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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

28
Set17

Poema Infinito (373): A hora da visitação

João Madureira

 

 

A ira transforma o dia em pó. O futuro vibra seguro do seu juízo de valor. Criaturas ressuscitam trespassadas pelas respostas escritas nos livros mais antigos. As perguntas continuam impunes. Salve-nos Deus da piedade, desse seu carinho amargo, da remissão dos pecados, de penar na cruz, dos choros desperdiçados, da absolvição dos malditos, da redenção dos benditos e dos dias lacrimosos, prostrados, remediados e contritos pelas rezas. Afundamo-nos na noite, no fogo da caridade, sonhamos com o sermão aos peixes. Sentimos a brevidade da vida, a direção da água que se repete, o arrojo verbal dos pregadores, a presunção da audácia, a escravatura humana do tempo, o som difuso das ovelhas tresmalhadas. Alguém acende o lume com uma concha de sol. Aceitamos então o silêncio, a noite e a memória dos corpos. Visitam-nos orações desmerecidas, pecados e preces. Vagaroso e profundo é o frio do ferro. O tempo flutua. As imagens são como erros. Até a realidade se oculta. A dúvida dos anjos mistura pedras e flores. A alegria derrama dor. O universo é vagaroso. Os meninos continuam a perder as lágrimas, a afligir-se com as bolas, a fazerem o pino ao contrário. Levam-nos cavalos de fogo. Os cavaleiros são como sombras de muros que caem nos precipícios invocando Deus. Dorme o tempo numa catedral emprestada. As sementes comovem-se na terra. Nem no sono sossegamos. Sentimos a ausência da saudade. As teias constroem-se fio a fio. O futuro continua a ser feito de passado. A voz desmente sempre a divindade. Parece que tudo arde. Tenho vontade de ir. Nos montes acomoda-se o nevoeiro, as aves sossegam gerando os seus ovos. O pão é escuro, o horizonte estéril. Esta paz é feita de sombra. Os rostos pardos são imagens de inocência. Os seus olhos cansados refletem o medo. Saem as horas de nós e sobem como o fumo de tudo aquilo que arde. Tudo está disposto como no enigma de Deus: os espinhos, o sangue e os céus invadidos, as pedras, a misericórdia, os filhos que regressam e aqueles que se vão, os atos demoníacos, a insensatez, as moedas com que se pagam as traições, as chagas e os estigmas. É tempo de provação. Os segredos são perduráveis. O tempo é lonjura. Nascemos do nada. Deus também aí foi gerado. Somos filhos da dor e da amargura, da dignidade do resgate, das horas desiguais, do espanto, da solicitude, da vontade oculta, do sentimento frágil da força, da atenção e da luxúria, da noite e da aurora, da espera, do amor e do vazio que provoca. O chão está batido pelos anos e a terra em pousio. As lágrimas ficaram mais lúcidas. As cobras já não nos metem medo. Mas o mal continua aceso na noite. O vagar vem lá de longe ter connosco. As nuvens continuam a navegar no céu. O caminho ainda é de ida e volta. Batem as horas no sino da torre. As pombas procuram algum grão espalhado pela eira. Vários frutos abrem-se, outros murcham. O vento sabe a sal ou como as lágrimas guardadas na cisterna. Uma toalha de linho borda e define os contornos da mesa velha. A dor e as velas continuam acesas no meio da sala. Algumas das folhas caídas no chão parecem peças do puzzle com que se constrói o Santo Sudário. Está na hora da visitação. As pessoas passam por entre as pedras e as flores como se fossem anjos arrependidos.

25
Set17

360 - Pérolas e diamantes: Quanto vale a Democracia?

João Madureira

 

 

 

No seu livro Contra a Democracia, Jason Brennan, parte do princípio de que a democracia é o melhor sistema viável, mesmo assim não é lá grande coisa, e por isso se torna necessário melhorá-lo, mesmo que seja com menor participação.

 

O grande filósofo moral do século XIX, John Stuart Mill, argumentava que devemos instituir qualquer forma de governo que produza os melhores resultados.

 

Apesar de Mill ter a esperança de que envolver as pessoas na política as tonaria mais inteligentes e mais preocupadas com o bem comum, afirma que algumas formas de governo podem deixar-nos estúpidos e passivos. No entanto existem outras que podem tornar-nos perspicazes e ativos.

 

Apesar das boas intenções, as formas mais comuns de compromisso político não só falham em educar-nos ou enobrecer-nos, como tendem inexoravelmente para a estupidificação e a corrupção.

 

O economista Joseph Schumpeter bem lamenta: “O cidadão típico desce a um nível de desempenho mental inferior assim que entra no campo político. Argumenta e analisa de um modo que prontamente reconheceria como infantil na esfera dos seus interesses reais. Torna-se novamente um primitivo.”

 

Em 1800, 70% a 80% dos americanos com direito a voto votavam nas principais eleições. Agora, no máximo, votam 60% para as eleições presidenciais e cerca de 40% para as eleições intermédias, estaduais ou locais. Por isso é que os democratas rangem os dentes.

 

Segundo Brennan até existe um lado positivo no declínio democrático, pois a democracia no seu país está mais inclusiva do que nunca, com cada vez mais pessoas convidadas a assumir uma posição na mesa das negociações políticas. Contudo, cada vez menos pessoas respondem ao convite.

 

Os principais teóricos políticos querem que a política se infiltre em mais aspetos da vida. Pretendem mais decisão política. Partem do pressuposto que a política nos enobrece e que a democracia é uma forma de capacitar a pessoa comum a assumir o controlo das suas circunstâncias.

 

Jason Brennan considera mesmo que os “humanistas cívicos” consideram a própria democracia como a vida boa, ou, pelo menos, um chamamento superior.

 

Segundo o cientista político e filósofo americano, existem três tipos de cidadãos democráticos:

 

Os hobbits, que são sobretudo apáticos e ignorantes sobre a política, pois carecem de opiniões fortes e firmes sobre a maioria das questões políticas. Preferem seguir as suas vidas diárias sem prestar muita atenção à política. É o típico não votante.

 

Os hooligans, que são os fanáticos desportivos da política. Têm ideias fortes e firmes sobre o mundo. Podem apresentar argumentos para as suas crenças, mas não conseguem explicar pontos de vista alternativos de um modo que as pessoas com outras visões considerem satisfatórias. Consomem informação política, embora de uma forma tendenciosa. Tendem a desprezar as pessoas que discordam delas, sustentando que as pessoas com as ideias alternativas sobre o mundo são estúpidas, más, egoístas ou, na melhor das hipóteses, estão profundamente enganadas. A maior parte vota regularmente, participa nas atividades políticas e são membros filiados em partidos políticos.

 

Os vulcanos, que são os que pensam científica e racionalmente sobre a política. As suas opiniões são fortemente sustentadas em ciência social e filosofia. São autoconscientes, e apenas confiam naquilo que os indícios permitem. Conseguem explicar pontos de vista diferentes e visões alternativas de forma satisfatória. Interessam-se por política, mas, ao mesmo tempo, são imparciais. Evitam ser tendenciosos ou irracionais. Não pensam que todos aqueles que discordam deles são estúpidos, maus ou egoístas.

 

Estes são os tipos ideais ou arquétipos conceptuais. Algumas pessoas encaixam-se melhor do que outras nestas descrições. Ninguém consegue ser um verdadeiro vulcano, pela simples razão de que todas as pessoas são pelo menos um pouco tendenciosas.

 

Infelizmente, a maioria das pessoas enquadra-se nos moldes hobbit e hooligan, ou encontra-se lá pelo meio.

 

De facto, a política não é valiosa para a maior parte das pessoas. E a democracia tem os seus defeitos e mesmo os seus limites.

 

Uma coisa devíamos ter presente no ato de votar: “A tomada de decisão política não é escolher para si próprio; é escolher para todos.”

 

Alguns filósofos defendem que a democracia é um procedimento de tomada de decisão inerentemente justo.

 

Jason Brennan, não está pelos ajustes. Argumenta que o valor da democracia é puramente instrumental, pois “a única razão para favorecer a democracia sobre qualquer outro sistema político é que é mais eficaz a produzir resultados justos, de acordo com padrões de justiça independentes do procedimento”.

21
Set17

Poema Infinito (372): O tempo insolvente

João Madureira

 

 

Demoro sempre muito tempo a relacionar os sinais de Deus. Alinho-os devagar, apesar da sua abundância. Deus é como poeira sobre os campos. Deus também é impaciência, ignorância e ansiedade. Sinto-o sempre quando estou obscuro, emerso nos raios de inexplicabilidade, sentindo ao longe a luz do desaparecimento. Deus é ainda enfado e gestos sagrados e aflição e rostos dissimulados e fissuras e números escritos em paredes profundas. Ele aparece sempre no meio das pequenas coisas que tornam a vida inútil. Os rostos são como pássaros lentos, confundem-se muitas vezes com uma espécie de inteligência dividida. Advém então uma sintaxe súbita, várias paisagens em sobressalto, o entendimento perplexo da destruição. Trevas e claridade sucedem-se segundo o princípio da incerteza. Livros, amigos e animais multiplicam-se como respostas separadas por imagens. As palavras acreditam umas nas outras e irradiam loucura. Toda a experiência conduz a uma nova incerteza. E uma incerteza a outra incerteza. As respostas crescem dentro de cada um de nós como cogumelos evidenciando os sinais do destino. Toda a procura confirma a atenção. As horas atingem uma temperatura elevada. Vários lugares sagrados ficam ao desamparo. A atenção ergue-se em estado de iminência. As falésias dentro das campânulas começam a ficar transparentes. O ar vibra, as estrelas parecem barcos desesperados afundando-se no mar da eternidade. As ondas lembram arbustos tombados num dia de calor. O espírito transforma-se em matéria em movimento. Cresce como o que se costuma designar por amor, produto da mesma levedura, cozido no forno da impaciência. O silêncio parece um coração transbordante de verdades dolorosas. As criaturas singulares exibem-se dentro dos seus cenários ardentes, expõem-se longe e perto, frias e ardentes, velozes e lentas, luminosas e sombrias. Rodam sob o signo dos grandes ciclos, irradiando a majestade do movimento perpétuo. Carlos Paredes subiu agora mesmo ao palco com a cabeleira incendiada de notas musicais. O tempo fica estancado durante uns breves segundos. As pessoas choram porque se pensam à altura do acontecimento. A humildade continua a cavar a terra, a aconchegar os vermes e os insetos, a levar a água ao moinho. O dia começa a afundar-se devagarinho. Levantam-se então as casas e as adegas assustam-se. É hora dos grandes vazios, das memórias fechadas nos armários, da paciência que calafeta a vida. Alguns pássaros cantam dentro das gaiolas como se vivessem em liberdade. O prazer da clausura também se aprende. Deus provoca as evidências. A invisibilidade toma conta das estátuas, origina os relâmpagos, cartografa os sinais da alma, armadilha as paisagens, dá coerência às sombras e conserva a água. Tudo volta a ser simultâneo. O ar envolve as sementes mais pacientes, traz e leva as estações, aprende a velocidade das asas das aves mais leves, instiga as memórias, dissemina a solidão, revela as superfícies, dá forma os frutos da imprevisibilidade. Os corpos atingem a velocidade da procriação. Fluxos de sémen ascendem no declive das vaginas. A matéria procura o molde perfeito para a vida. Deus decompõe o tempo e os gestos. A aparição do mundo faz-se de forma lenta. O espaço da cabeça rompe a sombra amniótica. Alguém rasga com raiva os nomes das coisas sagradas. De seguida virá o tempo insolvente do batismo.

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