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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

21
Mar16

282 - Pérolas e diamantes: identidade nacional

João Madureira

 

 

Claro que cada ser humano é aquilo que é mais as circunstâncias que o rodeiam. Claro que há por aí toda a espécie de homens políticos. A erva ruim também cresce ao deus dará. O problema é que muito poucos, ou nenhuns, dos nossos políticos atuais, se conseguem colocar ao nível de homens e mulheres de Estado.

 

Nós não possuímos estadistas, temos bonecreiros. Alguns deles são especialistas na arte da fuga ou na da caça aos passarinhos. Por isso é que somos uma espécie de Estado falhado, sem elites inteligentes, sem empresários robustos, sem classe média estável, sem trabalhadores qualificados. E sem cultura.

 

Depois de Abril, a nossa classe política dirigente, curiosa, voluntariosa e com a boca cheia de palavras como igualdade, fraternidade e liberdade, começou a olhar para a Europa e para o mundo desenvolvido e, vendo os seus mentores andarem no trapézio com uma rede por baixo, começou a utilizar o trapézio, mas sem rede.

 

A situação começou a ficar preocupante. E quando as coisas ficaram mesmo feias, chamaram o FMI e outras instituições financeiras internacionais para nos prestarem ajuda. Claro que elas, generosas como são, deram-nos um presunto em troca de um reco. Começou então a nossa fina-flor política a praticar ginástica ainda com trapézio, mas definitivamente sem rede.

 

Atualmente, e bons alunos como somos, sobretudo na matemática, como o atestam diversos estudos nacionais e internacionais, todos nós, políticos, classe média, operários e restante pessoal, lançámo-nos a praticar ginástica sem sequer utilizar o trapézio. E muito menos a rede.

 

É lógico que estamos todos um pouco inquietos. Ao mínimo deslize, estatelamo-nos no chão, sem apelo nem agravo. É a lei da vida… perdão, do mercado. Mas quem não quer ser lobo não lhe deve vestir a pele. Já que os cordeiros estão definitivamente esfolados.

 

Vamos ter que acordar desse sonho obsessivo de ressuscitar tanto como Lázaro e mais do que Jesus Cristo. Pois voltar a nascer já não somos capazes, nem sequer virtualmente. A nossa forma de vida vai ter de passar a ser a realidade.

 

Quanto mais fantasiamos mais perdemos a noção de realidade. O nosso problema é que sonhamos sempre com a realidade dos outros. A nossa versão ficcional tem sempre a elegância doméstica da pobreza honesta.

 

A nossa honestidade é isso mesmo: a pelintrice domesticada.

 

Nós não almejamos voar como os pássaros. Contentamo-nos em vê-los voar. Apenas acordamos quando no sonho os jacarés voadores devoram devagarinho as aves que se concentram na árdua tarefa de cumprir com o compromisso e o costume.

 

Mas já nem a tradição é o que era.

 

Quando regressamos à realidade, já a vida despejou dentro do contentor do lixo a incredulidade e a deceção.

 

Os guardiões da cidade já não sabem para quem trabalham. E os seus descendentes são como o Barão Trepador de Italo Calvino que se revoltou contra a autoridade do pai resolvendo passar a viver no topo das árvores.

 

Nós por cá ensinamos os nossos jovens a estudar para não fazerem exames. Isso só lá mais para a frente, quando a seleção natural tiver imposto as suas leis.

 

De facto, segundo uma reportagem do Expresso, os médicos portugueses estão de novo a tratar as depressões e os doentes bipolares com eletrochoques, provocando convulsões que permitem uma espécie de reset cerebral.

 

Os psiquiatras afirmam que estes velhos métodos são eficazes e seguros. Apesar do sucesso, e da adesão ao tratamento, segundo noticia o semanário (tamanho XXL), a realidade parece estar escondida dentro dos hospitais.

 

Neste país de Abril, de Maio, e também de Novembro, a quem é que a verdade interessa?

 

E então lá vamos nós atras da procissão onde homens ocos transportam santos de pau carunchoso em cima dos ombros.

 

 

PS – Passados que são cinco meses após as eleições, Passos Coelho continua amuado por não ter conseguido formar governo. A “geringonça” esquerdista continua a “geringar” e a “caranguejola” direitista continua a rezingar. O PSD votou contra tudo. A intriga orçamental triunfou. Finalmente temos um orçamento amigo dos cães e dos gatos. Abril chegou por fim aos animais. A Direita, nas palavras de Carlos César, “ficou às portas da democracia” e a Esquerda, na minha modesta opinião, atravessou o Rubicão do ridículo. É tempo de rejubilar. Então rejubilemos.

17
Mar16

Poema Infinito (294): a necessidade do renascimento

João Madureira

 

 

 

Ando às voltas à procura das raízes da velha árvore que vive no quintal. A sua voz ortográfica tem a mesma inclinação das curvas da aldeia, a mesma santidade das zínias, a mesma lisura do manto dos santos, a mesma subtileza dos contos de Gogol. Sou um andarilho que se perturba com a estridência do cantar dos grilos durante o cio. E com a honra dos mochos. Em abril as manhãs oferecem mais ternura às andorinhas, as coisas procuram os seus nomes, os olhares das crianças tornam-se horizontais como os rios, o desconhecimento aumenta. As almas, confundidas com tanta luz, andam mais devagar. As vozes experimentam o silêncio das coisas anónimas e vadiam pelas paisagens com a sua esperança em forma de asa. As vozes estendem-se na direção das bocas. A saudade começa a entardecer. As papoilas assumem a tarde. Leio na água a angústia do voo das libélulas. As auroras consagram-se com o dom dos girassóis e deixam-se pintar por Van Gogh. A noite corrigirá as flores mais tímidas e desatentas. As aves falam com os frutos e as rãs com a água dos charcos. Os poetas continuam a demonstrar ao mundo a semelhança dos nomes. As coisas que não temos são sempre as mais bonitas. Entretemo-nos a acariciar intimidades. Os homens apanham a existência que sentem nas árvores, como se fossem frutos maduros. As crianças pronunciam os verbos como se fossem pardais doentes. Dizem escutar as cores da natureza. Aprendem assim as leis do delírio. Aprendem a desenhar o aroma das árvores e a aflição das pedras perante a sua imobilidade. Os poetas colecionam cadernos semânticos com que mais tarde imprimirão as arcas onde guardarão a essência da poesia. A luxúria deixa-se perverter pela castidade. Todo o pecado será redimido. Todo o pecado será santificado. Os nomes empobrecem a realidade. As crianças repetem as tardes e as tardes repetem as crianças. Os filólogos repetem a erudição. A erudição repele os filólogos. As meninas procuram nos velhos almanaques os versos com que animam as folhas secas que guardam nos herbanários. E cantam poemas repletos de explicações desnecessárias. E choram. E riem. E masturbam-se como se fossem espigas de milho verde ou maçãs cortadas ao meio. Sonham que estão a dormir e que são como canoas e que conseguem descobrir a olho nu as fronteiras do céu e que comem fruta sacramentada. Começaram a cair gotas de chuva puxadas pelo vento que sopra do norte. Descobri que o infinito é incolor, que é vazio de palavras e repleto de inerências, que não tem tempo, que se propaga por vagas sucessivas de analogias, que as palavras são rumores, que o nada aumenta como se fosse tudo. Lá tudo diminui até ao imenso. Então a gramática das horas deixa de fazer sentido, Deus transforma-se num completo vazio, o horizonte fica sem mar e sem azul, a eternidade fica oblíqua e inútil, os ninhos transformam-se em epifanias. Escuto então os séculos dentro das conchas, o seu silêncio iluminado e vejo as paisagens que desapareceram há milhões de anos. Agora percebo a delicadeza dos absurdos, a dor do tempo, a ideia de voltar para casa, as impressões de atordoamento, o mundo maravilhoso das exclamações, o riso encantado da infância, as insónias da adolescência, o diabo que carregamos dentro de nós, a sede mortal de Deus, o sal no batismo, os olhares que nascem com a aurora e que morrem ao entardecer. Agora entendo perfeitamente a necessidade do desejo, a sua truculência e a misteriosa necessidade de renascimento.

14
Mar16

281 - Pérolas e diamantes: a identificação de um beijo

João Madureira

 

 

Por uma curiosa coincidência, ando a ler dois livros ao mesmo tempo: São Paulo, de Teixeira de Pascoaes; e Judas, de Amos Oz. 

 

Amos Oz, escritor israelita, vive em Jerusalém, onde, na sua opinião, há muita gente que quer ser o messias e salvar o mundo. Ao DN afirmou: “Vão para lá para serem crucificados ou para crucificar os outros. É o destino da cidade desde sempre, porque não se fica indiferente a Jerusalém.”

 

De facto, ninguém consegue ficar indiferente a esta cidade milenar, goste-se ou não dela. “Ninguém se aborrece por lá.”

 

Acusam-no de ser um escritor controverso. Ele responde que escreve romances e não canções de embalar. “O papel da literatura é agitar o leitor e causar a necessidade de reexaminar ideias e crenças. Não estou a vender gelados e guloseimas, esse não é o meu negócio.”

 

Sobre as possibilidades de paz é cauteloso e pragmático: “Levou dois mil anos para acontecer esta coexistência. Daí que seja estranho acreditar que o Médio Oriente fique em paz ao fim de meio século.”

 

O seu livro coloca Judas como o fundador do cristianismo, o que é uma bonita provocação. Oz justifica esta postura com o facto de o beijo de Judas, e do pagamento de 30 dinheiros (cerca de 600 euros) a alguém que era rico, não ser lá muito convincente. Por isso, Samuel, o protagonista do romance, elabora uma versão alternativa. Judas é o mais crente em Jesus, ainda mais crente do que o próprio Cristo. E quando o beijou para o identificar, fê-lo desnecessariamente, pois todos sabiam perfeitamente quem era Jesus.

 

São Paulo também andou por Jerusalém, mas morreu, muito provavelmente, decapitado em Roma, por ordem de Nero. Paulo foi apelidado por alguns dos seus como Anticristo. E chegaram a chamar às suas igrejas sinagogas de Satã.

 

São Jerónimo dizia que é inútil tocar lira diante de um jumento.

 

Segundo Teixeira de Pascoaes, atacado violentamente, o santo reage violentamente, mas é incapaz de odiar. O seu ódio é amor defensivo. Apodera-se do apóstolo a indignação. Escreve então a célebre Epístola aos Gálatas. Afirma os princípios fundamentais do seu Credo. “Afirma e não demonstra. Nem a Verdade se demonstra: afirma-se.”

 

E foi precisamente isso o que fez Ascenso Simões na sua Epístola aos Militantes Socialistas em artigo escrito para o Ação Socialista.

 

O título, violento, diz-nos logo ao que vem: “Rangel – uma cabeça doente.”

 

O deputado socialista por Vila Real zurze no comportamento de Paulo Rangel em Bruxelas, onde tenta “limitar a capacidade do país de se afirmar nas negociações com a Comissão Europeia”.

 

Para Ascenso Simões “Rangel tem para si uma ideia só – existe quando vai para além da decência”. Acusa o deputado europeu do PSD de não estar a defender os interesses de Portugal e, o que é mais grave, ou talvez não, de “não suportar o funcionamento da democracia”.

 

Acusa-o de nos enganar com a sua pretensa prosápia não populista, pois “Rangel é um deputado da direita radical, um insuportável agente que deixa mal Portugal.”

 

Paulo, na sua Epístola aos Coríntios, a primeira conhecida, escreveu: “Uns têm fome enquanto outros estão ébrios.” Andava, também ele, a difundir a Verdade, mas, segundo Pascoaes, ela “é inútil para os ouvidos mentirosos”.

 

Da luta entre titãs resulta sempre “o esqueleto dum arcanjo caldeado nas fornalhas da Babilónia”.

 

Volto a Teixeira de Pascoaes: “A ferocidade, mesmo enlouquecida, tem a sua lógica, obedece a uma direcção intencional, interior a ela mesma e é ela em conhecimento de si mesma. A ferocidade é um ser, como a loucura. (…) A imagem que projetamos nos outros, reflete-se logo sobre nós. Não há melhor espelho. (…) Cada entrudo tem a sua máscara.”

 

E finalizo, citando outra vez o escritor de Amarante: “Trabalhamos, quase sempre, a favor dos nossos inimigos.”   

 

Espero bem que não seja este o caso.

 

 

PS - Li nos jornais que os Bombeiros Voluntários Flavienses possuem novos corpos gerentes. As renovações são sempre saudáveis. E até desejáveis. Mas se as pessoas mudaram, o cariz nitidamente político-partidário acentuou-se. Quase todos os novos eleitos são dirigentes, militantes ou simpatizantes do PS.

 

 

Não estão em causa os indivíduos, alguns dos quais são meus amigos pessoais. O escandaloso é a partidarização de uma instituição humanitária prestigiada, com largo historial, que devia ser apolítica e apartidária. Apenas solidária.

 

 

A lógica político-partidária que continua a presidir à gestão de quase todas as instituições da cidade de Chaves é asfixiante e desprestigiante. O PS queixa-se do PSD. Mas os socialistas caem na mesma tentação e praticam o mesmo credo.

 

 

Os atos ficam com quem os pratica. Bem prega Frei Tomás…

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