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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

18
Fev16

Poema Infinito (290): a espera das horas

João Madureira

 

 

Nasci submisso à minha insatisfação, não sei mentir, não sei enganar, não me sei conformar, defini sair mesmo antes de entrar no paraíso. Habituei-me a descascar o tempo com a minha navalha e nele gravar a minha fúria interior. O seu canto compromete toda a eternidade. Ergo então a minha voz e canto o céu e a terra com a ventura dos rouxinóis, objetivando a cruel intemporalidade dos moinhos, os gritos que as nortadas transportam, a violência faminta da ternura e do desamparo. Adquiri em pequeno o instinto adaptativo dos bichos, sem conseguir ainda definir quando a razão se baseia no assombro, na beleza ou é apenas fruto da sua defesa legítima. O sol levanta-se sempre do mesmo lado, daquele em que eu adormeço. Os seus raios rasgam o céu e iluminam de repente a pupila dos videntes que enfeitiçam as noites. Estão abertos os portões da madrugada. O vagar toma conta das horas. Os dias gotejam dentro das ampulhetas. Aí adquirem a sua fria cadência, o azedume, a profunda nitidez de negativo fotográfico. A obstinação humana cresce por detrás de cada gesto, de cada grito. Desço por dentro de mim. Aí encontro a inocência, a nudez da claridade, o assombro, os abismos perpétuos, a noturna embriaguez do desejo, o heroísmo hiperbólico dos poetas. A vontade é cercada pela sua negação. A força transforma Sansão na sua própria inaptidão. O seu corpo é a sua própria cadeia. A sua teimosia é coisa de cabeleireiro. Mais cedo ou mais tarde, todos os muros acabam por ceder. A rebelião degrada-se. O desespero consome-se a si próprio. A paixão, despois de rasgar a própria carne, transforma-se em sereia, que é um dos resultados do pecado original. Por isso os versos de amor são salgados e os segredos são tão fingidos como o mais cândido dos corais. O tempo continua a correr depressa, cada vez mais depressa. Leva-nos em braços, embalando-nos com os seus movimentos de pasmo e adulação. Escuto-lhe a intenção, o seu tropel agoirento. A todos nos sacrifica por veneração ao seu deus desconhecido. As horas que passam são como pedras lançadas a um poço. A esperança devora-nos com a boca aberta. As palavras recusam-se a sentir os sonhos. Estas palavras são sábias. Sabem que os jardins mais bonitos estão repletos de flores ausentes. A sua semente está dentro de mim. A minha memória continua cheia de poemas. De pouco me serve. As palavras sintetizam imagens. Os versos demoram. As horas esperam pelos poetas. Os poetas esperam pelas horas. Da noite ergue-se a madrugada. Nenhum sinal celeste anuncia o próximo milagre. Os adivinhos já não conseguem adivinhar. Os anos são infinitos. As teias do tempo ensinam-nos o instinto das rotinas. Teimamos no entusiasmo de empurrar os cegos contra a claridade. O destino aperta-nos contra a exatidão da demora. Afinal somos de outro passado. Os deuses desistiram dos feiticeiros, já não acreditam nos limites dos seus encantamentos nem nos raros momentos de inspiração dos poetas. Nem no milagre de um poema. Os deuses passaram a crer em teoremas indemonstráveis, na impaciência do mar, nos versos que fulminam, no transe hipnótico das horas, nos génios que se alimentam de lume e da fantasia das bombas. O céu é agora um paraíso desértico imenso, sem proibições, suspenso no olimpo, tão inútil como um labirinto natural, onde a eternidade tem o preço do fingimento e a aceitação do sossego como arma universal.

15
Fev16

277 - Pérolas e diamantes: a tristeza e a desilusão

João Madureira

 

 

Nós somos aquilo que vivemos e também o fruto amadurecido de tudo o que descobrimos. Basta ler Elena Ferrante, a grande amiga genial, para a memória ter razão.

 

Na nossa terra as relações entre as pessoas ainda se fazem de forma plebeia. Parece que estamos todos numa festa para onde fomos convidados, ajaezados à burguesa, lutando pela comida e pela bebida, discutindo quem deve ser servido primeiro e melhor, indiferentes ao chão que cada vez fica mais sujo com o vai e vem dos empregados, enquanto fazemos brindes entre sorrisos alarves e apartes ordinários.

 

Somos plebeus bem bebidos, encostados ao ombro de quem nos acompanha, rindo com a boca escancarada, por causa dos dichotes carregados de alusões sexuais.

 

Logo após, toma conta de nós a tristeza e a desilusão.

 

Os homens carregam-se de defeitos pensando que são virtudes. Têm falta de caráter, falta de lealdade e ostentam a ingratidão.

 

A vida dá-nos um tipo de conhecimento que quase sempre chega tarde de mais.

 

Agora transformam-se os animais domésticos em filhos e os pobres em animais domésticos.

 

Já ouvi por aí dizer a casais que “até têm dois filhos”: um cão e um gato. E que os alimentam com comida biológica e dietética comprada em lojas da especialidade. Aos filhos dá-se tudo do melhor. Mesmo que isso implique sacrifícios.

 

Da única coisa que sempre gostei no meu país foi da natureza, da paisagem, sobretudo dos montes onde nasci. Isso, sim, vale a pena!

 

Diz quem o tem que é vergonhoso amar o dinheiro. Devemos amar os sonhos. Por isso é que os que o possuem vão à igreja amar o próximo como a eles mesmos e colocar uma moeda na bandeja das oferendas. Não uma nota, pois a ostentação é em si mesma um pecado. Pecar por pecar, que pequem os outros.

 

Afinal todos sonhamos. Apenas não compreendo para onde corre esta gente com tanta determinação.

 

Depois chegam as memórias. Afirmamos que estes tempos que vivemos são uma confusão. Alguns riem-se quando alguém mais atrevido, nostálgico ou brincalhão, lembra os bons velhos tempos do salazarismo.

 

É a nostalgia. Será a nostalgia? Ou será mesmo medo. Afinal muitos sonham com abandonar o país para nunca mais.

 

Era (é?) a liberdade, o caminho para o socialismo, a liberdade e a igualdade. Era a alquimia. Corremos para a frente e chegamos. Só que ninguém sabe aonde.

 

Agora é preciso pensar. Pois é. Mas parece que ninguém nos ensinou a pensar.

 

A sociedade continua a dividir-se entre os que compram e os que não podem comprar. Isto não agrada a ninguém.

 

Bem vistas as coisas, somos uns românticos.

 

Prometeram-nos um lugar ao sol. Presentemente, os experimentalistas sociais, voltaram com a palavra atrás e dizem que chegou a altura de vivermos segundo as leis de Darwin. Apenas assim haverá abundância para todos. O problema é que a escola não nos ensina dessas coisas, não ensina a viver segundo as leis do mais forte. Esta lei traz apenas a abundância para os mais capazes. Os outros, os mais “fracos”, andam agora a caminho dos centros de emprego.

 

Heinrich Heine, considerado o último poeta do romantismo, definiu bem esta desilusão neoliberal, quando escreveu: “Semeei dragões e colhi pulgas.”

 

Já se ouve dizer por aí que o melhor é mesmo não fazer nada. Nem bem, nem mal. O mais indicado é não nos metermos na política.

 

Afinal, as pessoas mais temíveis são os idealistas.

 

Temos que aprender a amar a pátria de longe. Talvez desta forma ela ganhe algum encanto.

11
Fev16

Poema Infinito (289): a luz assustada dos batismos

João Madureira

 

 

Nas habitações excêntricas as paredes são pintadas com insónias repletas de luzes e trevas, vozes, olhares e bebedeiras. Também nelas se escondem núpcias e outros fenómenos atmosféricos. Ao fundo, na zona dos quartos, as palavras ciciadas significam, para os amantes, para os enfermos ou para os agonizantes, Deus na sua expressão de sopro, de ríspido esplendor ou de joia extenuante. As mãos permanecem junto à cabeça. No escuro, o sonho levanta-se estranhamente límpido. Relâmpagos de luz metafísica queimam-nos a vista. A solidão é de novo uma palavra. Lá fora multiplicam-se as faces, as imagens com várias consciências, o alerta do fogo, as pedras convulsas. Todos trabalhamos na perspetiva aterrada do louvor, da obra ao negro, da irrealidade das estações, dos sistemas nervosos caprichosos, das plumagens das aves mais vistosas. O mês de maio salta pelas colinas como um potro inofensivo. As crianças mergulham dentro do seu próprio batismo. Os seus nomes transmudam-se. Os seus nomes pousam sobre a água benta, sobre o sal, sobre as mãos que abençoam. Os seus nomes são como sopros, tendo no seu centro as cores mais puras e selvagens. O vento arrasta as nuvens que contemplam a noite com uma atenção deslumbrada. O mundo da infância é intuitivo. A álgebra que lhe está inerente é uma qualidade de música, uma espécie de mapa astronómico. A infância bebe a água exposta como uma coisa completa, mexe no barro como Deus quando criou o homem. A sua arte baseia-se na olaria gigantesca. Deus é uma espécie de suspiro lunar, que bebe e olha tudo o que é misterioso como se não tivesse mistério nenhum. A adolescência, quando se desenvolve e multiplica, cria sempre uma espécie de arte abrupta. A maturidade, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por se servir dela. A arte transporta a melancolia humana e o instinto animal. A face de Deus é chamejante, multíplice, faustosa. A cara de Deus é o rosto da arte abstrata, a substância humana em brasa. A avó fecha a noite no quarto dos fundos. A noite vai. O dia vem. O dia abre a sua cauda de orvalho e vibra. O vento espalha as imagens pelo horizonte. O céu alarga o mundo. A luz desenha as árvores, os canteiros, as pedras, as flores, as teias que prendem as gotas de rocio. A luz assusta as flores mais bravias e lavra a primavera e dança com as raparigas. A memória devora os nomes. Os gestos doces das mãos erguem o tempo que constrói as fábulas. O dia ordena o espaço. O tempo sela os corpos e os corações. As palavras respiram a profundidade dos livros, descobrem a insondável beleza do caos, transformam os números em imagens. As bocas enchem-se de diástoles e ficam frias. Os sons correm e transportam dentro de si palavras abertas que fazem lembrar magnólias. As bocas ficam intransponíveis, os retratos embriagados, a beleza multiplica-se nas mãos que fazem estátuas de silêncio e torna-se urgente. O amor aparece e desaparece como sempre o fez. E fará. Durante a tarde, os textos mais sóbrios evaporam-se. As raízes das árvores ficam brancas. Os rostos das mulheres enchem-se de cânticos e deslumbram as catedrais e a cor vermelha das maçãs. A tarde é agora como um aquário onde alastra a insidiosa perfeição da natação dos peixes. As crianças ficam imóveis como as promessas de amor. A cidade fica espantosamente linear. As flores trocam o silêncio das cores pelo alvoroço dos perfumes. Chega a noite como se fosse uma frase escrita no fim de um poema. O amor faz-se com o odor vagaroso dos nossos corpos e com a pavorosa iluminação das letras maiúsculas. Hoje não há tempo para ejaculações precoces.

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