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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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27
Fev17

330 - Pérolas e diamantes: a mão herética do deus António Lobo Antunes

João Madureira

 

 

 

Deixem que vos confesse uma coisa: eu aprecio bem mais as entrevistas do que os romances de António Lobo Antunes. Pode parecer uma confissão herética, mas é verdadeira. Ele, na sua imensa modéstia, diz que escreve com a mão de Deus. E que os seus romances (?) são polifónicos. A mim soam-me mais como música estocástica de Iánnis Xenákis. A sua dita polifonia é, por assim dizer, uma dissonância permanente que nos leva quase até ao absurdo e à incompreensão.

 

Talvez por isso, como referiu ao Expresso, não é fácil viver com ele pois parece estar sempre em guerra civil. Não revelou foi contra quem ou a favor de quê.

 

Às vezes pensa, e bem, creio eu, como Verdi, que com os seus 82 anos, quando lhe perguntaram porque não escrevia a sua autobiografia, respondeu: “Já levei 60 anos a maçar as pessoas com a minha música e agora vou maçá-las com a minha escrita?”

 

Além disso considera que todos os livros são autobiográficos. Que vida tão emaranhada deve ter experimentado o senhor. Que coisa sem sentido.

 

Diz que quando escreveu as cartas de guerra à sua namorada “era bonito que se fartava. Agora é um monstro”. Provavelmente, na sua simplicidade introspetiva, um monstro das letras.

 

Conheceu o pugilista Mike Tyson, que considera “inteligente que se farta”, na Public Library de Nova Iorque. O que foi um dos momentos altos da sua vida, pois o nosso eterno candidato ao Nobel é um apaixonado pelo boxe. Quem diria! Até pensou escrever um livro sobre pugilismo.

 

O boxe, para Lobo Antunes, é muito bonito. O seu pai organizava combates entre os seus filhos na casa de banho, com a porta fechada à chave para a mãe não entrar. Eram miúdos.

 

Diz que espera escrever apenas mais dois livros e acabou-se, pois tem “medo de escrever porcarias...  De não ter sentido crítico, pois os escritores que vivem muito tempo começam a fazer porcarias e não percebem”. O que não é, definitivamente, o seu caso. Nem pouco mais ou menos.

 

O nosso estimado romancista foi muito precoce. Segundo diz, e segundo a sua mãe contava, aos dois anos já falava espanhol. Aos 13 anos o seu pai deu-lhe uma segunda edição de “Mort a Crédit”, de Céline, e ficou deslumbrado.

 

Quando o filho disse ao pai que queria ser escritor, ele logo o avisou: “Isso não é boa ideia, estuda, namora. Porque se fores escritor não podes fazer mais nada.”

 

O António não queria ser António, que era o nome do avô, mas sim Sérgio. Ele até gostava muito do avô, mas embirrava com o nome. O avô levava-o aos museus a Itália e dava-lhe “explicações enormíssimas em frente de cada quadro. Depois havia os escarradores.” Ele “só gostava dos escarradores. Queria lá saber dos quadros! Velasquez? Meninas? Queria lá saber”.

 

Diz que acredita em Deus, mas que está sempre zangado com ele. O que não admira, pois continua a estar zangado com o falecido José Saramago. Nunca teve nada contra ele, diz ele. Mas o Saramago tinha-lhe “um pó, uma inveja”. Nunca percebeu porquê.

 

Ele, o Saramago, na opinião do António, “achava-se mesmo um grande escritor”. Ele, o António, que gostaria de se chamar Sérgio, “sempre achou aquilo (os livros do José, especialmente o “Memorial de Convento”) “uma merda”. O Saramago, além de escritor de merda, na opinião do António, possuiu sempre o defeito de ter “mulheres de direita, enquanto se afirmava comunista”. E cita Juan Marsé para arrasar Saramago: “Non es un escritor es um predicador.”

 

Os bons escritores, diz o António, devem ser humildes.

 

Por isso é que Lobo Antunes chegou a fazer um teste de QI e descobriu que tinha 187.

 

A sua mãe costumava dizer: “Não há nada mais estúpido do que um homem inteligente”. Na opinião do seu filho tem toda a razão.

 

Terminamos com um seu desabafo: “A quantidade de coisas estúpidas que fiz ao longo da vida…”

23
Fev17

Poema Infinito (343): O alongamento da solidão

João Madureira

 

 

Toca o alarme do silêncio dentro de mim e então abre-se o amanhecer. As palavras são como brinquedos. No fundo do quintal nasce agora outro saber. O tempo voltou a colocar o sol perto do fundo da nossa casa. Agora já só falta inventar um novo rio. O avô voltou a falar: O que é que fizeram aos pardais, parece que voam parados. As pessoas somam-se às distâncias e tanto aparecem como desaparecem. O pai passeia. A mãe faz croché. Um menino travesso vara o corpo do sapo com um pau. Faz de conta que sabe acrescentar uma graça infantil para impressionar as meninas fortes e os meninos medricas. As irmãs infantilizam as formigas fazendo-as perder o carreiro. O meu melhor amigo disse-me que o seu pai morava no fim de um lugar, sem saber bem onde. É filho de uma lacuna de gente. Por isso aperta os bichos, morde as andorinhas e sobe às árvores para apalpar os frutos e tardar o amanhecer. Por vezes aparecia na aldeia um homem com uma carroça que parecia um baú e tirava de lá de dentro caramelos, bolachas, pentes, argolas, brincos, laços para as meninas, espelhos redondos, canivetes, lenços brancos, saias amarelas, espingardas de pau, apitos de barro e muitas coisas para a saúde e para a santidade. As mulheres compravam aquilo que podiam e riam-se muito enquanto levantavam ligeiramente as saias. A minha avó abastecia-se de solidão. Os sentimentos, de tão longínquos, pareciam residir perto. Eu desenhava a esperança com um lápis de lousa. E desenhava também os meninos em planos expansivos e o meu avô a dar amoras. A minha avó dizia que os seus filhos teriam alcançado melhor sorte se tivessem nascido de uma árvore. O meu avô alongava a solidão. Ao fim da tarde, eu olhava para os fundos do quintal por onde a minha mãe costumava aparecer. Quando o dia envelhecia, entrávamos para dentro de casa e púnhamo-nos a comer as batatas, ou os chícharros, com couves e carne de porco cozida. Era nessa altura que os lagartos entravam nas folhas caídas no chão para adormecerem. Na hora de dormir, a minha avó construía brinquedos com as palavras e deixava-os dentro da minha cabeça. Nos dias de festa subíamos ao coreto da aldeia e apregoávamos bondade. Aprendi a ser autodidata das proclamações. Nos dias de neblina, as minhas irmãs perdiam o rasto das formigas e começavam a chorar. A mim pingavam-me gotas frias no coração. A tristeza é uma coisa fácil. Sentia-me crescer como um passarinho. Sentia também a sua insegurança. Aprendi com eles a encolher-me. De manhã, desciam pelos lameiros as brisas e as borboletas exibiam a estultícia dos seus voos atrapalhados. Também aprendi a subir aos telhados para esperar pela lua prateada. A mãe ralhava-me. O avô ralhava-me. O pai ralhava-me. A avó ralhava-me. Eu dizia-lhes que não era motivo para tanto. Muitos dos meus colegas, durante a noite, disfarçavam-se de insetos e desapareciam. Alguns ficavam dentro do mato até de manhã. E luziam como pirilampos. As plantas cresciam junto dos seus corpos. Agora chove toda a noite. O rio engorda, como se fosse um menino comilão. O sol ilumina as águas. O perfume das giestas continua a entontecer-me. Algumas árvores ainda me reconhecem. Olho para elas e encosto-me ao azul da tarde para descansar. O voo dos patos prolonga o meu olhar. Acompanho-os enquanto posso. A família habita agora a minha memória íngreme. Apesar de ainda fabricar brinquedos com palavras, a minha alegria perdeu a voz.

20
Fev17

329 - Pérolas e diamantes: Donald Trump é kitsch

João Madureira

 

 

Oiço Marine Le Pen falar e tenho uma sensação de déjà vu. A senhora, dizem, é de extrema-direita. É contra o euro, a união europeia e a NATO. Exatamente o mesmo discurso do PCP e do BE em Portugal que, dizem, é a extrema-esquerda portuguesa, partindo do princípio, claro está, de que o PS é a esquerda, ou é de esquerda, ou é socialista, já que partido é-o de facto, com as vantagens que todos lhe reconhecemos, sobretudo para os seus dirigentes e apaniguados

 

Ao que tudo indica estão-se a trocar os nomes e os níveis semânticos mais populares da política. A esquerda parece uma nova direita e a direita encaminha-se, já não para o centro, mas diretamente para a esquerda. Talvez tenha sido por isso que, nos EUA, Donald Trump conquistou os votos dos operários da indústria do rust belt (cintura da ferrugem). Também ele é contra a NATO, a União Europeia e o euro. Ou seja, defende os mesmos princípios teóricos de Jerónimo de Sousa, Catarina Martins, Marine Le Pen e de Nigel Farage.

 

Em França, o direitista Fillon, foi apanhado por, enquanto deputado, ter criado um emprego fictício para a mulher, Penelope Fillon, e para dois dos filhos, o que lhes permitiu receber centenas de milhares de euros de fundos parlamentares. O centrista Emmanuel Macron foi quem mais beneficiou com a escandaleira. Dizem as sondagens que pode ser ele o próximo presidente francês, isto se a putativa “frente republicana” se unir contra a extrema-direita de Le Pen.

 

Numa coisa Emmanuel tem razão: “Alguns políticos fingem falar em nome do povo, mas são apenas ventríloquos.”

 

Também Angela Merkel se vê atrapalhada nas sondagens, já que pela primeira vez uma delas colocou a chanceler alemã atrás do social-democrata Martin Schulz. 

 

É tudo uma questão de imparidades. Por causa delas, os bancos registam todos os anos centenas de milhões de euros de perdas em créditos concedidos. Assumem agora que essas dívidas são incobráveis. A destruição de valor é gigantesca. Desde 2008, ultrapassa os 40 mil milhões de euros. Uns não pagam porque foram à falência, outros safam-se porque as garantias que deram não são executáveis. 

 

Joe Berardo, esse génio dos negócios e altruísta da arte, por exemplo, pediu mil milhões de euros à Caixa, ao BES e ao BCP para comprar ações. Deu na altura como garantia outras ações que valiam, dizem os analistas financeiros, cerca de 5 euros. A dívida de milhões da Ongoing aos bancos já citados foi dada também como praticamente perdida. A Lone Star, candidata à compra do Novo Banco, também já veio dizer que o crédito concedido ao construtor civil José Guilherme (o tal senhor que ofereceu um presente de 14 milhões de euros a Ricardo Salgado) está perdido.

 

Como se isto fosse pouco caiu-nos em cima a eleição do inenarrável Trump. O escritor Paul Auster considera que, por causa disso, o futuro da América está em risco. E põe o dedo na ferida: “Apesar das belezas da Constituição Americana, os EUA é um país fundado em dois enormes crimes: o genocídio dos indígenas e a escravatura durante 350 anos. É obsceno!”

 

No seu país, diz Auster, “ninguém quer saber de intelectuais ou escritores. As únicas figuras públicas que as pessoas gostam de ouvir são os atores de cinema”, e, digo eu, os demagogos do kitsch.

 

Eu explico. Kitsch, é uma espécie de ideia artística que envolve a falsificação da verdadeira arte, ou, então, o seu rebaixamento sensacionalista. Pretende tornar aceitável tudo aquilo que, na existência humana, é intolerável e se esconde atrás de uma fachada de sentimentalismo barato, beleza enganadora e virtude aparente.

 

Kitsch, defende Javier Cercas, “é uma mentira narcisista que esconde a verdade do horror e da morte”. Da mesma forma que “o kitsch estético é uma mentira estética – uma arte que, na realidade, é uma arte falsa –, o kitsch histórico é uma mentira histórica – uma história que, na realidade, é uma falsa história.”

 

Trump pertence ao kitsch político, porque é um embuste político, uma realidade adulterada e fabricada, uma mentira estética, uma história falsa.

 

Tudo isso é Trump. Donald Trump é tudo isso e, se calhar, até é um pouco mais.

 

PS - Peço que, se vos for possível, me desculpem estes apartes aparentemente insubstanciais. Mas eu não me pretendo esconder atrás dessa perspetiva cobardolas de não escrever o que me sai da alma, para, em troca, escrevinhar aquilo que acham que devo escrever para agradar aos críticos, aos falsos amigos e aos néscios oficiosos.

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