Segunda-feira, 23 de Abril de 2018

389 - Pérolas e Diamantes: Humor e Confrarias

 

 

À boleia do “reaccionário com dois cês” Ricardo Araújo Pereira, aprendi com Milan Kundera o quanto valia o humor na época do terror estalinista. Tinha ele 20 anos.

 

O escritor checoslovaco disse que conseguia sempre identificar as pessoas que não eram estalinistas pelo modo como sorriam. Essas, referia, eram as que ele não precisava de temer. “O sentido de humor era uma maneira fiável de nos reconhecermos.”

 

Desde então, confessa Kundera, sente-se aterrorizado diante de um mundo que tem sucessivamente perdido o sentido de humor.

 

No entanto, em Portugal, os políticos, neste caso, os deputados das ilhas, gostam de nos fazer rir com as suas piadas. Então não é que esses intrépidos representantes do povo ilhéu são reembolsados por viagens que não pagam!

 

Carlos César, esse herói socialista dos arquipélagos, e presidente do PS, é um dos parlamentares a quem a Assembleia da República paga as viagens, mas que depois levanta o subsídio de insularidade.

 

Ou seja, segundo o Expresso, sete deputados pedem de volta ao Estado dinheiro que não gastaram, recorrendo ao subsídio de insularidade para residentes nas ilhas. Cinco são do PS, um é do PSD e outro do BE (este último já renunciou ao mandato por causa da notícia). Ainda há quem tenha vergonha na cara.

 

Dos doze deputados das ilhas, apenas Rubina Bernardo, do PSD, disse não pedir reembolso.

 

Mas o sentido de humor das elites nacionais forjadas na dura luta dos combates políticos não se fica por aqui.

 

Durão Barroso foi o orador convidado na abertura do I World Opera Fórum, em Madrid. Neste encontro reuniram-se 250 especialistas mundiais em ópera.

 

Barroso é, por incrível que pareça, membro do Conselho Internacional do Teatro.

 

Para o consultor do grupo financeiro multinacional sediado em Nova Iorque, Goldman Sachs, a “ópera pode contribuir para a diversidade” e é um símbolo da Europa e da sua história.

 

Durão Barroso é mesmo um patusco com boa voz e um sentido de humor verdadeiramente operático.

 

Incapaz de deixar o seu sentido de humor por mãos alheias, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República e o rei nacional dos afetos, falando numa cerimónia de comemoração da Batalha de La Lys, uma das maiores derrotas militares portuguesas de sempre, disse, aparentemente sem se rir: “Somos fortes no nosso território e fora dele. Somos fortes mesmo nos momentos mais difíceis. Acabamos por vencer sempre.”

 

Tenho de vos confessar uma coisa, para mal dos meus pecados também eu pertenço a uma Confraria. Entrei nela pela mão do Conde Rostov, quando ele ainda habitava no sumptuoso Hotel Metropol. Tinha sido condenado por um tribunal bolchevique a prisão domiciliária, pois era um cavalheiro sem profissão que ocupava o seu tempo com jantares, conversas, leituras e reflexão. O seu principal crime foi o ter escrito um poema que incomodou muito quem mandava. Também ele esgrimia a sua pena. E tinha um sentido de humor muito apurado, coisa que provocava pesadelos nas autoridades policiais soviéticas.

 

Tal como a maçonaria, a Confraria dos Humildes é uma irmandade muito unida, cujos membros se deslocam sem sinais exteriores que os identifiquem. No entanto, reconhecem-se com um olhar.

 

Claro que, tal como as outras confrarias e demais organizações similares, também a dos Humildes caiu em desgraça. Apesar de partilharem uma certa perspetiva. Todos os confrades sabemos que a beleza, o poder de influência, a fama e o privilégio nos são emprestados e não concedidos. Por isso não nos deixamos impressionar.

 

Os da Confraria dos Humildes não se deixam apanhar pela rapidez da inveja, nem pela facilidade da ofensa. Nem sequer espiolham os jornais à procura do seu nome. Preservam o empenhamento de viver entre os seus pares, mas acolhem a lisonja com prudência, a ambição com comiseração e a condescendência com um sorriso íntimo.

 

Claro que alguns se queimam como as traças, teimam em aproximar-se demasiado da luz.

 

A República dos Sovietes tinha razão. A arte é o subordinado mais artificial do Estado. Não só é criada por indivíduos caprichosos que se enfadam com a repetição ainda mais depressa do que a receber ordens, mas também é humilhantemente ambígua.

 

De uma coisa eu sei, a Confraria dos Bolcheviques era admiravelmente criativa. Nos primeiros tempos da União Soviética, os bolcheviques depararam-se com a incómoda realidade de terem de tolerar a ideia de cadeiras douradas e cómodas Luís XIV nas mansões das estrelas de cinema ou até nos apartamentos das elites. E como é que isso podia ser feito sem trair a ideologia? Simples. Pregavam no fundo de cada peça de mobiliário de categoria uma placa com um número gravado. Esse número destinava-se a identificar a peça como parte do enorme inventário do Povo. Desta forma, um bom bolchevique podia dormir descansado, sabendo que a cama de mogno em que se deitava não era sua. Ou seja, apesar do seu apartamento estar mobilado com valiosíssimas antiguidades, ele tinha menos posses do que um sem-abrigo.

 

PS – Como barrosão adotivo, foi com um sorriso rasgado no rosto que li a notícia de que a paisagem agrícola do Barroso foi declarada património mundial. Os autarcas de Montalegre e Boticas receberam em Roma o certificado de reconhecimento do sistema agro-silvo-pastoril barrosão como “um sistema importante do património agrícola mundial”, do ponto de vista da diversidade.


publicado por João Madureira às 07:15
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