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Já me adaptei à ideia do Dilúvio. Noé continua a ondular dentro da sua campânula de madeira. O arco-íris adquiriu a forma de teia de aranha. As flores escondem dentro de si as cores para não serem olhadas e cortadas. Desenham-se novas ruas, constroem-se novos degraus para se subir às casas. As crianças parecem feitas de vidro, já não se confiam às comunhões, nem se aproximam dos altares. Raios e trovões rolam pelo meio das nuvens. Tentam aprender aquilo que nós decidimos ignorar. As mais nobres fábulas deixaram de fazer sentido. Os nomes tornaram-se mais agressivos. Na orla da floresta ajoelham-se os anjos, as sombras ficaram nuas, no lado do poente as crianças transformam-se em príncipes e princesas adoentados pelo tédio. Os sonhos das raparigas tilintam. Diversos animais circulam em volta dos moinhos. A minha mãe continua a pontear o pano da eternidade com as suas lágrimas. Os ramos e a chuva batem nas janelas da biblioteca. Junto ao açude, o mundo parece que avança, apesar do ar estar agora imóvel. Os pássaros calcorreiam o céu. O candeeiro ilumina o livro que releio. Entre as casas existe uma enorme distância preenchida pela bruma. A espessura do tempo transforma os abismos em marés profundas. Sou um mestre de silêncio. Junto ao rio reúnem-se os duendes filhos da lua e dos cometas. Perto do castelo, os poços incendeiam-se. Escrevem-se novas fábulas. Aborrecem-se os príncipes com a sua própria vulgaridade. Os poetas dedicam-se a aperfeiçoar as generosidades mais vulgares. Todos desesperam por amar, por decidir espantosas revoluções. Dizem aspirar à verdade. O vasto poder humano baseia-se no desejo. Está na hora de mandar incendiar os palácios. Degolam-se os animais de luxo. As multidões entram na cidade através do buraco que fizeram na muralha. A destruição rejuvenesce a crueldade. Os príncipes mais velhos morrem dentro dos seus próprios palácios porque deixaram de conseguir ter o desejo que a música sábia lhes transmitia. A necessidade do amor é fabricada por uma nova consciência. Os olhos dos homens mais maduros estão agora mais vagos. Os espaços mais largos do tempo enchem-se de semideuses espirituais, de molochs, de demónios sinistros. A terra santa está repleta de enormes avenidas. Os terraços dos templos desabaram. Observo a história como o fazem os exilados. Já não consigo desdenhar do caos como fazia antigamente. O desejo é agora mais dramático. Já nem a memória da infância me emociona. Tudo parece a continuação de algo que nunca aconteceu. Uma revoada de pombos atrapalhou-nos os pensamentos. Observo calado uma nova descontinuidade do tempo. Trocamos carícias com as mãos como se fossemos de novo para o exílio. Antigamente diziam que a alegria era divina, que o ceticismo alimentava o perigo. Sinto apenas que a ânsia é mais austera. Os tambores disparam sons. Os violinos inauguram uma nova harmonia. Sublevam-se os homens por causa do seu próprio destino. Dizem que se pode atirar o amor pela janela. Eu penso que é a sua indiferença que nos torna infelizes. As bruxas voltaram a reunir-se junto ao campanário. O vento cobre os atalhos do tempo. As pontes da aldeia ostentam as suas ruínas. A água e a tristeza correm juntas no leito do rio. É a nossa necessidade líquida o que origina o princípio dos dilúvios.


Os animais e os seus direitos estão na ordem do dia. Existe mesmo um deputado eleito por um partido que se intitula das Pessoas, dos Animais e da Natureza.
O liberalismo deu nisto: cães tratados como crianças. Quando não melhor. Basta dar uma volta pela cidade, sobretudo pelos jardins, para observarmos dezenas de pessoas a passear os seus cãezinhos de estimação.
Há mais pessoas a passear e a brincar com cães que a passear e brincar com crianças.
Eu até gosto de cães, mas… no seu sítio, a guardar os rebanhos, os casais e as quintas. Por toda a cidade são visíveis os esplendorosos cocós dos canídeos. E dá gosto vê-los a urinar em todas as esquinas, ou na relva dos jardins, ou encostados a árvores e arbustos. É, na perspetiva dos seus donos, uma espécie de porcaria asseada e assética.
Agora até os vestem. Estimam-nos e mimam-nos como se fossem seres humanos. Mas não são. Existem mesmo boutiques que dizem saber como fazer um cão feliz. Personalizam os produtos, utilizando materiais de boa qualidade, trabalhados por mãos de artesãos portugueses, transformando-os em acessórios exclusivos.
Agora os donos dos canídeos podem dar-se ao trabalho (ou será deleite?) de escolher o tecido da cama do cão a combinar com a decoração do quarto. Bolas, ossos e outros brinquedos também são feitos à mão com os melhores materiais.
A funcionalidade é outra das preocupações já que os animais de estimação fazem, cada vez mais, parte da família. Vivem, todos eles, dentro de casa, juntamente com as pessoas. Já não existem cães sem-abrigo.
Nas lojas Ikea, a coleção de produtos para animais foi desenvolvida em cocriação com designers, amantes de animais e veterinários. E também através da observação das diferentes rotinas de cães e gatos.
Por exemplo, as tigelas próprias para a alimentação controlada foram desenhadas para se manterem presas ao chão, graças a uma base antiderrapante, com centro elevado para que os cães comam pequenas porções de cada vez, evitando-se o enfartamento, para o qual têm uma certa tendência. Há ração natural, snacks vegetarianos e queijo sem lactose.
As pessoas, cada vez mais obesas, dão muita importância à qualidade da alimentação, para os seus queridos animais não sofrerem dessas doenças.
Na relação com os animais de estimação, os donos gostam de refletir as suas preocupações e afinidades. Para os amantes do ciclismo, várias empresas especializadas lançaram recentemente uma espécie de cesto que permite levar o imprescindível amigo nos passeios de bicicleta.
Existem também aplicações e dispositivos que permitem seguir todos os passos de um cão. Ajudam a que o cachorro não se perca, mas também servem para controlar o nível de exercício, ou até o peso e a composição nutricional.
A novidade deste ano, segundo os entendidos, é uma cama que regista os níveis de atividade e controlo de peso. Existem coleiras que gravam informação relevante, como o número de telemóvel do dono.
Uma marca portuguesa introduziu no mercado um equipamento em que o cão fica ligado a um dispositivo que permite a localização pela rede GPS, sem necessidade de existir ligação de telemóvel. Através de uma aplicação móvel, o tutor consegue seguir todos os passos do cão, num alcance de 5 km, para sossego dos donos.
No entanto, à medida que os animais vão adquirindo um estatuto social de excelência, o povo português vai perdendo direitos e qualidade de vida. Sobretudo os funcionários públicos, que foram objeto de uma perseguição implacável por parte do governo de José Sócrates e, sobretudo, de Pedro Passos Coelho.
Podemos dizer que os cães passaram a ter a antiga vida dos funcionários públicos, enquanto os funcionários públicos passaram a ter a antiga vida de cão.
Mas vamos aos números. Os salários no Estado perderam mais de um quinto do seu valor desde 2010, ano em que os ordenados dos funcionários públicos foram congelados.
A inflação, a Caixa Geral de Aposentações, a ADSE e o IRS, por junto, levaram uma fatia adicional dos salários. Ou seja, em termos reais, os salários líquidos na Função Pública (medidos a partir da renumeração base) contabilizaram, nos últimos sete anos, perdas que chegaram a ultrapassar os 20%.
O agravamento do IRS, levado a cabo pelo atual funcionário do FMI, Vítor Gaspar, levou, relembremos, a um enorme aumento dos impostos.
É certo que esse agravamento afetou todos os contribuintes, mas, dada a progressividade dos impostos, penalizou os salários mais elevados. Que, na sua maioria, são ridículos, tendo em conta a média europeia.
Convém realçar que a Função Pública concentra, pela sua natureza, um número de trabalhadores em profissões com maiores exigências formativas, logo com salários acima da média. É esse o caso, por exemplo, dos médicos e dos professores.
Por essa razão, o agravamento do IRS – que ainda só foi parcialmente revertido com o fim da sobretaxa e as alterações nos escalões dos impostos – penalizou de forma mais acentuada muitos funcionários públicos.
Como se isso fosse pouco, nos últimos anos do governo de Passos Coelho e Paulo Portas, houve uma confrontação (intencional por parte do executivo) entre o setor privado e público.
Colocaram-se trabalhadores contra trabalhadores. Dessa forma, toda a gente perdeu. O que também era um objetivo governamental.
Todos sabemos que os aumentos no setor público são o principal referencial para a negociação coletiva no setor privado.
O resultado desta confrontação foi o empobrecimento de todos.



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