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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

10
Out16

310 - Pérolas e diamantes: detalhes alternativos

João Madureira

 

 

 

Para mal dos nossos pecados, ainda teimamos em viver nesta dicotomia entre esquerda e direita.

 

Por agora, a direita liberal diz-se alternativa à direita alternativa e até à esquerda clássica. E a esquerda clássica, e informal, por seu lado, afirma-se alternativa à direita alternativa e à esquerda alternativa clássica.

 

Sendo que a direita alternativa é hoje alternativa à antiga direita alternativa, ou não, e à esquerda lato senso, ou quase. E a esquerda alternativa é alternativa à esquerda super híper alternativa, ou não, e à direita senso lato, ou talvez sim. Ou sopas.

 

Claro que esta alternativa toda, ou toda esta alternativa, mais não é do que um exercício útil, ou inútil, na sua própria preguiça.

 

E tudo isto resulta da velha leitura apócrifa do novo evangelho sobre o velho testamento e da nova leitura interpolada do novo testamento sobre o velho evangelho.

 

Mas todos sabemos que é do novo caos que nasce a velha ordem. E também que é da nova ordem que ressuscita o velho caos. Deus habita, e hesita, entre os detalhes alternativos. Ou não.

 

Entretanto, os consumidores normais de direita e de esquerda dedicam as suas vidas a comprar e a gastar, e os consumidores liberais da esquerda e da direita alternativas, ouvem nos iPods, ou nos concertos que frequentam, a sua world music e mastigam delicadamente a sua comida biológica. 

 

Mas uma coisa nos deve preocupar, como preocupou Charles Fourier [(1772-1837), considerado por Marx e Engels  um dos pais do socialismo crítico-utópico], que encontrei por puro acaso na deliciosa leitura de Michel Houellebecq.

 

Para o filósofo francês, a grande questão social estava relacionada com a organização da produção.

 

Houellebecq, pela voz de uma das suas personagens de O mapa e o território, considera-o um guru, não um pensador, daí o seu êxito lhe vir, não da adesão intelectual a uma teoria, mas antes da incompreensão geral, associada a um inalterável otimismo, em especial no plano sexual.

 

As pessoas necessitam incrivelmente de otimismo sexual, pensa a tal personagem do escritor francês.

 

A grande questão para o intelectual francês é esta: porque é que o homem trabalha? Qual a razão de ele ocupar um determinado lugar na organização social e aceitar lá estar e cumprir a sua tarefa?

 

Os liberais pensavam, e continuam a pensar, que é pura e simplesmente pela ilusão do lucro. Mas é bem provável que a resposta seja insuficiente.

 

Por seu lado, os marxistas-leninistas nem sequer se interessaram pelo assunto. Daí o comunismo ter fracassado. E a explicação é bem simples: mal suprimiram o ferrão financeiro, as pessoas deixaram de trabalhar, limitaram-se a sabotar a sua tarefa. O absentismo passou a ser enorme.

 

Todos hoje sabemos que as sociedades ditas comunistas foram incapazes de assegurar a produção e a distribuição dos bens elementares. Uma sociedade incapaz de produzir, por exemplo papel higiénico e sabão, está condenada ao fracasso.

 

Fourier conheceu o Ancien Régime. Sabia que muito antes do aparecimento do capitalismo já haviam tido lugar pesquisas científicas, progressos técnicos e que existiam pessoas que trabalhavam duramente, por vezes muito duramente, sem serem impelidas pelo ardil do lucro, mas antes por uma coisa bem mais vaga aos olhos dos homens práticos: o amor a Deus, no caso dos monges, ou, no nosso caso, a honra da função.

 

Nos tempos que correm todos queremos ser artistas, políticos ou homens de negócios. Por isso é que outra personagem de O mapa e o território canta a plenos pulmões, com um copo de vodka a tremer-lhe nas mãos, numa das tais vernissages do people que frequenta estas liturgias: “Gostava de ser artiiiista / Para o mundo recriar / Poder ser um anarquiiiista / E de barriga pró ar!”

06
Out16

Poema Infinito (323): a fronteira do tempo

João Madureira

 

 

 

Procuro a divindade por todo o lado: nas águas límpidas do rio, nas fontes de mergulho da aldeia, na folhagem densa do azevinho, nas corolas vermelhas das rosas, nos pátios floridos, nos jardins abandonados, nas igrejas desertas, no cimo da árvore de natal, na distância dos montes, nas escolhas diárias, nas explicações da vida, no exagero do céu, nas horas de espera, no silêncio das árvores, nos ninhos abandonados, nos voos assustados dos pássaros, mas não a encontro. Caminhei no deserto. Reencontrei as palavras mágicas, a inocência envelhecida em alguns oásis e algumas palavras já confessadas. Escrevi até me doerem os dedos e atrevi-me a rasgar a razão. Algumas palavras iluminaram-se por dentro sem motivo aparente. Uma espécie de asfixia tomou conta de mim. Habituei-me a viver na penumbra dos dias. Aí encontro várias mitologias, princípios estelares, sonhos velocíssimos, línguas mortas a atravessarem o deserto dos livros esquecidos. Aprendi a interpretar o meu reflexo nos espelhos. Durante a madrugada surgem os sonhos obscenos que ameaçam retalhar os dias. A fronteira do tempo surgirá ao entardecer. Não consigo encontrar a memória. Entretenho-me a fotografar a sombra: a da minha mão esquerda e a das árvores do bosque. Penso que não é possível fotografar a sombra do mar, nem o vazio. Consigo no entanto sentir e escutar a perfeição do silêncio. Por vezes envolve-me a serenidade do sossego. A cidade cresce no meio das ruínas. A sua catástrofe foi lenta e demorada. Os homens de agora são como desertos. Vivem em permanente acidente. A sua catástrofe é preguiçosa. Nenhuma beleza se constrói sob o peso da destruição. O vento sopra de norte, as aves planam no ar morno do entardecer, o dia escoa-se na simetria dos dias que o precederam. Imagino anjos a abaterem-se uns aos outros com as suas espadas de fogo. Os homens têm receio de que os gládios flamejantes lhes façam arder os corações de lata. Deus devora a terra e o mar e armazena relâmpagos para provocar sismos instantâneos. Ninguém consegue escrever o livro desejado. As palavras já pensadas assustam-se e fogem. Nuvens passam e escondem-se lá para poente. A razão mata a alegria. O perfil das mulheres doces é triste. São como chávenas vazias. As paisagens eclipsam-se. As mãos pousam sobre as sombras ou sobre o teu rosto ausente. Lembro-me então do início da minha memória, das portas altas, dos marinheiros bêbados a dançar em roda do poste de iluminação pública, do gato, da velha, do rapaz deficiente, do tempo incerto dos berlindes, do pássaro morto na gaiola, dos passeios à beira-mar, da fala, do primeiro sentido das palavras, do novo sentido das palavras, da humidade dos lábios da primeira namorada, do riso dos colegas e da sua cumplicidade, da suscetibilidade dos sorrisos, das maçãs e das pavias caídas no chão da quinta, da linha sinuosa do primeiro destino, da secura fixa do olhar da minha avó, da espessura dos corpos, da distância dos corpos, da ausência dos corpos, dos ponteiros do primeiro relógio, dos gritos na escuridão, da linha cintilante que divide a noite da alba, da fragilidade da água, da serenidade das pétalas dos cravos, da sedução das abelhas pelo pólen, da lentidão da paciência, das cicatrizes nos joelhos, da metamorfose das palavras, da incandescência da escrita, dos oráculos incrustados nas pedras do caminho, das raízes das encruzilhadas, das primeiras palavras que se diluíram na água. A memória transformou-se em ferida enquanto serpenteio pelo meio da autoestrada.

03
Out16

309 - Pérolas e diamantes: o gabinete de ajustamento e os cromos da caderneta

João Madureira

 

 

 

O escritor de ficção científica americano Philip K. Dick escreveu, ainda o século passado ia para aí a meio, que vivíamos numa sociedade de realidades adulteradas pelos media, os Governos, as grandes empresas e os grupos religiosos e políticos. Já ninguém atinava com o que era a realidade, pois éramos bombardeados com pseudorrealidades fabricadas por pessoas muito sofisticadas que usavam vários mecanismos eletrónicos complexos.

 

Philip K. Dick não desconfiava dos seus motivos, desconfiava era do seu poder. O que parecia então uma teoria da conspiração tornou-se realidade.

 

De facto, vivemos dentro de uma democracia que revela cada vez mais aspetos de um reality show. As massas são manipuladas por gente muito sofisticada.

 

O sociólogo britânico Zygmunt Bauman, refere, no seu livro Modernidade e Ambivalência, que no mundo que nos rodeia “as certezas não passam de hipóteses, as histórias não passam de construções, as verdades são apenas estações temporárias numa estrada que avança sempre, mas nunca acaba”.

 

Segundo o sociólogo, as desigualdades continuam a aumentar de forma rápida, mas a política é condicionada pela ilusão de que essas desigualdades são inócuas. Daqui resulta o populismo, pois sem direitos sociais para todos, um número crescente de pessoas considerará, e com razão, que os direitos políticos de pouco servem. A sua utilidade tende a ser nula.

 

Philip K. Dick vaticinou que uma organização chamada “gabinete de ajustamento” iria controlar as nossas vidas de acordo com planos que nos transcendem fazendo tudo para que não haja fugas ao que já se encontra escrito no guião.

 

Previu que os partidos “republicanos e democratas” iriam escolher indivíduos irrelevantes que se limitariam a ocupar o poder durante quatro anos.

 

Por muito que nos custe, e para mal dos nossos pecados, o que era ficção científica converteu-se em realidade.

 

Dentro dessa realidade, ou ficção, encontra-se o Juiz Carlos Alexandre que diz sentir-se cercado pelo Fisco, que o investigou, e mesmo por pessoas desconhecidas que andam a perguntar pelas propriedades que possui e que o escutam e até lhe deixam manuais de espiões à porta de casa. Surpreso, mas firme, disse ao Expresso acreditar que o querem afastar de tudo. Sobretudo, pensamos nós, do processo que envolve José Sócrates.

 

O apelidado de “superjuiz”sente que existem movimentações estranhas à sua volta.

 

Um dia recebeu um recado através de uma pessoa que tinha relações com indivíduos ligados a vários casos mediáticos, do seguinte teor: “Deves meter-te com gajos do teu tamanho porque precisas do teu ordenado para comer.”

 

Disseram-lhe ainda outras coisas tais como “se não souberes colar os cromos na caderneta não terás direito a brinde”.

 

Mário Soares, a propósito da prisão de José Sócrates, escreveu: “O Juíz Carlos Alexandre que se cuide…”

 

O Juiz diz não se vergar ao dinheiro e que a sua maior preocupação está relacionada com a enorme sucessão de escândalos na área financeira e a sua escalada de grandeza.

 

Chegaram mesmo a entrar-lhe em casa. Os intrusos não roubaram nada, limitaram-se a deixar uma fotocópia do BI do seu filho e o fragmento de uma arma de fogo do seu sogro. Mexeram em alguns dossiês de trabalho de processos e abriram-lhe o computador.

 

Lá pelo meio da entrevista citou uma carta que Thomas More escreveu a Erasmos: “Se a honra fosse rentável, todos seriam honrados.”

 

O título na capa da revista era “O juiz só”.

 

É caso para dizer que mais vale só do que mal acompanhado.

 

José Sócrates, por causa das coisas, resolveu fazer queixa do juiz Carlos Alexandre invocando, para o efeito, ódio, perseguição e devassa da sua vida pessoal e política.

 

Razão tem Pacheco Pereira ao escrever que “Sócrates quer levar tudo com ele para um destino que ainda não sabemos qual é mas que nunca será brilhante”.

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