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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

18
Jun18

397 - Pérolas e Diamantes: Morrer de pé...

João Madureira

 

 

 

O nosso conterrâneo D. António Marto (o novo cardeal português) deu o mote: “O PCP tem uma visão humanista da eutanásia.” O próximo passo, estamos em crer, será, a seu tempo, a proposta de canonização de Jerónimo de Sousa, o beatificado secretário-geral do único baluarte do comunismo ortodoxo sobrevivente na Europa Ocidental.

 

Os jornais noticiaram que, sobre a eutanásia, Rui Rio está próximo de aceitar o referendo, pois viu-se metido numa embrulhada partidária, tendo os deputados do PSD, ao que se diz,  combinado os votos para a lei não passar.

 

Já no PS, o ilustre Ascenso Simões e mais uns quantos deputados do PS que gostam de se afirmar de direita, contrabalançaram os votos do PSD a favor da eutanásia, votando contra. No fim, tudo bateu certo: a proposta não passou.   

 

O líder do PSD contava com mais de 20 votos “sim”, que seriam importantes para posicionar o partido ao centro. Veio nos jornais que Rui Rio ficou bastante zangado com o desfecho da votação, pois deu-se conta de que membros da direção da sua bancada, contrariando a direção do PSD, convenceram deputados para que votassem contra, ou, votando a favor, dispersassem votos estrategicamente para não haver hipótese de a proposta do PS passar.

 

Rui Rio apelidou de “traição” o procedimento de Fernando Negrão que, durante o debate, apenas deu palco aos apoiantes do “não”. O líder do PSD entendia que se a eutanásia passasse por responsabilidade do seu partido, isso não seria um problema, mas uma oportunidade. Poderia ser um momento decisivo na afirmação de um PSD moderado, capaz de atrair eleitorado de centro e de centro-esquerda, pois, segundo pensa, se o PS crescer ao centro, pode ambicionar a maioria em 2019. E se o PSD conquistar parte desse eleitorado, pode ambicionar governar… com o CDS.

 

O mundo anda agora muito confuso. Entendê-lo é uma porra. Como diz o padre Melícias, na nossa altura, a gente entretinha-se com qualquer coisa. Qualquer grilo a sair de uma lura era uma festa.

 

Agora até os comunistas se vestem de santos, enquanto os outros democratas voam ao sabor do vento. As convicções foram chão que já deu uvas.

 

Sobre a eutanásia – excluindo o folclore argumentativo realizado pelos vários especialistas partidários que tanto falam de eutanásia, como de futebol ou de gastronomia –, li uma entrevista de Paulo Teixeira Pinto ao Expresso que me tocou profundamente.

 

PTP é jurista, ex-banqueiro, ex-político e ex-governante do PSD.

 

Sente-se que o homem sabe o que diz, até porque o problema não é, para si, apenas teórico.

 

Há 15 anos foi-lhe diagnosticada a doença de Parkinson. Assumiu então publicamente o desejo de “morrer de pé”, ou seja, de escolher o momento exato em que a sua vida termina. Mantém essa intenção e não reconhece, nem ao Estado nem ao Parlamento, legitimidade para decidir o que vai ser o percurso final da sua existência. Se essa atitude continuar a ser crime em Portugal, irá ao estrangeiro.

 

Lamenta que o mesmo país que foi pioneiro a acabar com a pena de morte, imponha agora “uma pena de vida”. Para si, o direito à vida não significa uma obrigação de viver. Nos casos de doenças incuráveis “talvez fosse bom falar num dever de compaixão”.

 

Mesmo sendo católico, e tendo pertencido à Opus Dei, diz que não vê conflito entre a defesa da eutanásia e as leis da Igreja.

 

Se tivesse de votar, votaria a favor de todas as propostas, para que baixassem à especialidade, pois não encontrou em nenhuma qualquer ponto crítico.

 

PTP defende que aqui não existem questões de direita ou de esquerda, pois o “Homem é uma unidade integra e única”.

 

De facto, e contrariando tanto comunistas, neoliberais como centristas, existe uma confusão de conceitos: “O direito à vida não é mesma coisa que o direito de viver. E, depois, o direito de viver não tem como pressuposto um dever de viver. Ou sequer de sobreviver”.

 

Cada pessoa tem o direito à sua vida e a viver como quer. Mas não existe o dever de sobreviver se não se quiser viver mais.

 

Para PTP há uma imagem que ilustra tudo isto: “Toda a gente concorda que, se um animal estiver a sofrer, tem direito ao chamado tiro de misericórdia. Normalmente, um cavalo com a pata partida é suficiente. Porque é que um homem com vontade própria, não pode beneficiar dessa misericórdia?”

 

Não é só compaixão, é misericórdia para quem já não aguenta sobreviver com uma doença irreversível, progressiva e incontrolável.

 

Claro que existe um conflito entre os ideais religiosos e a defesa da eutanásia, mas nesta, como em qualquer outra matéria, cada pessoa tem direito às suas crenças e convicções. No entanto, um preceito religioso não pode servir de critério normativo.

 

PTP recusa a ideia de que o que ele vai fazer com a sua vida dependa da votação de 230 deputados. Além disso, nenhuma inspiração metafísica o impede de pensar nisso.

 

Ouçamo-lo: “Deus criou o livre arbítrio para o Homem sem nenhum limite. O Homem tem que ser responsável pelo que escolhe, incluindo onde, quando e como quer morrer. Se houvesse um limite de não pensar na morte não seria um livre arbítrio. Para ser verdadeiro, o livre arbítrio tem de ser inteiro. Há alguma arrogância ao invocar, nestas questões, uma pretensa superioridade moral só porque se entende que o direito à vida é absolutamente inviolável e inquestionável. Não é. Era o que mais faltava o Estado ser agora o dono da vontade, do corpo e da vida dos seus cidadãos.”

 

Para PTP, o que se decidiu no parlamento não o vai impedir de fazer o que entender fazer. O destino da lei é-lhe indiferente. A aprovação da lei é apenas importante para salvaguarda do risco de incidentes sobre terceiros. “Só por isso o destino da lei é verdadeiramente importante. Não é por pensar que o legislador tem autoridade para decidir sobre mim.”

14
Jun18

Poema Infinito (409): Explosão

João Madureira

 

Lembro-me do interior do comboio e da explosão do choro familiar. O calor insuportável dos sentimentos fez-nos gelar os ossos. Agora é apenas um fenómeno de matéria transformada em luz. E depois em escuridão. Senti então o comboio a vibrar. Chegada a casa dos meus avós, a minha mãe atirou-se ao chão, naquela abençoada terra que estava possuída pela tristeza. Senti que em breve a terra deixaria de ser minha. O comboio explodiu dentro da minha cabeça. Depois do enterro, nada mais restou senão partir. No entanto, as coisas do mundo continuavam em mim com muita força: o alarido das crianças, os passarinhos a saltitarem através da neve ligeira de dezembro empurrada pelo vento, o amistoso calor da fogueira de casa onde os potes fumegavam, a luz da candeia inclinando as sombras que colidiam com o meu medo, o relógio de sol parado no tempo, a visita dos pássaros ao alto da torre do castelo, a água fresca da bilha em pleno verão bebida sofregamente pelo copo de lata. E também secar com a toalha o torso e os membros depois do banho na bacia grande e a roupa colada ao corpo a seguir a uma chuvada de junho. E as pérolas que eram berlindes. E os botões que eram moedas. E o espeto. E o pião. E a bilharda. E também o desejo. E a boa sorte. E alguém a lembrar-se de escrever sobre alguém que escreve. E os olhos perfurantes de alguém que repara que não estamos à vontade. E também a descoberta com o olhar de um ninho enquanto corremos atrasados para a sala de aula onde está sempre presente o cheiro a giz e a escalfeta. E os estorninhos em revoada pelos céus, o treino no chão, o som da nossa respiração ofegante por corrermos atrás do chamamento da mãe. E também o modo como a humidade nos olhos deixava ainda mais tremeluzente o extensíssimo campo de estrelas no céu e a dor nos pés de jogar futebol e o tal coração desenhado no vapor da nossa respiração espalmada nos vidros frios da janela em memória de quem amamos. E ainda atar os sapatos e dar um nó na corda do embrulho que vamos enviar para África onde os tios defendem Deus, a Pátria e a Autoridade. E sentir a mão da avó e a mão da mãe e a mão da nossa namorada e sentir o desejo do fim do dia e o começo do dia seguinte e sentir que teremos sempre mais um dia à nossa frente. Mas um dia vamos ter de dizer adeus a tudo isso. Chegam agora os gritos das corujas no escuro, as cãibras nas pernas na primavera, as massagens nas costas, os comprimidos tomados no início e no fim do dia. E então voltamos a lembrar-nos do gato com as patas traseiras paralisadas, o rascar das patas de frente do boi do povo, o vale coberto de nuvens rasgando-se ao meio pelo nascer do sol, as persianas das janelas que coam a luz intensa da manhã, a ferida da memória que nos dói, o que vimos, o que não vimos, o que nos resta de escolha. E ainda nos fere a incredulidade do tempo e o seu abrandamento, as águas vagarosas do rio, o caldo de energia, a perda dos nossos entes queridos, o instantâneo transbordar dos pensamentos, a excitação das bocas, o clarão da luz, a fraqueza dos corpos, a oração matinal do sol, a recuperação dos movimentos primordiais, a longa e triste eternidade das noites, a paciência em estado puro, a conveniência do amor, os sonhos tocados pela sinceridade, a boca ávida, as faces coradas, o sexo em riste. A inspiração e o fornicação são cada vez mais custosas.

11
Jun18

396 - Pérolas e Diamantes: António Campos Bravo de Esmolfe

João Madureira

 

 

 

Li uma entrevista de António Campos ao jornal I onde afirma que uma parte da sua fortuna foi gasta na política. Depois do desperdício de dinheiro, este fundador do PS resolveu abandonar a política e regressar a Oliveira do Hospital, à casa onde cresceu, no seio de uma família abastada e republicana, prometendo bater-se para que os seus ex-colegas políticos não ignorem o interior do país.

 

É agora o maior produtor a nível nacional de um fruto que se chama maçã Bravo de Esmolfe.

 

Não ficou com saudades da política porque, para ele, são as causas aquilo que conta. Pensa que atualmente elas não existem.

 

O estimado camarada António Campos agora apenas vive “a causa do Interior”.

 

Assegura que é uma tragédia ter metade do país a desenvolver-se e a outra a empobrecer e a desaparecer. Vê o governo a reclamar todos os dias em Bruxelas a coesão e todos os dias a fazer discriminação em Portugal.

 

“Não foi só este”, diz ele, “mas este governo é igual. Não há diferença nenhuma”.

 

Vê-se que não é apreciador nem de António Costa nem da sua “geringonça”, que acha incapaz de sobreviver a esta legislatura.

 

Sente que os partidos políticos estão afastados das grandes causas.

 

Quarenta e quatro concelhos foram reduzidos a cinzas. E continua sem existir uma estratégia. Os apoios não chegam. É necessário haver reestruturação fundiária para instalar a agricultura e para poder colocar jovens.

 

Deve haver sensibilidade a nível nacional, pois o desenvolvimento do país não pode ser só concentrado à beira-mar.

 

Numa coisa tem razão, os maiores incendiários são aqueles que protegem e defendem a floresta que é amiga do fogo. A bagunça é total. O tão propalado ordenamento do território não existe.

 

Os seus melhores amigos foram Fernando Valle e Miguel Torga, com quem conviveu muito. 

 

No dia 25 de abril de 1974 foi para Lisboa fazer a mobilização para a chegada de Mário Soares a Santa Apolónia. Uma coisa, no entanto, o espantou: ver toda a gente a aplaudir. Descobriu, ele que tinha passado uma vida clandestina, que, de repente, havia milhões de democratas em Portugal que ele desconhecia. Foi talvez das coisas que nunca conseguiu encaixar.

 

Apreciei a parte em que António Campos falou da generosidade de Almeida Santos e da despreocupação de Mário Soares.

 

Segundo ele, Mário Soares nunca perdeu uma noite de sono, pois tinha a vantagem de chegar ao fim do dia e desligar da política com uma grande facilidade. Conseguiu juntar o entusiasmo que tinha pela política com o entusiasmo de viver. Bons tempos.

 

Lembra que convidaram Almeida Santos para “o eleitorado despejar o ódio que tinha havido por causa da austeridade. O Soares estava com 8 % e nós dissemos ao Almeida Santos: Tu candidatas-te e levas uma porrada monumental para abrir caminho para o Mário Soares”. Bons tempos.

 

Revelou que chegaram a preparar a candidatura de Almeida Santos à presidência da República. Como homem avisado, ele foi ouvir a opinião da mulher. Ela opôs-se violentamente.

 

De facto, Almeida Santos “era um homem de uma dimensão inacreditável e de uma cultura fantástica, mas não tinha ambições políticas nenhumas”. Bons tempos.

 

Recorda que Mário Soares, como político avisado, nunca gostou da unanimidade no partido. Por isso obrigava o seu amigo António Campos a arranjar sempre um sarilho para haver oposição. Daí o enorme valor do sótão de António Guterres. Ou seja, o sótão era visto com bons olhos pois tinha a função de picar os militantes desanimados para se organizarem contra eles. Organizados, eram facilmente controláveis.

 

O sótão do agora Secretário-Geral da ONU era muito acarinhado por António Campos. Bons tempos.

 

Já com o José Sócrates “era impossível criar pontes”. Segundo António Campos, depois de Guterres, “que não era capaz de dizer não, o PS precisava de uma liderança forte”. Por isso escolheram o Sócrates, porque era “o único gajo que era capaz de ter mau feitio”.

 

Numa coisa concordamos, nas críticas ao último primeiro-ministro do PSD. “Passos Coelho é um tipo mesmo de direita. Estava desenquadrado. Era um servidor de experiências políticas e a Troika fez o que quis. Eles aplaudiram e ainda queriam mais. Tenho uma opinião de que a ideia era vender o país todo”. Maus tempos.

 

Na sua opinião, hoje há uma fuga dos melhores da política, por razões salariais. O que não foi, manifestamente, o seu caso.

 

António Campos herdou uma grande fortuna. Quando andou pela política teve de vender todos os anos um terreno. Apenas ganhou dinheiro quando esteve no Parlamento Europeu. Uma parte da sua fortuna foi gasta na política, pois, segundo ele, na Assembleia Constituinte nem lhes pagavam. Estiveram lá muito tempo sem vencimento. Teve de emprestar dinheiro a muitos seus camaradas para poderem ir para casa. Bons tempos.

 

Uma coisa sabemos, se emprestou algum desse dinheiro a José Sócrates, vai ter de ir para a fila de espera para o recuperar.

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