Quinta-feira, 31 de Maio de 2018

Poema Infinito (407): Declinação

 

Todas as multidões arrastam atrás de si os seus próprios malefícios. Todos os seus deuses bebem o vinho da guerra com os seus patrícios. É da consequência dos choros configurarem o rosto da desgraça. O tédio compensa os compromissos da modernidade. A nova coragem nasce da lúcida conveniência dos compromissos. Os verdadeiros sentimentos nunca nos deixam satisfeitos. O futuro é como um boneco de neve que derrete enquanto os animais dão gritos. Os golpes de génio visam sempre o acaso. Viver continua a ser a hesitação entre a verdade e o erro. As fêmeas bebem a luz junto ao rio. Dos seus orgasmos se alimentam as plantas mais frondosas. Tudo desaparece dentro da arte, até a própria banalidade. Uns riem, outros choram, outros protegem-se contra o esquecimento. Tudo o que está escrito vai ser surpreendido pela morte. Os uivos dos anjos elevam-se no ar como se fossem granadas de medo. As raízes do tempo dissolvem-se na sua própria humidade. A ferocidade que nos assiste brilha por cima das lágrimas escuras. O vento serve-nos de alimento. Cassandra passeia pelo futuro expondo os seus seios e a sua vagina rigorosa. O seu sorriso é ao mesmo tempo leve e simétrico. Sobre ela, o pintor exerce a sua arte subtil. A prodigalidade das suas mentiras ainda hoje nos assusta. A saudade agarra-me pelos braços e transporta-me até ao último dia do último outono. Os nossos olhos alcançaram a cintilação sobrenatural das alvoradas brumosas. As aves atiravam-se de encontro às correntes de ar. A sua beleza era cinzenta. Por isso dizem que o paraíso é verde, que lá as árvores se abrem ao meio. Afinal, o equilíbrio do mundo depende mais da vontade do que da verdade. Afinal, é frágil a linha que distingue o instinto da loucura. A arte poética anda à procura de uma nova teoria geral do Universo e da Vida. Dizem que os versos se devem desligar dos poemas, como se fosse possível desligar os rostos do percurso teórico que lhes deu vida. São cada vez mais raras as nuvens que se deixam dissipar pelo vento, expandindo-se pela vastidão branca do tempo. A solidão das divindades é agora mais ruidosa. É tão fria que corta os lábios pela metade. O vazio passou a ser visível, a transformar-se em outro valor, a viver da sua própria ausência. Nada na vida é absolutamente necessário. Daí a possibilidade de mudar de instante sem que a referência seja eminentemente poética. Os poemas substituem-se por si próprios, repetem-se nas páginas, adquirem caraterísticas tão exíguas como a luz do entardecer. As máquinas iniciaram a produção de cores nunca vistas. Sinto o momento exato em que a luz da manhã atinge o mar. Os pássaros parecem flores que abrem por dentro. A vida decorre em momentos vagarosos. Os velhos murmuram os seus monólogos. Os gestos ficam mais vagarosos, as palavras demoram mais tempo a chegar-nos à boca. Nasci numa época de preocupação em que os valores valiam menos do que o equilíbrio das almas. A pobreza também era de ideias. Davam-se passos certos na direção da ignorância dos antigos mestres.  Iluminavam-se os caminhos com formas extremas de humilhação. As bocas torciam-se quando nos ríamos. Voltei agora a esse abismo. O brilho apaga-se-me na palma das mãos. O génio já não arde dentro dos nossos corações. Retomo, sem querer, a declinação do meu próprio corpo.


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Quarta-feira, 30 de Maio de 2018

Expressões

barroso - volta por SAlto 059 - cópia copy.jpg

 


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Terça-feira, 29 de Maio de 2018

Expressões

Barroso - Solveira - S. André - março 2016 140

 


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Segunda-feira, 28 de Maio de 2018

394 - Pérolas e Diamantes: O Professor Gaivota

 

 

Sabem quem é o Professor Gaivota? É um homenzinho jovial e emaciado chamado Joe Gould que se tornou uma personagem conhecida nas cafetarias, bares e tascas de Greenwich Village, ao longo de 25 anos. Gabava-se, dizem que a contragosto, de ser o último dos boémios, pois todos os outros tinham ficado pelo caminho, “uns debaixo de terra, outros no manicómio e outros na publicidade”.

 

Freeman escreveu um comentário na Newsstand onde nos dá conta que até esse momento nunca tinha lido nada de Joe Gould, mas, no entanto, para ele continuava a ser um dos escritores americanos mais genuínos e originais. Tudo o que então se escrevia na América procurava encaixar-se numa forma ou noutra. Apenas ele parecia ter suficiente imaginação para compreender que quando se chega a tal ponto a forma não faz falta nenhuma. “Não era preciso que o que se tinha a dizer o fosse em forma de poema, de ensaio, de conto ou de romance. Era preciso dizê-lo e mais nada.”

 

Gould sempre se sentiu perplexo com a sua personalidade. A História Oral inclui alguns textos autobiográficos, que dizem ser outras tantas tentativas de se explicar a si próprio. Num deles, intitulado “Porque Sou Incapaz de Me Adaptar À Civilização tal como Ela É, ou Faz, Faz, Não Faças, O Raio de Uma Nota”, chegou à conclusão de que a sua timidez era a responsável de tudo. “Sou introvertido e extrovertido, numa só pessoa”, escreveu ele. 

 

Era, além disso, tal como o meu tio Esgaça, extraordinariamente sensível ao álcool. Numa noite de calor, contou ele a Joseph Mitchell, o autor da crónica de que vos falo, publicada na The New Yorker, bastava-lhe andar uns dez minutos de um lado para o outro diante de um bar a respirar bem fundo para ficar com os copos.

 

Nos bares, onde por vezes tinha a ousadia de aparecer, se avistava um candidato a pagante, dirigia-se a ele e dizia-lhe: “O meu nome é Joseph Ferdinand Gould, formado em Harvard, magna cum difficultate, curso de 1911, e presidente do Conselho de Administração de Boa & Má Sorte, SARL. Em troca de uma bebida, posso recitar-lhe um poema, fazer um discurso, defender uma tese ou tirar os sapatos e imitar uma gaivota. Prefiro gin, mas uma cerveja também serve.”

 

Depois era vê-lo a tirar os sapatos e as meias, esticar o pescoço e lançar-se pela sala aos saltinhos, batendo os braços e soltando um grasnido penetrante a cada salto.

 

Isto tudo porque em criança teve várias gaivotas domesticadas. Já adulto, passava muitos domingos no molhe de pesca de Sheepshead Bay a observar as gaivotas, pois gostava de se gabar de que as compreendia a tal ponto que podia traduzir poemas em grasnidos de gaivota. “Já traduzi para gaivotês uma série de poemas de Henry Wadsworth Longfellow”, dizia ele sem se rir.

 

Na sua juventude decidiu trabalhar para uma organização financiada pelo Instituto Carnegie, dedicada, na altura, ao estudo de famílias de deficientes hereditários, indigentes e outras chagas urbanas. Por ser, na sua opinião, gente demasiado prosaica para o seu gosto, decidiu especializar-se em índios. Nesse inverno foi para o Dakota do Norte e começou a medir as cabeças de um milhar de chipewas e de quinhentos mandans, nas respetivas reservas.

 

Mais tarde, quando lhe perguntavam porque andou a fazer tais medições, mudava de assunto e dizia que era um “segredo científico absoluto”.

 

Esse foi o período mais gratificante da sua vida. Montava bem a cavalo, gostava de dançar e da algazarra. Os índios davam-se bem com ele. Tinha apenas medo de que o achassem chalado quando lhes perguntava se podia “medir-lhes a tola”. Mas eles não se importavam. Parece que até lhe achavam piada.

 

Gostava de rematar: “Os índios são os únicos verdadeiros aristocratas que eu conheci. Eles é que deviam governar o país, e a nós deviam meter-nos nas reservas.”

 

Numa manhã de 1917, ainda como ajudante de repórter na esquadra central da polícia para o Evening Mail, estando ele a preguiçar nas escadas das traseiras, às voltas com a ressaca da véspera, brotou-lhe na ideia a História Oral.  Abandonou imediatamente o emprego e começou a escrever.

 

Nos momentos de exaltação costumava dizer que, desde essa manhã fatídica, a História Oral passou a ser a “minha corda e o meu cadafalso, a minha cama e a minha escrivaninha, a minha mulher e a minha amásia, a minha ferida e o sal em cima dela, o meu whiskey e a minha aspirina, o meu refúgio e a minha salvação. É a única coisa que ainda tem alguma importância para mim. Tudo o resto é lixo.”

 

Chegou a receber uma pequena herança, cerca de mil dólares. Gastou-os em menos de um mês, a pagar copos à toa por toda a Village a pessoas que nunca vira. “Parecia um infeliz quando tinha dinheiro no bolso”, diziam os seus amigos. “Quando ficou sem nada, parecia que lhe tinham tirado um peso de cima.”

 

Na altura em que andava a esbanjar a herança, fez uma coisa que lhe deu grande satisfação. Comprou um rádio enorme, todo brilhante, levou-o para a Sixth Avenue e desfê-lo aos pontapés.

 

Nalgumas festas, segundo o Sr. McCrudden, organizador das “Noites de Poesia Religiosa”, insistia em ler uns poemas absurdos, escritos por ele, que faziam perder a cabeça aos presentes. Gould ia lá porque costumavam servir vinho nas sessões. Um dia pediu autorização para recitar um poema que tinha escrito intitulado “A Minha Religião”. Disseram-lhe que sim, e o que ele recitou foi: No inverno sou budista, / E no verão sou nudista.

 

Por vezes, andando para trás e para diante, dava um pulo mais um saltinho e dizia a quem passava: “Quer saber o que Joe Gould pensa do mundo e de tudo o que nele existe? Scriiic, scriiic, scriiic!”


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Domingo, 27 de Maio de 2018

Na aldeia, com neve...

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Sábado, 26 de Maio de 2018

Na aldeia, com neve...

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Sexta-feira, 25 de Maio de 2018

Na aldeia, com neve...

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Quinta-feira, 24 de Maio de 2018

Poema Infinito (406): A distância das flores

 

 

O tempo da partida é outra dispersão. Apesar disso, as águas são mais exatas. Afronta-nos o desejo de partir. A sedução é um novo mistério, assim como a luz. Ungiram-nos os olhos logo depois de nascer. O orgulho da vida tinha outro significado. Agora há mais pranto. Até a natureza reage de outra maneira. Nós aprendemos a saltar na bruma, a correr atrás do azul em busca de beleza. Nascemos como se fossemos um sonho de Deus. Agora as almas acumulam-se nas aldeias desertas onde quem vive conserva a prostração ao rezar. O temor vai de encontro às montanhas, as horas acastelam-se e as cores endoidecem. Lá ao longe, os enfermos sacodem a sua doença para longe. Sou uma espécie de licorne no seu próprio labirinto. Sei de cor as distâncias, compreendo melhor o ar. A chuva parece oiro branco com espasmos de luz. Vêm-me as saudades de querer ter sido Deus. Escondo onde ainda posso as reminiscências e a nostalgia. Antes das romarias, as manhãs eram de armas. Pressentia-se então o delírio das cores e os intervalos do tempo. Todos resvalavam na longitude das procissões, no volteio dos crepúsculos amarelos. Até os sentidos se sangravam para possibilitar a descida das almas. Mas até as tardes mais fortes acabam por anoitecer. A nossa sina divina é perdermo-nos dentro dos abismos que existem dentro de nós. Depois observamos a ânsia das aves subir aos céus e encerrar os espaços. Os corpos esmaecem porque perdem o ânimo. A sua ternura transformou-se em saudade. As mãos são agora mais tristes, mais longas, prolongadas pelo roxo da agonia. No poente encontra-se o mistério das esfinges, a tristeza das coisas que já foram. Tudo agora é distância. As sombras estremecem em face dos segredos. Os grandes sonhos já não despertam na bruma. Já só encontramos indícios que são como ogivas solares. Vibra o desejo. Os instantes do dia são cada dia mais velozes, mais esguios, mais vazios. O tédio endureceu. O turbilhão da queda é uma outra forma de incoerência. As mulheres continuam a peneirar a sombra e o tempo e a condensar a luz. Tudo ao nosso redor começa a vibrar. Há no sexo uma nova forma de pranto. Os corpos projetam a ideia de estátuas. Alguém emoldura os choros e transporta liturgias. Os espelhos são como cisternas repletas de degraus que se inclinam sobre os jardins. Sinto-me sempre qualquer coisa de intermédio. Continuo a seguir os cristais líquidos da inquietação. Metade do sonho é de fogo, a outra metade é onde eu moro. Na nossa idade é mais evidente a distância das flores, a recordação ansiosa das estrelas, a neblina da saudade e o domínio inexprimível do amor. No entanto, as lembranças são mais fluídas. As escadas dos templos já não conduzem à honra, mas sim ao desperdício. Substituíram os santos pelos mitrados. As sereias já não vagueiam pelo meio dos sonhos. A estirpe dos novos heróis é feita de outras bravuras. As princesas trajam vestidos de tédio. As horas estão mais magoadas, cresce-lhes o outono no meio da alma. As esfinges disfarçam-se de virgens supliciadas. Mesmo as certezas nascem já mortas. Estendo então o meu desejo pela tua boca. Talvez a nossa ternura esteja mais friorenta, talvez as dores sejam mais inteiras. No entanto a sedução continua a ser a mesma.


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Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

Na aldeia, com neve...

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Na aldeia, com neve...

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Segunda-feira, 21 de Maio de 2018

393 - Pérolas e Diamantes: O caminho das pedras

 

Ao contrário do que muita gente esperava, a “corrente de afeto” que rodeava José Sócrates morreu por asfixia. António Costa, o sorridente, cortou de forma oficial com o seu antigo camarada de partido. Até os obedientes cães de fila de Sócrates começaram a descobrir-lhe falhas de caráter.

 

As eminências pardas do PS, vendo o seu ex-camarada a afogar-se no rio das águas escandalosas, escolheram o caminho das pedras, proclamando, em seu favor, a velha ética republicana, que é chapéu de três bicos e serve em qualquer cabeça socialista.

 

O que todos nós sabemos, há já muito tempo, é que há demasiadas fortunas sem explicação em todos os partidos que estiveram no poder e a dita eficácia da justiça foi sempre controlada a partir do poder legislativo, com a cumplicidade de algumas figuras.

 

Mas Sócrates é mesmo o primeiro caso conhecido de delinquência organizada ao mais alto nível. Pensou ele que também escaparia ileso à justiça, pois já tinha visto muitos dos que o antecederam no poder a conseguir escapar incólumes às acusações de corrupção e enriquecimento ilícito. Pensava que era possível enganar tudo e todos. Tinha a lição bem estudada, acreditando na máxima de que a política é para servir os amigos, prejudicar os inimigos e sentar os indiferentes.

 

É caso para dizer que na política portuguesa já tivemos de tudo: rainhas loucas, presidentes-reis, presidentes-múmia e primeiros-ministros corruptos.

 

Por isso, o PS de António Costa resolveu enterrar o cadáver político de José Sócrates. Mas o caso do “animal feroz” vai ser um fantasma político que andará sempre a pairar em volta do PS.

 

Carlos César, no papel de exorcista e para se livrar das trapalhadas das viagens aos Açores, carregou nas tintas da argumentação, dizendo que o desejo do seu partido é o de “que todos os que prevaricarem sejam descobertos e, a comprovar, que sejam punidos com severidade”.

 

Mas os indícios socráticos já vinham de longe e só não viu quem não quis ver: licenciatura a martelo, despachada ao domingo; vida de milionário sustentada com empréstimos de amigos; ligações perigosas e alegadamente promíscuas com banqueiros e outros tubarões da mesma índole; tentativas desesperadas de controlo da comunicação social.

 

Por isso custa a perceber que António Costa, que foi segundo no primeiro governo de José Sócrates, bem como outros ministros, e até Carlos César, então presidente do governo açoriano, nada pensassem, nada pressentissem, nada lessem e nada ouvissem sobre José Sócrates.

 

Essa esplendorosa incapacidade de perceção transformou-se agora na descoberta da pólvora.

 

Por isso custa a engolir, outra vez, o estafado argumento (Manuel Alegre já o empregou um milhar de vezes) da ética republicana, utilizando-o como mera saudação farisaica, que ajuda a modelar o que não passa de taticismo serôdio e oportunista, esquecendo-se que para os homens de bem, aqueles que nada devem e nada temem, é tão essencial a legalidade de direito como a legitimidade moral.

 

Foi despois da polémica em torno de Manuel Pinho que surgiram as primeiras críticas públicas ao ex-primeiro-ministro, por parte de socialistas proeminentes, que ditaram a saída de José Sócrates do PS.

 

Politicamente tudo se precipitou.

 

Os socialistas, através do seu presidente, Carlos César, proclamaram aos quatro ventos que sentiam vergonha de forma dupla, pois, neste caso, tratava-se de um ex-primeiro-ministro.

 

Augusto Santos Silva admitiu incómodo face a comportamentos que, “a terem existido, significam crimes gravíssimos”.

 

João Galamba disse que “envergonha qualquer socialista ver ex-dirigentes, no caso um ex-primeiro-ministro e ex-secretário-geral do PS, acusado de corrupção e branqueamento de capitais.”

 

António Costa, mesmo desde o Canadá, afirmou que a confirmarem-se as suspeitas será “uma desonra para a democracia”.

 

Por isso não restou outra solução ao “injuriado” Sócrates, a não ser sair do partido.

 

Logo após, a confusão instalou-se nas hostes do PS. Começaram então as especulações: Quererá Sócrates falar e tentar colocar em xeque quem o abandonou politicamente, utilizando as escutas a que teve acesso durante o processo e que terão sido vedadas aos jornalistas assistentes no inquérito?

 

Noticiou-se mesmo que José Sócrates terá sido convidado, de imediato, por várias televisões para ser ouvido sobre o assunto. Mas preferiu não falar. Para já, diz-se.

 

Sócrates justificou-se: “A injustiça que a Direção do PS cometeu comigo ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político. Considero, por isso, ter chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo.”

 

A sua ex-namorada, Fernanda Câncio, escreveu: “De alguém com uma tal ausência de noção do bem e do mal, que instrumentalizou os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas e fez da mentira forma de vida, não se pode esperar vergonha. Novidade e surpresa seria pedir desculpa, reconhecer o mal que fez. Mas a tragédia dele, que fez nossa, é que é de todo incapaz de se ver.”


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Domingo, 20 de Maio de 2018

Neve no Barroso

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Sábado, 19 de Maio de 2018

Rio Tâmega - Chaves

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Sexta-feira, 18 de Maio de 2018

Na aldeia

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Quinta-feira, 17 de Maio de 2018

Poema Infinito (405): A servidão das borboletas

 

 

Alegram-se as ovelhas com o medo dos lobos.  Nas florestas negras nascem agora as cidades. Os animais adquiriram um cheiro esquivo. O medo toca-lhes como se fosse estranho. A alegria anda desconfiada e preguiçosa. As cadeiras da sala do tempo ficaram vazias. Lá fora algumas mulheres baloiçam contemplando o frio e os sacramentos da morte. Outras põem a cerimónia nas mesas. Está servido o banquete preparado desde a manhãzinha. Do lado cinzento do dia gritam os pássaros. A geração leviana vai vivendo em casas que julga indestrutíveis. Dizem que se divertem com a sensibilidade do mar, com a sua frieza, com o vento que atravessa as cidades. Apagam a espera. Sofrem a amargura dos terramotos e pousam os seus olhares sobre as estrelas pálidas do Oeste. Brincam mesmo quando se dirigem para o seu destino escuro. As noites empalidecem com o mesmo desassombro das grandes aves. Já não me lembro com nitidez do rosto da minha mãe. A sua imagem cada dia se afasta de mim mais leve e cansada. No entanto, vejo as suas mãos bordando o infinito pano do desaparecimento. Ela cresceu no monte e morreu vendo caras que olhavam demasiado para o seu sofrimento. São coisas dessas que nos fazem endurecer. Talvez o importante tenha ficado por dizer. É essa facilidade aquilo que nos amaldiçoa. Essas palavras leves que fazem rir e que depois sufocam na nossa garganta. Crescem agora flores silvestres nos caminhos por onde andou e dançam borboletas junto às arvores que plantou. Nesse tempo andava eu nos carrocéis mágicos, às cavalitas do meu pai, baloiçava-me nos trapézios na companhia clara e bela dos outros meninos. A gente parava a ver-nos rir. Tocava-se então a gaita de beiços, os carros de bois gemiam pelas ruas e a vergonha não era mesquinha. Lavava-se a roupa branca em dias de sol. Sentia-se a terra gemer de prazer. Vestíamos a calma como se fosse uma luz azul. O tempo era mais longo e a tristeza deixava-se levar pelo vento. As ameixieiras floriam como se fossem mulheres alegres que pariam muitos filhos para alguns morrerem. Tudo parecia planeado para nunca acabar. Celebrava-se a utilidade das coisas, ensinavam-se as condutas mais práticas e os homens entregavam-se à honra. Nomeavam-se as pedras, os montes e os animais. Celebrava-se a neve e o passado enquanto as crianças cresciam por prazer. Criavam-se os costumes, punham-se colarinhos ao pescoço no dia de Páscoa, ensinava-se a arte de governar. Todos mandavam e todos eram servidos. Educava-se a gente na arte da palavra. Aprendia-se a atraiçoar o inimigo. Por vezes ainda sinto a delícia de começar que aprendi nas manhãs que via nascer. Depois punha-me a ler. Tudo era verde. Os galos cantavam. A cerdeira do jardim enchia-se de luz. Ensinaram-me que ser mau exigia muito esforço. Tentaram que eu acreditasse na possibilidade de despedir a infelicidade. Desperdiçava-se o tempo. Misturavam-se as melhores palavras com a carne que guisava no pote. Agora as cidades nutrem-se de carros e navios, nelas sobe o fumo. Os gestos são quase todos incertos. Esbanjam-se os mandamentos, as bocas são ociosas. Os bons conselhos apenas são emprestados. Regresso à velha casa depois do exílio. Atrás de mim vêm os rostos de todos queles que já morreram. Passo de carro sobre as ruínas. Já não tenho paciência para a esperança. Sobre o armário coloco a mala com os meus manuscritos. Junto ao rio, entre os choupos e os pinheiros, protegidos pelo muro e pelos arbustos, crescem ainda as flores mensais.


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Quarta-feira, 16 de Maio de 2018

Na aldeia

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Terça-feira, 15 de Maio de 2018

Poldras de Chaves

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Segunda-feira, 14 de Maio de 2018

392 - Pérolas e Diamantes: Entre a justiça e o seu cúmulo

 

A eurodeputada socialista Ana Gomes, preocupada com a credibilidade da política e dos políticos, sobretudo os do seu partido, diz que o PS se deve demarcar de “quem esteve no Governo para se servir”.

 

Independentemente do julgamento que se venha a realizar, todos sabemos que o engenheiro Sócrates vivia “num desmando total em relação às suas contas pessoais”.

 

Independentemente de ser crime ou não, a divulgação dos interrogatórios evidencia, até à exaustão, a ligação do ex-primeiro-ministro ao grupo Espírito Santo, revelando “um esquema corrupto de captura de um governo”.

 

Mas atenção, e nisso Ana Gomes vai até mais fundo, “o esquema não começou com Sócrates, pois existem elementos relevantes que mostram que começou antes, nomeadamente com a questão dos submarinos ou dos Panduru”.

 

O estranho é que havia sempre um membro do Governo que vinha do BES ou ia para o BES.

 

A deputada socialista não teve papas na língua quando afirmou ao Expresso que é a primeira a dizer que se faça justiça, pois existe um facto insofismável: “A relação especial e privilegiada de Sócrates com Ricardo Salgado. Pelos vistos, estava às ordens dele e até fez negócios à conta dele. O PS não pode pôr isso debaixo do tapete”.

 

O problema é como pode fazê-lo. Por aí passa a questão da sua credibilidade.

 

Mas dêmos outra vez a palavra a Ana Gomes: “O Governo está a trabalhar bem, o que é mais uma razão para o PS não meter a cabeça na areia e assumir que não vai deixar-se instrumentalizar por um individuo mitómano, com uma vida financeira desregrada e que se prestou a que o seu Governo fosse infiltrado e manipulado por interesses de um grupo financeiro.”

 

Por isso, reafirma que o PS tem, para bem da democracia, de demarcar-se deste tipo de comportamento, de gente que estava no Governo do PS para se servir.

 

Referindo-se ao caso de Manuel Pinho, é perentória: “Um ministro que recebe um ordenado à parte da entidade que lhe pagava antes através de offshores, só pode ser por esquemas de corrupção e de evasão fiscal.”

 

Manuel Pinho logo de início lhe pareceu estranho, quando o viu a rondar o PS ainda no tempo em que o Ferro Rodrigues era secretário-geral e ela fazia parte da sua direção, na companhia de Sócrates e António Costa.

 

Via-o solícito, a apresentar-se como economista e a aparecer em todo o lado. Mais tarde, quando entrou para o Governo, pela mão de José Sócrates, lembra-se de lhe terem comentado que Manuel Pinho era “um homem do Espírito Santo”.

 

Por isso, Ana Gomes apela a que o próximo Congresso seja uma “oportunidade para escalpelizar como o PS se prestou a ser instrumento de corruptos e criminosos”.

 

Claro que há camaradas seus que discordam da opinião de Ana Gomes. Arons de Carvalho, um fundador do PS, considera que “Ana Gomes já se antecipou à justiça e fez justiça pelas próprias palavras”.

 

Mas ele, o tal Arons de Carvalho, declarou que não acha reprovável que uma pessoa como Sócrates possa viver com dinheiro emprestado.

 

Se calhar, muitos de nós partilhamos da mesma ideia, só que o senhor engenheiro viveu como um príncipe à custa de um seu amigo (Carlos Santos Silva) que era a verdadeira encarnação do rei Midas: tudo o que tocava transformava em euros, milhões e milhões deles. Ora isso só acontece nos contos de fadas.

 

Todos estranhamos é a forma como a ficção se transformou em realidade.

 

O PS, como instrumento de governação do país, tem de assumir as suas responsabilidades e criar mecanismos de transparência e questionamento.

 

José Sócrates disse que “sempre foi muito vaidoso” e que foi “por vaidade que se meteu na política”.

 

Fora as peneiras, temos de convir que governou com alguma lucidez. Mas o problema está no estranho facto de Sócrates ter um amigo que o financiava de uma forma alucinante. Ora tanto altruísmo é para desconfiar. Parece que o que movia as relações entre os dois não era a afetividade, mas sim os negócios, pois mandava-o levar “fotocópias”, ou, dito de outra forma, “aquela coisa de que gosto muito”.

 

É óbvio que Carlos Santos Silva ganhava dinheiro com os “favores” que fazia ao seu amigo engenheiro.

 

De todas as vezes que Santos Silva foi contatado, nunca lhe disse um único não. Respondia-lhe sempre a medo e com um lacónico “Sim…” Só lá faltava o “…meu senhor”,

 

Segundo o Ministério Público, o modus faciendi, já abundantemente explicado, de Santos Silva para canalizar o dinheiro para o amigo foi o seguinte: Comprou as casas da mãe de Sócrates com o próprio dinheiro deste e, a seguir, a mãe passou o valor da venda para as mãos do filho a título de doação; passou cheques da conta 006, que mandava levantar e depois o valor era entregue a Sócrates (ou ao seu motorista) em dinheiro; fazia levantamentos dessa conta e levava o dinheiro pessoalmente a casa de Sócrates, ou entregava-o a amigos de Sócrates que este indicava ou a uma senhora que servia de correio entre Lisboa e Paris, quando o ex-primeiro-ministro estava na Sciense Po; comprou a casa de Paris, que ficou em seu nome, mas que Sócrates decorou e mais tarde passaria certamente para o seu nome; pagava as prestações de uma quinta no Alentejo usada pela ex-mulher de Sócrates, Sofia Fava; etc.; etc.; etc.

 

Mas se, por alguma razão, o juiz vier a considerar que o dinheiro em trânsito era mesmo de Santos Silva, o amigo de Sócrates é que vai pagar as favas, pois não tem modo plausível de explicar as astronómicas quantias que recebia. Só por milagre. Parece, no entanto, que os milagres não vão a julgamento.

 

Como poderá ele justificar os depósitos feitos em seu nome por Hélder Bataglia ou pelo saco azul do BES? Onde estarão as faturas da fortuna que recebeu?

 

Será o cúmulo da justiça vermos Carlos Santos Silva ser condenado e José Sócrates ficar em liberdade.

 

Por agora, a estratégia de Sócrates, Pinho, Vara e Ricardo Salgado, consiste em aproveitar a lentidão da justiça – servida pela parafernália de recursos que os bons advogados sabem usar – e ficar a marinar até se descobrir um qualquer expediente que faça prescrever os processos ou que fiquem apenas na esfera das penas simbólicas.


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Domingo, 13 de Maio de 2018

Na festa

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Sábado, 12 de Maio de 2018

No São Caetano

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Sexta-feira, 11 de Maio de 2018

No São Caetano

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Quinta-feira, 10 de Maio de 2018

Poema Infinito (404): Criação de espaços

 

 

 

Construímos o dia como uma torre de pedra onde podemos meditar ao crepúsculo. A sua plenitude é tranquila. Perfeitos são os campos e as ervas altas e as flores e os arbustos e o riacho que corre por dentro da penumbra verde destacando o teto arqueado da folhagem. Podemos agora dizer que o olhar do construtor encontrou finalmente a sua própria extensão. O tempo demonstra o seu mutismo, guarda o seu próprio espaço, trabalha a sua esplendorosa tranquilidade. A meditação é outra forma de eloquência porque contém em si o excesso de energia e a densidade calma da matéria. Elaboramos interrogações porque nos disseram que a vida está intacta. A realidade exterior passou a manifestar-se de forma circular. O segredo reside na relação simples entre o corpo e o espaço, entre a paisagem e o desassombro, entre o ser e o olhar. A realidade não está no interior do sujeito, apesar da intimidade permanecer fechada dentro da obscuridade dos labirintos. O vasto silêncio da tua boca revela-se através do fogo silente do teu olhar. Os lábios parecem um novo instrumento de escrita, descrevendo o desespero da espera, a libertação dos sentidos, a voracidade audaz das vaginas, a consagração do silêncio, a esperança redonda dos teus seios, a assimetria angulosa das cores, o humor das árvores, a subversiva ternura da juventude, o incêndio dos corpos, o horizonte interno da terra. Alguém abre a porta do tempo com tenazes de fogo. Alguém grita dentro da sua nudez completa. A vertigem de escrever é branca. As palavras ardem dentro da boca. Deus escreveu de novo com nitidez milimétrica a origem de tudo, a criação completa. Espanta-me a minúcia da tua boca, os campos sombrios, a forma incendiada do teu corpo. Revela-se a luz na forma entusiasmada das folhas, na lentidão perpendicular dos corpos, nos olhos dos anjos, na consciência explosiva das palavras, na infinita fragilidade da vida, na consciência do desejo, no acumular das sombras, na respiração dos montes, na designação esplendorosa do vazio, na imperfeição dicotómica do amor. Olho para os campos com a lentidão de quem os quer esquecer. Deixo-me ir devagar, percorrendo o caminho incendiado da infância, observando a impercetibilidade dos insetos, a respiração brilhante dos lagos, o embranquecimento das profecias, a virgindade intemporal das árvores, a velocidade iluminada da rotação da Terra, a raiva ordenada da perspicácia, as margens obsessivas dos rios, a inanição da poesia, as esquinas invisíveis da pobreza dos bairros, as referências absolutas do irreal. As sombras das montanhas são agora mais altas. O teu corpo é agora mais lúcido. As frases são agora mais frágeis. Os ecos são mais distantes e a água mais árida. Conseguimos ouvir o ar atravessar transversalmente as palavras. As distâncias adquiriram novo sentido. O tempo parece mais íntimo. A profundidade, essa, continua infinita, como os olhares que se abrem e fecham por dentro. A proximidade dos corpos ficou mais longínqua. Estamos no centro do tempo, no centro do silêncio. O espaço das palavras é agora mais vazio. Respiramos melhor quando nos sentamos à janela e ouvimos a música das varandas, o ruído amplo da verdura, a simplicidade vagarosa do desejo. A tua serenidade cria um novo espaço dentro de mim.


publicado por João Madureira às 07:15
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Quarta-feira, 9 de Maio de 2018

No museu

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Terça-feira, 8 de Maio de 2018

Na aldeia

Barroso - Solveira - S. André - março 2016 108

 


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Segunda-feira, 7 de Maio de 2018

391 - Pérolas e Diamantes: A falácia da corrupção dos políticos e banqueiros ou é tudo boa gente...

 

 

Os militantes dos partidos, sobretudo os do PSD e do PS, são gente muito crédula, talvez por isso tenham preenchido a ficha de adesão pensando que assim iam mudar as freguesias, os concelhos e o país, porque para mudar o mundo lá estão os revolucionários do PCP e do BE. E para reformar o céu existe a Assunção Cristas e os benzidos do CDS.

 

Também as crianças creem no Pai Natal, com o desfecho que todos conhecemos: em dezembro todas recebem, pelo menos, um brinquedo.

 

Também eu me fiei nas duas epifanias com os resultados que são públicos.

 

Só os ingénuos é que acreditam que a corrupção existe no nosso país.

 

Todos sabemos que os tribunais continuam a perder tempo e dinheiro a julgar portugueses suspeitos de corrupção perante a passividade de todos, sobretudo dos militantes e simpatizantes dos partidos do sistema. 

 

O escândalo não está na corrupção, mas sim naquilo que ocorre nos tribunais, pois continuam a insistir na tentativa de encontrar um português corrupto, até porque é mais do que evidente que não existe um único que seja.

 

Os pouquíssimos condenados, foram-no por pequenos equívocos ou por grandes enganos. Um deles esqueceu-se de declarar às Finanças o valor dos robalinhos enfiados num cesto rústico com que foi agraciado por contribuir para o combate à poluição do alumínio e do ferro-velho. O outro não se lembrou de declarar o dinheiro que tinha na Suíça e que lhe servia para pagar os charutos que fumava enquanto pensava e exercia o poder. Conseguindo até fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

 

O dos havanos chegou mesmo a ser visitado, no seu retiro prisional e espiritual, por um ex-presidente da República que lhe manifestou a sua solidariedade e proclamou aos sete ventos a sua inocência.

 

E tanto assim é que o povo voltou a elegê-lo com uma votação expressiva. O crime, afinal, pelo menos em Portugal, não compensa.

 

O que não sabemos é quando este clima de suspeição sobre os políticos vai acabar. As mentiras são mais que muitas. Até o “Expresso”, uma espécie de “Correio da Manhã” semanal, se deixou instrumentalizar na divulgação de notícias falaciosas.

 

Só pode ser pura paranoia noticiar que o Ministério Público investiga 11 anos de contas bancárias de Manuel Pinho (ex-ministro de José Sócrates, esse paladino da amizade, já que ninguém conhece no mundo uma única pessoa que tenha um amigo tão generoso e altruísta como o engenheiro Santos Silva), pois existem indícios de que o ex-governante tinha quatro offshores.

 

Dizem, as más-línguas, claro, que Manuel Pinho terá recebido meio milhão de euros do GES enquanto governava.

 

Também Ricardo Salgado, o Midas português (ou Messias da banca, se preferirem) foi constituído arguido no caso EDP, pois, ao que parece, terá recebido mais dois milhões de euros de José Guilherme, por causa do crédito a um empreendimento ligado ao construtor.

 

Já Tomás Correia é suspeito de ter recebido milhão e meio de euros. O que só pode ser atribuído ao delírio especulativo dos jornalistas do “Expresso” e à maldade do MP.

 

O advogado de José Guilherme garante que o empresário se limitou a cumprir instruções de um amigo “a fim de garantir o futuro dos netos”, transferindo para uma conta que lhe foi indicada a quantia citada, mas desconhecendo que ela pertencia ao sr. dr. Tomás Correia.

 

Veem, o Pai Natal existe mesmo, mas não é lá muito equitativo. Aos nossos filhos, ou netos, dá-lhes brinquedos, mas aos filhos e netos dos nossos tímidos empresários oferece-lhes um pé-de-meia de meio milhão de euros. E, discreto como é, nem diz nada aos legítimos proprietários das contas bancárias.

 

Segundo o MP, o esquema entre Tomás Correia e Ricardo Salgado consistia no inventivo procedimento de um emprestar para o outro lhe dar.

 

Foram gestos deste tipo que fizeram com que José Guilherme pagasse a Ricardo Salgado catorze milhões de euros, justificados como um “presente”.

 

Pedro Santos Guerreiro, o suspeito e mal-intencionado diretor do “Expresso”, armado em esperto, atreve-se mesmo a concluir que nem é preciso “chegar à suspeita de corrupção, basta a suspeita de que Manuel Pinho recebeu dinheiro enquanto era ministro. Nunca tinha visto isto”. Ou então, “que se acumulem dois subsídios e se diga sem rir nem corar que isso é eticamente irrepreensível, é muito mais do que salvar a pele”.

 

Ora esta última tirada é direcionada a esse herói da democracia, do socialismo e da autonomia insular, que dá pelo nome de Carlos César, que, por puro acaso, é presidente do PS e membro do Conselho de Estado.

 

Os jornalistas do “Expresso” chegaram até a ousar fazer as contas e o atrevimento de dizer que César lucra mais de 300 euros com cada viagem aos Açores. Nos últimos dois voos, que realizou entre Lisboa e a Região Autónoma dos Açores, o lucro terá chegado aos 732 euros. Ou seja, por cada viagem a casa, Carlos César e os outros deputados dos Açores e da Madeira, têm lucro. 

 

Dizem por aí as más línguas do costume, com os jornalistas à cabeça, que os deputados do continente também demonstram comportamentos idênticos, conseguindo obter, com a mesma eficácia, o mesmo tipo de lucro. Mas para palavras loucas orelhas moucas.

 

Isto acontece sempre que os senhores deputados, magnânimos representantes do povo português, levantam o Subsídio de Mobilidade atribuído aos residentes nas Regiões Autónomas e aos que dizem morar fora da cidade de Lisboa, mesmo que residam a quinhentos metros da Assembleia da República.

 

Isto a juntar à ajuda de centenas de euros que recebem para custear as deslocações. Mas nestes, como noutros casos, há sempre uma ovelha ranhosa.

 

Não nos admiramos se, em breve, um incógnito deputado for objeto de um processo disciplinar por infringir as regras habituais, ou, então, por se armar em esperto, recusando prestar declarações falaciosas. Ele há gente capaz de realizar os gestos mais incríveis para conseguir dar nas vistas.


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Domingo, 6 de Maio de 2018

Na aldeia

DSCF2325 - cópia copy - cópia.jpg

 


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Sábado, 5 de Maio de 2018

Na aldeia

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Sexta-feira, 4 de Maio de 2018

Na aldeia

barroso por salto 057 - cópia copy - cópia.jpg

 


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Quinta-feira, 3 de Maio de 2018

Poema Infinito (403): A brancura invisível do ar

 

 

Saí para a cidade e ela desvaneceu-se. Desaparecer continua a ser surpreendentemente fácil. As pessoas fazem tudo para abandonar a própria identidade. Chegará o tempo de as palavras não conseguirem sair de dentro de nós. Dizem que os deuses já começaram a escurecer. Agora é inverno. As noites são mais longas. De manhã, a luz penetra em nós filtrada pela neve. Já passou o tempo dos loucos gloriosos. O braço mecânico do tempo mexe-se na direção correta. O medo torna-se mais forte do que a necessidade. O chão parece assustado. Os corpos oscilam como os sinos. As recordações são cada vez mais duvidosas. O vento cai de súbito sobre nós. Andamos em círculos. As máquinas começam a soluçar. Nós não reagimos. Procuramos as entranhas luminosas do tempo. Só os corpos sentem dor. A escuridão faz-nos sentir ansiosos. As árvores agitam-se obstinadamente. As suas folhas parecem colonizadas pelo ar glacial. O teu rosto continua fascinante e triste. Pareces uma pessoa imaginada envolta num grande sorriso. Os desaparecidos ganham peso enquanto nós vamos ficando mais vazios. O inverno parece incapaz de nos devorar. Lembro-me de flutuarmos num ar branco de encontro à luz frágil dos edifícios. As palavras continuam a chegar, acumulando-se ao nosso redor, como neve. Algumas são tão leves que se desvanecem rapidamente. São como nós: pó de estrelas. Começo a perder a tua linguagem e a recordar as palavras das orações. Uma coisa é certa: os invernos são mais fiéis. A paisagem adquiriu a precisão dilacerante de um quadro de Seurat. O pai-nosso afetou-a do mesmo modo físico que o vento norte. Só perto de Deus se sente a sublimação das alucinações. Houve tempo em que fomos agressivos como a luz quebrada pelo mar. Éramos jovens improváveis. Recorríamos aos gestos em vez de usarmos palavras. As forças convergiam antes de adormecermos embalados pelo ritmo obsoleto da Internacional. A minha paixão integral vai toda para Bach. As frases musicais assumem a aparência de palavras. E as palavras aparecem-nos como formas geométricas. Seurat transforma-se em fragmentos brilhantes. As fantasias de agora estão todas encaixadas no real. Por vezes, as palavras desaparecem dentro do seu próprio sentido. Formam-se então  buracos negros no pensamento. As substâncias cinzentas envolvem o núcleo da substância branca. Existe dentro da nossa cabeça uma espécie de assimetria, um desequilíbrio entre as palavras e as imagens. As mãos acenam na direção das paredes vazias para chamar os quadros de Van Gogh. Do seu interior sai um exército de pinceladas azuis e amarelas. Aprendi, sem querer, a ser demasiado analítico, a não compreender o lado efémero das coisas. Ensinaram-me então a monitorizar a delicadeza, a traduzir a música em representações matematicamente complexas, a pormenorizar os ritmos e as paisagens urbanas, a processar o momento sagrado das fotografias. Foi então quando o nosso mundo interior mudou. O nosso mundo interior faz agora parte do universo. O tempo é como um rio que se move de forma efémera e aleatória. Nada permanece sem alteração. Hiroji ensinou-me que o número possível de estados mentais é superior ao número de partículas elementares no universo. Afinal, o que é a loucura?


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Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

Na aldeia

barroso - volta por SAlto 146 - cópia copy - co

 


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