Terça-feira, 31 de Outubro de 2017

Na Feira dos Santos

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Segunda-feira, 30 de Outubro de 2017

365 - Pérolas e diamantes: A estupidez (parte 2)

 

 

Porventura, a forma mais vulgar de estupidez é o preconceito racial.  E é uma estupidez mundial.

 

Em Social Psychology of Internacional Condut (1929), G.M. Stratton defende que “o preconceito constitui uma das características da natureza humana”. E chega a duas conclusões interessantes: “Embora seja universal, o preconceito racista nunca, ou raramente, é inato. Não nasce connosco. As crianças de raça branca, por exemplo, não manifestam qualquer preconceito quanto às crianças ou amas de cor até à altura em que as famílias lho incutem.”

 

Nos célebres versos de South Pacific, Oscar Hammerstein repete no estribilho: “Para odiar tem de se ser ensinado.”

 

M. Sratton conclui que “o preconceito rácico adquirido nada tem de racial. Entre ele e as características raciais não existe qualquer relação, nem tão pouco com o sentimento de estranheza: ele é apenas, e por toda a parte, uma reação ante a ideia de uma ameaça coletiva… O que habitualmente se designa por preconceito “racial” não passa, de facto, de mera resposta coletiva a ameaças de perdas ou perdas reais; resposta que não é inata, mas, sim, alimentada pela tradição e por impressões recentes de prejuízos sofridos há pouco”.

 

De facto, toda a estupidez é medo. O ser humano sensato ou inteligente tem possibilidade de sublimar e vencer os seus preconceitos. O estúpido tornar-se-á inevitavelmente seu escravo.

 

No entanto, o preconceito é apenas uma causa de um mal maior: a intolerância, que é a força impulsionadora. O preconceito é passivo, enquanto a intolerância é ativa.

 

Não foi o preconceito que fez com que as Igrejas Cristãs, alegando heresia, tivessem queimado os fiéis umas às outras. Foi a intolerância.

 

No entanto, estas duas formas de estupidez caminham, quase sempre, a par. E chegam mesmo a confundir-se.

 

O individuo preconceituoso é até capaz de não permitir que o seu filho frequente uma escola aberta a crianças de todas as raças e religiões, mas apenas o intolerante fará tudo para suprimir esses estabelecimentos de ensino.

 

Mas nada disto teria muita importância se o homem estúpido só a si próprio se prejudicasse. Por muito que nos custe, a estupidez é a arma mais mortífera do Homem, é a epidemia mais assoladora e o seu luxo mais oneroso. O preço da estupidez é incalculável.

 

As várias formas de estupidez já custaram à humanidade mais do que qualquer guerra, epidemia ou revolução.

 

Uma das formas mais dispendiosas da estupidez é, muito provavelmente, a burocracia. Se poupássemos uma décima parte da quantidade de papel utilizado em formulários, relatórios, regulamentos e atas, e com essas economias adquiríssemos livros e compêndios escolares, a esta altura já não existiriam analfabetos no mundo.

 

Paul Tabori, no seu livro História Natural da Estupidez, conta que entre as duas últimas guerras mundiais estava na moda um insulto em forma de interrogação. Costumava perguntar-se: “Olha lá, a estupidez incomoda-te?”

 

Parece que, infelizmente, não incomoda lá grande coisa. Mas se se tratasse de uma dor de dentes, há muito que se teria tentado remediá-la.

 

Mesmo parecendo que não, a estupidez, de facto, dói muito. Mas é raro que incomode o estúpido.

 

Esta é a tragédia do mundo em que vivemos.

 

O livro, que recomendo vivamente, trata da estupidez, da baboseira, da vacuidade, da presunção, da idiotice, da cobardia, da estultícia, da imbecilidade e da estolidez. Ocupa-se também dos otários, dos alarves, dos asnos, dos mentecaptos, dos ressabiados, dos insensatos e dos calinos. Apresenta ainda uma galeria de broncos, brutos, simplórios e monos. Analisa e observa atos de irracionais, insensatos, enxebres e apoucados.

 

A estupidez, pela virtude da sua especial natureza, sempre foi alvo de sátira e denúncia. Mas foi por causa dessa sua peculiar caraterística que “sobreviveu a milhões de ataques, mesmo aos mais rudes, sem nada sofrer; e, no fim, continua a resistir, triunfante e gloriosa”.


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Domingo, 29 de Outubro de 2017

Na feira do gado - Santos - Chaves

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Sábado, 28 de Outubro de 2017

Na feira do gado - Santos - Chaves

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Sexta-feira, 27 de Outubro de 2017

Na feira do gado - Santos - Chaves

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Quinta-feira, 26 de Outubro de 2017

Poema Infinito (377): Símbolos e sonhos

 

 

Atravesso a larga janela emoldurada pelo sul. O céu azul responde-me com serenidade. A paisagem está repleta de ânsia. Regresso à terra possuído pelo encanto do amanhecer. As raízes continuam quentes e profanas. Permanece a pureza dos campos, o movimento escrito nos caminhos, as folhas, o granito, os versos e a solidão. A beleza vive rodeada de solidão. O silêncio tem o sabor salgado das lágrimas. Ninguém modificou a vontade. Os textos são como ninhos de saudade. Os quintais parecem livros desarrumados. A fogueira arde como se fosse eterna. A excitação cria os sentidos, os olhos comovidos, o mistério da descoberta, o gesto natural das sementeiras, os símbolos que são como frutos. A lei continua na arca junto ao centeio. O vento passa carregado de sonhos. O tempo ilumina tudo aquilo que dizemos. Deusas despidas ajoelham-se junto à fonte e depois diluem-se repletas de desejo. Eva não virá neste inverno. Sobrarão as maçãs. Deitamo-nos num colchão de folhas. As tardes duram pouco, sente-se o desalento, os momentos mais cansados. A solidão parece uma flor aberta. Os sonhos repousam nas mãos abertas. Dormem os deuses no crepúsculo, sem esplendor, frios como fogueiras extintas. As divindades tentam aparentar humanidade. A ternura é agora uma palavra cansada. Cristo ressuscita no meio de versos, coberto com uma túnica de linho, dividindo os apóstolos e os soldados, confundindo as mulheres, vestindo as crianças de luz, colocando estrelas na testa das mães, fazendo sorrir as memórias, espantando o medo, combatendo a monotonia do arco-íris, pintando de verde o vinho, a dor e o mar. Os versos azuis confundem-se com a espuma dos oceanos, as ondas ameaçam fúria, o chão fica mais incerto, os gritos mais abertos e as vogais mais redondas. Alguns pássaros dobram as asas e caem sem um único protesto. Os caminhos enchem-se de flores e os pés desenham neles os seus passos. A incerteza está na direção a tomar. A coragem verdadeira por vezes consegue chegar a horas. Os pregadores falam das quimeras do tempo que já passou, da fé que continua a murchar, do amor que morre abandonado, das igrejas desamparadas, dos corpos impotentes, do enamoramento dos jardins, da serenidade da espera, do renascimento, do futuro, da virgindade austera, da fidelidade, das expressões de pureza e dos caminhos demorados da tristeza. Diz que Deus é capaz de comer montanhas, de beber o próprio mar, de redimir a primavera, de se embebedar por telepatia, de libertar o mundo das certezas. Junto à ribeira cresce de novo a ternura, o vento peneira o lirismo, o fauno treme de frio. Cheira a seiva, a floração e a cio. As sementes rebentam como se fossem eternas. A virilidade divina é um mito. Um silêncio grave rasga a paisagem. O chão onde nasci já não magoa os meus pés. Sou uma criatura frágil. A ponte da Clérga continua inquieta. O soalho da casa continua impreciso. A sala estiola de fantasia. A aldeia parece um museu a céu aberto cheia de caos e de correntes de ar. Abro a porta para arejar a dor. Ninguém canta. Alguém emparedou as melodias. O destino voltou a enganar-se. O camponês já não canta nem semeia a terra. Espalhada pelo tempo, a angústia ficou ainda mais secreta. As casas parecem chagas. O ruído vem de muito longe. As palavras perderam a claridade. Morre-se devagar. O tempo é como um punhal de aço. Tento encontrar os sonhos perdidos. Ficam as sombras. As andorinhas vêm chocar mais imagens. Os milagres não têm cor.


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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017

Na feira do gado - Santos - Chaves

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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

Na feira do gado - Santos - Chaves

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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017

364 - Pérolas e diamantes: A estupidez

 

 

Há muito tempo que eu desconfiava de uma coisa que me parecia axiomática: a estupidez é natural. Mas agora tirei isso a limpo, depois de ler o brilhante livro de Paul Tabori (A História Natural da Estupidez).

 

Segundo o autor, a estupidez é muito provavelmente até necessária, não só para ocupar os escritores satíricos, mas também para oferecer distrações a dois grupos minoritários: os realmente sensatos e os suficientemente sensatos para se aperceberem de que são estúpidos.

 

Como todos sabemos, a estupidez é como o fumo do tabaco. Não só é prejudicial para os que a sofrem mas também para os que por ela são rodeados.

 

O autor adverte-nos de que não conseguiu escrever uma história completa da estupidez, o que ainda mais nos impressiona, pois o assunto é vastíssimo.

 

É muito desagradável de admitir que se possa escrever mais sobre a estupidez humana do que sobre o seu bom senso.

 

A abrangência da obra é notável. Cita casos incríveis de estupidez, desde a ganância do ser humano pelo ouro ao amor pelos títulos e pelas cerimónias, passando pela prisão nas teias da burocracia, pela subtileza da lei e pela gíria legal, descrevendo a crença em mitos e a descrença nos factos, bem assim como o fanatismo religioso, as idiossincrasias e idiotices sexuais e a tragicomédia dos que buscam incessantemente a mocidade eterna. 

 

Conta casos como o de um membro da Academia das Ciências de França que teimava e insistia na ideia de que o fonógrafo de Edison não passava de um truque barato de ventriloquismo e da técnica de Hermipo que prolongava a vida pela inalação do hálito de virgens.

 

A estupidez, diz Paulo Tabori amarguradamente, é a arma mais mortífera do Homem, a praga mais devastadora e o luxo mais caro. Como dizia Schiller, até os deuses lutam em vão contra ela.

 

Há homens estúpidos que possuem muitos conhecimentos, como também existem homens sensatos cujos conhecimentos são muito limitados.

 

Na realidade, o conhecimento difuso e exuberante encobre, a maioria das vezes, a estupidez. Por outro lado, o bom senso muitas vezes manifesta-se em gente pouco culta.

 

De facto, em todos os seus atos, o ser humano ambiciona sempre ser superior ao seu semelhante, quer seja a jogar a feijões ou na busca dos milhões. O que receia é que as suas intenções se tornem muito evidentes. Por isso tenta escondê-las, receando que o fingimento não resulte, temendo sobretudo o malogro das suas ambições. Por isso também se coíbe de agir (estupidez passiva) ou então atua inutilmente (estupidez ativa).

 

Segundo Feldmann, a estupidez é sobretudo medo, medo de nos expormos às críticas, quer do outro quer de nós próprios.

 

A estupidez adquire várias formas e manifestações distintas. Há pessoas que só a demonstram no recato do lar ou em ambientes restritos. Outros sentem orgulho em a expor publicamente. Outros só se tornam estúpidos quando são forçados a falar ou a escrever qualquer coisa de seu.

 

A estupidez pode ser limitada ou irrestrita.

 

Charles Richet defende que “o homem estúpido não é o que não compreende determinada coisa, mas sim aquele que, compreendendo-a suficientemente, atua como se não a tivesse compreendido”.

 

O preconceito é, definitivamente, uma das formas mais notáveis de estupidez.

 

Ranyard West resume a ideia perfeitamente no seu livro A Psicologia e a Ordem Universal.

 

“O preconceito humano é universal. Depende de uma necessidade humana: o respeito do individuo por si próprio. Existem vários processos de o cérebro humano conseguir ignorar os factos, mas nenhum que lhe permita pôr de parte o desejo de autolatria. Nós, homens e mulheres, procuramos sempre ter boa opinião de nos próprios. Para atingir tal fim, precisamos de mascarar, aos nossos olhos, a verdade, servindo-nos dos expedientes mais diversos. Negamos, esquecemos, perdemo-nos a explicar as próprias faltas e exageramos as dos outros.”

 

O preconceito é estupidez. Os franceses não são libertinos, os negros não são inferiores e os judeus não são usurários.

 

Uma coisa sei: é possível ter-se boa opinião de si próprio sem se ter má opinião acerca dos outros.


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Domingo, 22 de Outubro de 2017

No Louvre

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Sábado, 21 de Outubro de 2017

No Louvre

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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

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Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017

Poema Infinito (376): O desconcerto da linguagem

 

 

Desejo ser o apetite do teu corpo e dos teus olhos. Todos os pedaços de mim constroem um novo menino. Continuo a preferir as linhas tortas, onde os deuses se perdem e eu me encontro. Eu não possuo esplendor. Procuro que o meu referente seja a cintilação. E o trabalho árduo da confirmação. Continuo a limpar as palavras, a atrapalhar-me com as significâncias, a vigiar as tentações, a tentar higienizar a solenidade. Ouço as aves, Bach e o choro do dia que morre dentro de mim. As vozes acompanham os andores e a loucura dos desencontros e todos os delírios verbais. Baudelaire continua tenso à procura de títulos para os poemas. Ninguém consegue resolver o conflito dos seus versos. A beleza e a dor congregam toda a síntese. Nascemos para administrar a inutilidade, para operar as imagens, para repetir semelhanças. Por vezes conseguimos encontrar a clareza e a aptidão vegetal. A ciência ainda não é capaz de medir o encanto e de calcular o divino. As coisas que não têm dimensão são as mais importantes. Tudo o que é ínfimo é exuberante. Deus apropria-se do abandono. O seu orgulho é incomensurável. Todos os sermões anunciam a solidão. Desmancho em versos tudo aquilo que aprendi: a agilidade da tolice, a prudência da sensatez, as falsas invenções, as distintas maneiras de não dizer nada, a presença de tudo aquilo que me falta, o melhor modo de explicar o contrário, a preparação dos conflitos, a ausência desamparada das palavras mais rudes, a revelação do amanhecer, a visibilidade encantada das ilusões, a imperfeição das certezas, a inércia do amor, a sabedoria anormal das árvores, o estigma das expressões, o desejo circunspecto dos horizontes, as palavras que escondemos com cuidado, as palavras que nos acham e toda a terapia literária indispensável para desconcertar a linguagem. Quando descobrimos a verdade estamos mesmo à beira do nada. A natureza é um erro. Estou sempre a ir-me embora do lugar onde me encontro. Todos os verdadeiros artistas iluminam o obscuro, inventam as tintas, podam as palavras, derretem as formas e incorporam novas imagens. O efeito natural da luz constrói novos brinquedos. As expressões mais sérias não costumam sonhar. Então o silêncio sai da sua forma. Oiço vozes encostadas ao escuro falando da eternidade e sinto um forte odor a extinção. As indulgências conduzem o homem ao seu melhor aniquilamento. A salvação anda pelos becos. Concentro-me agora na escrita de uma nova biografia do rocio. O início do dia chega com atraso. Os loucos improvisam a conquista da perfeição, transformam-se em pessoas de vento e arborizam as aves mais modestas. As mariposas trocam de arbusto e os outros insetos cristalizam o cheiro a sol. Predominam os lírios dentro dos nossos olhos. As plantas são como bocas a crescer de desejo. O cio vegetal junta-se ao murmúrio das águas. A chuva encontrará de novo a sua solidão. Nos lugares mais isolados germinam as horas que se preparam para chegar. A noite deita-se agora sobre os nossos corpos. As memórias ficam mais favoráveis. Escutamos o rio a correr por entre as pedras. O mago espalha o fumo e os duendes cortam as unhas. Sinto a nostalgia dos brinquedos tristes. Sonho com uma árvore que plantei e cresceu torta. Nela não cabem os pássaros que a procuram. Lembro-me que a estaquei com elementos de física quântica e que de nada lhe serviu. Agora agrafo palavras como se fosse cego.


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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017

No Louvre

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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

No Louvre

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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

363 - Pérolas e diamantes: Divagações

 

 

 

Hawthorne mostrou ao mundo que os escritores americanos podiam ser shakespearianos. Até Melville fez a sua tentativa. Segundo Daniel J. Boorstin, antes e durante a escrita de Moby Dick, o escritor norte-americano esteve “hipnotizado”, lendo e relendo Shakespeare, nomeadamente Rei Lear, Hamlet e Tímon de Atenas.

 

Melville venerava Shakespeare, considerando-o “o mais profundo dos pensadores”, mestre da “grande arte de dizer a verdade, mesmo que velada e fragmentariamente”. O que mais apreciava não era “o grande homem da comédia e da tragédia […] Mas as coisas sonhadoras que há nele; aqueles seus ocasionais lampejos da verdade intuitiva; aquelas explorações rápidas, breves, do próprio eixo da realidade”, pois eram essas coisas que faziam de Shakespeare Shakespeare.

 

De facto, os americanos sempre foram idealistas e um pouco excêntricos. Major Douglas, um economista autodidata, resolveu avisar o mundo de que tinha um remédio para todos os males sociais. O seu plano de “crédito social” fundamentava-se na ideia de que as depressões podiam ser evitadas e a justiça social alcançada pela manipulação do sistema monetário.

 

Melville era contrário à fama. Chegou mesmo a justificar a sua obscuridade. Escreveu que “toda a fama é patrocínio”, por isso pedia: “Deixem-me ser infame. Quanto mais a nossa civilização avança nas suas linhas presentes, tanto mais a ‘fama’ se torna desprezível, especialmente a dos escritores.”

 

Está visto e provado que até os génios têm momentos de desatino. Por exemplo, Dostoievski era um jogador inveterado e chegou mesmo a ser arrastado por Belinski para um círculo de reformadores atraídos por modelos ocidentais, que conspiravam secretamente contra a autoridade czarista. De facto, viveu numa era que, como observou o arguto viajante francês marquês de Custine, “em Petesburgo mentir continua a ser desempenhar o papel de um bom cidadão; dizer a verdade, mesmo tratando-se de assuntos aparentemente sem importância, é conspirar.”

 

Já Joyce dedicou o seu génio a tornar a escrita uma linguagem supremamente ininteligível.

 

Quando lhe perguntaram porque escreveu Finnegans Wake, respondeu de forma maliciosa, não para pedir desculpa mas para se vangloriar: “Para manter os críticos ocupados durante trezentos anos.” Possivelmente partilhava a estupefação de Einstein que achava que o mistério eterno do mundo era a sua compreensibilidade.

 

Também existe a possibilidade de partilhar a ideia do enigmático elogio de Henri Rousseau a Picasso, nomeadamente a Les demoiselles: “Picasso, você e eu somos os maiores pintores do nosso tempo, você no estilo egípcio, eu no estilo moderno!”

 

Já Picasso, nos seus últimos anos de vida, teve este lamento: “As pessoas não compram os meus quadros, compram a minha assinatura.”

 

De facto, o mundo ainda vive preso do mito da Arca de Noé que, por incrível que pareça, é uma história partilhada em todas as partes do mundo. Mesmo o Corão (surata XI, versículos 27 a 51) segue com grande fidelidade o Génesis e faz um relato pormenorizado do Dilúvio e de como Deus salva Noé: “A Arca poisou sobre o monte al-Judi” (versículo 46), um maciço montanhoso de quase quatro mil metros de altitude, situado na região de Mossul, no Curdistão iraquinano.

 

O Poema Gilgamesh, possivelmente a fonte que inspirou o relato bíblico, encontrado numa tábua cuneiforme em Nínive, capital da Assíria, conta na primeira pessoa o desembarque de uma arca no monte Nisir, a nordeste da Babilónia.

 

O mito hindu do Dilúvio, contido na Satapatha Brahmana, refere-se a uma “montanha no Norte”, onde Manu ata o seu barco a uma árvore, a conselho do seu amigo peixe gigante.

 

Os gregos mencionam o monte Parnaso ou as montanhas da Tessália, onde o navio de Deucalião chegou e Pirra após o dilúvio da mitologia helénica.

 

Lendas idênticas são narradas desde o Alasca até ao Peru.

 

Basicamente, todas as civilizações antigas possuem histórias similares sobre a destruição do mundo através de uma enorme inundação e sobre uma nau salvadora, o que nos leva a pensar que se trata de um mito funcional para a maioria dos povos antigos e que, muito provavelmente, foi adotado pelo cristianismo.


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Domingo, 15 de Outubro de 2017

Louvre - Interiores

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Sábado, 14 de Outubro de 2017

Louvre

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Sexta-feira, 13 de Outubro de 2017

Louvre

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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017

Poema Infinito (375): O guincho metafórico das memórias

 

 

 

Na hora mágica do sol se pôr eu desengancho-me do teu corpo. Nem todo o barulho do mundo preenche este silêncio, nem a saudade deixada pelos pardais desaparecidos alivia o nascer do dia. O crepúsculo faz de oposto. O regresso a casa realiza-se por turnos. Os fantasmas reúnem-se por turmas. O membro decepado continua a doer como se fosse uma árvore cortada à nascença. As pessoas continuam a chamar nomes à mágoa como se ela fosse um palhaço do circo. A infelicidade atira pedras. Nenhum bálsamo alivia a dor da ausência. Imãs cegos conduzem as orações da amizade e da vingança. A tua companhia lembra-me os livros de poesia, o som metálico dos discos riscados, os velhos harmónios, os álbuns de fotografias, a roda dentada dos jornais encadernados, os incêndios dentro dos armários, o tempo em que fumava sarilhos, a vontade de mudar de assunto, o tom afetado da indiferença. Deus continua a ser a verdade pintada na traseira dos autocarros, o rugido das autoestradas, o enterro das orações, a inclinação do tempo, o azul por cima do vermelho e do laranja. Nasce o sol por detrás da tua cabeça, com a profundeza mortal do desencanto. Ainda não sei onde os pássaros velhos costumam ir morrer. As árvores inclinam-se no sentido dos sussurros. Caem do céu almas como se fossem pedras. Mesmo de forma tangencial, a vida continua a necessitar de sombras, de sonhos e de alguma crueldade. Também a noite precisa de labirintos e de ilusões e até de partos. Por mais que lhes custe, as palavras dos poderosos não conseguem fazer uma língua. Depois da criação, tudo no mundo se baralhou. As passagens abertas transformaram-se em vaginas e o tempo divino compreendeu a plenitude da misericórdia. Os minutos são como passos que dirigem o tempo. A nudez pública continua a ser uma apostasia. As nuvens deslizam no céu, os pássaros ficam paralisados em pleno voo e o ar que nos veste tornou-se denso e incompreensível. As orações soam a falso. Engordam-se os cães, os gatos e os mitos como antigamente se cevavam os eunucos, os porcos e os vitelos. O som do tempo e da saudade torna-se vago. Os velhos ficam translúcidos. As mulheres cantam com voz doce e melodiosa a timidez das flores, a arrogância das casas, o extraordinário princípio dos caminhos e a esperança dissipada da igualdade. Estranhas febres chegam do lado de lá, dos verões escaldantes, da metrópole envelhecida, da fronteira onde se gera o ódio. As famílias antigas fogem das cidades muradas. As árvores genealógicas transformam-se em papéis quebradiços. A dignidade é agora uma espécie de nostalgia. A nossa ignorância aparente faz-nos beber chá forte para enrijecer as aparências. Existe dispersa pelo mundo a subtil noção da estagnação. Os jovens riem-se do seu pressentimento, do choque inicial. Tentam, por isso, estabilizar a incompreensão, controlar as tendências e converter a angústia num problema prático. As histórias já não lhe dizem nada. A tarde alarga-se e incha para se transformar em noite. O tempo estende as suas garras. O lugar onde nasci ainda é o único onde sinto o ar a abrir-se quando eu passo. A casa onde fui parido ainda possui as portas degradadas do Paraíso. O telhado abateu parcialmente. Os gatos miam encostados às paredes. Alguém sorri com a expressão mais triste do mundo. As memórias guincham como se as estejam a matar.


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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Louvre

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Terça-feira, 10 de Outubro de 2017

Em Paris

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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

362 - Pérolas e diamantes: A pose da naturalidade

 

 

O romance de cavalaria medieval, que foi o alvo predileto de Cervantes, desenvolveu-se na França do século XII e espalhou-se depois por toda a Europa. Além de altamente convencional, também era escrito em versos fáceis de recitar e só depois em prosa.

 

“Romance” significou de início uma obra em francês, derivada do latim, a língua de Roma.

 

Os romances medievais, ao contrário do que muita gente pensa, não eram crónicas de batalhas campais, como as travadas entre Gregos e Troianos, mas histórias de cavaleiros lendários dedicados a Jesus Cristo e às suas amadas, de torneios e de castelos encantados, com um suplemento de dragões e monstros, todos sob o feitiço de grandes magos. E eram coisas pouco divulgadas. A edição dos livros exigia trabalho muito elaborado e moroso.  

 

Apenas com o progresso tecnológico da tipografia no século XIX é que o livro se transformou em veículo popular para um novo público leitor, tão sequioso de uma história imaginária de boatos picantes e últimas novidades.

 

Os autores, com a cumplicidade dos seus editores, adquiriram rápida aceitação. Finalmente podiam saber daquilo que os leitores gostavam, sentindo-se cada vez mais tentados a dar-lhes o que eles queriam. Como diz Daniel J. Boorstin: “O autor-criador tornou-se, pois, o público do seu público.”

 

No seu livro Os Criadores, o autor refere que Dickens, entusiasta e compassivo, era, ao contrário de Balzac, um homem de paixões. Pomposamente democrata, permaneceu um vitoriano populista. “A minha fé nos governadores”, escreveu em 1869, “é, no seu todo, infinitesimal; a minha fé no povo governado é, no seu todo, ilimitada.”

 

Nem a sua experiência como jornalista no Parlamento aumentou a sua confiança nas assembleias representativas. O autor dos hilariantes Cadernos de Pickwick passou pela Câmara dos Comuns “como um homem” e na Câmara dos Lordes “não cedeu a nenhuma fraqueza, exceto ao sono”.

 

Confessou que viu muitas eleições “sem nunca ter tido vontade (qualquer que fosse o partido a ganhar) de estragar o chapéu atirando-o ao ar”. Nem o que observou no Congresso de Washington alterou as suas opiniões. Dickens nunca “lamentou nem se orgulhou de qualquer corpo legislativo”.

 

O génio é sempre obra do acaso. E quase sempre as pessoas que o possuem são torturadas e perseguidas por obsessões contínuas. O sublime Leonardo da Vinci, enquanto jovem, comprava pássaros no mercado a fim de os libertar. E caminhava pelo seu próprio pé, pois, como Miguel Ângelo escreveu: “Aquele que segue outro nunca o alcançará”.

 

Dostoyevsky dizia que “as ideias voam pelos ares, mas são condicionadas por leis que não compreendemos. As ideias são contagiantes, e uma ideia que se poderia crer prerrogativa de alguém possuidor de grande cultura pode entrar no espírito de um ser simples e descuidado e apoderar-se dele.

 

Oscar Wilde gostava de brincar com o seu paradoxo afirmando bem alto que “ser natural é apenas um pose”.

 

O pai de Montaigne tinha como objetivo educativo para o seu filho aliá-lo com “o povo e aquela classe de homens que precisa da nossa ajuda”. Ensinou-lhe que “o dever manda primeiro olhar para o homem que nos estende os braços e só depois para aquele que nos volta as costas”.

 

Talvez tudo não passe de uma questão de fé.

 

Montaigne divide os filósofos em três categorias: os que afirmam terem encontrado a verdade, os que negam poder a verdade ser encontrada e os que, como Sócrates, confessam a sua ignorância e continuam a procurar. Apenas os últimos são sensatos.

 

Mas a fé pode ser como a de Montaigne: “uma corda que sustenta o enforcado”.

 

Quando jovem, Benjamim Franklin não se interessava francamente pelas belezas da natureza, ou da literatura, nem tão pouco o emocionavam a poesia, a arquitetura ou o romance histórico. “Muitas pessoas gostam de narrativas sobre edifícios e monumentos antigos, mas por mim confesso que, se conseguisse encontrar nas minhas viagens uma receita para fazer queijo parmesão, isso me daria mais prazer do que uma cópia da inscrição de uma qualquer pedra-de-não-sei-quê.”

 

Franklin chegou a ser um dos líderes da Revolução Americana, conhecido por suas citações e experiências com a eletricidade. Além disso foi jornalista, editor, autor, filantropo, político, abolicionista, funcionário público, cientista, diplomata, inventor e xadrezista estadunidense.

 

Escrevia como recomendava, de forma “simples, clara e concisa”, e persuadia os seus leitores a apadrinharem um objetivo prático e quase sempre valoroso. Tinha como intenção “promover um saber que seja útil”.

 

O seu Conselho a Um Amigo Para a Escolha de Uma Amante era o reflexo disso mesmo: “Prefira mulheres velhas a jovens”. As suas razões terminavam desta forma: “Oitava e última: elas ficam tão gratas!”


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Domingo, 8 de Outubro de 2017

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Sábado, 7 de Outubro de 2017

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Sexta-feira, 6 de Outubro de 2017

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Quinta-feira, 5 de Outubro de 2017

Poema Infinito (374): Labirintos e lamentos

 

 

 

Desta vez não consigo sentir a casa, apenas experimento a tristeza vaga dos seus alicerces. O tempo e o mundo parece que nos sobram. Como dois namorados, queixamo-nos da felicidade e do amor que cresce num ritmo lento. Toda a beleza é em vão e a virgindade tem forma de verso vencido. O amor é uma ave de rapina. O desejo brilha como o orvalho da manhã. Rolamos com toda a velocidade pela voracidade do tempo. O sol continua a nascer para lá dos portões de ferro. Parece que a alma toma conta dos nossos erros e as transgressões moldam os nossos corpos. Todos os pecados são teimosos porque se alimentam do remorso. Boceja o tempo como se tivesse necessidade de uma bênção. A verdade custa uma fortuna em lágrimas. Os poemas prolongam-se pela colina como se fossem raios de sol preparando o caminho da paixão. Choram os anjos de júbilo porque os ensinaram a amar o medo e os lamentos. Testam agora o desprezo, as doenças venéreas, o incenso e a mirra, as drogas, o vinho benzido e o pão ázimo. Deus usurpa todas as ironias e acaricia com a sua mão de veludo as cenas ímpias e os gemidos mudos. Da fonte da nossa origem corre agora a água da piedade, a natureza cruel do tempo, a dor mais perfeita, a essência incompleta da vida. Os sábios decadentes ensinaram-nos que o tempo e o universo vão ter de convergir. Brilha no túnel do tempo a luz pura do esplendor. Os poetas ocupam os lugares mais singulares, enobrecem os dramas, procuram as joias antigas nas cidades perdidas, filtram a magnificência e o espanto, transformam-se em pássaros imensos que deslizam até ao mar e ocupam os navios mais lentos que navegam nos abismos mansos. Alguém se sensibiliza com a beleza cómica dos objetos esquecidos. Ri-se o exilado no meio da terra triste onde os pobres alcançam as asas gigantes da fome e do desprezo. O fogo toma conta dos espaços mais enérgicos. Os ímpios afogam-se no meio da essência divina. Iluminam-se os campos, as casas e os caminhos. Os pensamentos e as cotovias acordam ao mesmo tempo e partem logo para o ar azul e as flores explicam a mudez das suas cores. A natureza ergue-se entre os pilares vivos do templo. Lá dentro os homens soletram palavras confusas e observam a floresta de símbolos. Tudo se confunde: os longos ecos, a profunda unidade da noite, a claridade dos sons, o perfume seco da pele das crianças, o verde dos campos, o som triunfante dos oboés, a expansão quimérica do âmbar, as paisagens e os alpendres, os olhares mais impacientes, a sintonia imensa da claridade, a recordação dos velhos tempos em que reinava a nudez, a complexidade dourada das estátuas, o complexo da ansiedade, as carícias inchadas de ternura, a elegância, a robustez e o orgulho, o frio tenebroso do desaparecimento, as máscaras ridículas, os corpos torcidos, a serenidade de Deus, as mulheres pálidas como círios, a luxúria, a fertilidade, a evidência dos pássaros e das flores, as hortas lânguidas, as formas cansadas de Rubens, os espelhos absorventes de Leonardo da Vinci, os murmúrios crucificados de Rembrandt, os fantasmas soberanos e o sudário de Miguel Ângelo, o carnaval extravagante de Watteau, os estranhos pesadelos de Goya, os anjos maus de Delacroix e os estranhos suspiros de Weber. Repercutem-se os labirintos e os lamentos. O tempo humano tem a forma de rima falsa.


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Quarta-feira, 4 de Outubro de 2017

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Terça-feira, 3 de Outubro de 2017

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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

361 - Pérolas e diamantes: A verdade e os tolos

 

 

Não vale a pena dar-lhe muitas voltas, bem vistas as coisas tudo depende do coração. Afinal, toda a gente acredita naquilo que quer acreditar. Todos sabemos muito bem que sabemos muito bem que sabemos muito bem.

 

As notícias de última hora que inspiram os jovens repórteres inexperientes, mas com muito bom aspeto, são as da pobreza. Até o senhor presidente da República não se cansa de abraçar e beijar os sem-abrigo.

 

As histórias dos desgraçadinhos de Lisboa e arredores espalham-se pelo país como uma doença sentimental. E as perguntas são sempre prementes e ocas: Como é ter fome? Como é não ter casa?

 

Os canais de televisão patrocinam-se dessa forma, transmitindo o desespero em direto. Os ricos deliciam-se sentimentalmente com a pobreza.

 

Mas os restaurantes estão cheios de pessoas, as sapatarias repletas de sapatos e sapatilhas e donzelas e pseudo-atletas.

 

E as lojas de roupa rejubilam de atestadas por pseudo-manequins ambulantes. A felicidade cabe-lhes toda na exclamação: “Agora já não precisamos de ir às compras ao estrangeiro!”

 

Para terminar o triângulo virtuoso, os especialistas emitem as suas opiniões especializadas… a valor de saldo: “Alguém vai ter de pagar o preço do Progresso”.

 

E, ó ironia das ironias, não acreditam em quem lhes diz a verdade porque sabem que na cabeça dos tolos só a verdade é que aproveita. Afinal, a quem é que interessa a verdade?

 

Aos tolos.

 

 A quem?

 

Aos tolos.

 

O mundo agora é só vídeos. Estou em crer que até o primeiro-ministro e o presidente da República tomam as decisões importantes baseados nos vídeos que visualizam no iphone.

 

Também eles fazem parte da realidade… dos filmes.

 

Nos restaurantes apinhados, todos, mas mesmo todos, suspendem as refeições e imobilizam os sorrisos para tirarem uma selfie

 

com a ementa…

 

com o empregado de mesa…

 

com o papá e a mamã…

 

e a avó…

 

e o namorado…

 

ou namorada…

 

uns com os outros e outros com os uns…

 

e o pobre do cão a ladrar lá longe no canil…

 

e o gato a miar sozinho, ou mal acompanhado, no gatil…

 

E depois passam as selfies de uns telemóveis para os outros e dos outros para os uns para os uns e os outros as contemplarem. Nada mais interessa, nem sequer a comida, sobretudo a boa, porque fica mal na fotografia.

 

Disfarça-se a obesidade com os sorrisos.

 

O fotoshop é bué de mentiroso, mas as pessoas são ainda muito mais.

 

As infraestruturas tomam conta de nós, sobretudo as ligadas à impunidade.

 

Os centros comerciais reluzem, as metrópoles rebentam de turistas, os vales transformam-se em lindos lameiros de golfe. As novas personagens de tudo aquilo que é velho tornam-se inesquecíveis. Todos somos apanhados pelas novíssimas marés da gargalhada.

 

Estamos superlotados de vacuidade.

 

Só respondemos às perguntas indiretas.

 

Destroçaram-nos as histórias.

 

Quem são os heróis?

 

Os tempos estão a mudar…

 

Tretas…

 

Afinal qual é a moral desta história?


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