Domingo, 4 de Fevereiro de 2018

378 - Pérolas e diamantes: O sex appeal de Lucia Berlin

 

 

Também a mim me chegou o tempo de descobrir as histórias de Lucia Berlin, que dizem convulsas, mas que estão repletas de pequenos milagres e de algumas tragédias de vida, sempre servidas com humor, melancolia, empatia e vivacidade.

 

De facto, a escritora nascida no Alasca é uma verdadeira revelação, conseguindo ombrear com os melhores contistas, tais como Raymond Carver, Flannery O’Connor ou Juan Rulfo.

 

Durante a sua vida publicou setenta e seis contos, que são toda a sua obra.

 

No seu livro Manual para mulheres de limpeza aprendemos coisas tão elementares como o sex appeal, protagonizado por Bella Lynn, uma prima de seios grandes que parte à conquista de Hollywood.

 

Ao que parece, quando o avião chegou a uma certa altitude, por causa da pressão da cabine, o soutien da Bella rebentou. Ou melhor, explodiu.

 

Tal como a narradora, que por vezes podemos confundir com a escritora, eu nada sabia sobre sex appeal. No entanto, parece que o sexo, em si mesmo, tem qualquer coisa a ver com estar-se zangado. “Os gatos mostravam-se zangados com tudo aquilo, e todas as estrelas de cinema pareciam zangadas. Bette Davis e Barbara Stanwyck eram absolutamente maldosas.”

 

Um princípio básico do sex appeal, segundo a prima Bella Lynn, é agir sempre sozinha. Quando lhe chamaram a atenção para o facto das costuras das suas meias de seda pretas estarem ligeiramente tortas, ela ensinou a priminha que as tais costuras ligeiramente tortas tinham sex appeal.

 

Já o sex appeal dos homens reside no facto de olharem na direção das donzelas que cortejam fingindo que não olham. Por isso é que acabam sempre a pagar, nos bons restaurantes, o bife do lombo.  

 

Lá pelo meio do livro aparecem adolescentes malcriados que, apesar disso, choraram com a morte do Jimmi Hendrix e com a da Janis Joplin. Lembrando-nos que no Novo México, a década de 60 foi carregada de mau tempo, neve, canos congelados e atuações dos Rolling Stones e dos Doors.

 

Esses adolescentes ouviam música alto, queimavam incenso violeta que cheirava a xixi de gato, usavam botas pesadonas, tocavam guitarra e praticavam tiro ao alvo com latas de cerveja no quintal.

 

Além de malcriados, eram, quando lhes dava jeito, silenciosos como guerrilheiros e passavam muito do seu tempo deitados, a enregelar, no meio do nevoeiro.

 

Nessas alturas, “as aves partiam, em brancura, produzindo o som de cartas a serem baralhadas”.

 

Nessa época de sexo, drogas e rock and roll, as clínicas de desintoxicação, sobretudo em West Oakland, costumavam funcionar em armazéns.

 

Um típico personagem de um dos contos, de seu nome Willie, diz, para nosso pesar, “que tinha gostado da Europa porque lá os brancos são feios. Carlotta não compreendeu o que ele quis dizer, mas depois apercebeu-se de que as únicas pessoas que os bêbados solitários veem são as da televisão”.

 

Os traços melancólicos são muitos e variados. Alguns revelam-se no momento do Sol se pôr enquanto os hóspedes de um hotel solitário comem o seu pudim e um diz, com os pelos em pé: “Quando os nossos pais morrem, ficamos frente a frente com a nossa própria morte.”

 

São personagens capazes de retirarem espinhas a trutas e de incendiarem sobremesas. Ou golfistas que têm pesadelos quando veem a sua bola a afastar-se do buraco. Ou ainda jovens cadetes que, enquanto a orquestra toca La Vie en Rose, dançam sem parar, às voltas e voltas, no chão encerado.

 

Claro está que neste “Manual” se exagera muito, se mistura a realidade com a ficção, mas, sinceramente, nunca se mente.

 

“Na verdade, podes mentir e, ainda assim, dizer a verdade.” Todos os contos de Lucia Berlin são “pirilampos numa árvore que acendem e apagam como um só”.

 

Querida Lucia, termino citando uma das tuas personagens: “Estou Feliz. Quando acordo, de manhã, dói-me a cara de tanto rir.”


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito

São Sebastião - Couto Dornelas

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 338 - Cópi

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Junho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9



25
26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Na aldeia

. Na aldeia

. No museu

. Poema Infinito (410): Ind...

. Na aldeia

. na aldeia

. 397 - Pérolas e Diamantes...

. Berto e amigos em Covas d...

. Pai e filho no Barroso

. Eu e o Berto ao espelho

. Poema Infinito (409): Exp...

. Na aldeia

. Autorretrato a P&B

. 396 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. Olhares

. Croché

. Poema Infinito (408): O p...

. Sorriso

. A roca e o fuso

. 395 - Pérolas e Diamantes...

. Expressões

. Expressões

. Expressões

. Poema Infinito (407): Dec...

. Expressões

. Expressões

. 394 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia, com neve...

. Na aldeia, com neve...

. Na aldeia, com neve...

. Poema Infinito (406): A d...

. Na aldeia, com neve...

. Na aldeia, com neve...

. 393 - Pérolas e Diamantes...

. Neve no Barroso

. Rio Tâmega - Chaves

. Na aldeia

. Poema Infinito (405): A s...

. Na aldeia

. Poldras de Chaves

. 392 - Pérolas e Diamantes...

. Na festa

. No São Caetano

. No São Caetano

. Poema Infinito (404): Cri...

. No museu

. Na aldeia

. 391 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

.arquivos

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar