Quinta-feira, 24 de Maio de 2018

Poema Infinito (406): A distância das flores

 

 

O tempo da partida é outra dispersão. Apesar disso, as águas são mais exatas. Afronta-nos o desejo de partir. A sedução é um novo mistério, assim como a luz. Ungiram-nos os olhos logo depois de nascer. O orgulho da vida tinha outro significado. Agora há mais pranto. Até a natureza reage de outra maneira. Nós aprendemos a saltar na bruma, a correr atrás do azul em busca de beleza. Nascemos como se fossemos um sonho de Deus. Agora as almas acumulam-se nas aldeias desertas onde quem vive conserva a prostração ao rezar. O temor vai de encontro às montanhas, as horas acastelam-se e as cores endoidecem. Lá ao longe, os enfermos sacodem a sua doença para longe. Sou uma espécie de licorne no seu próprio labirinto. Sei de cor as distâncias, compreendo melhor o ar. A chuva parece oiro branco com espasmos de luz. Vêm-me as saudades de querer ter sido Deus. Escondo onde ainda posso as reminiscências e a nostalgia. Antes das romarias, as manhãs eram de armas. Pressentia-se então o delírio das cores e os intervalos do tempo. Todos resvalavam na longitude das procissões, no volteio dos crepúsculos amarelos. Até os sentidos se sangravam para possibilitar a descida das almas. Mas até as tardes mais fortes acabam por anoitecer. A nossa sina divina é perdermo-nos dentro dos abismos que existem dentro de nós. Depois observamos a ânsia das aves subir aos céus e encerrar os espaços. Os corpos esmaecem porque perdem o ânimo. A sua ternura transformou-se em saudade. As mãos são agora mais tristes, mais longas, prolongadas pelo roxo da agonia. No poente encontra-se o mistério das esfinges, a tristeza das coisas que já foram. Tudo agora é distância. As sombras estremecem em face dos segredos. Os grandes sonhos já não despertam na bruma. Já só encontramos indícios que são como ogivas solares. Vibra o desejo. Os instantes do dia são cada dia mais velozes, mais esguios, mais vazios. O tédio endureceu. O turbilhão da queda é uma outra forma de incoerência. As mulheres continuam a peneirar a sombra e o tempo e a condensar a luz. Tudo ao nosso redor começa a vibrar. Há no sexo uma nova forma de pranto. Os corpos projetam a ideia de estátuas. Alguém emoldura os choros e transporta liturgias. Os espelhos são como cisternas repletas de degraus que se inclinam sobre os jardins. Sinto-me sempre qualquer coisa de intermédio. Continuo a seguir os cristais líquidos da inquietação. Metade do sonho é de fogo, a outra metade é onde eu moro. Na nossa idade é mais evidente a distância das flores, a recordação ansiosa das estrelas, a neblina da saudade e o domínio inexprimível do amor. No entanto, as lembranças são mais fluídas. As escadas dos templos já não conduzem à honra, mas sim ao desperdício. Substituíram os santos pelos mitrados. As sereias já não vagueiam pelo meio dos sonhos. A estirpe dos novos heróis é feita de outras bravuras. As princesas trajam vestidos de tédio. As horas estão mais magoadas, cresce-lhes o outono no meio da alma. As esfinges disfarçam-se de virgens supliciadas. Mesmo as certezas nascem já mortas. Estendo então o meu desejo pela tua boca. Talvez a nossa ternura esteja mais friorenta, talvez as dores sejam mais inteiras. No entanto a sedução continua a ser a mesma.


publicado por João Madureira às 07:15
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