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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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19
Mar18

384 - Pérolas e diamantes: O julgamento do regime

João Madureira

 

 

Preparava-me para ler o último romance de Jonathan Franzen, Purity, quando me deparei, na nona página, com a seguinte citação, presumo que em alemão: “...Die stets das Böse will und stets das Gute schafft.” Descobri que pertence a Johann Wolfgang von Goethe: Faust: Eine Tragödie - Kapitel 6. Como estava de mau humor, resolvi atacar, de olhos fechados, o segundo livro do merouço que se encontrava estacionado na minha mesinha de cabeceira. Calhou a sorte ao Caso Sócrates – o julgamento do regime (de Felícia Cabrita e Joaquim Vieira). Pensei cá para mim: “Ó rapaz porque é que não dormes em vez de te consumires com coisas destas?” De facto, passo o meu tempo a “perder tempo com coisas destas”. Manias.

 

No início, o caso José Sócrates podia resumir-se em escassas palavras: “apurar as razões que levaram o ex-primeiro-ministro a dispor do usufruto exclusivo e ilimitado de contas bancárias tituladas por um amigo no valor de dezenas de milhões de euros”.

 

Essa verba não correspondia a quaisquer rendimentos legais que o antigo líder do PS pudesse ter auferido no desempenho da sua carreira profissional ou política. Daí surgiu o interesse das autoridades fiscais e judiciárias em investigar a origem da fortuna e os circuitos por que passou até poder ser utilizada pelo seu beneficiário, nomeadamente férias de luxo, em mulheres suas dependentes, em operações imobiliárias, em roupas caríssimas, em obras de arte de grande valor, e até na compra do máximo de exemplares de um livro com a sua assinatura para o fazer chegar ao top de vendas.

 

A sua detenção, a 21 de novembro de 2014, constitui um facto histórico sem precedentes em Portugal e definiu a dimensão de um escândalo de proporções gigantescas.

 

Não estava em causa unicamente a possível prevaricação de um agente político, mas antes a insinuação de enriquecimento ilícito de um dos mais destacados titulares de um órgão de soberania.

 

Como se isso ainda fosse pouco, a investigação judicial veio a estabelecer suspeitas sobre a origem e a distribuição de comissões alegadamente ilícitas que envolveram o maior banqueiro nacional, Ricardo Salgado, Armando Vara, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro.

 

Subitamente, os portugueses descobriram uma perversa aliança entre figuras de topo do poder político, do poder financeiro e do poder económico, pondo a nu a fragilidade das instituições democráticas.

 

Estamos ainda longe de poder avaliar toda a extensão dos danos provocados por este caso.

 

Foi com base em fontes conhecedoras dos autos, idóneas e fidedignas, que os autores do Caso Sócrates basearam a narrativa dos factos associados ao lançamento e à execução da “Operação Marquês”.

 

Nas suas páginas não se questiona a legitimidade da atuação dos agentes judiciais – querela suscitada sobretudo pela defesa de Sócrates.

 

Os autores explicam: “Dado que a esmagadora maioria das decisões dos investigadores foram reiteradamente validadas por instâncias judiciais superiores, em resposta a sucessivos recursos interpostos pelos advogados do ex-secretário-geral do PS, admitimos não estar em causa qualquer procedimento irregular, muito menos ilegal, na forma como os autos foram sendo elaborados e o processo constituído.”

 

O essencial tem a ver com a forma como um destacado agente político conseguiu viver muito acima das suas possibilidades. O livro apresenta os dados. “Os leitores julgarão.”

 

Além de pedir a condenação de todos os implicados, o MP exige ainda que alguns deles paguem ao Estado o que deverão em impostos não cobrados devido ao conjunto de manobras de fuga ao fisco e branqueamento de capitais.

 

Os inspetores tributários calcularam que José Sócrates, à data de 31 de julho de 2017, teria a obrigação de pagar às finanças públicas, em IRS e juros compensatórios, a quantia de 24 331 886 euros sobre as comissões ilícitas que os investigadores garantem ter recebido.

 

A tese do livro é a de que a Operação Marquês é um processo maior do que o país, e que Portugal vai ter dificuldade em o digerir e, sobretudo, em julgar. “Mas, independentemente do seu desfecho, é possível já perceber, pela matéria conhecida e comprovada, como um grupo de indivíduos se apropriou dos mecanismos de poder, decisão e influência ao mais alto nível para os pôr a funcionar, não a favor do interesse coletivo, mas sim do seu próprio interesse individual, não hesitando para isso em ignorar éticas e procedimentos legais.”

15
Mar18

Poema Infinito (396): O medo

João Madureira

 

 

A minha avó deu-me uma chave para abrir uma porta que não existe e depois declarou que queria morrer junto ao rio, no sítio onde cresce muita erva e algumas flores silvestres, no ponto central da curva onde o salgueiro mais baixo dá sombra. Depois gemeu baixinho como se estivesse a ficar incoerente. Já antes tinha falado em febre, em jejum, em gula e em cavalos pretos que fugiam a galope enquanto os homens se encostavam às paredes nuas da igreja como se estivessem sozinhos no escuro. Nem sequer conseguiam chorar, disse como quem treme de espanto. Disse-me também para nunca fazer versos sobre eventualidades. A criação e a morte desaparecem dentro dos poemas. O Sol parece estático e a sua luz não aquece nem alumia. Oiço agora o rumor das máquinas, a afinidade do gozo e do sofrimento, os sentimentos mais indiferentes, a prevalência dos equívocos, o segredo das casas, a passagem da música, o rumor do mar junto à linha de espuma. Chove na noite, na fadiga e na esperança. Não vale a pena perder tempo a mentir, a dramatizar, a invocar o aborrecimento. A infância já está sepultada e as memórias oscilam entre os espelhos e a dissipação. Penetro surdamente no reino das palavras, no desespero dos dicionários, na superfície intacta dos poemas. Sei do poder do silêncio e da forma definitiva do espaço. As respostas são neutras. A minha avó pergunta: trouxeste a chave?  Gosto da sua voz situada entre a melodia e o conceito. As minhas palavras refugiam-se na noite, impregnadas de sono. Por vezes transformam-se em desprezo, ou escondem-se entre as flores e a náusea. Por vezes os meus olhos ficam parados e sujos como o relógio da torre da minha aldeia. O tempo completa sempre a sua missão. Sem ênfase, até as coisas mais precisas e belas ficam tristes. Cai o tédio sobre a cidade. Os poemas são agora como alucinações, as palavras como cifras e os sentimentos como códigos de barras. Todos os dias os homens voltam para casa menos livres, soletrando o mundo, envoltos em melancolia, em desespero. Ficam ferozes como os pedreiros do mal. Querem pôr fogo em tudo, inclusive neles próprios. Pensam que o ódio os pode salvar. Essa é a sua esperança mínima. Uma flor nasceu na rua, no sítio onde param os autocarros, iludindo os polícias e o asfalto, paralisando os homens de negócios. Ninguém percebe a sua cor nem o facto de as suas pétalas não se abrirem. As pessoas passam ao seu lado de forma insegura. Nas montanhas ao redor avolumam-se nuvens maciças e lentas. Nas aldeias vizinhas, as galinhas ficam em pânico. Todos sentem que o seu destino está incompleto. O medo espalha-se como uma verdade inconveniente. Nascemos com o medo. Fomos educados com o medo. Cheirámos as flores a medo. Amámos a medo. Vestimos o medo. Até nos refugiámos no amor, a medo. Vestiram-nos as asas da prudência e disseram-nos que éramos anjos, mas que devíamos, acima de tudo, ter medo de Deus, da sua ira, do seu olhar omnipresente. Agora temos medo da poluição, do abandono, da solidão. Entoamos canções medrosas como se fossem láudano para a alma. O medo agora é calma e estátuas sábias e estrelas cadentes e olhos acesos na noite. Todos dançamos a valsa do medo. Todos nascemos a medo, no escuro. Todos morremos da mesma forma. A claridade é uma espécie de susto na noite.

12
Mar18

383 - Pérolas e diamantes: Custa perceber... lá isso custa

João Madureira

 

 

Portugal é cada vez mais um país de pasmados à beira da televisão plantados. Um estudo recente concluiu que mais de 40% dos portugueses passam o seu tempo livre a ver televisão. Esse é, como todos sabemos, o primeiro passo para o desenvolvimento de várias doenças, tais como a hipertensão, a obesidade, o sedentarismo... e a imbecilidade.

 

Pouco interessa que os mecanismos da democracia representativa estejam em crise, que os extremismos tenham aumentado, que a paz no mundo seja conseguida à base de armas e mais armas, que se continuem a negligenciar as alterações climáticas e que as guerras religiosas sejam o pão nosso de cada dia.

 

Custa perceber que os benefícios da globalização e do crescimento sejam cada vez mais desigualmente distribuídos e que o fosso que separa os ricos dos pobres aumente de forma obscena.

 

Continuamos dependentes de uma economia que necessita de se transformar, passando de uma economia de comércio interno a retalho para uma economia de exportações.

 

Nem sequer possuímos uma estratégia nacional de desenvolvimento. Perdemos até os anéis que possuíamos, como a REN, os aeroportos, a TAP, os CTT e, obviamente, a banca.

 

Apesar das novas gerações serem as mais escolarizadas da nossa história, os jovens não conseguem encontrar emprego e os mais talentosos abandonam mesmo o país. Alguns para sempre.

 

A democracia representativa enfrenta uma crise muito séria de credibilidade, daí o afastamento dos cidadãos da política.

 

Os partidos políticos também se ressentem disso, até porque foram os seus principais criadores e, para nossa desilusão, podem transformar-se nos seus algozes. Por essa razão é que os militantes partidários pouco passam dos 200 mil.

 

Parece não haver maneira de melhorar a relação dos partidos com os cidadãos. O ritmo de vida parlamentar continua tão tradicional como o da Idade Média.

 

E, como se isso fosse pouco, o litoral esmaga por completo o interior. De facto, o melhor continua em Lisboa.

 

Necessitamos urgentemente de uma descentralização política que combata as cacicagens e que incentive a perspetiva da responsabilidade quando se trata de gastar o dinheiro que é de todos nós e que, por artes mágicas, vai direitinho para a conta bancária de uns poucos.

 

Está demonstrado que as estradas e as autoestradas, por si só, não chegam para atrair pessoas para o interior. É incompreensível como um país tão estreito e pequeno seja tão pouco solidário.

 

Não é possível continuarmos com esta percentagem de população a viver no limiar da pobreza e dizer que somos um país inclusivo, solidário e europeu.

 

Isto, apesar de possuirmos centenas de comentaristas/especialistas em saúde, incêndios, proteção civil, economia, finanças, justiça.

 

Precisamos de um Estado forte e de uma política enérgica, tão consensual quanto possível.

 

Portugal necessita de uma profundíssima reforma da floresta, o que pressupõe uma reforma do povoamento, da agricultura e da indústria.

 

Não basta às vítimas da tragédia dos incêndios os sorrisos e os abraços do Presidente da República e do Primeiro-Ministro.

 

A ação política necessita de pragmatismo.

 

Urge também gerir as instituições de forma equilibrada. É necessário, mas ninguém vai por aí.

 

 Todas as reivindicações são sempre de mais efetivos, sejam enfermeiros, pessoal auxiliar, professores, médicos ou polícias. Ora isso, todos o sabemos, não é possível.

 

Até as fronteiras políticas, nos últimos anos, ficaram mais diluídas. A esquerda marxista-leninista orientou-se para o centro e ficou conservadora e a direita entrou em pânico, perdendo o norte e o bom senso.

 

Só numa coisa parecem concordar: a de que o mundo já foi bom.

 

É mais fácil achar que tudo vai correr mal do que pensar que o futuro até pode ser muito interessante.

 

A política, mais do que nunca, deve ser orientada para os resultados e não para a vacuidade das ideologias. 

 

Todos esperamos que os políticos nos consigam libertar desta crise permanente e que não vão destruir mais emprego e roubar-nos o futuro.

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