Senhora das Brotas - Chaves (I)

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A propósito do seu último livro “Os Pobres”, a socióloga Maria Filomena Mónica deu uma interessante entrevista ao jornal de Negócios onde defende que em Portugal existe uma espécie de “apartheid” social, pois a composição da sociedade portuguesa é de tal forma desigual, e essa desigualdade é já tão antiga, que surge aos nossos olhos como uma coisa normal e banal.
Esta sua preocupação com a pobreza teve início logo na sua adolescência, quando, na companhia de freiras, foi levada a um bairro de lata em Lisboa para poder ver os pobres no seu meio e dessa forma iniciar o seu treino para exercer a caridade. Disseram-lhe que exercendo a caridade rapidamente iria para o céu. MFN não considerou que a sua viagem para o céu justificasse aquilo que viu.
Na sua perspetiva, “a caridosa burguesia tradicional cultivou a pobreza dos outros com um carinho enternecedor. Nunca lhe passou pela cabeça que talvez fosse possível acabar com ela ou, pelo menos, tratar muito seriamente disso”.
No seu livro pode ler-se este belo naco de prosa: “Cultivavam-se os pobrezinhos, regavam-se com bocadinhos de pão com conduto, com pequenas moedas e cultivava-se sobretudo a sua pobreza. Havia a comida dos pobres, as visitas dos pobres e a sexta-feira que era dia dos pobres.”
Esta crítica ao antigamente, também se estende até aos dias de hoje. Reconhece que as redes de solidariedade social, muitas delas com presença de pessoas católicas, até realizam um bom trabalho. Mas a ideia que lhe está por trás é que os ricos estão por cima dos pobres.
De facto, estas redes apoiam mas não estimulam as pessoas a sair da pobreza. Habituam-nas a pensar que a pobreza é uma coisa normal. Sim, existem pobres e qual é o problema? O problema é que não devia haver. Ou pelo menos não deviam existir tantos. Propaga-se então a ideia de que não são iguais a nós, de que não têm as mesmas necessidades, de que se satisfazem com menos. Esse é o carimbo da desigualdade. E a desigualdade ali fica como uma espécie de barreira intransponível.
De um lado os ricos, que necessitam das melhores coisas. Do outro lado, eles, que são pobres, só necessitam do básico e servido em pequenas doses para não oparem.
Desde cedo que MFN abandonou a religião. Ou melhor, foi expulsa da Igreja por um padre. Foi um drama para a sua mãe, que era dirigente da Ação Católica Portuguesa.
Revoltava-a a visão da pobreza por parte da Igreja, onde os pobres estavam sempre a mendigar a ajuda dos ricos, e onde estes, sob o olhar majestático de Deus, se viam obrigados a exercer a caridade.
Para ela, isto era um sinal de que a Igreja não tinha compaixão por aqueles que mais sofriam e dava boa consciência aos ricos, que tricotavam três casacos de bebé para dar no Natal e iam para casa. “Eu não conseguia fazer isso.”
Não se resignava à glorificação do sofrimento. Os pobres eram resignados e aceitavam a doutrina de Cristo, pensando que “estavam ali para serem pobres e não havia nada a fazer. Pessoalmente, eu não quero ser resignada, não queria e não quero sê-lo no futuro”.
Na sua infância, a socióloga conviveu com pessoas das boas e católicas famílias portuguesas. Até das mais antigas. Considera no entanto que, apesar da sua bondade, não lhes passava pela cabeça que a desigualdade social é um crime. Já os seus colegas universitários, que eram todos do MES (Movimento de Esquerda Socialista), achavam que os pobres iriam desaparecer de um dia para o outro. Ela também achava, mas depois verificou que não era assim.
Eles aí permanecem com todo o seu esplendor. Apesar disso, pensa que com todas as críticas que se possam fazer à sociedade portuguesa, “não há comparação entre aquilo que se vive hoje e o que se vivia há 50 anos. Portugal melhorou bastante e as pessoas, às vezes, esquecem-se. A tendência é para glorificar o passado. O passado, para algumas pessoas, tornou-se um mito. Dantes é que era bom. Dantes, mas quando?! Só se for no século XII”.
Apesar de pertencer à secção dos portugueses ricos, Maria Filomena Mónica não se deixa apanhar na teia do ceticismo. É que os ricos são todos iguais, mas há os que são mais iguais do que outros.
Oiçamos a sua opinião sobre a União Europeia: “Não posso dar-me ao luxo de ser uma eurocética. Porque não pertenço a um país rico. Se pertencesse à Escandinávia, seria eurocética.”



Sinto a minha boca como uma planta e nela reencontro um novo sentido para as palavras. A vida lateja entre a humidade de todos os teus lábios. Percorro o deserto do tempo. Os frutos caem ao chão de maduros. A escrita afugenta o medo. O vento parou no interstício dos nossos dedos. O olhar simplifica a distância dos corpos. Uma luz fria brilha dentro dos abismos, ali mesmo onde termina a noite e nasce a alba. As flores sentem a serenidade das suas pétalas, a tentação do pólen, o rumor alquímico da seiva, a diluição da água nas raízes da sua planta. Nos seus estames cintilam os astros e os poemas. Envelheço mais eu do que os textos. Sinto a ferrugem a penetrar-me os ossos. Nada permanece intacto depois da nossa passagem. Os fogos irrompem pela epiderme das montanhas cansadas. O coração dos rios torna-se frio como a noite. As mãos folheiam as insónias. Nós escutamos os murmúrios do tempo. Crescem os líquenes nos carvalhos. São uma outra forma dos presságios se manifestarem. Pareces-me uma açucena abraçada pela sua própria melancolia envolta nos sonhos premonitórios das incertezas. Os meus olhos foram tomados pela insónia letárgica dos livros, pelo deslocamento da inutilidade, pelo imenso vazio da palavra pátria. Também as moscas morrem de encontro ao calor das lâmpadas. As portas por vezes choram ao serem abertas de rompante. O teu rosto avança na minha direção. Acordo. Respiro fundo. Ouço a chuva. Partilho as horas que restam da nossa eternidade, contigo. Sempre contigo. Caminho como se voasse. O tempo acende em mim o velho ritual da expansão e da retração. Somos já velhos amigos. Um vento desequilibrado zumbe no seu interior, soa como o bater das asas de um colibri. Assento os pés e o chão resvala. Descubro no teu olhar a luz da minha paixão. No entanto, as violetas estampadas no teu vestido murcharam sem te aperceberes. O dia cresce pelos caules porosos das plantas. A um sexo corresponde sempre um rosto, por muito distante que seja. A casa lá está, agora sempre de porta fechada. Os cães já não dormem ao sol. As mãos ocupam-se em nada produzir. Mexem e remexem sem objetivo. Cansam-se a acariciam-se sem destino. No entanto, a grande árvore do terreiro continua a espalhar a sua sombra nos dias de estio. As ervas aromáticas já secaram há muito. O silêncio cobre a algazarra de outrora. O silêncio cobre o silêncio de outrora. O vento atravessa o vento. Já nada cresce no seu tempo devido. Vivemos dentro de uma estufa global. O mundo dos outros apenas começava bem para lá da cancela do pátio, junto ao rio que quase desaparecia no verão. O lume aceso entardecia como nós. A avó fazia o café na sua chocolateira de barro negro. Escutava-se o rumor dos animais acomodando-se na palha seca. A estrela da alba já não brilha com a mesma intensidade. A água do poço ainda alimenta os amores-perfeitos e mata a sede aos pássaros e rega a minha memória já calejada pelo tempo e pela saudade eterna dos que partiram. As memórias enrolam-se dentro de mim como gatos junto da lareira. Ninguém caminha na direção da casa. Nenhum medo me perturba. As palavras ficam palpáveis. O meu mundo está para cá da cancela. Descanso em cima da lembrança subtil das plantas. Sonho com o segredo ténue dos caminhos, com o odor místico das giestas, com o perfume de verão entrando pela janela do quarto. Sonho com a minha avó (ou será a minha mãe?) abrindo a porta da cozinha enquanto entoa uma canção de embalar.


A História e a vida ensinaram-me a acreditar que é perigoso acreditar muito no que quer que seja.
Uma outra coisa aprendi por mim próprio: a verdadeira decadência implica não levar nada demasiado a sério. Sobretudo a arte decadente. Mas também as ideologias. E ainda a religião.
Philip Kerr, no seu livro “O Projeto Janus”, põe o padre Bandolini a atribuir a culpa de toda a Reforma à cerveja forte.
Para ele, o vinho é uma bebida perfeitamente católica, porque torna as pessoas ensonadas e cúmplices. Já a cerveja torna-as agressivas. Por isso, os países que consomem muita cerveja forte são sobretudo protestantes. E os países onde se bebe muito vinho são católicos romanos.
Já os russos emborcam vodka que é uma bebida que ajuda a atingir o perdão, pois não tem nada a ver com Deus. Por isso é que agora os comunistas andam a bater com o punho direito no lugar onde lhes fica o coração.
Em verdade vos digo: a essência do engano, pelo menos na opinião de Bernie Gunther, um ex-agente dos serviços secretos, e personagem principal do livro de Kerr, não é a mentira que se diz, mas as verdades que se contam para a apoiar.
Desconfio sempre das ditas qualidades pessoais dos designados como políticos mediáticos. Desconfio da sua oratória demasiado assertiva e folclórica, do seu enorme ativismo, dos seus dotes invulgares de atores, porque, dessa forma, pretendem encobrir a sua falta de convicções políticas sérias.
O seu objetivo principal é apenas aparecerem na fotografia, satisfazendo assim a sua “mediopatia”, a sua necessidade de serem queridos e admirados, o seu desejo de protagonismo.
Por isso é que é frequente ouvi-los dizer uma coisa num dia e no seguinte afirmar exatamente o contrário e, sobretudo, dizer a uns e a outros o que cada um deles quer escutar.
Raramente participam nas discussões de ideias. Esperam que as partes em conflito, por convicção ou por esgotamento, decidam a seu favor e cheguem a um acordo. Nessa altura, armados da sua oratória e autoridade de líderes, limitam-se a reafirmar a posição vencedora e a ratificar o acordo.
Não têm posição séria sobre nada, ou quase nada, a não ser seguir o seu inefável desejo de continuar no cargo que ocupam ou em conseguir outro melhor.
São pessoas de ação porque a sua vida depende disso. Vão a toda a parte, assistem a todas as reuniões, festas e homenagens, batizados, bodas e funerais.
Em vez de resolverem os problemas, adiam-nos ou transformam-nos em problemas diferentes. Adiam tudo para a última hora.
Nietzche apercebeu-se que os seres humanos não conseguem suportar demasiada realidade. Defendia que a verdade é nociva para a vida. Por isso abominava a nossa diminuta moral pequeno-burguesa.
O pior é deixarmo-nos acreditar que temos razão por já a termos tido.
Não há nada que mais nos agrade do que ver um tipo a dar cabo de outro.
Uma coisa aprendi ao longo destes anos: os mentirosos nunca mentem, apenas alteram a verdade. Até porque a ser mentira, a sua mentira, é apenas boa, é somente uma mentira nobre, uma mentira oficiosa, uma mentira salvadora.
Afinal, a quem interessa a verdade?
Górgias, que viveu quatro séculos antes de Cristo, disse que a poesia (naquele tempo a ficção ou o romance) é um engano em que quem engana é mais honesto do que quem não engana, e que quem se deixa enganar mais sábio do que quem não se deixa enganar.
Após estes anos todos, continuo a fazer a mesma prece que Reinhold Niebuhr: Senhor, concede-nos a graça para aceitarmos com serenidade as coisas que não podem ser mudadas, coragem para mudar as que devem ser mudadas e sabedoria para distinguir umas das outras.

37 seguidores
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.