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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Jul17

353 - Pérolas e diamantes: O fuso da Branca de Neve

João Madureira

 

 

 

Não é fácil crescer pobre, pois é-se impregnado de uma característica aguda que os homens letrados denominam como prudência. Aprende-se que o altruísmo não passa de um ramo de flores ornamentais. O que importa é lavrar o terreno que sobra para criar os alimentos. É como se a sensatez fosse uma desordem excecional.

 

A pobreza moderna é como um pai inflexível: castiga com os olhos.

 

Por vezes encontra-se um trevo de quatro folhas e pensamos que nos foi enviado para dar sorte. O meu perdi-o antes de chegar a casa.

 

Os passeios pelo campo e os amanhãs que cantam (cantavam?) são boas imagens para a escrita.

 

As coisas imaginárias são belas, mas têm um problema: dissipam-se porque são sonhos.

 

Por vezes confundimos tudo. Podemos até confundir as ideias, mas nunca devemos confundir os ideais. 

 

Winston Churchill bem nos avisou que há pessoas que mudam de ideias para não mudarem de partido e há pessoas, como foi o seu caso, que mudaram de partido para não mudarem de ideias.

 

Por isso se costuma confundir experiência social e política com o que afinal não passa de passes de prestidigitação.

 

Claro que os homens que nunca mudam de partido, e mudam frequentemente de ideias, afirmam, sem pestanejar, que são gente de verdade, gente responsável, de bom senso e coerente.

 

Um meu amigo, sempre que lhe lembram que vivemos num sistema democrático, responde sem vacilar: “Em política, só é preciso mentir com convicção.”

 

Desde pequeno que me quiseram fazer acreditar em anjos. E mesmo amá-los. Estou em crer que desiludi quem tanto persistiu na fantasia. A mim, o que me fascina, são os homens e as mulheres que são capazes de levantar voo.

 

 

Pensa-se que o mérito é um mistério. As grandes novidades da humanidade aparecem sempre sugeridas pelas falhas do que se denomina por progresso. Mas as palavras não conseguem amortecer as quedas. Por incrível que pareça, a humanidade continua envolta num jogo de extermínio.

 

Eu sofro da doença da dúvida. Outros preferem forçar o real para que se ajuste às suas conceções. Feitios. A cada um a sua mania.

 

Afinal, a salvação é o estado mais alto da poesia. Alguns, no entanto, confundem impotência com amor e escrevem poemas de adultos como se fossem crianças. A cobardia afasta-nos (afasta-os?) da dimensão da verdade. A mediocridade é uma erva daninha que se disseminou como os cravos vermelhos na alvorada tosca de Abril.

 

A minha mãe ensinou-me que não devemos fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós. Isto também é válido para os outros. Esses outros que se pensam uns. Esses outros que são presas fáceis do ciúme, da inveja e da má-língua. Foram ensinados ao som da sinfonia da desordem, do caos e da conspiração. E da hipocrisia.

 

Deixaram-se apanhar pela doença da intimidação. Pensam que nela adquirem o grande poder da linguagem. Mas são apenas gagos falando num comício de surdos.

 

De facto, as suas antevisões de um futuro risonho, do qual se dizem profetas e obreiros, apenas correspondem a um imaginário de criança.

 

Conspiraram para impossibilitarem o triunfo do líder dos seus porque eram os segundos na fila da sucessão. Giram estonteados em volta de si mesmos. São como os cães que perseguem a própria cauda.

 

Costumam interpretar, porque lhes interessa, o trabalho persistente e a independência de espírito como arrogância. Pensam sempre em frente do espelho. Espelho meu, espelho meu, haverá líder mais bonito do que eu?

 

Parecem a Alice no país da intriga. Vivem o fenómeno político e social como sonâmbulos das boas causas e dos melhores efeitos. O diploma que exibem como válido corresponde apenas ao curso partidário das universidades de verão que angariaram tendo em vista iludirem os incautos.

 

Sofrem da síndrome da Branca de Neve, dormem durante quatro anos decididos a acordarem ao fim desse período de tempo, e até dispostos a acordarem o povo, sem se darem conta de que quem dorme são eles mesmos. O povo já lá vai à frente. O povo levanta-se sempre cedo para ir trabalhar. Além disso, ninguém consegue ser ao mesmo tempo a bela dormente e o príncipe encantando. Nem nas histórias infantis.

 

Nesta história de sonâmbulos o beijo é mesmo o do Judas.

 

Gosto de os ver andar nos carrocéis do poder. Sempre às voltas, sentados no cavalinho de pau, imaginando-se os napoleões das suas tribos.

 

Sim, acho que merecem alguma coisa, que o povo lhes ofereça um pauzinho com algodão doce e os presenteie com uma nova ficha para poderem continuar a rodopiar em vão, agora montados na girafinha de plástico ou num pónei amarrado a um poste. 

 

A hipocrisia deve ser recompensada.

27
Jul17

Poema Infinito (365): As velas ininterruptas

João Madureira

 

 

As colunas de ar sorvem as partículas magnéticas do tempo. Alguém dança com o rosto mascarado de luz. Os dedos estremecem. As sombras gritam. A vida continua misteriosa, repleta de animais selvagens, com o coração rasgado batendo por dentro dos sentimentos. Os gritos fervem dentro das panelas. As frases transbordam dos livros. Dentro dos olhos, dobram-se os espelhos e as arestas do tempo amadurecem. As raparigas dançam revoluteadas pela luz, enfloradas pelas rosas, arrancadas pela raiz. E sangram. As raparigas sangram sempre. Os seus corpos iluminam-se como se fossem anjos crucificados em postes de eletricidade. A sua fúria tem a dureza dos diamantes. O desejo fica turvo e a carne é atravessada por sonhos de ritmos e noites de água e montanhas e árvores que choram. As montanhas crescem e dentro delas os animais aligeiram-se. Distingue-se agora a noite e as pupilas bruscas do furor. A carne treme depois do coito. A morosidade sai de dentro do sono. Os rostos embranquecem, a temperatura difunde-se pelos feixes dos sentimentos mais secretos. Vibram os tendões. O toque é nitidamente zoológico, sem doçura nem inocência. A noite estremece. A luz ferve do outro lado. Os lugares somem-se uns dentro dos outros. Iluminam-se as paredes. Os anjos pintam os sexos com a força do desejo e sopram átomos para o seu âmago. Acendem-se os cabelos, faíscam os corpos. Visitamos os territórios fechados da volúpia, a sua ofuscante jubilação, o entusiasmo branco dos orgasmos. Somos possuídos por visões e mistérios e idiomas imaculados. Os sentimentos têm agora uma doce aptidão doméstica, enchem-se de delicados arco-íris e voam como mariposas bruxuleando de sono. Os anjos brilham como pirilampos radiativos, possuem a voz de Hiroxima. Até a palavra Deus ficou calcinada. Meu amor, Hiroxima? Ouve-se a música do apocalipse. Alguém pinta o inferno. Ardemos numa espécie de inocência. Este é o nosso modo de ir para longe. As flores ardem nas campânulas. O horror verga os espelhos. O mundo fica cheio de linhas ferozes. Das gárgulas nunca jorrará a claridade. Olhamos o mundo do outro lado da porta. Os pais, as mães e os filhos dormem sob a luz das canções difíceis. Estremece o medo pelo excesso das imagens de sofrimento. Auschwitz é um serão de pedra… arbeit macht frei… A manhã estremece de medo. Arde a carne, a seiva excessiva das imagens, a respiração do frio, da fome, do medo e do sangue. Exalamos o Gulag e a respiração gelada de Soljenitsin. Plantamos a fome dos livros nas estantes, lá no cantinho mais distante. Fechamos então a porta. As crianças vibram como loucas, estuam nas suas danças. O suor alaga-lhes os membros. Ficam crispadas como se fossem ecos eternos. Desejam ainda ocupar o sítio dos cometas. São como rosas mudas. Trazem dentro de si a praga dos crisântemos tardios. As vozes do mundo metem-se pelos tubos. O ouro chega às espigas. As cigarras crescem no meio das pedras. As palavras supérfluas empurram-se umas às outras. A poesia também pode ser uma dor que não dorme nem deixa dormir. As crianças mais antigas repousam dentro dos retratos sem luz, são como blocos de pó ligados à morte. Limpamos o sal da boca e abraçamos o mármore frio. Ouvem-se vozes lá ao longe, ininterruptas, assombradas. Contemplativas. A beleza continua seduzida pela ideia de devorar a lei da desordem e do caos. Os filhos continuam a escrever às mães com os seus rostos iluminados e ardem como se fossem velas ininterruptas.

24
Jul17

352 - Pérolas e diamantes: Diversão e cultura

João Madureira

 

 

Há por aí gente dita importante que possui o complexo de Sansão: fazem desmoronar o templo à sua volta. Sei que são capazes de organizar coisas complicadas. Mas não tenho a certeza de que possam organizar coisas simples. São até capazes de decidirem uma questão antes mesmo de pensarem nela.

 

Qualquer pessoa que queira ter influência sobre o que se passa à sua volta tem de ser, em certa medida, um oportunista. Mas a verdadeira distinção existe entre aqueles que adaptam os objetivos à realidade e aqueles que procuram moldar a realidade à luz dos seus objetivos.

 

O negativismo tem de acabar. É necessário gerar algo de positivo porque se não teremos de ficar por aqui como guardiões do caos. E para sempre. Alguns dos laços ligados às convenções já pouco significado têm. Devemos julgar os homens pelos seus méritos. O poder não pode ser um fim em si mesmo.

 

Até se compreende a ambição e a cobiça, mas os verdadeiros farsantes misturam a irresponsabilidade e o diletantismo. E isso acaba por ser obsceno.

 

Quando alguém emana uma postura serenamente autoritária, devemos sempre reparar para além da capa superficial, pois quase sempre existem pequenas fissuras que nos revelam outra pessoa menos edificante.

 

Os partidos são hoje, mais do que nunca, uma agência distributiva de favores em troca de consenso. Os ideais, pobres coitados, fazem já só parte do mobiliário. Não há pior maldade do que a superficialidade.

 

George Steiner tem razão: vivemos numa cultura de piedade elegante, pois estamos sempre a pedir desculpa e a dizer quão profundamente os acontecimentos nos afetam, sem nada fazermos para alterar o estado atual das coisas.

 

Mas um bom pensamento acaba sempre por encontrar um pensador. A cultura não é só o somatório de distintas atividades, é mesmo um estilo de vida. Os consumidores limitam-se a ser consumidores de aparências.

 

Vivemos num tempo cultural onde a semântica incorporou a incultura disfarçada de cultura popular.

 

Hoje já não há ninguém inculto. Somos todos cultos. Já ninguém sabe verdadeiramente o que é cultura. Tudo o é e já nada o é. Vivemos no meio desse paradoxo.

 

Muita da gente que nos vendem por culta não é séria. Divertem-se a jogar com as ideias e as distintas teorias. São como artistas de circo que jogam com cilindros, lenços e cartas e nos divertem e até nos maravilham quando tiram coelhos da cartola. Só que não convencem.

 

Vargas Llosa tem razão. Na civilização do espetáculo, infelizmente, a influência que a cultura tem sobre a política, em vez de exigir que mantenha certos padrões de excelência e integridade, contribui para a deteriorar moral e civicamente, estimulando o que possa haver nela de pior, por exemplo, a simples farsa.

 

O atual ritmo cultural dominante vai substituindo as ideias e os ideais, os debates intelectuais e os programas culturais pela publicidade e pelas aparências. É o jogo do faz de conta.

 

A raiz do problema está na banalização lúdica da cultura predominante. O valor supremo é agora a diversão. As pessoas abrem um jornal ou ligam a televisão ou até se atrevem a comprar um livro para passar o tempo, no sentido mais corriqueiro do termo. Detestam martirizar o cérebro com preocupações, dúvidas e questões mais difíceis. Pretendem apenas distrair-se. Querem esquecer-se das coisas sérias, profundas, preocupantes. Entregam-se nas mãos dos devaneios leves e agradavelmente superficiais, que a seu ver são saudavelmente estúpidos.

 

Van Nimwegen estudou os efeitos da internet no nosso cérebro e nos nossos hábitos e concluiu que confiar aos computadores a solução de todos os problemas cognitivos reduz “a capacidade dos nossos cérebros para construir estruturas estáveis de conhecimento”. Ou seja: quanto mais inteligente for o nosso computador, mais parvos seremos.

 

Só as boas leituras fazem com que a nossa memória arrecade a memória do tempo. De outra forma é impossível.

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