Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2016

Poema Infinito (331): o passo certo da tristeza

 

 

Os astros parecem irritados. As maçãs ficaram ainda mais ácidas do que os humanos. Já não me lembro bem da noite. No entanto as fontes continuam como os seios de Eva, entre novembro e dezembro. O frio é uma espécie de silvo que nos entra pelos ouvidos. Parece que nunca bebi vinho, os frutos são inesperados, o rio banha-se na sua profundez e o destino dorme dentro de mim. Amanhece hoje como há séculos, as aves chilreiam, o tempo revela a sua força e a minha avó canta com a sua língua quente uma canção de sorrisos. O paraíso é antigo, os pastores são clássicos e as ovelhas enchem os prados de berros aflitos. As estrelas desesperam antes de se apagarem. A simplicidade dorme na sua esteira incolor. Um pretendente a santo atesta a sua presença na última ceia. Alguém obriga a tristeza a andar num passo certo. O vento leva as rimas. O poeta aguarda que os versos pousem na sua mesa. A vida não espera vez, aparece e desaparece de forma livre. As gaivotas velam os barcos e grasnam alto como sirenes. As casas ficaram desertas, as portas continuam fechadas, as memórias cobrem as derrotas. O pão que era duro cheira a luto e a inveja. Deito-me em cima do esquecimento. As velhas imagens exigem de mim aquilo que não lhes posso dar. Cai neve e silêncio em cima dos telhados. O berço parece uma sepultura. Sinto que os beijos estão errados dentro da minha memória. Uma mulher vaga insinua ser uma alma em construção. A sua negação é interior. Parece um ninho feito numa varanda. Naquela direção chamuscavam-se os recos, faziam-se as principais distinções, atravessava-se a quietude dos ritos e das fogueiras, perdiam-se os olhares nos rastos dos cometas, rendiam-se as primeiras honras às letras, os rapazes mais distintos exibiam as polainas e chupavam alarvemente os primeiros cigarros. Cresciam entre o dever e a obrigação, revoltavam-se contra a pacatez forçosa, arranjavam as suas próprias sombras, diziam sofrer de várias necessidades, embebiam em aguardente a lucidez dos gládios e rezavam para que as suas chagas fossem curáveis. É lá ao longe onde sempre se perdem as pessoas. Diziam que as lembranças mais antigas eram agudas e intoleráveis. Ficavam então silenciosos dentro da sua quietude para não serem consumidos pela ardência dos absurdos. Ensinaram-lhes que a morte os completava e que pelas janelas saía o resto do fumo. Tinham visões onde a memória adquiria uma fosforescência exausta, onde as mãos eram vagas, onde os caminhos iam dar sempre a uma ilha repleta de sopros e cheiros longos, onde os ventos batiam no inverno, onde as bocas dos seres humanos adquiriam uma humidade violenta e os beijos cresciam e rebentavam dentro da boca dos ingénuos. Os filhos nasciam já antigos, por vezes mais antigos do que os pais. As mães, pesarosas, diluíam a sua tristeza num caldo de lágrimas e deslocavam no escuro a sua sexualidade condenada. Enchiam-se de saudade, carregavam os seus olhares com o voo das andorinhas, batiam a roupa nos lavadoiros e atiravam o verde da esperança para longe. Não gostavam de ser tentadas. O amor da mocidade ardia mais rápido do que uma palha. A sua infância era feita de relâmpagos. Ninguém tocava no amor. Os anjos tingiam tudo de branco e transformavam o silêncio em vácuo. As pessoas engoliam em falso as badaladas fúnebres dos sinos das igrejas e rezavam para que os seus mortos se transformassem em nuvens e fossem desenhar o céu. As aves começaram então a gritar quando se viram refletidas no escuro espelho do rio. Atingiu-se então o ponto de não retorno.


publicado por João Madureira às 07:15
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