Domingo, 31 de Dezembro de 2017

No Porto

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Sábado, 30 de Dezembro de 2017

No Porto

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Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2017

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Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2017

Estás profundamente íntima...

 

Estás profundamente íntima como um fruto ao sol. Dá-me a mão porque quero sentir a tua memória silenciosa. Apago lágrimas rápidas num sorriso que te é dirigido. Os teus olhos são faúlhas feridas pela ondulação do mundo. A tua cara luminosa ama a luz e as palavras que nos nascem na boca. Há inúmeros lugares no teu corpo que inventam espaços. Consumo devagar o meu tempo acelerado. É Primavera no canto dos pássaros e no meu corpo já é Outono. A melancolia procura devagar aquilo que vai destruir. Pões-me palavras pesadas nas mãos e eu desfaleço. Vêm paisagens de longe sentar-se ao meu colo batidas pelo vento. Começa um novo tempo insuportável. O tempo da ternura e do silêncio escuta o nascer dos bichos. Explicas-me a morte e a alegria com palavras veladas pela curva fechada dos sentidos. O teu tempo de mulher refaz-se. As coisas nascem de ti, da tua boca de água. Alguém arranca a floração das imagens. Tremem-me os dedos nos objectos que toco. Tu és um objecto que brilha. A leveza da minha mão desequilibra o teu regresso. As tuas mãos velozes levantam a flor que cortaste pela manhã. Também eu amei lentamente o segredo das coisas mínimas. A juventude vingativa. A ardente confusão de ser adulto. A loucura dos indivíduos que dormem acordados. O silêncio completo dos dias apagados. Dizes: qualquer paixão crepita no escuro. Os corpos incendeiam-se dentro das casas. Os lençóis brilham como se fossemos diamantes de desejo. Nervo a nervo, a doçura salta entre a boca e o sexo. Atrais deus ao pecado. O teu sexo é oxigénio puro. O amor queima como chumbo fundido. O teu corpo queima como uma caixa de vidro ao sol. Os nossos sexos são agora espelhos torrenciais de luz. No final os púbis brilham. O prazer escoa-se sibilante nos nossos corpos ardidos de cansaço. Há uma cratera límpida no nosso desejo. Adormeço junto ao brilho do teu rosto em descanso.


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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2017

No Porto

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Terça-feira, 26 de Dezembro de 2017

No Porto

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Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017

O brincalhão

 

 

Quem tem amigos não morre na cadeia. Dito de outra forma, os meus amigos são aquilo que eu sou. Eu tenho amigos de todos os gostos e feitios. E gosto de todos eles. De todos sem exceção. Eles são tão diferentes uns dos outros que muitas vezes me pergunto como é que eu posso ser amigo de todos, ou todos podem ser meus amigos, sem nos questionarmos sobre o motivo das nossas diferenças, ou indiferenças. Todos diferentes todos iguais, lá diz, com toda a sapiência, a nossa escola democrática e inclusiva. E, contrariando o José Régio, e apesar de tudo, e apesar do Dantas, do Pim, do Almada Negreiros e do Paulo Portas, eu sei que vou por aí.

 

R. é o meu amigo mais brincalhão. É um patusco. Um homem capaz de pôr uma pedra a rir, ou, o que é ainda mais difícil, pôr a Manuela Ferreira Leite às gargalhadas. Tudo o que ele diz tem o condão de provocar uma risada imediata. Até se ri de si próprio com muita galhardia e independência. Qualquer frase articulada pelo R. tem graça, mesmo quando não tem graça nenhuma. E é isso que ele gere com abundante mestria: a capacidade de, do nada, conseguir estimular um sorriso em toda a gente, quer seja amiga ou inimiga, de esquerda ou de direita, católica ou não católica, homem ou mulher, gay ou lésbica, ecologista ou inimigo da natureza, branco, mulato ou preto, rico ou pobre, transmontano, não trasmontano ou indistinto, etc.

 

A última vez que o encontrei, disse-me, sem se rir, circunstância que provocou de imediato o meu sorriso, que leu numa revista uma reportagem dando conta que a pobreza começa a ser visível em muitos sectores da nossa população. Mas que fome sempre existiu. E que ele foi uma vítima dessa senhora vestida de preto.

 

Por mor das coisas, e do estilo, aqui vos deixo a sua prosa oral em registo direto e ao vivo.

 

«A fome, no meu tempo, provocava o riso, pois os pobres até se riam com ela. E quanto mais fome mais riso. Hoje as crianças pobres queixam-se que as suas mães às vezes só lhes dão meio copo de leite. Antes meio copo do que nenhum. No meu tempo, eu, que até nem era considerado pobre, ao pequeno-almoço, em minha casa classificado como mata-bicho, comia um caldo de unto acompanhado com um naco de pão centeio mais duro do que a própria fome. E ria-me muito quando o meu pai dava um peido e dizia “com a devida licença de vossemecês”. E a fome, desde que não seja permanente, pode ser fonte de saúde. E libertar os gazes do intestino também. Pelo menos é isso o que dizem alguns cientistas. E os médicos informam que devemos comer pouco: pouco peixe, pouquíssima carne, especialmente de vaca, que é a mais cara, e dizem que a abusar nas proteínas abusemos do atum e das sardinhas em lata, que são dos alimentos mais baratos que podemos encontrar em qualquer supermercado. Hoje morre-se muito mais de fartura do que de fome. A maioria das crianças é obesa. E a maioria dos adultos também. E sofrem do colesterol, da diabetes, da hipertensão, tudo doenças provocadas pelo excesso de gordura, sal e açúcares. A pobreza pode ser uma forma de combater esses flagelos. As crianças comem menos, bebem menos, crescem menos, engordam menos, brincam menos, estudam menos e todos sabemos que crianças que estudam menos são muito mais fáceis de aturar, não têm tendência a desenvolver aquele vício irritante de estarem sempre a questionar o porquê das coisas. E os pais podem poupar porque compram menos comida, menos roupa, menos brinquedos e menos livros e cadernos e esferográficas. E os livros são um verdadeiro luxo e custam tanto dinheiro que, a existir poupança na sua aquisição, pode ser encaminhado para uma conta poupança reforma que, a ser iniciada na infância, pode vir a representar a principal fonte de sustento na velhice, pois a segurança social qualquer dia dá o berro.

 

Escrevem por aí os jornalistas que muitas crianças relatam que às vezes querem leite, mas sabem que as mães vão logo dizer não, pois sabem que elas não podem. Se as mães não podem, que peçam aos pais. Pois eles devem servir para alguma coisa. Eu quando era pequeno utilizava muito essa táctica. Quando pedia algo à minha mãe e ela não mo dava, logo de seguida ia ter com o meu pai para ver se conseguia dali alguma coisa. Ele por vezes dava-me o que lhe pedia. Outras vezes não. No entanto nunca perdia a graça e dava sempre um peido repetindo “com a licença de vossemecês”. Era conforme o bom humor e a disponibilidade. Lembro-me que leite não pedia, nem ao meu pai nem à minha mãe, pois sabia que leite era coisa que lá em casa não se consumia. Também dizem que muitas crianças referem que vão a casa da madrinha para tomarem banho. Tomar banho na minha infância era luxo semanal, quando era. Pois no Inverno não havia banho para ninguém. E as casas eram tão frias e acanhadas que só em pensar uma pessoa em despir-se, fosse para o que fosse, podia estimular uma forte constipação ou uma pneumonia. E não havia antibióticos para tomarmos. As doenças eram curadas com o tempo e com a sorte de cada um. E muitos de nós tinham mesmo azar e batiam a bota. Algumas famílias relataram às televisões que jantam muitas vezes arroz com molho. Agora são os pobres aqueles que têm acesso direto aos meios de comunicação social. Raramente lá vemos um rico. Um pobre passa fome, lá vai a televisão a correr bater à porta do casebre para dar voz à pobreza. Ora essas reportagens apenas servem para deprimir ainda mais o país, dando uma má imagem de Portugal, das nossas instituições democráticas, do nosso Governo e, sobretudo, do Estado Social. Muitas vezes comi as batatas cozidas secas acompanhadas com azeite rançoso ou com banha de porco ou os chícharros misturados com couves cortadas sem pinga de gordura, quer fosse vegetal ou animal. E não morri. Nem ninguém foi lá a casa perguntar se tinha fome, se dava banho ou se apenas bebia meio copo de leite ao pequeno-almoço. Antigamente passávamos fome e ninguém se metia connosco, nem ninguém tinha prazer em noticiar a pobreza alheia. Quando andava na tropa e vinha de viagem até cá cima para visitar a família, muitas vezes comi uma sandes de molho de vitela. E ainda cá estou. E também ninguém me entrevistou para o jornal. Cada um vivia como podia sem disso fazer alarde. A pobreza era vivida com vergonha e todos queríamos sair dela. Hoje todos querem ser pobres para aparecerem na televisão ou nos jornais, para serem citados pelos políticos, para serem beijados, abraçados e elogiados pelo presidente da República, para fazerem parte das estatísticas, para lhes darem roupa, comida, carinho, educação e protagonismo. Ser pobre hoje é quase um estatuto. A não se ser rico, o melhor é ser-se pobre. Pois os remediados são tão pobres como os pobres mas não são tão ajudados, nem aparecem tanto na televisão, nem nos programas de apoio ao que quer que seja. Está provado que o cidadão português necessita de ser apoiado em tudo. Um pobre chegou ao pé de um ministro e pediu-lhe uns óculos porque via mal ao longe. Que teve uns mas partiu-os. Outro lamentou-se que os pais dormem nuns cobertores no chão. Uma criança pobre confessou que gostava de fazer uma colecção do Mundial mas o pai não o deixou gastar dinheiro com cromos. À primeira vista todos estes depoimentos são enternecedores. Mas se o senhor ministro desse uns óculos a todos aqueles que os partem até eu partia os meus que já estão gastos, velhos e cansados como o dono. Eu cheguei a dormir num enxergão de palha coberto por um liteiro escutando o gracioso retinir dos guizos das vacas dos meus avós. E que encanto tinha aquele tlintlintlintlim.»

 

Depois de ouvir o meu amigo atentamente, e sempre com um sorriso nos lábios, disse-lhe em jeito de remate, pois tinha de ir passear o cão: «Catarina Portas tornou a falar aos jornais do seu sucesso empresarial e disse textualmente que “o nosso atraso pode ser o nosso avanço”. Com tanto e tão bom atraso é bem possível que esteja carregada de razão. Nós só lá vamos se potencializarmos aquilo no que somos bons: pobreza, lamechice e atraso. Então avante camarada avante…», levantei-me e fui-me embora. Ele, com um sorriso maroto nos lábios, atirou-me: presunção e água benta, cada um toma a que quer…

 

 

PS – Por falarmos em apostar no nosso atraso para conseguir o progresso, aqui fica uma proposta arrojada. Neste Inverno invente e misture peças clássicas gastas, com peças novas dos saldos, dado que agora ninguém se atreve a criticar seja quem for por andar com as calças rotas, os casacos coçados e as sapatilhas sujas, pois isso é tão essencial como usar marcas de criadores nacionais. E sempre fica mais barato. As peças com influências dos anos 50 e 70 invadem as passerelles e representam uma moda orgulhosamente nacional. Por isso tente, pois é no tentar, dizem os mais criativos e empreendedores, que está o ganho.


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Domingo, 24 de Dezembro de 2017

No Porto

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Sábado, 23 de Dezembro de 2017

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Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2017

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Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2017

Poema Infinito (385): O contínuo desespero da espera

 

 

No princípio do mundo os navios cavalgavam sobre os espelhos dos olhos de Deus. O mar era frio e verde e as ondas tão leves como o corpo da mulher que amamos. No primeiro instante, o ar tomou conta do vazio e os continentes e os oceanos foram talhados cerces. Deus começou de imediato a desobedecer ao seu criador. O sol ficou macio e o frio começou a amadurar. As manhãs ficaram fortes e silentes. Apareceram então os primeiros seres em forma de água e neve. E as mãos começaram a construir as horas. Os espíritos benzeram o fruto das mulheres e o Senhor foi ter com elas para as admoestar. Primeiro engordaram, depois emagreceram e noutro depois ficaram com o cio macio e transparente. Os murmúrios tornaram-se casuais, as fontes ficaram mudas e os anjos foram incumbidos de vigiarem quem passava. Aves de fogo atravessavam os horizontes. A luz vagava pelos cais, os primeiros dias perdiam-se uns dos outros e a noite até começou por ser nada. Uns e outros dormiam e sonhavam e desmentiam-se. As almas aprenderam a estar caladas, a apreciarem as sombras, a desenvolverem o movimento das águas, a fluir e a refluir e a esperarem pela indiferença de tudo aquilo que é velho. Algumas delas trocaram de corpo e saíram para a luz do dia. Tornaram-se pecadoras. O céu era então oleoso, abstrato, como um pensamento contínuo. Ninguém guardava nada. Todo o entendimento era mudo. Toda a harmonia era casta, todas as indicações eram vagas. Nasceu então uma outra luz e com ela surgiram as primaveras, os campos, o bem e o mal. Depois o tempo passou muito depressa e os deuses ficaram loiros e os homens tornaram-se pastores e converteram-se em reis e servos uns dos outros. Os sorrisos transformaram-se em pretextos de felicidade. Ainda hoje são assim. Chegaram então as querelas e as ovelhas tiveram de atravessar estradas. Pousaram então os pormenores sobre os momentos. Por isso, quando pensamos em coisas velhas somos atacados pelo desdém. Os sorrisos deixaram de ter passado. A sabedoria declinou a delicadeza e os pastores deixaram de regressar a casa e as ovelhas ao pasto. A terra transformou-se num enorme cinema, cheia de senhores de guerra e anjos azuis e mulheres perdidas e jogos livres. Todos ficaram cansados de esperar, os dias danados e as noites fatigadas de demorar. Diana, a caçadora, principiou a jogar com pérolas de água salgada e a dormir na sua cama de mar. Surgiram nesse tempo os sorrisos tristes, os pressentimentos, os olhos puros e rasados de água e vários e distintos mundos futuros. Os carreiros ficaram fundos e as almas extensas como praias. Dos lados não ficou nada. As ondas permaneceram largas, o medo procurou a alegria e os deuses os montes. Os eremitas trocaram o sul pelo norte e aprenderam a afinar os instrumentos com que tocavam o silêncio. Ascendiam e descendiam enviando a sua voz de forma contínua, tocando as notas de sol a dó nos tons médios das flautas. Um tempo houve, dizia Deus, em que eu pedi a Deus a raiz do céu. Apareceram então as façanhas amorosas, as vozes de segundo plano, a grande força e os desmanchos, a pressão progressiva dos sexos. Nossa Senhora pediu o céu, Teresa implorou pelas dores, Inês suplicou rosas, Madalena fugiu de casa, Joana matou o seu rei, Nazaré nasceu predestinada, Maria emprenhou por vontade de Deus com a ajuda prestimosa do anjo Gabriel, dizendo-lhe que era a escolhida, mas também a serva e também a vida. Jesus depois foi crucificado e morto. Aquando da sua ressurreição, tudo deixou de fazer sentido.


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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2017

No Porto

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Terça-feira, 19 de Dezembro de 2017

No Porto

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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017

372 - Pérolas e diamantes: Sinal dos tempos

 

 

Emmanuel Macron, o Presidente da República francês, disse em entrevista ao Expresso que “precisamos de desenvolver o heroísmo político”. Assim mesmo, de mãos abertas em concha virada para riba e de olhar vago no infinito.

 

Depois foi-se ao Hegel, pois, segundo ele, o filósofo alemão acreditava que um indivíduo pode, de facto, a qualquer momento encarnar o Zeigeist (significa espírito da épocaespírito do tempo ou sinal dos tempos), seja lá isso o que for, mas também que o indivíduo nem sempre tem a consciência de que o está a fazer.

 

Friedrich Hegel chegou mesmo a descrever Napoleão Bonaparte como “o Weltgeist (espírito mundial) a cavalo”. Só que Macron não consegue ir tão longe, não acredita que uma única pessoa possa, de facto, orientar a história.

 

Ele estabeleceu para si o tentar encorajar a França e o povo francês a mudarem e a desenvolverem-se mais. O que já não é pouco.

 

Eis senão quando, a meio da entrevista, entra na sala o Nemo, o cão do Presidente, e senta-se.

 

Perguntam então ao dono porque lhe deu tal nome. Macron conta que o cão foi abandonado enquanto cachorro e que passou um ano num abrigo para animais. Ele tinha decidido que queria um cão de um abrigo. Normalmente, lembra aos entrevistadores, os Presidentes têm cães de raça pura, mas o Nemo é uma mistura de Labrador com Griffon. “Absolutamente adorável. Um golpe de sorte, não é? Do abrigo de animais para o Palácio do Eliseu.” Diretamente e de forma limpa. E confessa: “Gosto bastante da ideia, mesmo que ele tenha pouca ideia de onde acabou por vir parar.”

 

Ou seja, mesmo que para o povo francês a eleição de Macron possa ter sido mais do mesmo, já o mesmo não podemos dizer acerca dos cães gauleses e do mais.

 

Claro que para Emmanuel Macron nada ficou na mesma, pois perdeu a inocência dado que ser Presidente da República muda a vida de forma drástica. E também a de certos cães.

 

Na sua perspetiva, o cargo que ocupa não é sobretudo político ou técnico. É, antes de mais, simbólico. Dado que “precisamos de desenvolver uma espécie de heroísmo político.”Não significa que Macron queira ser herói. Não. “Mas há que ter recetividade à criação de grandes narrativas.”

 

Dizem que o presidente é distante. Ele contrapõe que está a pôr fim à cumplicidade entre política e os media, dado que “um Presidente deve manter os media a uma certa distância”.

 

E, claro, também é modesto, pois respondeu que talvez esteja a seguir os passos de Mitterrand (outro presidente francês conhecido pela sua inextricável sobriedade), que queria realmente moldar a Europa.

 

Na sua opinião, e já agora também na minha, o problema dos debates sobre a Europa é que se transformaram em disputas entre especialistas e advogados.

 

Ele sonha com uma Europa baseada em três coisas: soberania, unidade e democracia. Quer que ela seja uma garantia de paz, prosperidade e liberdade duradoras, pois urge “terminar com esta guerra civil europeia, cuja existência não queremos admitir, e parar de ver constantemente se somos melhores do que o nosso vizinho nisto ou naquilo”. E deixar de permitir que se desenvolva uma espécie de derrotismo coletivo, propagandeado sobretudo por quem fala mal da Europa e quer desistir dela.

 

Lá pelo meio da entrevista falou da sua admiração por Angela Merkel, já que são “duas pessoas que procedem metodicamente” e que adoram pormenores. Nas cimeiras, lembra Macron, são dos poucos chefes de Estado e de Governo que tomam notas. Por isso adora as discussões que têm os dois.

 

Sobre os partidos convencionais franceses considera que já não têm capacidade para unir as pessoas. Defende ainda a urgência de uma revolução cultural, para poder transformar “a educação, o mercado de trabalho e o sistema de pensões”.

 

Uma coisa me une ao senhor Presidente francês, o gosto por Bach, pois ambos achamos extraordinário não encontrar na música do génio alemão elementos decorativos.

 

Noutra coisa também coincidimos, na admiração pelo escritor francês Michel Houellebecq, que é, sem dúvida nenhuma, “o romancista que melhor descreve as fobias e os medos contemporâneos” e retrata como muito poucos o caráter pós-moderno da nossa sociedade.

 

A terminar a entrevista falou das muitas coisas que mudou desde que chegou ao Eliseu. “Tudo”. Disse ele. O seu gabinete, por exemplo, que agora é totalmente diferente. Desfez-se de um tapete gigante e pesado e muita mobília. Tornou tudo mais leve e moderno e proporcionou mais espaço aos artistas contemporâneos.

 

Até nós, neste lado da Península Ibérica, ficámos embasbacados e, por que não dizê-lo desassombradamente, autenticamente estupefactos, com o ritmo e o alcance das transformações protagonizadas por Emmanuel Macron.

 

Bem haja, senhor Presidente, e, já agora, dê por nós um biscoito ao cão e faça-lhe uma festinha à maneira.


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Domingo, 17 de Dezembro de 2017

Poldras de Chaves

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Sábado, 16 de Dezembro de 2017

Em Chaves

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Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

Em Paris

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Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

Poema Infinito (384): O voo tangencial da glória

 

 

A minha mãe voa dentro do meu pensamento. Abraço-a em busca de alívio. A dor devora a felicidade de outrora. Os carinhos atravessam o espaço mitigando a dor. Recebo a saudade como um sofrimento. O verdor dos anos era então tão inocente como a bonina, tão belo como os anjos, tão cândido como um catecismo aberto. A virtude tinha nesse tempo o tamanho da inspiração, a mesma crueldade enternecida, a mesma ventura dos sonhos mais ditosos, das ilusões mais prazenteiras, dos gozos mais eróticos, das masturbações mais gemidas, dos voos mais tristes. Por vezes alguém nasce feliz. O tempo vem agora mais amargo, mais destruidor. No entanto, as primaveras são mais vigorosas, as plantas mais rasteiras e o medo mais solto. O Criador gerou-nos a medo, como se fossemos astros sem perfume, como se fossemos auroras que não despontam. Sentimos a luz do sol na sua essência campestre. Os castelos murmuram segredos místicos. As aves noturnas voam sobre as sombras das muralhas mais cansadas. Os terraços estão habitados por fantasmas. O castelo aparece e desaparece perante a incredulidade dos nossos olhos. As horas estão mais sombrias, mais misteriosas. Os velhos são atualmente mais rígidos, mais altivos, mais generosos e mais fortes. Os que foram guerreiros voltam agora os rostos às armas. Já não veneram as tradições dos seus antepassados. Até Deus se cansou dos combates. A glória repousa nas arcas mais antigas, ao lado da morte taciturna. Nas salas mais amplas ouvem-se os delírios mais pungentes. Antigamente a glória acenava do lado do futuro, os homens iam para as festas e tocavam ao de leve no prazer e as mulheres guardavam os segredos mais íntimos. Os sonhos também eram mais pesados e repletos de ingratidão. Os heróis confundiam-se nas sombras, ou desciam na noite em forma de luar e banhavam-se tremeluzindo como as estrelas, mutilando o frio, enquanto ao longe as virgens erguiam cruzes mutiladas pelo incesto dos murmúrios, deslizavam pelo ar como se fossem feitas de transparência, encrespando as águas serenas do lago, desenhando as brisas, ampliando o desejo e os espaços, beijando os segredos, mostrando os seios e os sexos como se fossem anjos pecadores. As suas vozes eram magoadas, repletas de angústia, ordenando a honra, combatendo a ânsia, sustendo as lágrimas e os choros, deixando cintilar nos seus olhos a luz da divindade. Os loucos correm sempre atrás de uma chama vã. Os outros, os que nascem do lado de lá do abismo, julgam-se nobres e brilhantes, amando Deus como se fosse uma distância, ou uma alma ascendente, ou um laço invisível. Os heróis mais atuais livraram-se das quimeras, dos júbilos mais inflamados, dos sons mais agudos e das amantes mais libidinosas. São como mancebos aterrados, esperando nas casas dos pais o sinal da hora da partida e a sua força irresistível. As suas armaduras brilham como se fossem feitas de sonhos. Virão cobertos de glória. Ou não virão. Nada os prende à terra. O seu tempo é de aventuras. Os velhos suspiram, as mães choram gotas silenciosas. Alguém fala da memória dos antepassados, da honra, dos horizontes imensos, do sol mais ardente, dos tronos reclinados no cimo das montanhas, do túmulo de Cristo, das auroras divinas, dos berços da inocência, do mundo novo e da terra santa. As novas gerações começam então a rodar e somem-se no tempo. Cada pedra será um martírio, cada grão uma boa ação. É tão longa a saudade como as ondas do mar bravio. Jerusalém não é uma terra sacrossanta de prodígios, mas um lugar de martírio. Cristo e os apóstolos continuam perdidos no deserto.


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Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

No Louvre

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Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

O fotógrafo

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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

371 - Pérolas e diamantes: Os efabuladores sentimentais

 

 

Por vezes acordamos sobressaltados e não sabemos bem porquê. Outras vezes lembramo-nos que os sonhos são sempre idênticos, enquanto lá fora se ouve o frufrulhar das ramagens ou os passos silenciosos dos gatos ou, ainda, o ruído conhecido das ruas tranquilas.

 

Parece que as fotografias que retemos na memória sabem tudo e não explicam nada.

 

Também Cristo foi vítima de maquinações políticas e por isso sucumbiu dolorosamente vítima de um processo armadilhado. Temos de confiar nas pessoas que são serenas como a água, mesmo não sabendo o que há no fundo do rio. Ou seja, devemos evitar turvar a água.

 

Umas vezes estão os brancos no poder e as coisas correm mal, depois vêm os vermelhos e a coisa repete-se.  

 

Uma coisa sei, os animais não sabem denunciar, nem caluniar. Os humanos sim, por isso se distinguem deles. A moral é apenas uma disciplina.

 

Na semana em que Mario Draghi fez um apelo para, em nome da Europa, sugerir um aumento de salários e pensões, os patrões portugueses, pela voz de António Saraiva, queixaram-se em Bruxelas do OE português, indignando-se com a hipótese de o salário mínimo nacional passar para os incríveis 600 euros mensais.

 

Já a PGR informou o Estado-Maior do Exército de que não pode promover a tenente-general o major-general Tiago de Vasconcelos, colocado no EMGFA desde o início do ano. Tudo se deve a uma queixa, alegando, entre outros, o crime de falsificação de documentos. Ao que tudo indica, o general deverá passar à reserva.

 

Soares, o filho de Soares, deputado socialista, defendeu que o ex-líder do CDS-PP Paulo Portas foi “um excelente ministro da defesa, se não o melhor”, elogiando a solução encontrada para a OGMA e a respetiva compra de submarinos.

 

A cidade do Porto rejubilou com a deslocação da sede do Infarmed de Lisboa para o Norte. Mas nem meia dúzia de dias eram passados e logo o Governo recuou. Afinal, no Porto, parece que vão operar sobretudo os serviços administrativos e de suporte. Em Lisboa continuarão a funcionar 70% dos serviços anunciados pelo ministro da Saúde. Os laboratórios, os serviços mais especializados e cuja despesa ascende a 40 milhões de euros vão permanecer na capital. Ou seja, a deslocação é uma falácia. Eu gostava de saber como reagiriam os lisboetas se a decisão fosse ao contrário. Em matéria de regionalização, todos os partidos são iguais. Mas há uns que são mais iguais do que outros.

 

Está na hora de dividirmos o país ao meio, com fronteira no Mondego. Depois que se amanhem como puderem.

 

O único que faz que anda mas não anda, apenas sorri e ilude, é o senhor Presidente da República de Lisboa e dos Algarves. Já o apelidam de “Presidente dos Afetos”. Ele diz que sim. E sorri. Sai de Belém e vai até ao Hospital São Francisco Xavier, cumprimenta o ministro da Saúde, sorri, beija três velhinhas e volta a sorrir. Depois abraça um bombeiro e fica com cara de caso.

 

Regressa a Lisboa e passa um bocado da noite com os sem-abrigo. Sorri, beija e torna a beijar. E abraça de novo. Dizem que Deus está em todo o lado. Eu desconfio. Mas confirmo que o nosso Presidente, esse sim, é omnipresente. Gosta, sobretudo, de aparecer onde há tragédia, ou infelicidade. Os ministros e secretários de Estado apreciam chorar no seu ombro e abraçá-lo como se fosse um santo.

 

Marcelo dorme pouco. Aproveita as insónias para praticar o bem durante a noite. Ele e as televisões, já que não dá um passo sem que um ou vários repórteres o sigam para todo o lado. Marcelo Rebelo de Sousa beija tudo aquilo que mexe. E diz coisas que mais parecem uma espécie de genéricos de opinião, muito parecidos com as tretas que debitava todas as semanas na TVI e que o levaram à presidência. Dizem que era ele quem escrevia as perguntas que o jornalista depois lhe fazia, o mesmo para as cartas a que ele respondia.

 

Mas não está sozinho nesta sua peregrinação pelo meio das desgraças. Assunção Cristas, e o seu cortejo funerário, seguem-lhe as pisadas. Tenta ganhar votos contando os mortos. Quer deixar a impressão de que lhes reza pela alma.

 

Mas o que mais incomoda na senhora é dizer coisas diametralmente opostas ao que afirmava quando estava no governo. Agora é vê-la, em plano sindical, exigir o aumento das pensões e o descongelamento das carreiras da função pública.

 

Não tarda nada, ainda a vamos ver de joelhos em Fátima, de vela na mão, a cumprir a promessa do milagre de ter conseguido quase duplicar a miserável votação do PSD em Lisboa.


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Domingo, 10 de Dezembro de 2017

Na cozinha

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Sábado, 9 de Dezembro de 2017

Na cozinha

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Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2017

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Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2017

Poema Infinito (383): Paris-Texas

 

 

Agradeço-te as confissões moderadas, compreendo a precaução e lembro alguns dos conselhos recebidos na infância. Atravesso a rua como se atravessasse a cidade. E atravesso a cidade como se atravessasse o mar. Olho para os dois lados de uma pessoa por precaução indispensável. Os homens têm sempre, pelo menos, dois lados. São como cubos de face dupla. Algumas pessoas partem antes de chegar a chuva. São como duas metades desencontradas. Procuram a amizade homogénea. Anotam, apontam e admiram-se. Cruzam amigavelmente a sua parecença. O egoísmo é a sua unidade. Certos festejos são assuntos tácteis, não evidenciam alegria, nem felicidade, apenas um ligeiro júbilo anexo ao corpo. Sentir os sons torna-se uma evidência. Os homens falam depressa mas não conseguem articular as frases até ao fim. Pensam que Paris é um ponto final, que a noite é redonda, que as árvores são possuídas por uma espécie de invisibilidade divina. A noite parece inteira mas está cheia de buracos. Os homens mastigam uma inimizade que muito em breve será evidente. É clara no horizonte a luz do rio, a velocidade da água, a rapidez da chuva. As crianças mais longínquas parecem distraídas mas observam a pressa da luz do sol. As catedrais exibem o seu espanto manso, a sua arquitetura religiosa e escondem a violência sepultada, envolta em mantos de desespero. Os animais mais rápidos ganham impulso e avançam. O seu olhar continua firme e torna-se ainda mais ágil. Deus passeia a sua exatidão, distribuindo o desespero pelos pontos cardeais. A acrobacia dos homens torna-se perigosa. Estão eufóricos. A vaidade é o seu júbilo. As cores dão um novo significado à beleza. Afinal de contas, estamos em Paris. As portas são mais atraentes, a necessidade é mais sedutora, o espanto mais admirável. A vaidade e o egoísmo adquirem novo significado. A perseverança dos edifícios convida a entrar. As cores sentem-se observadas e as torres mais altas salientam a irrelevância das mais baixas. Os espaços incham. Os gestos simpatizam com a síntese dos corpos. As mulheres vestem o seu estilo literário e ganham volume pessoal. Os contornos dos seus corpos iluminam os caminhos. No entanto, o dia fica mais público, mais anónimo, mais impúdico. Na natureza humana tudo tem um preço. As crianças ficam mais fragmentadas, praticam os seus exercícios ingénuos e iludem as paisagens. Virá o tempo em que os acontecimentos ficarão mais coerentes e ganharão novo sentido e outra lógica. A luz ficará mais homogénea e equilibrará os corpos e os seus atos. O tédio é propriedade universal. Nos campos crescem as ervas e as brincadeiras. A memória da infância aquece-se ao sol. A fé estende-se em cima de mapas lunares. Contas-me nova história e insistes em Paris. A personagem principal é uma pessoa forte que comenta a vida a uma pessoa fraca. A pessoa fraca concentra-se nos pormenores e adormece. Os sítios são lentos, o futuro insignificante e a natureza pacata. Os homens tentam caçar os acontecimentos como se eles fossem borboletas excitadas pelo sol e pelo voo. As paixões são enormes e os factos sentidos e desordenados. Todo o descanso é volátil. Os acenos são breves. Alguém diz que os homens se conhecem por aquilo que leem. As paixões também podem matar. E os pormenores. E o medo. E as certezas. Os homens crescem no meio de caraterísticas opostas, revelando desconforto e um novo género de inteligência inútil. Uma espécie de léxico mudo ameaça a eternidade. A imaginação encontra a sua forma fisionómica. O desejo do corpo não tem mais espaço para cálculos mentais.


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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

Na cozinha

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Terça-feira, 5 de Dezembro de 2017

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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2017

370 - Pérolas e diamantes: Manias

 

 

O inverosímil António Lobo Antunes, disse numa entrevista recente que, na escrita do último romance Até Que as Pedras Se Tornem mais Leves Que a Água, sentiu “a mão muito feliz”, a tal mão conduzida por Deus que faz com que escreva apenas obras-primas, para gáudio dos nossos críticos literários e outros bajuladores. Pegando nas palavras da sua entrevista ao DN: “Estou-me cagando para a crítica, agora só me dão cinco estrelas por todo o lado.”

 

Desta vez, como em todas as outras vezes, o António mergulhou profundamente nas suas memórias para indagar sobre o amor, a morte e a vida. Dizem que o romance é sobre a relação entre um pai e um filho, com a guerra de África em fundo. Dizem que, e provavelmente vai ser complicado de identificar, o autor pretende olhar para um momento da nossa História, onde a dor, o preconceito e a impossibilidade de comunicar são os temas em análise.

 

Convenhamos que sobre a impossibilidade de comunicar, o António Lobo Antunes é memorável.

 

Desta vez li duas entrevistas suas e fiquei com um amargo de boca que já vem de longe. António Lobo Antunes fala sempre dos mesmos temas e das mesmas obsessões. Fala repetidamente da sua precocidade relativamente às letras e à forma de as alinhar de forma exemplar.

 

Pergunta: “Em Angola tentou arduamente fazer-se escritor?” Resposta: “Não. A minha mãe ensinou-me a ler com quatro anos, e eu comecei logo a escrever.” Bonito. A humildade já lhe vem de longe.

 

Sobre a guerra diz que ela dói muito. Pudera. Depois lançou esta frase: “Ninguém desce vivo de uma cruz, não é?” Se calhar não. Temos de lhe agradecer por nos tirar desta forma todas as nossas dúvidas existenciais.

 

Confesso que fui um leitor cortês das entrevistas do romancista. Mas agora já não. São sempre iguais. Redondas e só focadas em si. São redondas, repito, e beatíficas. E a sua prosa, que me perdoem os incautos, é uma pescada de rabo na boca.

 

Para Lobo Antunes não existem bons escritores contemporâneos e é preciso recuar alguns séculos para apontar cinco. 

 

Os escritores portugueses atuais não valem um tostão furado. Salvo ele, claro está. E ele, para a salvação de nós pecadores, lê quase sempre os mesmos, os que, na sua douta opinião, escrevem bem: Fernão Lopes, Francisco Manuel de Melo, D. Duarte, Herculano e Garrett.

 

E Camilo? O romancista diz que não é seu admirador. Não gosta “daquela pieguice toda, mas gosta da dedicatória do Eusébio Macário.” Sim, leram bem, ele apenas gosta da dedicatória. Apenas da dedicatória. Tudo o resto é pieguice.

 

A determinado momento da entrevista, fica tão sensibilizado com a língua em que escreve e fala que afirma gostar muito de ser português. A seguir explica porquê. Ou melhor, elucida o que é ser português. Transcrevo, para memória futura, porque o que lá vai lá vai: “É sermos pequenos, feios, malcheirosos, com mau gosto, e quando estamos no estrangeiro e apanhamos um avião para Portugal… a gente conhece logo as pessoas, é tão bom! E temos esta língua que é maravilhosa.”

 

Sobre o seu romance afirma: “Claro que é um grande romance, fui eu que o escrevi.” E sobre a sua escrita conclui: “Há uma coisa que me alegra, ninguém escreve assim, mas não estou certo de ser eu que o faço…”

 

Lá pelo meio da entrevista, recorda Agustina Bessa Luís para cravar uma ferroada no seu arqui-inimigo de sempre e para sempre: «“Ó Saramago, você devia fumar”, “Porquê, Agustina? Fumar faz mal” perguntava-lhe ele. “Escrevia menos!” Tenho cartas dela tão giras! Um charme e um sentido de humor!»

 

Sobre a eterna possibilidade de ganhar o Nobel, Lobo Antunes faz de raposa em relação às uvas: “Nem penso nisso.” Declarou que este ano lhe ligaram da agência em Barcelona a dizer que receberam um telefonema, “que eu ia ganhar”. Só que uma hora depois voltaram a ligar-lhe a “dizer que tinha havido uma reviravolta.” Ele não pensava naquilo. Afinal já ganhou “tudo quanto havia”. Menos o Nobel. E elucida: “Ahhh, depois vieram cartas, três da Alemanha e de pessoas que eu não conhecia, com artigos que já estavam prontos para sair em jornais alemães. Isto é tudo idiota, não é? Depois ganhou aquela merda! [Kazuo Ishiguro]”

 

Sobre as críticas não liga. Diz que não liga. Se o Zé [Cardoso Pires] lhe tivesse dito “este livro não presta”, aí ele ficava à rasca.

 

Pergunta da jornalista (Isabel Lucas – ípsilon ): “Alguma vez lhe disse isso?” Resposta: “Não. O Zé estava convencido de que eu era um génio.”

 

Na minha modesta opinião, acho que não só o Zé. Espelho meu, espelho meu, há no mundo escritor mais genial do que eu?

 

Segundo João Céu e Silva, o modesto Lobo Antunes acumula livros de vários autores por toda a casa, mas no seu escritório só os seus entram. Centenas de volumes de sucessivas edições e traduções vindas de quase todo o planeta.

 

Desta vez até condescendeu em falar de futebol e do clube do seu coração. É com três isqueiros do Benfica, oferecidos por um amigo, que A.L. A. acende os muitos cigarros que fuma. Atualmente surpreende-o “esta sujeira de empresários, isto e aquilo e do dinheiro que deixou de ter valor. O Benfica nasce de uma vontade do povo”. Antigamente “havia um amor ao clube. Agora não, com estes presidentes, mediocridade e coisas que não me parecem sérias. Não sei se são ou não, mas não me parecem. Quero lá saber desses mercenários de merda”.  E de uma penada matou a águia, ou o que ainda sobra dela.

 

Não posso finalizar sem partilhar convosco um episódio da luta antifascista relatado pelo próprio: «“Fui o único que torturou um pide, feriu-se e cozi-o sem anestesia. O gajo gritava como um danado com a água destilada, que dói para burro, e dizia-lhe: “Está para aí a chorar e eu a dar-lhe anestesia.” Deu-me prazer porque estava zangado.»


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Domingo, 3 de Dezembro de 2017

No Louvre

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Sábado, 2 de Dezembro de 2017

No Louvre

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