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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Nov17

Poema Infinito (382): Revelações solares

João Madureira

 

 

Arde a tarde dentro da nossa alegria. O sol revela a angústia do meio-dia. A fogueira arderá dentro da noite. As pombas ainda parecem felizes entretendo-se a catar os piolhos da eternidade. A verdade morre dentro de Deus. A ilha está repleta de sombra. A luz do mar evidencia ainda mais o vazio. As horas parecem agónicas. Colho as flores que restam do teu sorriso maravilhado. As suas pétalas aquecem-me as mãos. Navegam as aves no céu azul entre as montanhas e as ondulações mais suaves. Confundo as sensações mais perturbadoras. Os poetas são imoderados. Acreditam que a loucura é o dom eterno de cada criatura. Por isso se comovem sem motivo aparente, por isso erguem templos de luz inconformada, por isso acreditam na inocência das rosas e jogam contra o destino, misturam as horas, arriscam a consciência em atos de sorte, triunfam nas derrotas, conseguem mesmo aprender o tamanho das divindades, os rituais da noite, os sinais que originam os ventos, os lugares do sol no firmamento, as raízes profanas da humanidade, as certezas que merecem ser esquecidas e aquelas que devem ser lembradas. Todo o tipo de pureza justifica o voo dos colibris, a ascensão dos nenúfares, o milagre das mãos aladas, a contrição com que os pais explicam os filhos, as sementes que crescem junto da terra dos sonhos, os sinais que descobrem os caminhos, os reis magos que adivinham a luz das estrelas madrugadoras, os presépios nus, o deserto em que se transformou Belém. As imagens de Deus são como clarões carregados de negrura, onde os raios que iluminam a vida se estendem passivamente sobre o presente. O futuro vem carregado de um frio prematuro, anunciado pelas paisagens íntimas, guiado pelo fio fino dos versos, impregnado de labirintos, sedento de aventuras e sentimentos inquietos. A mulher é o centro do infinito. São os minotauros quem continua a devorar as horas, a tornar secretos os destinos, a anunciar os nascimentos, a batizar os padrinhos, a espalhar o sofrimento pelos caminhos. Os poetas perdem agora os apelidos, escrevem os seus nomes temerários com versos esdrúxulos, estranham os ermos onde foram criados, misturam o amor com circunstância e depois sentem vibrar dentro de si a solidão. Gemem através de palavras velhas e sagradas, pousam o destino nas mãos da piedade, inventam a sua própria carne tatuada. Abrem então as mãos e semeiam ilusões, podam versos bravios. Todos os milagres são amargos. Alimentam-se através das raízes que se multiplicam nos pomares, nos hortos e nos jardins.  Lembro-me do colo divino da minha mãe, do seu sentido calmo e figurado. Este tipo de presente é árido. Deusas desinspiradas tentam em vão purificar a vida. Os poetas talvez consigam cobrir os seus versos de renovo, distinguir as seivas, definir as rugas, agasalhar o pânico, vestir de vez a nudez inconformada. As asas dos anjos latejam de cansadas. O seu génio continua amaldiçoado. Nem toda a felicidade é repousante. A poesia continua. O desespero também. O silêncio do tempo abre os caminhos que não vão dar a lado nenhum. Os dedos da avó continuam a bordar a inquietação mais pura. As chagas dos montes estão cada vez mais fundas. As planícies refletem a solidão. Sentimo-nos levitar até ao céu mais alto. Depois triunfam as leis da gravidade. A loucura e a inspiração voam com as aves. Hesitamos na direção a tomar. Afinal quem é que nunca se enganou na estrada verdadeira?

27
Nov17

369 - Pérolas e diamantes: A impunidade do tempo

João Madureira

 

 

José Gil considera que a tragédia dos incêndios é em parte o nosso espelho. De facto, os nossos governantes, todos eles sem exceção, como muito bem diz o filósofo, habituaram-se “a pensar, a pensar e a gostar de pensar, e a julgar até que basta pensar para que tudo se resolva. Mas não chega pensar. É preciso agir.”

 

Pensar o Estado dos afetos, referindo-se a Marcelo Rebelo de Sousa, segundo ele, não é ridículo. Aí discordamos. Os afetos do senhor Presidente da República já começam a causar embaraço e algum mau estar, de tão excessivos e corriqueiros. Estou em crer que o mais alto representante do estado português não deve ser uma espécie de Madre Teresa de Calcutá vestida de fato e gravata que beija tudo e todos e que apenas distribui sorrisos e abraços. É que o ridículo também mata.

 

Na entrevista que deu ao jornal Negócios, o filósofo português considera que já faz parte da nossa tradição e da nossa maneira de ser não ligarmos ao nosso passado, nem ao nosso presente. Daí Portugal necessitar de uma revolução de mentalidades, na forma de uma mutação radical, mas não necessariamente através da revolta política. A revolução deve ser realizada na sua dimensão social e espiritual.

 

Pensa que esta fobia momentânea de acorrer aos danos, após o fogo posto, pode não passar de fogo-fátuo, receando que o desleixo continue, bem assim como “o esquecimento e a desvalorização a que está sujeita uma parte importantíssima da nossa sociedade, da nossa comunidade nacional”.

 

De facto, as pessoas do interior são esquecidas “e a nossa política esquece-as por não inscrição”, pois “elas não têm importância e, portanto, faz-se uma política de combate aos fogos que fica no papel e despois esquece-se, esquece-se alegremente”.

 

E porquê? Pois porque aquilo que consideramos que tem importância passa-se nas cidades. Tudo aquilo que está relacionado com a cultura, com as novas tecnologias, com o “show” citadino que isso envolve, encontra-se nas cidades, nas grandes cidades. As pessoas de um “outro passado e de uma outra geração” são desvalorizadas. E o mais trágico é que “elas sabem que não existem e que não contam para o Estado”.  

 

O projeto político de combate aos fogos tem de valorizar a nossa cultura ancestral, a nossa cultura rural, o passado. Esse passado, que está a desaparecer, ainda permanece vivo nessas pessoas. E tudo isso é nosso, “é o nosso presente que também é feito do nosso passado. E nós agimos como se esse passado não existisse mais, como se não contasse”.

 

Integrar o povo e a cultura na política deve significar que os projetos têm de ter em conta as pessoas. Mas o que parece interessar, e, convenhamos, com a prestimosa cooperação do nosso Presidente de República, é a mediatização do sofrimento.

 

Os urbanos vivem numa espécie de indulgência irrefletida, esquecendo-se que o território existe. E existe porque essa gente esquecida e abandonada continua a viver no meio rural, a mantê-lo, sem os meios necessários, sem a respetiva valorização, sem o reconhecimento de que elas pertencem a Portugal.

 

Como José Gil recorda, “não interessa unicamente lembrar, é preciso que a lembrança se interiorize e se integre em nós, é preciso que essa lembrança nos leve, também, à ação”.

 

Passada a fase do espanto e do horror, aquilo que é notório é que o discurso dos partidos voltou ao simplismo de sempre, ao plano habitual. A clivagem ancestral entre campo e cidade continua inalterada e inalterável. É uma clivagem política mas também cultural. Os nossos intelectuais também se estão a borrifar para isso. O que interessa é o Eça, o Saramago e o Lobo Antunes, a denominada alta cultura.

 

O tecido rural já está a dissolver-se, a desaparecer e com ele é toda uma cultura que vai acabar. Mas ainda não acabou, ainda existe, e resiste, um pouco em cada um de nós.

 

Há por aí uma visão que pensamos moderna, mas que é já muito antiga. Os marxistas continuam a pensar que o que interessa é a estrutura, pois o homem pode ir-se embora, mas a estrutura continua. Sociologicamente tal ideia está ultrapassadíssima. O que faz arder o país é, sobretudo, a politiquice.

23
Nov17

Poema Infinito (381): Cruzamento de fogo

João Madureira

 

 

Tento adormecer lavrado pela poesia. As aparições continuam. E os casulos de seda. E o inventário do sono. E a noite que tudo estrangula. Os objetos estão ligados à corrente sanguínea. Os idiomas bárbaros correm perigo de morte. Os seus vocábulos perdem todos os dias mais um pouco de substância. As estrelas continuam a abastecer-se de poesia. Por isso correm o risco de fundirem. O jardim enche-se de luzes magníficas, as imagens faíscam, as nuvens acordam dentro dos nossos abraços. O sabor das mães por vezes é amargo. O umbigo é uma outra forma da placenta. O seu canto doma os animais. O seu amor é canibal. O batismo acontece de forma atónita. As palavras ficam surpreendidas. A sua razão é leve. Com elas foi construído o paraíso. Os sítios nunca param, são como objetos astrais. A intensidade da água banha o dulcíssimo sono da aurora. Abrem-se os espelhos e por eles passam raios de palavras. Cantam os corpos e as suas ramagens. As máscaras moldam os rostos. Amo-te porque te consigo entoar de forma primitiva. As árvores vergastam os espaços. Os frutos mais pequenos entontecem as mãos. Murmuramos palavras obscenas quando nos tocamos. A escrita fica rodeada de vozes e de minúsculos abalos. Tentamos ouvir o escuro, perceber a desarrumação das coisas, afinar as feridas, afundarmo-nos no sono, construir teias de leveza, desvendar as luzes mais sombrias, perceber o cântico dos precipícios, transformar os sonhos em som e tentar transformar o mundo. As criaturas mais doces levantam as mãos e iluminam-se por dentro. A sua voz propaga-se em círculos. Os mestres colhem inocência nos hortos da memória. A música fica fria e afunda-se na loucura. As imagens estremecem como se fossem juncos. Os nomes respiram pela última vez e afundam-se na água do lago. Tudo se tranca em mim. Tudo se revela em mim: os braços, a boca, o latifúndio bravio dos teus olhos, as biografias rítmicas dos oceanos, o sexo com a polpa talhada em forma de diamante, as entoações mais ácidas e densas. As mãos das mães sabem bem qual é o ponto forte do quotidiano, sabem também transmudar as memórias, iluminar os sítios, intensificar as coisas, expor o seu trabalho ao assombro, aprender a purificar os elementos, fazer escoar a seiva pelos orifícios, mover o apoio das palavras mais lentas, banhar a virgindade dos seus filhos, apoiar as palavras-fêmeas, coser as rosas com as unhas, levedar a massa com as mãos mais agudas, desatar o poder da delicadeza, disfarçar as cicatrizes, deixar as crianças principiar sucessivamente, aumentar o vagar, alongar os ofícios, transformar a sede em poesia, aliar a poesia e o absoluto, regar as roseiras com a sombra, tornar abundantes as vidas mais simples, exaltar as vertigens, aliviar as cicatrizes do tempo com palavras maternas, assistir às vertigens, exaltar os nenúfares e as cerejeiras, ensinar a memória e a dor, tornar macios os dedos mais violentos, meter as mãos nos idiomas, passar força aos segredos, tocar os dias nos seus aspetos mais doces, mover os astros e os rostos e os sonhos em chamas. Os seus filhos vibram e brilham quando entram dentro das palavras. A noite parece uma pedra inocente que beija as árvores. Passas os teus dedos apavorados pela imobilidade do meu sexo. Beijo-te como se fosses uma árvore florida. Os símbolos ficam em silêncio. As minhas mãos procuram a pureza das tuas. As raízes divulgam o delírio. Amamo-nos debaixo de um cruzamento de fogo.

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