contra alguém.

 

Esta gente faz sempre o contrário do que dizem os poetas. Por isso é que nunca acertam. Maiakovski avisou: “Primeiro é preciso transformar a vida para cantá-la em seguida”.

 

Cantar por cantar, que o façam os melhores.

 

Costumo encontrar algumas vezes a minha avó passeando no meio dos livros de Gabriel Garcia Márquez. Fico deslumbrado e cheio de saudades.

 

Aparece-me, para meu espanto, vestida com “a escrupulosa serenidade da pessoa acostumada à pobreza”. Quando se lembrava do meu falecido avô João Lorde, evidenciava o seu corpo rígido e seco e “um olhar que raras vezes correspondia à situação, como o olhar dos surdos”. A sua palidez e os seus movimentos “possuíam aquela suave eficácia das pessoas acostumadas à realidade” e revelava sempre “aquela expressão de decorosa simplicidade com que os pobres chegam a casa dos ricos”.

 

 

 

Depois ao sétimo dia chove e eu fecho o livro dos salmos tristes. A vida é quase sempre assim. Quase sempre. Quase. Sempre.

 

Eu recordo-me… Amarcord… do lindo caos que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, dessa revolução naif onde abundavam as ideias e as quimeras. Também elas murcharam, como os cravos. Agora é tudo de plástico, cravos, comida, ideias e tudo.

 

E depois entrámos na Europa. Bruxelas disse-nos o que tínhamos a fazer. Com a verdade nos enganou. O dinheiro foi distribuído às mãos cheias, mas ao povo chegaram apenas os trocos.

 

Alguma coisa mudou, temos de reconhecer. Os ricos ficaram mais ricos. Os amigos das cores partidárias subiram alto.

 

Atualmente todos achamos que vivemos melhor porque podemos andar num carro em segunda mão que continuamos a pagar ao banco. Os filhos, mesmo os licenciados, vivem às custas dos pais. Uns chamam-lhe progresso, outros crédito.

 

Os que puxam pela memória recordam-se que do 25 de Abril apenas nos resta o feriado. E qualquer dia nem isso.

 

Por hoje termino citando o narrador do romance de Marcel Proust, O Lado de Guermantes,  quando semivirado para o seu amigo Robert de Saint-Loup diz: “Cada um é o homem da sua ideia; há muito menos ideias que homens, e assim todos os homens da mesma ideia são semelhantes. Como uma ideia nada tem de material, os homens que só materialmente rodeiam o homem de uma ideia em nada a modificam”.

 

Por tirada tão filosófica, o amigo Saint-Loup «dando-lhe palmadas como a um cavalo que tivesse chegado em primeiro lugar à meta rematou: “Tu és o homem mais inteligente que conheço, sabes”.»

 

Os diplomatas querem saber o que toda a gente pensa, os oportunistas concentram-se em perceber o que as pessoas fazem. Mas só os tolos jogam à roleta.

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