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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Jan17

326 - Pérolas e diamantes: esquerda, direita, em frente marche (I)

João Madureira

 

 

 

Na nota introdutória do seu livro Da Direita à Esquerda, António Araújo coloca a seguinte questão: “Além de estúpido, caçar Pokémons é de esquerda ou de direita?” Provavelmente a pergunta não tem resposta, pois a maior parte das coisas que fazemos na vida não se conseguem enquadrar dentro desta dicotomia.

 

A obra defende que “as práticas, os hábitos e os consumos socioculturais da esquerda e da direita se encontram cada vez mais próximos, obedecendo a uma lógica de espetáculo que tudo absorve e corrompe”.

 

A seu ver, a grande clivagem que persiste encontra-se naquilo que divide elites e não elites, pois a maioria das polémicas que subsistem na esfera pública situam-se, “hoje como ontem, num âmbito elitista, urbano e sofisticado. O povo mantém-se sensatamente afastado dessas quezílias”.

 

Do que conseguiu apurar, a grande diferença continua a persistir, à esquerda, no seu apego a uma noção de conflito, ao passo que a direita prefere uma abordagem mais consensual e de compromisso com a realidade. No entanto, observa-se que, atualmente, esse padrão está em vias de mudança, “sendo ainda cedo para avançar prognósticos, sobretudo num tempo tão incerto e volátil”.

 

Em Portugal, depois do 25 de Abril, existiram alguns traços distintivos que não me foram estranhos e que rememorei durante a leitura do livro.

 

Em 1986, Diogo Freitas do Amaral, trouxe para a ribalta alguns traços distintivos do seu (da direita, claro está, pois o homem já virou à esquerda há alguns anos) cariz classista. Na sua campanha presidencial popularizou a moda dos sobretudos verdes de loden, de inspiração austríaca e protagonizou uma batalha eleitoral à americana, de grande espetacularidade, que incluiu até chapéus de palhinha… feitos de plástico. 

 

Nos tempos de Cavaco Silva, a direita começou a exibir os seus Rolls-Royce pelas avenidas de Lisboa, a divertir-se no Bananas e a recuperar os solares e as casas de família, graças aos fundos europeus vocacionados para o denominado turismo rural, o agroturismo e o turismo de habitação.

 

Apareceu então o arquiteto Tomás Taveira, impondo a sua visão pós-moderna, muito peculiar, reinventando a tradição, ao reunir vários arquétipos ancestrais da portugalidade: a guitarra portuguesa no edifício-sede do Banco Nacional Ultramarino (1989) e as famigeradas Torres das Amoreiras (1985), que pretendiam evocar os elmos de guerreiros medievais, relembrando castelos de reis e princesas.

 

Nos anos 80 surgiram na cena musical os Heróis do Mar, numa onda de revivalismo que, mais tarde, havia de desembocar no projeto Madredeus, ou nos Sétima Legião, onde pontuavam nomes como Rui Pregal da Cunha, Pedro Ayres Magalhães, Carlos Maria Trindade e Rodrigo Leão.

 

O autor das letras das canções dos Madredeus era Francisco Ribeiro Menezes, que integrava as vozes do coro. Mais tarde enveredou pela carreira diplomática, chegando a exercer funções como chefe de gabinete do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

 

As voltas que o mundo dá.

 

À esquerda, aparece Rui Veloso e Carlos Tê com o álbum Ar de Rock, rompendo, talvez sem querer, por completo, com a tradição baladeira e de cantautores dos anos 60 e do imediato pós-25 de Abril.

 

À direita, emerge o Miguel Esteves Cardoso, o famoso MEC, exibindo ao mundo português adereços rétro: o simbólico papillon no colarinho da camisa, óculos redondos, uma língua irrequieta sempre pronta a lamber os beiços secos e um Volkswagen carocha preto. Afirmava-se na altura monárquico e estudioso, para não dizer fã, da Saudade, do Sebastianismo e do Integralismo Lusitano.

 

Ou seja, a década de 80 foi marcada por uma espécie de neorromantismo muito pop, ou um neoconservadorismo muito kitsh, que, sendo diferentes na génese, convergiam na redescoberta e na hipervalorização do mundo rural de classe, com os seus solares e casas de família, e na arquitetura com materiais naturais.  

 

Mais tarde, o revivalismo conservador foi apanhado por uma ideia histriónica de recuperação de gosto duvidoso, denominado entre nós como português suave, baseado em condomínios privados apelidados de villas (mas com dois ll, para evitar confusões com a pequena burguesia de província), e atividades como o hipismo, a caça, as touradas e o turismo de habitação.

 

Passados 10 anos, dois após a fundação d’O Independente aparece a revista Kapa.

 

Tenho de reconhecer que foram os grandes responsáveis pelo meu desvio de direita.

 

Eu pecador me confesso.

 

26
Jan17

Poema Infinito (339): fecundação

João Madureira

 

 

Tento resolver a minha solidão. Ela está fria. É uma caixa vazia de certezas. Cavo fundo a terra até me encontrar. Surge a sede antes da fonte. O deserto não está longe. Entre tu e eu foi construída uma ponte de palavras. A vida continua a ser um rio que termina num abismo. Num desenho sólido. Vivo agarrado à terra como os primeiros filhos de Adão e Eva. Sou um peregrino sem destino que se benze nos cruzeiros das aldeias. Começa o movimento constante da minha angústia. Sabe-me a vida pelo seu movimento. Acaricio infatigavelmente o teu rosto redondo com a minha serena ironia. Não sei ser de outra maneira. O sol fecunda o infinito. As flores tingem-se de saudade e de ineficácia. Recolhemo-nos no regaço do tempo. Ao contrário dos outros, nós acrescentamos pétalas aos malmequeres. Amanhece o sossego, os poetas cantam a luz e a sombra dos sentimentos. Os maus profetas regressam do seu degredo iluminados pelo seu próprio medo. Ninguém lhe iluminou as profecias. A invisibilidade vai cobrindo os dias. A nudez sai de dentro do seu manto sagrado enfaixada na sua própria luz. A doçura do teu corpo sabe a sal. Anima-me essa estranha inquietação em que te moves. Apetece-me a aventura na paisagem do teu corpo e tatear os seus caminhos. O pomar já ganhou a primavera, a poesia não exige mais sabor. O manto azul do céu faz que cobre a nossa nudez. Dormimos encostados à nossa infância. Desde cedo que expulsei as fadas e as bruxas dos meus sonhos. Ainda é a minha avó quem me vela o sono. Diz que respiro docemente, mas que soluço quando se debruça sobre mim. Ela gosta de me falar dos lábios doces das amoras, do sabor da polpa das pavias amadurecidas pelo sol, da calma minuciosa das sementes dos cereais que nos trazem o futuro, do cheiro a terra lavrada, dos palheiros que guardam dentro de si o tempo, da claridade da adolescência, dos momentos que se transformam em imagens dentro de nós, dos acordes discretos da inquietação, do canto ao desafio dos rouxinóis, da beleza instintiva dos animais, da luz cruel do desencanto, das noites enfeitiçadas, dos portões que guardam a madrugada, do vagar do tempo, da nitidez funda das horas, da sinceridade transformada em gestos, do direito avesso da verdade, da nua claridade do amor, dos amores perdidos, da sedução, da embriaguez noturna da sedução, dos mitos, dos assombros, do pecado original, da solidão dos mares, da fraternidade insana da pobreza, da corrida interminável do tempo, dos jogos divinos, dos sonhos amortalhados, dos sonhos dentro dos sonhos, dos cânticos carregados de coragem, do sudário que existe nos versos mais densos dos poetas, das palavras que se recusam a ser flores, dos versos que se negam a ser cantados, da beleza rara das certezas, da precisão límpida das orações, dos poemas repletos de memórias, das memórias repletas de poemas, do silêncio hostil do passado, dos raros momentos de inspiração, da paciência infinita da terra, do trilho caótico dos meteoros, do labirinto natural da eternidade, da calma que demora em chegar, da oposição natural das margens de um rio, da parábola dos vimes e da progressiva adição do sofrimento. Depois acende a candeia do seu sorriso e de dentro do seu peito brota a ternura de quem gerou filhos abençoados pelo santo sacramento do silêncio. A sua penitência adquire a forma universal da beleza. Sei agora que foi Eva quem fecundou o infinito.

23
Jan17

325 - Pérolas e diamantes: sobre um monólogo de Chernobyl, pensando em Almaraz

João Madureira

 

 

 

Num livro de Svetlana Alexievich um homem foge do mundo para passar a viver no paraíso, onde não há pessoas, apenas animais. Pássaros e outros animais. Esqueceu-se da sua própria vida. Pensa que as pessoas são injustas porque o Senhor é imensamente paciente e misericordioso.

 

E porquê?, pergunta ele a si próprio e logo respondendo: “O homem não pode ser feliz. Não deve. O Senhor viu Adão solitário e deu-lhe Eva. Para a felicidade, não para o pecado. Mas o homem não consegue ser feliz. Eu, por exemplo, não gosto do crepúsculo. Desta transição, como agora… Da luz para a noite… Penso, mas não consigo compreender onde estive antes…”

 

Para ele, o homem é requintado só no mal, mas simples e acessível nas palavras cândidas do amor.

 

Depois de fugir do mundo, nos primeiros tempos vagueou pelas estações ferroviárias. Gostava delas porque estavam cheias de gente. Mas ele estava só.

 

Como carregava o pecado, foi para Chernobyl. Passou-lhe a ser indiferente viver ou não viver, pois a vida humana é como uma flor: “Desabrocha, mirra e acaba no fogo.”

 

Passou a gostar de pensar. Em Chernobyl pode-se morrer tanto do ataque de um animal como do frio. E também se pode morrer de pensar.

 

Por lá não se vê um ser humano em dezenas de quilómetros. Expulsa o Demónio pelo jejum e pela oração. O jejum é para a carne, a oração para a alma. Confessa que nunca se sente só. “Um crente não pode ser solitário.”

 

Passa pelas aldeias. Nos primeiros tempos encontrava massa, farinha, óleo vegetal e enlatados que as pessoas deixaram no momento das evacuações.

 

Agora procura os túmulos, pois as pessoas deixam comida e bebida aos mortos. “Mas eles não precisam disso…”

 

E não se ressentem com ele…

 

Apesar da radioatividade, nos campos cresce centeio selvagem e na floresta há bagas e cogumelos.

 

Ali, em Chernobyl, está à vontade. E lê muito. Por ali é fácil encontrar livros. Não se encontram jarros de barro, garfos ou colheres, mas livros arranjam-se sem dificuldade.

 

E lembra-se de algumas ideias que leu num de que não recorda o título nem o nome do autor. Mas memorizou a ideia: “O mal em si não é uma substância, mas a privação do bem, assim como a escuridão não é outra coisa senão a ausência da luz.”

 

Ali sozinho, pensa na morte. Passou a gostar de pensar e o silêncio favorece a preparação.

 

Um dia expulsou da escola uma loba com os seus dois filhos que lá viviam.

 

“Pergunta: Será verdadeiro o mundo consubstanciado na palavra? A palavra está entre o homem e a alma. Pois é…”

 

Sente mais próximo de si os pássaros, as árvores e as formigas. Dantes não conhecia tais sentimentos.

 

“O homem é aterrorizador… E estranho…”

 

Ali não lhe apetece matar ninguém. Arranjou uma cana de pesca e costuma ir pescar. Pois é…

 

Mas não dispara contra os animais.

 

O seu herói preferido é Mychkin que disse: “Como é possível ver uma árvore e não estar feliz?” Pois é…

 

Gosta de pensar. “Mas o homem queixa-se mais do que pensa…”

 

“Para que serve perscrutar o mal? O mal também não é a física!”

 

Tem medo do homem. Mas pretende sempre encontrá-lo. “Um bom homem. Pois é…”

 

Em Chernobyl ou vivem os bandidos, que se escondem, ou alguém como ele. Um mártir.

 

“O meu nome? Não tenho passaporte. A polícia levou-mo… Espancou-me: «Porque andas a vaguear?» «Não ando a vaguear; ando-me a arrepender.» Espancaram-me ainda mais. Bateram-me na cabeça… Escreva então: servo de Deus, Nikolai… Agora, um homem livre.”

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