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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

29
Fev16

279 - Pérolas e diamantes: as sombras eternas

João Madureira

 

 

Aprendi com Sir Kenneth Sefton Boyd, o amigo do espião perfeito, que não podemos perder o que não temos, nem sentir falta do que nos é indiferente, nem podemos vender aquilo que não é nosso.

 

Bagão Félix garante que não vai voltar à política porque não gosta de “correr na pista dos interesses”. Desinteressou-se. Já não gosta das elites. Talvez porque, na sua perspetiva, pertence à “elite dos valores”. Elite que se encontra em perigo de extinção como o lince da Serra da Malcata, o lobo Ibérico ou o burro Mirandês.

 

Em Portugal, afirma Bagão Félix, “as nossas elites são as elites dos interesses”. São do género a que pertencia um bom cabo britânico de Argylls que, logo após a 2ª Guerra Mundial, quando os russos lhe ofereceram baldes de madeira cheios de caviar, em troca dos seus plum puddings, se queixou, no início do jantar ao seu oficial, que a compota lhe sabia a peixe. Pudera!

 

Contentamo-nos com existir. Existimos a duzentos à hora, mas a vida interior está parada.

 

Alberto João Jardim afirmou recentemente que Passos Coelho acha prestigiante andar debaixo das saias da sra. Merkel. E até confessou que votou sempre no PSD menos nas últimas eleições. E bem lhe custou. Magoou-o lá dentro. Pudera!

 

São Paulo, segundo Teixeira de Pascoaes, foi o intérprete de Deus, por divina graça do remorso. O remorso foi transmitido a Judas, companheiro íntimo de Jesus, tão íntimo que o traiu. Pedro, o eleito, negou-o. Pedro sobreviveu. Judas, mais humilde, enforcou-se numa figueira.

 

Teixeira de Pascoaes acha que o remorso do suposto traidor se converteu em autodestruição. Judas não pôde emendar a iniquidade, como Pedro. “Ofertou a sua vida ao grande crime e o seu nome à inconsciência malévola do mundo. Aquele beijo traidor arde ainda na sombra da noite em que prenderam Jesus.”

 

Foi também Teixeira de Pascoaes que nos avisou que nem a ilusão tem nada de ilusório, nem a realidade tem nada de real. Mais vale assim. Desta maneira ninguém se magoa.

 

Por isso é que Alberto João se atreveu a afirmar que se Pedro Passos Coelho ficar no PSD “leva outra banhada”.

 

Pesaroso, confessou que saiu de bem com o povo e mal com o partido. Acontece sempre assim.  “As sociedades secretas estavam interessadas na minha substituição.” Pois!

 

Sensibilizados, citamos-lhe São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé.” Quem não sonha está morto. O mundo, assim como está, não vale nada. É preciso estarmos conforme a nossa fantasia.

 

Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto, diz-se cansado do centralismo de uma persistente mentalidade colonial. Na sua opinião existe “uma certa intelligentsia lisboeta constituída por parolos da província que acampam na capital e que, para mostrarem serviço, têm de parecer mais centralistas.” O seu avô, que era lisboeta, queixava-se sempre disso. Rui Moreira não disse nada sobre outra certa intelligentsia portuense que também despreza o resto do Norte de Portugal.

 

Ele, montado no seu rocinante, não cede à tentação de trocar os bês pelo vês, como talvez preferissem os tais de Lisboa, para quem os autarcas cá do Norte são uns tipos vagamente barrigudos, que fumam charuto, dizem disparates e querem inaugurar um mictório público.

 

Nós, que somos o Norte do Norte, já vimos fazer isso, ou ainda melhor.

 

Mas cá continuamos a viver e a resistir, pois, como os santos, baixamos os olhos para continuarmos a suportar o sol. Não o escondemos com uma peneira.

 

Não podemos terminar por hoje sem uma pitada de cultura. Ou melhor, muito melhor, vamos falar do ministro da Cultura, João Soares. O Expresso definiu-o como europeísta, maçon, agnóstico, apaixonado por poesia e fã das forças armadas. Reparem bem: fã das forças armadas.

 

Durante os últimos anos trabalhou no quadro parlamentar ligado às questões de Defesa e a nível internacional com a OSCE, organização ligada à segurança e cooperação europeia. António Costa, olhando para o seu impressionante currículo, nomeou-o… ministro da cultura.

 

Como escreveu Teixeira de Pascoaes, as sombras parecem eternas… ao luar.

25
Fev16

Poema Infinito (291): o nível do olhar

João Madureira

 

 

As leis da vida possuem as características interiores da visibilidade, o escrúpulo das prescrições axiomáticas da relatividade, a síntese da teoria do caos. Mas nenhum escultor minucioso é capaz de tornar visível o seu interior. Quase todas as realidades ameaçam o peso expressivo dos objetos. Os exércitos matam sempre na direção mais útil. Onde ontem passavam os cavalos, atualmente circulam os tanques. A vida é agora habitada pelas marcas dos conquistadores. O clima muda mais do que as pessoas. Os imperadores desapareceram das mitologias. Os unicórnios saíram da nossa imaginação. A inteligência é engomada e domesticada pela crueldade e pela indiferença. Os filhos são mais ferozes, especializados nas leis da necessidade, nos grandes raciocínios da subserviência, no cálculo mental da repetição e da exigência. A brutalidade é mais espontânea, os espaços académicos mais denunciadores, as biografias mais gastronómicas, a utilidade mais pérfida, as obras-primas mais éticas e a mediocridade mais estética. Os cabrões são mais traiçoeiros, o tempo mais revelador e os segredos mais negros. O povo agora come muito. A sua língua e os seus costumes são comestíveis. Até muito nutritivos. Cada contribuinte é um somatório de alimentos digeridos que paga imposto pelo oxigénio que consome, pela água que gasta e mesmo pelos sonhos que tem. De nada lhe serve dizer que os sonhos não são induzidos. Os indivíduos perderam o desejo do contacto. Agora direcionam as interpretações, dirigem os movimentos eróticos, descrevem os caminhos antes de caminharem e definem a beleza antes de a sentirem. Não conseguem descrever a pessoa amada. Atualmente planeia-se tudo. Os filhos, as férias, a beleza, a tristeza, o alento, o desalento, a curiosidade, os sistemas mentais, o sucesso de uns e o insucesso de outros, o futuro, os gráficos e as tabelas da felicidade, aquilo que é agradável e desagradável, a bondade possível e a maldade necessária, aquilo que é sagrado, os vários tipos de olhares. Presentemente projetam-se as crenças, a paciência e os seus diversos tipos, a direção dos olhares, a fome e a abundância, as doenças, tudo aquilo que é sagrado e tudo aquilo que é profano, os nomes abençoados e os nomes amaldiçoados. Definem-se as letras malditas, o alinhamento das ruínas, os milagres, aquilo que é antigo e o que é moderno, a crença na ciência e a cientificidade do sobrenatural, a racionalidade dos cidadãos.  Planeia-se a vontade, a necessidade, as linhas da imaginação, o circuito dos ventos, as tempestades. Definem-se os inimigos mesmo antes de o serem.  Programa-se a confiança, a verdade, a mentira, os valores, a realidade, os dias e as noites, os acontecimentos, o futuro e até o passado. Concebem-se as técnicas de governo e as especialidades da oposição. Prevêem-se as catástrofes e quando elas teimam em não aparecer, provocam-se. Atribuem-se medalhas aplicando o método contracetivo das temperaturas. Organiza-se o universo segundo a nossa vontade, apelando à ironia dos escombros. Aplica-se a tecnologia adequada ao cansaço, às desilusões, às ilusões, às utopias, às ideologias mais radicais, à mecânica dos destinos, às frases implícitas, às rezas, aos sonhos, aos pesadelos, à vida, à morte, às crenças, à fé e ao tempo. Aperfeiçoa-se a atividade da língua, a fisionomia do deslumbramento e a fragilidade da poesia. Os acontecimentos da vida continuam a desenvolver-se debaixo do nível do nosso olhar. E ninguém se apercebe.

22
Fev16

278 - Pérolas e diamantes: a concisão da insinceridade

João Madureira

 

 

Vendo a guerra de guerrilhas terrorista, bombista e malabarista a alastrar pelas cidades da Europa e a campanha contra o Daesh a alastrar no Médio Oriente, lembro-me de um provérbio Abecásio que diz: “Se a água se incendiar, como é que se pode apagar?”

 

Os abecásios e os georgianos tiveram uma guerra civil há bem pouco tempo, de contornos um pouco sinistros. A implosão da URSS continua a fazer tremer a terra com as suas réplicas.

 

A escola e a cultura da guerra está impregnada na matriz da humanidade. Na Abecásia, quando nasce um menino, os parentes oferecem-lhe um punhal de ouro. Ao lado do punhal penduram um chifre para o vinho.

 

Os abecásios bebem o vinho pelo corno, como se fosse um copo, por isso apenas o podem pousar na mesa depois de o engorgitarem até ao fim. É o alibi perfeito para a borracheira. Depois é só pegar no punhal. O ouro exige mais ouro. A guerra mais guerra. E a borracheira, nova borracheira.

 

Olga V., no livro O Fim do Homem Soviético – um tempo de desencanto, de Svetlana Aleksievitch, conta que um dia os georgianos e os abecásios bombardearam uma jaula de macacos. À noite, os georgianos perseguiram alguém pensando que era um abecásio. Quem mais poderia ser? Feriram-no. Ele gritava, como é natural. Por seu lado, alguns abecásios descobriraram-no e logo pensaram que era um georgiano. Quem mais poderia ser? Perseguiram-no, dispararam contra ele. Quando amanheceu viram que se tratava de um macaco ferido. Tanto abecásios como georgianos declararam uma trégua e foram salvar o macaco. “Se fosse um homem matavam-no… Eles andam como zombies. Acreditam que estão a praticar o bem. Mas será possível praticar o bem com uma metralhadora ou um punhal?”

 

Isto é Kusturica em estilo puro… e duro.

 

Então vamos lá encher de novo os chifres e beber. Vai a cima e vai abaixo, vai ao centro e bota baixo.

 

Por isso é que os homens e as mulheres para semente rareiam.  

 

Na Rússia de Putin apareceram uns cartazes que foram muito além da imaginação ao poder do Maio de 68: “Vocês nem imaginam quem nós somos.” Ou este que traduz o bloqueio democrático da nossa sociedade: “Eu não votei nestes patifes, votei noutros patifes.”

 

É mesmo verdade, não existem revoluções de veludo. O campo de batalha é sempre ocupado pelos saqueadores.

 

Gritámos nas ruas que o povo é quem mais ordena. Qual o quê! Os comícios são espetáculos políticos baratos. O circo é bem mais interessante.

 

O povo nunca decide nada, são os indivíduos ilustres aqueles que dispõem as peças do xadrez político a seu belo prazer. Na partição do brinde, eles ficam constantemente com o bolo e a nós toca-nos sempre o buraco, que é ainda menos do que a fava do bolo-rei.

 

Não faz sentido mudar de governo se nós próprios não mudarmos.

 

A grande tese de Darwin não se baseia, como erradamente muitos pensam, na ideia de que são os mais fortes aqueles que triunfam. Darwin chegou à conclusão de que os vencedores da luta pela sobrevivência são os seres mais capazes de se adaptarem ao meio ambiente. São os medíocres aqueles que sobrevivem para perpetuarem a espécie.

 

O filólogo russo Sergei S. Averintsev disse que construímos as pontes sobre os rios da ignorância, mas que, entretanto, as torrentes mudaram o leito dos rios.

 

O futuro, por mais que nos custe a admitir, é absolutamente imprevisível.

 

Perguntaram um dia a Nabokov porque é que juntava os problemas de xadrez com os poemas. Respondeu que os problemas são a poesia do xadrez, pois exigem do compositor as mesmas virtudes que caraterizam toda a arte digna desse nome: originalidade, invenção, harmonia, concisão, complexidade e uma esplêndida insinceridade.

 

Para completar o ramalhete, eu acrescentar-lhe-ia a arte da política, desde logo pela sua admirável “insinceridade”.

 

O meu sonho foi idêntico ao do original escritor, pois sempre ambicionei vir a ter uma longa e excitante carreira como obscuro conservador de lepidópteros num grande museu.

 

Sei que falhei, mas foi por pouco. Mas as borboletas continuam aí à mão de semear.

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