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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

27
Abr17

Poema Infinito (352): Outra espécie de ternura

João Madureira

 

 

A terra olha-nos como um desafio. Já o céu é outro. Enrolam-se os anos nas cordas. A verdade chega-nos pelos caminhos mais saibrosos. As Tábuas da Lei que Moisés tinha na mão caíram ao chão. Sonhamos com oliveiras e vemos nascer a lua. A bruma adensa-se junto ao cais. O veleiro interrompe os sonhos de espuma. O nevoeiro transforma a noite em infinito. As fadas dobam os seus novelos, fecham o sol dentro da gaiola, enloirecem os cabelos, marcam a idade do mar, lavam o corpo com o que resta das marés, envergam os seus vestidos mágicos, vestem quimeras e despem-se da maldade. Vamos ter de aprender a beber utopias, a percorrer as raízes mais fundas, a aquecer as sementes, a fazer germinar os pensamentos. Secam as folhas ao cair da tarde. Esquecemos a dor e a tristeza que choveu sobre o telhado. Alguém traz a luz que faz falta ao dia. O tempo cobre as ruas e as praças e as crianças explicam os números até se cansarem. Depois sorriem. O tempo cheira a maçã. A verdade serena o seu rosto. As horas passam como vultos que não esperam. A primavera acorda com os seus instintos pequenos mas ainda com apetite de cama. Nós conversamos sobre o livro neutro que comprámos. O instinto mandou na nossa nudez. A sua força é serena. Apenas os anjos andam revoltados, perdidos dentro da sua religiosidade sem sentido. Custa vestir a capa da humildade. Os ramos das flores fazem-me lembrar os teus braços. Conservo o seu cheiro. As recordações desfazem-se em fumo. As mãos afagam a lenta melodia do entardecer. As distâncias fazem-nos sofrer. Junto à janela da casa, uma ave lenta levanta as asas como se fossem lembranças. A dor do tempo é agora mais clara. Dentro da cidade, as saudades transformam-se em cisnes. Junto ao estuário, as fragatas parecem milagres que navegam entre as gaivotas. A claridade mistura os sonhos, as ruas parecem anciãos desconfiados. O sol aquece a roupa que seca nas varandas. Nas aldeias, os penedos ficam ainda mais tristes, mais embrulhados no abandono. A angústia é agora uma espécie de rio que não consegue desaguar. Vamos por cima de tojos e carquejas à procura dos fios de água. Ouvimos a mágoa cantar dentro dos espelhos da chuva. A tristeza amadurece dentro dos nossos rostos. Desejamos uma outra espécie de alegria. Até dos frutos azedos se consegue arrancar alguma doçura. O verde nasce inquieto dentro das folhas mais pequenas. Talvez temam a neve que promete cair no Deus Larouco. Vamos pelos campo fora ver as velhas maravilhas que sabemos de antemão: o milho verde a crescer, os ovos pousados nos ninhos, as ervas tenras, os bichos. Ouvimos o dia, uma nora perra a chiar, a melancolia dos cucos. As mulheres cantam não sabem que mágoa, debruçadas sobre a terra, mostrando o rosto aos bichos, colocando arbustos, mondando o tempo, plantando nos regos de água desejos e tormentos, pensando na vida, arrastando tristezas. Sabem que no inverno as fogueiras serão cercadas por invernias polares. Reparam então na luz do sol que se escoa por entre os dedos. Conservam a paciência das penitências, o perdão dos sentimentos, a tolerância das emoções, o desprezo pelas tragédias. Sabem podar as flores do engano, as árvores do equívoco, os arbustos do receio, as promessas de desejo que crescem dentro dos seus corpos. Sabem buscar a ternura onde ela existe. Com as pedras dos montes sabem construir os caminhos da salvação. Conservam a infinita esperança de descobrirem um Adão para compensar a sua virgindade.

24
Abr17

339 - Pérolas e diamantes: O dedo e a Lua

João Madureira

 

 

Arrelia-me e desconcerta-me a tacanhez e o desplante com que certa gente, e alguma rapaziada de esquerda, critica o Museu de Arte Contemporânea de Chaves. Até porque combater a arte é coisa fácil em meios provincianos. Parece mesmo que dá votos.

 

À falta de melhor argumento, ataca-se a cultura porque dá despesa. Quando oiço estas alarvidades, fico com os pelos em pé. Que até não são muitos, mas… são rijos.

 

Muitos nem sequer se dão ao trabalho de lhe fazer uma pequena visita. Argumentam que os bilhetes são caros, que o edifício custou uma pipa de massa ou que as obras de Nadir Afonso os exasperam. Ou, o que ainda é mais ridículo, que o presidente da Câmara é o António Cabeleira.

 

Fazem-me lembrar os pintores denominados Pré-Rafaelistas que, segundo, Hélia Correia, tinham tanta aversão a Rafael que falavam com desprezo da Transfiguração, chamando-lhe pomposa e antiespiritual, sem no entanto nunca para ela terem olhado.

 

Pelos vistos, não aprenderam nada com o exemplo do Centro Cultural de Belém, hoje a joia da coroa cultural de Lisboa.

 

Fica mal a gente séria e responsável tentar vender estes argumentos comprados aos ressabiados que lustram as cadeiras dos nossos cafés.

 

Depois engalanam-se com prosápia e enfeites argumentativos, tentando evidenciar uma desajeitada modéstia que aprendem sempre muito à pressa, pois as eleições impõem o seu calendário e o candidato anterior foi proveitosamente queimado pelas disputas intestinas dentro do partido.

 

São como os lobos que, a pouco e pouco, se vão orientando na direção de um novo líder da matilha.

 

Correm de um lado para o outro à procura da certeza, sem nunca a conseguirem alcançar.

 

Uma consciência limpa é o melhor travesseiro.

 

Parecem preiteantes mirando-se nas biqueiras dos sapatos estendendo gel pelo cabelo e puxando as mangas do casaco adquirido no Corte Inglês. Por vezes vestem os sucedâneos do burel para se disfarçarem de povo. Viciaram-se na crítica fácil e em criarem uma espécie de mal-estar permanente. Lutam contra as evidências e as emoções como quem luta contra os insetos.

 

Apreciam a regularidade da vida, se possível sem nenhum acontecimento particular. Até os domingos parecem incomodá-los.

 

Cada um faz o que pode. Os idiotas costumam fazer idiotices e os espertos, por vezes, fazem idiotices ainda maiores. Que Deus nos dê paciência.

 

São sempre generosos com a crítica e pouco dados ao elogio. Acham que um pensamento acaba sempre por achar um pensador.

 

A mediocridade é sempre penosa.

 

Aprenderão ao envelhecer que as coisas se tornam simples. E também que não vale a pena alterar os hábitos e os princípios apenas pelo prazer de se parecer moderno.

 

Creio que leram Jacques Lacan e acreditaram que quanto mais formos ignóbeis melhor nos correm as coisas.

 

Cito-lhes de graça Michel Houellebecq: “De qualquer maneira, o amor existe, uma vez que se pode observar os seus efeitos.”

 

Ou então Henri de Régnier: “A solidão não é possível senão em muito jovens, quando temos pela frente todos os sonhos, ou então em muito velhos, quando temos para trás todas as recordações.”

 

E termino com um velho provérbio chinês: “Quando o sábio mostra a Lua, o idiota olha para o dedo.”

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