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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Abr18

390 - Pérolas e Diamantes: A verdade intermitente e a mentira profunda

João Madureira

 

 

 

O amargurado, bilioso e sempre crítico empresário do setor farmacêutico, Pedro Ferraz da Costa, antigo líder da CIP, deu uma entrevista ao jornal I para falar mal do nosso país, dos nossos governantes e, sobretudo, dos nossos trabalhadores.

 

Enquanto lia a entrevista, não sei bem por que razão, veio-me à ideia a célebre quadra do poeta popular António Aleixo: Para a mentira ser segura / E atingir profundidade / Tem de trazer à mistura / Qualquer coisa de verdade.

 

Como a economia, contra todas as suas previsões, está a crescer 2,7 % ao ano, Ferraz da Costa considera que poderíamos estar a crescer acima dos 4%, se quiséssemos. Na sua perspetiva não crescemos “porque os objetivos governamentais são esses”, não crescer. Além disso, este doutorado em reacionarismo empresarial considera que “Portugal nunca teve o crescimento económico como o seu principal objetivo”.

 

Depois enunciou algumas evidências, a tal verdade intermitente: A necessidade de criação de possibilidades e de crescimento profissional para os mais jovens, até porque “hoje vive-se mais anos e qualquer dia trabalha-se até aos 80 anos”. As empresas, talvez as suas, não sabemos, “são quase lares de terceira idade”. Será que a CIP e os seus empresários não terão a maior parte da culpa?

 

Uma das causas, como não podia deixar de ser, está relacionada com a carga fiscal. E deu um exemplo: “Nos Estados Unidos, uma empresa que investe não paga praticamente impostos.” Ora pois, aqui está o busílis da questão: as empresas pagarem impostos.

 

Apesar da ainda grande percentagem de desempregados, Ferraz da Costa considera que não há falta de mão de obra em muitos setores, há bastante tempo. Será que vivemos no mesmo país?

 

Logo após proferir o dislate, passou à verborreia: “Qualquer empresa que queira contratar pessoas não consegue. E essa dificuldade é sentida tanto na agricultura, como no turismo, indústria e serviços. É por toda a parte. Nós temos aqui algumas áreas na nossa atividade (farmacêutica) onde não crescemos mais porque não encontramos pessoas.”

 

Até aqui ainda vá que não vá, mas o remate é que é surpreendente. Pergunta: “Mas porque não têm qualificação necessária?” Resposta: “Porque não querem trabalhar.”

 

Questionam-no então sobre se será necessário fazer uma reforma profunda, nomeadamente no ensino? Ele responde: “Mas o país não faz isso nem coisa nenhuma. Por falta de estratégia e também porque ninguém quer chatear ninguém.”

 

A resposta paradigmática sobre o seu pensamento resultou da pergunta sobre a grande precaridade que existe no emprego em Portugal. Na sua inspirada perspetiva, “se não houver muita procura, a precaridade não conta porque as pessoas saem de um sítio e vão para outro. Além disso, é uma questão que não preocupa as novas gerações. Eles não querem um emprego para a vida”.

 

Não sabemos o que é que o leva a ser tão perentório na sua resposta. Quem é que não aspira a ter um emprego fixo e permanente?

 

Claro, depois socorre-se da caricatura para desancar a formação de adultos. “Tenho uma atividade agrícola até com alguma dimensão e tive dois tratoristas que foram por obrigação tirar um curso. Quando lhes perguntei como correu, responderam que tinha corrido bem e que nem sequer tiveram tratores durante a formação. Foi tudo dado na sala de aula.”

 

O perigoso e insultante não está verdadeiramente nas suas palavras, mas sim na ideologia que se esconde por detrás delas. Nada no seu pensamento é inocente. Nada.

 

Ora reparem: “Nos EUA, apesar do folclore em torno de Donald Trump, a economia está ótima.” Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

 

Além disso, é contra o aumento do salário mínimo. E por duas razões: A diferenciação salarial, na sua opinião, tem “um efeito de estímulo à qualificação profissional das pessoas”.  E também porque quando “começamos a ter o salário mínimo muito perto do salário médio reduz-se fortemente esse estímulo para os que já estão empregados como também para os que vão entrar em idade ativa”. 

 

Se calhar, senhor Ferraz, o problema não está no salário mínimo, que é muito pequeno. Está, sobretudo, no salário médio que é miserável para um país que se afirma europeu.

 

Lá para o fim fez o que tanto gosta, deu umas caneladas valentes nas tíbias dos sindicatos, sobretudo na CGTP.

 

“Os sindicatos atuam muito por chantagem: ou fazem as coisas como nós queremos ou então fazemos greve.”

 

Traz também a geringonça atravessada na garganta, pois admite que “foi mau para o país encontrar uma solução política deste género”. Mas, como uma vidente vingativa, profetiza que “o governo não vai conseguir terminar o mandato e será obrigado a convocar eleições antecipadas.”

26
Abr18

Poema Infinito (402): A louca memória das fotografias

João Madureira

 

 

A escuridão tornou-se claridade. O lume encontra-se dentro dos limites da sua iridescência. Escrevo o mundo a partir das trevas. Vamos ter de escolher a melhor maneira de ardermos. As sílabas mais sujas foram já incineradas. A tristeza das árvores é agora mais evidente. Quando me levantei, as janelas já estavam abertas e a luz começava a espalhar-se por toda a casa, cobrindo os objetos e o mobiliário, devolvendo-lhes as formas, os pesos e respetivas volumetrias. Acordou tudo aquilo que era quotidiano. Até as petúnias murchas vibraram nas jarras. A sala agitou-se. A cidade entrou de repente pela porta dentro. Permaneço na penumbra do sono. Ainda não saí de casa e já estou irremediavelmente longe de ti. Até os suspiros estão deslocados. O mundo parece despedaçar-se. Os delírios estão repletos de penumbras e incertezas. Agarro-me então à memória que é outra forma de asfixia. A noite costuma colar-se aos gestos. Pesa-me agora mais a luz do dia. O pior de tudo é a falta de tempo. As ilhas desprenderam-se definitivamente do mar. Desço as mãos à procura do teu sexo. Os nossos corpos continuam a ser coerentes. A sua luz ainda é reconhecível. Tenho sede de ti, desse tipo de sede que nunca encontra a sua água. A dúvida é outra forma de esperança. A vida encheu-nos de afazeres mesquinhos. A desilusão assemelha-se ao infindável tricot da minha mãe. O vento arrastará a primavera para outro sítio, longe deste silêncio. Talvez a casa passe a amanhecer de outra maneira. Impregnaram-me de culpa. Sinto a velocidade do tempo. Os barcos afastam-se silenciosos como chegaram. Os sonhos são mais indecisos. Este mar não se consegue localizar nos mapas. Começo a ter visões, a aperceber-me das pequenas formas flutuantes, da geometria abaulada dos dedos, da incandescência do desejo, da inquietação da indiferença, das cicatrizes provocadas pelas lágrimas. Os lábios dos deuses murmuram presságios. Os sonhos são fotografias que deixaram de nos olhar. Habitam-me novas sombras, um tempo mais remoto, uma nova linguagem desconhecida. Turva-se-me a memória de tudo. Não quero corrigir o passado. Tenho a tua voz exatamente gravada na minha memória e não a consigo perceber. Já não reconheço a maioria das paisagens, apenas os intervalos da erva fresca. É quotidiana a morte de Deus. É infinita. As vozes deslocam-se pelas paredes, os corpos tremem e cintilam. A cidade silencia as suas ruínas. Por vezes conseguimos alcançar alguns sorrisos. Temos a idade do momento em que nos conhecemos. Dormimos dentro das fotografias antigas, para sentir a sua solidão, os seus murmúrios, para desvendar a cumplicidade dos olhares cruzados, a recordação do calor e do desejo que crescia dentro dos corpos. Houve tempos em que passeámos pela cidade como se fossemos imagens azuis. Lembro-me que as tuas mãos flutuavam diante de mim como se fosses um anjo do prazer e da demora. O pavor da saudade é igual à noite, falta-lhe a mesma coragem. Temos ainda a memória dos dias difíceis, da violência das noites, dos sonhos não sonhados, das vozes traduzidas em escrita. A solidão da adolescência continua a ser a foz aveludada de um rio sagrado. O tempo amareleceu o rosto e as mãos das fotografias. A cor sépia ficou doce como a tua definição. É inútil falarmos das razões da última viagem. A memória enlouquece até as imagens mais aciduladas.

23
Abr18

389 - Pérolas e Diamantes: Humor e Confrarias

João Madureira

 

 

À boleia do “reaccionário com dois cês” Ricardo Araújo Pereira, aprendi com Milan Kundera o quanto valia o humor na época do terror estalinista. Tinha ele 20 anos.

 

O escritor checoslovaco disse que conseguia sempre identificar as pessoas que não eram estalinistas pelo modo como sorriam. Essas, referia, eram as que ele não precisava de temer. “O sentido de humor era uma maneira fiável de nos reconhecermos.”

 

Desde então, confessa Kundera, sente-se aterrorizado diante de um mundo que tem sucessivamente perdido o sentido de humor.

 

No entanto, em Portugal, os políticos, neste caso, os deputados das ilhas, gostam de nos fazer rir com as suas piadas. Então não é que esses intrépidos representantes do povo ilhéu são reembolsados por viagens que não pagam!

 

Carlos César, esse herói socialista dos arquipélagos, e presidente do PS, é um dos parlamentares a quem a Assembleia da República paga as viagens, mas que depois levanta o subsídio de insularidade.

 

Ou seja, segundo o Expresso, sete deputados pedem de volta ao Estado dinheiro que não gastaram, recorrendo ao subsídio de insularidade para residentes nas ilhas. Cinco são do PS, um é do PSD e outro do BE (este último já renunciou ao mandato por causa da notícia). Ainda há quem tenha vergonha na cara.

 

Dos doze deputados das ilhas, apenas Rubina Bernardo, do PSD, disse não pedir reembolso.

 

Mas o sentido de humor das elites nacionais forjadas na dura luta dos combates políticos não se fica por aqui.

 

Durão Barroso foi o orador convidado na abertura do I World Opera Fórum, em Madrid. Neste encontro reuniram-se 250 especialistas mundiais em ópera.

 

Barroso é, por incrível que pareça, membro do Conselho Internacional do Teatro.

 

Para o consultor do grupo financeiro multinacional sediado em Nova Iorque, Goldman Sachs, a “ópera pode contribuir para a diversidade” e é um símbolo da Europa e da sua história.

 

Durão Barroso é mesmo um patusco com boa voz e um sentido de humor verdadeiramente operático.

 

Incapaz de deixar o seu sentido de humor por mãos alheias, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República e o rei nacional dos afetos, falando numa cerimónia de comemoração da Batalha de La Lys, uma das maiores derrotas militares portuguesas de sempre, disse, aparentemente sem se rir: “Somos fortes no nosso território e fora dele. Somos fortes mesmo nos momentos mais difíceis. Acabamos por vencer sempre.”

 

Tenho de vos confessar uma coisa, para mal dos meus pecados também eu pertenço a uma Confraria. Entrei nela pela mão do Conde Rostov, quando ele ainda habitava no sumptuoso Hotel Metropol. Tinha sido condenado por um tribunal bolchevique a prisão domiciliária, pois era um cavalheiro sem profissão que ocupava o seu tempo com jantares, conversas, leituras e reflexão. O seu principal crime foi o ter escrito um poema que incomodou muito quem mandava. Também ele esgrimia a sua pena. E tinha um sentido de humor muito apurado, coisa que provocava pesadelos nas autoridades policiais soviéticas.

 

Tal como a maçonaria, a Confraria dos Humildes é uma irmandade muito unida, cujos membros se deslocam sem sinais exteriores que os identifiquem. No entanto, reconhecem-se com um olhar.

 

Claro que, tal como as outras confrarias e demais organizações similares, também a dos Humildes caiu em desgraça. Apesar de partilharem uma certa perspetiva. Todos os confrades sabemos que a beleza, o poder de influência, a fama e o privilégio nos são emprestados e não concedidos. Por isso não nos deixamos impressionar.

 

Os da Confraria dos Humildes não se deixam apanhar pela rapidez da inveja, nem pela facilidade da ofensa. Nem sequer espiolham os jornais à procura do seu nome. Preservam o empenhamento de viver entre os seus pares, mas acolhem a lisonja com prudência, a ambição com comiseração e a condescendência com um sorriso íntimo.

 

Claro que alguns se queimam como as traças, teimam em aproximar-se demasiado da luz.

 

A República dos Sovietes tinha razão. A arte é o subordinado mais artificial do Estado. Não só é criada por indivíduos caprichosos que se enfadam com a repetição ainda mais depressa do que a receber ordens, mas também é humilhantemente ambígua.

 

De uma coisa eu sei, a Confraria dos Bolcheviques era admiravelmente criativa. Nos primeiros tempos da União Soviética, os bolcheviques depararam-se com a incómoda realidade de terem de tolerar a ideia de cadeiras douradas e cómodas Luís XIV nas mansões das estrelas de cinema ou até nos apartamentos das elites. E como é que isso podia ser feito sem trair a ideologia? Simples. Pregavam no fundo de cada peça de mobiliário de categoria uma placa com um número gravado. Esse número destinava-se a identificar a peça como parte do enorme inventário do Povo. Desta forma, um bom bolchevique podia dormir descansado, sabendo que a cama de mogno em que se deitava não era sua. Ou seja, apesar do seu apartamento estar mobilado com valiosíssimas antiguidades, ele tinha menos posses do que um sem-abrigo.

 

PS – Como barrosão adotivo, foi com um sorriso rasgado no rosto que li a notícia de que a paisagem agrícola do Barroso foi declarada património mundial. Os autarcas de Montalegre e Boticas receberam em Roma o certificado de reconhecimento do sistema agro-silvo-pastoril barrosão como “um sistema importante do património agrícola mundial”, do ponto de vista da diversidade.

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