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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

19
Mai16

Poema Infinito (303): o vento e as sombras

João Madureira

 

 

Olho para o vento e guardo silêncio. Alguns pássaros abrigam-se nos rochedos. Outros lançam-se contra o desafio cinzento das nuvens. O dia parece interminável. Logo pela manhã, o sol irrompeu pelo flanco celeste que está à minha esquerda. Os seus raios arderam-me na pele e nos olhos. A seguir veio a chuva em sucessivas vagas formando muralhas líquidas entre mim e as montanhas. Fechei-me em casa. De repente, voltou o sol expandindo o seu orgulho. Desci até ao rio. Segui com os olhos a linha sinuosa do seu caminhar, por entre rochedos e corgos, por entre desfiladeiros e desvios. Observar o horizonte é uma espécie de vício. Fere-me a tua ausência. Sou possuído pela forma mais anódina de impaciência animal. Fujo à solidão ferindo-me na escrita de novos poemas. São cada vez mais estranhos. Nem eu os reconheço. O espelho já não repete todos os gestos. O foco do vento muda de sítio. A luz intensa do sol fica mais fluída. As sombras começam a decepar as árvores. Tudo à minha volta se transforma. A afirmação do tempo devora os olhares. A devoção interior da vida escorre pelos vidros húmidos da janela. Tenho esperança que este ano todas as árvores do pomar deem frutos. O inverno vai quente. O fumo da chaminé entra muitas vezes em casa puxado pelo vento norte. Na terra molhada cresce uma erva triste que servirá de alimento aos animais. Nas paredes da casa as fotografias antigas vigiam-nos o tempo de sono. Por vezes entram nos nossos sonhos. Durante a noite, os poemas atingem outra profundidade. Entendem o princípio da identidade. Sinto que cultivam o sentido do sacrilégio. Guardo ainda nas algibeiras o segredo do amor, a verdade inaudita dos substantivos, o rosto murmurado da verdade, o impenetrável sentido da vida. A linguagem é movida por um princípio atormentado carregado de metáforas. Sujeitamo-nos à perfeição desnecessária da divindade, à sua amargura excessiva. Todos os gestos são efémeros. Basta-me uma base mínima da verosimilhança para me sentir verdadeiro. Sinto os meus pés a transformarem-se em raízes. A minha memória está repleta de rostos fixos. Por vezes, os seus contornos adquirem movimento. O seu silêncio possui uma gramática própria. Os verbos transformam os campos, alteram o tempo, fixam o Cristo na sua cruz e de lá não o deixam sair. As rodas do tempo não param de nos humilhar. As suas virtudes são apenas abstratas. Recordam a loucura, a luminosa precisão das catedrais, a voz invisível da morte, o espírito oval das festividades, o cântico sacrílego da posse e do abandono, a mutilação inesperada das aparições, a evidência transitória dos corpos, o rebordo vazio dos poemas, as figuras humanas que desaparecem possuídas pelas sua sombras. Reconheço no interior das minhas mãos o calor do teu corpo, a sua gravidade exata. De madrugada, o vento deixou de soprar. Interpreto o meu autorretrato. Sou feito de monólogos. O meu tempo dilui-se dentro de uma caixa de madeira. A minha imagem afasta-se de mim a um ritmo relativamente estável. Ressurge então a minha máxima evidência, uma repetição de expressões comuns e usadas, revelações incompletas, gestos quotidianos, silêncios. Uma luz estranha perfura o ar. Os objetos libertam-se da sua hipnose quotidiana. Já nada é como era. Aproxima-se de mim um raciocínio luminoso. Viro-lhe as costas. A vida é uma repetição de gestos e palavras. Estou a transformar-me numa sombra.

16
Mai16

290 - Pérolas e diamantes: o défice humano

João Madureira

 

 

Já tudo nos cansa, tudo nos farta, tudo nos incomoda. Vivemos num permanente estado de espetáculo. Rejeitamos o ruído, as conversas. Vivemos numa sociedade paradoxal. Apesar de ser a sociedade da comunicação, não conseguimos criar intimidade, não comunicamos com verdade. As nossas relações são apenas simulacros. Risos e sorrisos sem nada dentro.

 

As palavras fogem-nos da boca sem destino e sem sentido.

 

Tomou conta de nós uma indefinida melancolia, um tédio persistente, um cansaço existencial.

 

Vivemos numa sociedade de espetáculo, onde o consumo é a atividade definidora da nossa suposta contemporaneidade. Consumimos mais umas calças ou uns sapatos esquecendo-nos dos que ainda estão lá em casa por estrear.

 

Vivemos uma existência nivelada pela vulgaridade. Tudo foi transformado em fait-divers: a violência doméstica, o abandono dos idosos, o roubo dos políticos e dos banqueiros. Perdemos a noção dos valores. O entretenimento é a nova ideologia, sobretudo a cultura audiovisual.

 

Por vezes, quando um qualquer ministro, ou ex-ministro ou putativo próximo ministro, aparece a proferir mais uma das suas epístolas aos néscios, brincamos a apontar o comando ao ecrã da televisão com um sorriso maroto e a mesma satisfação que tínhamos em garotos quando apontávamos a pistola de brincar ao nosso colega de brincadeira e acertávamos no alvo.

 

Somos danados para a reinação.

 

Impôs-se a ideia de que as pessoas não conseguem estar sequer um momento sem se divertir. Produziu-se uma nova realidade. Anos desta ideologia resultou na eleição de um comentador político para presidente da República.

 

Há uma quantidade infinita de informação e parece que não existe nenhuma.

 

Triunfaram os que com um mínimo de esforço conseguiram o máximo proveito. O dinheiro continua a ser a principal mola impulsionadora da nossa sociedade.

 

As rotundas, as amplas praças de pedra e as fontes luminosas são o principal contributo autárquico para o embelezamento das cidades do país.

 

No Interior proliferam os montes, os vales, as rochas e os arvoredos. Sente-se o abandono, a pavorosa serenidade do abandono. O desleixo. A decrepitude.

 

Habituaram-nos à democracia. Conversamos e fazemos um pouquinho de teatro. Barafustamos, pomo-nos a fazer de atores. E até opinamos contra isto e contra aquilo.

 

Mas na vida a sério misturamos algum óleo vegetal ao azeite ou deitamos um pouco de água no vinho ou, quando as coisas aquecem, botamos sempre uma pouco de água na fervura.

 

Dizem-nos que o querer não basta. São necessários, também, outros atributos.

 

Somos sempre assim, mas também assado.

 

O país está mal, é mais do que evidente, mas basta escutar alguns dos nossos mais distintos deputados para logo a dúvida se instalar dentro de nós.

 

A realidade atraiçoa-nos.

 

Os bancos e os banqueiros trapaceiros continuam a ditar as leis económicas e financeiras, a corromperem e a deixarem-se corromper.

 

Foi a gente que contribuiu mais para a crise que agora nos diz que a puta da crise é culpa dos outros, culpa nossa, culpa do Estado, culpa da conjuntura internacional e culpa do tempo.

 

Depois fazem cimeiras e dizem que vão resolver os problemas. Os problemas do mundo, os problemas da Europa. E os nossos problemas.

 

E nós, aflitos, acreditamos em tudo.

 

Entretanto os juros continuam a subir, os ratings a descer, os bancos a falir, o desemprego a aumentar.

 

Andamos nisto há uma eternidade.

 

Uma coisa tenho como certa: o nosso verdadeiro défice não é financeiro. É, sobretudo, humano.

12
Mai16

Poema Infinito (302): história noturna

João Madureira

 

 

Antes da maldição, os lobisomens combatiam o Diabo e os feiticeiros. Quando morriam iam para o paraíso. Eram os cães de Deus. Perseguiam os demónios e as bruxas que se armavam com açoites de ferro e vassouras feitas de rabos de cavalo. Combatiam pela fertilização dos campos. Nas refregas lutavam também as bravas mulheres do apocalipse. Todos combatiam as bruxas e os mostrengos do fim do mar. As metamorfoses eram múltiplas, mas temporárias. Os humanos transformavam-se em leopardos, hienas, tigres e jaguares. Os lobisomens eram as vítimas inocentes do destino. Um deus indisposto com as suas virtudes transformou-os em devoradores de rebanhos e crianças. Alguns escaparam ao divertimento divino e transfiguraram-se em homens-soldados que se armavam com ramos de erva-doce e bonitos caules de cevada. Nasceram assim as procissões. Os espíritos libertados entravam em êxtase ou catalepsia. As insolências, naqueles tempos, eram alegres, pois estavam sempre associadas ao sarcasmo. Só assim era possível enfrentar os inquisidores. Os homens de bem separavam as águas dos rios que atravessavam com as chicotadas dos seus bastões. Muitos dos que ainda guardavam dentro de si a alma de lobo entravam nas adegas e esvaziavam os tonéis de vinho, de hidromel e de cerveja. Ninguém percebia o sentido de tudo isso. Um deus maior decidiu então formar os seus filhos ainda dentro da barriga das mães, enquanto dormiam e depois de copularem. Seguidamente colocaram-nos sob as suas asas e fizeram-nos voar no céu como se fossem grandes aves, para combaterem os demónios e os feiticeiros. Eram estes filhos do deus maior silenciosos, melancólicos e fortes como touros. Treinavam lutando entre si em forma de garanhões brancos. Antes de se transmutarem em animais eram invadidos por um calor intenso e soletravam palavras desconhecidas de todos. Entravam assim em contacto com o mundo dos espíritos. Cavalgavam árvores arrancadas pela raiz, rodas de carroças, paletes de fornos, arados, molidas e jungos. Rangiam os dentes e lançavam fogo pelos olhos e pela boca. Do céu começaram a cair pedaços de cavalgaduras, assustando o mundo. Combatiam os inimigos entre as nuvens e provocavam tempestades. No final, os vencedores ateavam fogo aos adversários. Quando o galo cantava, os contendores dispersavam. As safras de uns ficavam a salvo, enquanto as dos outros ardiam como se fizessem parte do inferno. Os vencedores asseguravam sete anos de colheitas abundantes. Também descobriam tesouros ocultos, curavam as doenças difíceis, identificavam os demónios, os feiticeiros e as bruxas que andavam disfarçadas pelos povoados. Tocavam os tambores e as cornetas e punham o povo todo a dançar. Tinham sonhos poderosos e presságios infalíveis. Para alcançar o prado da vida montavam em pombas, falcões, cavalos, vacas, vassouras ou escanos feitos com a madeira de carvalho. Chegados aos prados, deixavam-se atrair pelo perfume das flores e dos frutos. As donzelas bailavam a dança da fertilidade. Diante delas, as mesas enchiam-se de alimentos raros. Era muito difícil fugir do lugar das delícias. Finalmente, as almas voltavam aos próprios corpos e assim se completava o ciclo dos heróis lendários. O céu enchia-se de flechas de fogo.

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