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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Mai18

Poema Infinito (407): Declinação

João Madureira

 

Todas as multidões arrastam atrás de si os seus próprios malefícios. Todos os seus deuses bebem o vinho da guerra com os seus patrícios. É da consequência dos choros configurarem o rosto da desgraça. O tédio compensa os compromissos da modernidade. A nova coragem nasce da lúcida conveniência dos compromissos. Os verdadeiros sentimentos nunca nos deixam satisfeitos. O futuro é como um boneco de neve que derrete enquanto os animais dão gritos. Os golpes de génio visam sempre o acaso. Viver continua a ser a hesitação entre a verdade e o erro. As fêmeas bebem a luz junto ao rio. Dos seus orgasmos se alimentam as plantas mais frondosas. Tudo desaparece dentro da arte, até a própria banalidade. Uns riem, outros choram, outros protegem-se contra o esquecimento. Tudo o que está escrito vai ser surpreendido pela morte. Os uivos dos anjos elevam-se no ar como se fossem granadas de medo. As raízes do tempo dissolvem-se na sua própria humidade. A ferocidade que nos assiste brilha por cima das lágrimas escuras. O vento serve-nos de alimento. Cassandra passeia pelo futuro expondo os seus seios e a sua vagina rigorosa. O seu sorriso é ao mesmo tempo leve e simétrico. Sobre ela, o pintor exerce a sua arte subtil. A prodigalidade das suas mentiras ainda hoje nos assusta. A saudade agarra-me pelos braços e transporta-me até ao último dia do último outono. Os nossos olhos alcançaram a cintilação sobrenatural das alvoradas brumosas. As aves atiravam-se de encontro às correntes de ar. A sua beleza era cinzenta. Por isso dizem que o paraíso é verde, que lá as árvores se abrem ao meio. Afinal, o equilíbrio do mundo depende mais da vontade do que da verdade. Afinal, é frágil a linha que distingue o instinto da loucura. A arte poética anda à procura de uma nova teoria geral do Universo e da Vida. Dizem que os versos se devem desligar dos poemas, como se fosse possível desligar os rostos do percurso teórico que lhes deu vida. São cada vez mais raras as nuvens que se deixam dissipar pelo vento, expandindo-se pela vastidão branca do tempo. A solidão das divindades é agora mais ruidosa. É tão fria que corta os lábios pela metade. O vazio passou a ser visível, a transformar-se em outro valor, a viver da sua própria ausência. Nada na vida é absolutamente necessário. Daí a possibilidade de mudar de instante sem que a referência seja eminentemente poética. Os poemas substituem-se por si próprios, repetem-se nas páginas, adquirem caraterísticas tão exíguas como a luz do entardecer. As máquinas iniciaram a produção de cores nunca vistas. Sinto o momento exato em que a luz da manhã atinge o mar. Os pássaros parecem flores que abrem por dentro. A vida decorre em momentos vagarosos. Os velhos murmuram os seus monólogos. Os gestos ficam mais vagarosos, as palavras demoram mais tempo a chegar-nos à boca. Nasci numa época de preocupação em que os valores valiam menos do que o equilíbrio das almas. A pobreza também era de ideias. Davam-se passos certos na direção da ignorância dos antigos mestres.  Iluminavam-se os caminhos com formas extremas de humilhação. As bocas torciam-se quando nos ríamos. Voltei agora a esse abismo. O brilho apaga-se-me na palma das mãos. O génio já não arde dentro dos nossos corações. Retomo, sem querer, a declinação do meu próprio corpo.

28
Mai18

394 - Pérolas e Diamantes: O Professor Gaivota

João Madureira

 

 

Sabem quem é o Professor Gaivota? É um homenzinho jovial e emaciado chamado Joe Gould que se tornou uma personagem conhecida nas cafetarias, bares e tascas de Greenwich Village, ao longo de 25 anos. Gabava-se, dizem que a contragosto, de ser o último dos boémios, pois todos os outros tinham ficado pelo caminho, “uns debaixo de terra, outros no manicómio e outros na publicidade”.

 

Freeman escreveu um comentário na Newsstand onde nos dá conta que até esse momento nunca tinha lido nada de Joe Gould, mas, no entanto, para ele continuava a ser um dos escritores americanos mais genuínos e originais. Tudo o que então se escrevia na América procurava encaixar-se numa forma ou noutra. Apenas ele parecia ter suficiente imaginação para compreender que quando se chega a tal ponto a forma não faz falta nenhuma. “Não era preciso que o que se tinha a dizer o fosse em forma de poema, de ensaio, de conto ou de romance. Era preciso dizê-lo e mais nada.”

 

Gould sempre se sentiu perplexo com a sua personalidade. A História Oral inclui alguns textos autobiográficos, que dizem ser outras tantas tentativas de se explicar a si próprio. Num deles, intitulado “Porque Sou Incapaz de Me Adaptar À Civilização tal como Ela É, ou Faz, Faz, Não Faças, O Raio de Uma Nota”, chegou à conclusão de que a sua timidez era a responsável de tudo. “Sou introvertido e extrovertido, numa só pessoa”, escreveu ele. 

 

Era, além disso, tal como o meu tio Esgaça, extraordinariamente sensível ao álcool. Numa noite de calor, contou ele a Joseph Mitchell, o autor da crónica de que vos falo, publicada na The New Yorker, bastava-lhe andar uns dez minutos de um lado para o outro diante de um bar a respirar bem fundo para ficar com os copos.

 

Nos bares, onde por vezes tinha a ousadia de aparecer, se avistava um candidato a pagante, dirigia-se a ele e dizia-lhe: “O meu nome é Joseph Ferdinand Gould, formado em Harvard, magna cum difficultate, curso de 1911, e presidente do Conselho de Administração de Boa & Má Sorte, SARL. Em troca de uma bebida, posso recitar-lhe um poema, fazer um discurso, defender uma tese ou tirar os sapatos e imitar uma gaivota. Prefiro gin, mas uma cerveja também serve.”

 

Depois era vê-lo a tirar os sapatos e as meias, esticar o pescoço e lançar-se pela sala aos saltinhos, batendo os braços e soltando um grasnido penetrante a cada salto.

 

Isto tudo porque em criança teve várias gaivotas domesticadas. Já adulto, passava muitos domingos no molhe de pesca de Sheepshead Bay a observar as gaivotas, pois gostava de se gabar de que as compreendia a tal ponto que podia traduzir poemas em grasnidos de gaivota. “Já traduzi para gaivotês uma série de poemas de Henry Wadsworth Longfellow”, dizia ele sem se rir.

 

Na sua juventude decidiu trabalhar para uma organização financiada pelo Instituto Carnegie, dedicada, na altura, ao estudo de famílias de deficientes hereditários, indigentes e outras chagas urbanas. Por ser, na sua opinião, gente demasiado prosaica para o seu gosto, decidiu especializar-se em índios. Nesse inverno foi para o Dakota do Norte e começou a medir as cabeças de um milhar de chipewas e de quinhentos mandans, nas respetivas reservas.

 

Mais tarde, quando lhe perguntavam porque andou a fazer tais medições, mudava de assunto e dizia que era um “segredo científico absoluto”.

 

Esse foi o período mais gratificante da sua vida. Montava bem a cavalo, gostava de dançar e da algazarra. Os índios davam-se bem com ele. Tinha apenas medo de que o achassem chalado quando lhes perguntava se podia “medir-lhes a tola”. Mas eles não se importavam. Parece que até lhe achavam piada.

 

Gostava de rematar: “Os índios são os únicos verdadeiros aristocratas que eu conheci. Eles é que deviam governar o país, e a nós deviam meter-nos nas reservas.”

 

Numa manhã de 1917, ainda como ajudante de repórter na esquadra central da polícia para o Evening Mail, estando ele a preguiçar nas escadas das traseiras, às voltas com a ressaca da véspera, brotou-lhe na ideia a História Oral.  Abandonou imediatamente o emprego e começou a escrever.

 

Nos momentos de exaltação costumava dizer que, desde essa manhã fatídica, a História Oral passou a ser a “minha corda e o meu cadafalso, a minha cama e a minha escrivaninha, a minha mulher e a minha amásia, a minha ferida e o sal em cima dela, o meu whiskey e a minha aspirina, o meu refúgio e a minha salvação. É a única coisa que ainda tem alguma importância para mim. Tudo o resto é lixo.”

 

Chegou a receber uma pequena herança, cerca de mil dólares. Gastou-os em menos de um mês, a pagar copos à toa por toda a Village a pessoas que nunca vira. “Parecia um infeliz quando tinha dinheiro no bolso”, diziam os seus amigos. “Quando ficou sem nada, parecia que lhe tinham tirado um peso de cima.”

 

Na altura em que andava a esbanjar a herança, fez uma coisa que lhe deu grande satisfação. Comprou um rádio enorme, todo brilhante, levou-o para a Sixth Avenue e desfê-lo aos pontapés.

 

Nalgumas festas, segundo o Sr. McCrudden, organizador das “Noites de Poesia Religiosa”, insistia em ler uns poemas absurdos, escritos por ele, que faziam perder a cabeça aos presentes. Gould ia lá porque costumavam servir vinho nas sessões. Um dia pediu autorização para recitar um poema que tinha escrito intitulado “A Minha Religião”. Disseram-lhe que sim, e o que ele recitou foi: No inverno sou budista, / E no verão sou nudista.

 

Por vezes, andando para trás e para diante, dava um pulo mais um saltinho e dizia a quem passava: “Quer saber o que Joe Gould pensa do mundo e de tudo o que nele existe? Scriiic, scriiic, scriiic!”

24
Mai18

Poema Infinito (406): A distância das flores

João Madureira

 

 

O tempo da partida é outra dispersão. Apesar disso, as águas são mais exatas. Afronta-nos o desejo de partir. A sedução é um novo mistério, assim como a luz. Ungiram-nos os olhos logo depois de nascer. O orgulho da vida tinha outro significado. Agora há mais pranto. Até a natureza reage de outra maneira. Nós aprendemos a saltar na bruma, a correr atrás do azul em busca de beleza. Nascemos como se fossemos um sonho de Deus. Agora as almas acumulam-se nas aldeias desertas onde quem vive conserva a prostração ao rezar. O temor vai de encontro às montanhas, as horas acastelam-se e as cores endoidecem. Lá ao longe, os enfermos sacodem a sua doença para longe. Sou uma espécie de licorne no seu próprio labirinto. Sei de cor as distâncias, compreendo melhor o ar. A chuva parece oiro branco com espasmos de luz. Vêm-me as saudades de querer ter sido Deus. Escondo onde ainda posso as reminiscências e a nostalgia. Antes das romarias, as manhãs eram de armas. Pressentia-se então o delírio das cores e os intervalos do tempo. Todos resvalavam na longitude das procissões, no volteio dos crepúsculos amarelos. Até os sentidos se sangravam para possibilitar a descida das almas. Mas até as tardes mais fortes acabam por anoitecer. A nossa sina divina é perdermo-nos dentro dos abismos que existem dentro de nós. Depois observamos a ânsia das aves subir aos céus e encerrar os espaços. Os corpos esmaecem porque perdem o ânimo. A sua ternura transformou-se em saudade. As mãos são agora mais tristes, mais longas, prolongadas pelo roxo da agonia. No poente encontra-se o mistério das esfinges, a tristeza das coisas que já foram. Tudo agora é distância. As sombras estremecem em face dos segredos. Os grandes sonhos já não despertam na bruma. Já só encontramos indícios que são como ogivas solares. Vibra o desejo. Os instantes do dia são cada dia mais velozes, mais esguios, mais vazios. O tédio endureceu. O turbilhão da queda é uma outra forma de incoerência. As mulheres continuam a peneirar a sombra e o tempo e a condensar a luz. Tudo ao nosso redor começa a vibrar. Há no sexo uma nova forma de pranto. Os corpos projetam a ideia de estátuas. Alguém emoldura os choros e transporta liturgias. Os espelhos são como cisternas repletas de degraus que se inclinam sobre os jardins. Sinto-me sempre qualquer coisa de intermédio. Continuo a seguir os cristais líquidos da inquietação. Metade do sonho é de fogo, a outra metade é onde eu moro. Na nossa idade é mais evidente a distância das flores, a recordação ansiosa das estrelas, a neblina da saudade e o domínio inexprimível do amor. No entanto, as lembranças são mais fluídas. As escadas dos templos já não conduzem à honra, mas sim ao desperdício. Substituíram os santos pelos mitrados. As sereias já não vagueiam pelo meio dos sonhos. A estirpe dos novos heróis é feita de outras bravuras. As princesas trajam vestidos de tédio. As horas estão mais magoadas, cresce-lhes o outono no meio da alma. As esfinges disfarçam-se de virgens supliciadas. Mesmo as certezas nascem já mortas. Estendo então o meu desejo pela tua boca. Talvez a nossa ternura esteja mais friorenta, talvez as dores sejam mais inteiras. No entanto a sedução continua a ser a mesma.

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