Terça-feira, 31 de Julho de 2018

Chaves

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Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

403 - Pérolas e diamantes: A conversa e o decoro

 

 

O avô de Adriano Moreira bem o avisou: “Vocês têm de emigrar destas terras, quando estiverem no meio de muita gente, nunca digam que são transmontanos. Porque os outros podem não o ser e ficam envergonhados.”

 

Depois ele, lá se foi safando até chegar a ministro de Salazar. É agora um digno democrata. Melhor, um democrata-cristão. E ensina: “Quando o senhor tem um regime qualquer e é partidário de reformas, passa logo a ser de esquerda. Eu acho que Jesus Cristo era de esquerda.” O que eu não percebo, até porque o senhor é coerente, é o facto de sendo ele cristão dos quatro costados, ser de direita. Pelos vistos, o exemplo de Jesus não lhe serviu para nada.

 

Razão tem o Ricardo Araújo Pereira. Eles falam, falam, falam, mas não os vejo a fazer nada.

 

Nós, os transmontanos, não abandonamos Trás-os-Montes, vamo-nos deixando ir embora.

 

Já dizia Napoleão: “para entender um homem há que entender o mundo em que vivia aos vinte anos”.

 

Nunca nos chegam no tempo certo os poucos pedaços de conhecimento que conseguimos obter de nós mesmos.

 

É preciso ser cego para não ver. Ou melhor, como dizia a minha avó: é necessário não querer ver para não ver.

 

Joe Gould é capaz de estar certo quando argumenta: “A história de uma nação não está nos parlamentos nem nos campos de batalha, mas naquilo que as pessoas dizem umas às outras nos dias de feira e nos dias de festa, e no modo de cultivar a terra, de querelar, de ir em peregrinação.”

 

Por isso decidiu dedicar-se à História Oral e nunca mais aceitar empregos fixos. Ou melhor, transformou-se naquilo que conhecemos como pedinte, ou sem abrigo, ou outra coisa qualquer.

 

Deixou-se seduzir pelas conversas intermináveis, ou pelas conversas curtas e vivas, pelas conversas brilhantes ou pelas conversas parvas, pelos insultos, frases batidas, fragmentos de discussões, o balbuciar dos bêbados e dos loucos, os rostos dos mendigos, os desafios das prostitutas, o linguajar dos feirantes e dos vendedores ambulantes, os sermões dos pregadores de rua, os gritos da noite, os boatos incríveis. Os brados do coração.

 

Também existiam os boémios radicais, os mais convencidos de todos, que deixaram de falar de arte, sexo ou copos. Falavam então sobre a revolução iminente, sobre o materialismo dialético, a ditadura do proletariado, o que Lenine queria dizer quando disse isto, ou o que Trotsky queria dizer quando disse aquilo, e agiam como se alguma daquelas conclusões a que diziam chegar pudessem importar para o futuro do país ou para o futuro da Humanidade. Dito de forma mais assertiva: limitavam-se a ir perdendo o sentido de humor.

 

Pelo empenho com que falavam do proletariado, podíamos ficar com a impressão de que eram todos filhos e filhas de metalúrgicos, estivadores ou operários fabris. Mas a verdade é que quase todos vinham de famílias de classe média ou alta. Alguns bem desafogados e outros até ricos.

 

Claro que chega sempre o dia em que nos sentimos estranhos no meio deles. Confesso que não era tanto a política o que me aborrecia, embora continue a achar que todo o tipo de política é uma chatice. O que me chateava era o ar convencido com que falavam de política. Sobretudo a sua maneira de dizer “nós”. Aqueles defensores do proletariado mais não eram do que flores de estufa.

 

Claro que com tropas daquelas a revolução deu com os burrinhos na água. E todos sabemos que não há nada de agradável que se possa dizer de uma derrota.

 

Uma das realidades tristes da vida é que o nosso círculo de amigos encolhe à medida que vamos envelhecendo. Seja por hábito ou falta de vigor, de repente damos por nós rodeados de um punhado de rostos familiares.

 

O Conde Rostov bem nos avisa que se a atenção deve ser medida em minutos e a disciplina em horas, a indomabilidade tem de ser medida em anos. Ou, para quem não é dado a tiradas filosóficas, podemos dizer simplesmente que o homem sensato celebra aquilo que pode. A mais não é obrigado.

 

Pois sim, concedo na compreensão. Por natureza somos caprichosos, complexos e, por vezes, deliciosamente contraditórios. No entanto, todos merecemos consideração. Ou melhor, todos merecemos ser reconsiderados. Devia existir em nós uma inabalável determinação em nos abstermos de formar uma opinião sobre determinada pessoa até termos interagido com ela em todos os contextos possíveis.  

 

Depois de tantos anos de luta e trabalho, de esperança, de carregar expetativas, engolir opiniões, gerir o decoro e fazer conversa, o que devemos procurar é um pouco de paz e sossego.

 

Propostas: Música: Deus é Mulher – Elza Soares; Leitura: Central Europa – William T. Vollmann; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-aldeia-magica-drave/; Restaurante: Chaxoila – Vila Real.


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Domingo, 29 de Julho de 2018

Na Póvoa de Varzim

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Sábado, 28 de Julho de 2018

O homem e a sombra

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Sexta-feira, 27 de Julho de 2018

No Barroso

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Quinta-feira, 26 de Julho de 2018

Poema Infinito (415): Filho de prumo

 

 

É de madrugada e permanecemos intensamente deslumbrados pela atrapalhação dos caminhos. Vivemos na memória das casas abatidas, derrubadas nos tempos da usura. Pelas suas fendas penetra agora o silêncio, ocupando os espaços opacos entres as paredes, ignorando a imensidade das tardes. Antigamente fechavam-se as janelas, os outonos eram sombrios, a luz ocultava-se nos orifícios do tempo, enquanto as leitugas bravas revoltavam os prados frios e lentos. Os nossos olhos agora enchem-se de lágrimas quando avistamos as casas cheias de silvas. O avô já não revolve a terra húmida, nem os homens malham o centeio na eiras, nem a avó retorce a farinha na masseira. Era esse o pão eterno que alimentava as bocas esfomeadas dos filhos tão amados. Perderam-se as casas, os sorrisos e os silêncios. Perdeu-se a inocência. Atualmente as madrugadas são longas como os caminhos. Esse tempo morreu. A infância ficou pendurada na memória, nela couberam as mil histórias das mil e uma noites. E as estrelas. E os rios. E também o voo das abelhas e os ninhos dos pássaros. Cozia-se o pão nos fornos aquecidos com giestas e ramos de carvalho. O avô andava de socos. E o reco morria sempre entre dezembro e janeiro, quando o carambelo ficava pendurado no colmo ou nas telhas, derretendo-se pouco a pouco com a nesga de calor produzida pelo sol que negligentemente brilhava entre as nuvens. Tínhamos as montanhas no fundo dos olhos. Os segredos eram pequeninos como formigas. A orquestra que ouvíamos era formada por grilos e cigarras. Os meninos eram piratas que navegavam em barcos de papel sulcando os regos de água. Todos os brinquedos, menos os apitos, eram feitos de madeira ou de lata. Consolávamo-nos com os cachos de uvas que surripiávamos das videiras. A sua tinta molhava-nos os dedos e os lábios. Era um tempo morno, cheio de ausências e regressos. As flores nasciam incansáveis na beira dos caminhos. O sons repetiam-se até à exaustão, sobretudo o chiar dos carros de bois. O lume estava sempre aceso e os aromas eternamente presentes. O tempo caminhava de forma incansável, como hoje ainda o faz. Falavam-nos em tesouros que nunca apareciam, em segredos que não desvendavam, em ressurreições que jamais aconteciam. Por vezes, as tempestades desabavam sobre as montanhas e a avó rezava: Santa Bárbara bendita... Brrum... que no céu está escrita com papel e água benta livrai-nos desta tormenta... Brrum... Onde vais Bárbara... Senhor vou ao céu a livrar-me das trovoadas... Brrum... Todos os medos regressavam às suas respetivas casas. E a avó tremia. E o cão gania. E gato fugia para debaixo do escano. E o pai fumava. A mãe benzia-se. E a avó rezava de novo. Nós ficávamos mudos como o tempo. Até o amor queimava as mãos. As vacas ficavam violentas e expunham a sua fúria dando coices nas tábuas da porta do curral. As memórias, essas, eram verdes como as maçãs da Clérga. O vento assobiava pelo meio da palha do centeio. As palavras cresciam como se fossem pavias. Ao serão, a família falava do rio que transbordava, do vento que tombava árvores, da forma correta de fazer vassouras de giestas, dos contos que ninguém sabia muito bem como acabavam. E diziam-se adivinhas. E contavam-se romances. Todas as crianças tinham luz nos olhares. Depois sentávamo-nos no escano de castanheiro com os lousas no colo e desenhávamos letras com o ponteiro. Foi nessas alturas que os poemas começaram a crescer dentro da nossa cabeça, representando sóis e árvores e pássaros esvoaçando no ar cálido do serão. Tudo isso guardámos no peto da memória. Também os nossos olhares medravam como os pães pelos outeiros. E brincávamos com as cerejas, com os pêssegos e com as palavras. Os cães ladravam nas eiras e as névoas espalhavam-se pelo rio e pelo vale. Consertavam-se as cancelas e as sombras. Nos palheiros explorávamos a sexualidade. Agora as casas vão morrendo abandonadas, afogando-se no esquecimento. Já não fumegam, nem os potes cozem a vontade de comer. Agora imaginamos o passado, recordarmos a chuva e os bois feitos de madeira, amansados pelas palavras frescas das crianças. Através da porta saem os astros. O lume apagou-se definitivamente.


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Quarta-feira, 25 de Julho de 2018

No Barroso

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Terça-feira, 24 de Julho de 2018

O moinho

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Segunda-feira, 23 de Julho de 2018

402 - Pérolas e diamantes: A sustentabilidade da imbecilidade

 

 

 

Tal como Niall Fergunson, do The New York Times, também eu não consigo ler no ecrã de um computador com prazer. Para isso tenho de ter um livro impresso com papel e tinta, “de preferência um robusto paperback”.

 

Tal como James Ellroy, penso que é a ler que se aprende a escrever. “Mas, na realidade, não posso dizer como é que eu aprendi.” Ellroy acha que foi Deus quem lhe deu esse dom, pois chegou-lhe de forma misteriosa a partir dos livros que leu. A mim foi mesmo o Diabo em figura de gente.

 

Mas o mundo literário, apesar do seu brilho exterior de civilidade, é um lugar estupidamente convencional, cheio de egos incomensuráveis.

 

Mesmo assim, a realidade está sempre a superar a ficção. Como escreveu Philip Roth, “ninguém podia imaginar que o grande desastre americano do século XXI não seria um ‘Big Brother’ orwelliano, mas a figura ridícula e sinistra do bobo arrogante da commedia dell’arte”.

 

Na carta do editor do último número da revista LER, Francisco José Viegas refere que os dados disponíveis no Eurostat (2011) informam que apenas 5,2% da população portuguesa lê mais de 10 livros por ano, que é metade da percentagem da taxa da Espanha (11%) e muito menos do que a Estónia (21,9%), a Alemanha (22,1%), ou a Finlândia (24,4%). Há ainda 9 % de portugueses que leem entre 5 a 9 livros por ano.

 

Sigamos então o bom exemplo do Presidente da República e procuremos aquilo em que somos mesmo bons: a única contabilidade em que Portugal fica no topo é na honrosa categoria “não leu um livro”, em que nos classificamos no segundo lugar – entre os países da UE, apenas a Roménia nos bate.

 

FJV tem razão, a crescente desvalorização da literatura no ensino do português é cada vez mais evidente. Proliferam por aí os textos em “português normal”, o que, a curto prazo, contribuirá para a banalização da literatura, agora mais conhecida por “entretenimento”, onde se misturam o bom e o mau em doses idênticas, desde que apresentem as denominadas “dimensão cultural” e “festiva”.

 

FJV propõe que se avalie a qualidade do ensino relacionado com a leitura, para ver até que ponto ela reflete e amplia a crescente banalização do banal.  

 

Fala-nos a seguir de uma sua participação num encontro relacionado com bibliotecas escolares, onde ouviu as costumeiras cantilenas. Primeira: que o digital providencia um “absolutamente notável” progresso da civilização, e que esse progresso é inquestionável. Segunda: que é necessário transformar a leitura numa “atividade inclusiva”, provavelmente banindo “livros difíceis” e “incluindo cada vez mais literatura popular que diga alguma coisa às pessoas”. Terceira, em jeito de lamento: a vida é como é.

 

De facto, “o lero-lero da ‘inclusividade’ e da ‘leitura inclusiva’ não é mais do que uma desculpa para perpetuar essa banalização do banal nas nossas escolas”.

 

E termina com duas questões pertinentes: quantos livros leem os jovens das escolas secundárias portuguesas por ano? Quantos livros leem os professores de Português por ano?

 

A festejada atriz Beatriz Batarda já deu o mote, quando afirmou: “Não gosto de Gil Vicente. Desprezo Shakespeare.” Pois lá bem diz o povo: o comer e o coçar está no começar.

 

Alguns, os tais do politicamente correto, já falam de uma literatura sustentável. O que até originou que um livro que denuncia o racismo seja considerado perigoso porque usa palavras racistas.

 

Numa escola americana do Mississípi, a leitura de Não matem a Cotovia, de Harper Lee, apenas pode ser feita com uma autorização expressa dos pais, uma vez que nele se usa a palavra “nigger”. Os bem-pensantes consideram que essa expressão racista, bem como muita da linguagem da obra, pode incomodar as almas sensíveis das crianças, que, tal como nós, abominam o racismo. Já não basta afirmar que o livro de Harper Lee é uma denúncia amarga do racismo, torna-se necessário fazê-lo de forma apropriada e “sustentável”. Ó raio de palavra. Ó c. de gente.

 

Na Califórnia corre um folheto, exarado pelo Departamento de Educação do Estado, que recomenda aos pais que tenham em atenção a cor do cabelo dos bonecos, a forma como se vestem, se utilizam sotaques regionais, se os meninos brincam com carros, se as meninas se vestem com cores suaves, se as personagens das “minorias” desempenham papéis secundários, se eventuais diferenças de classe social são ou não nomeadas como injustiças, se existem diálogos que fazem prever comportamentos transfóbicos, se a opinião subjetiva do autor parece racista ou sexista ou outra coisa qualquer.

 

A ideia parece ser a de que os pais, os editores, os jornalistas, os bibliotecários e os professores passem a fazer de Santa Inquisição, passando todos os livros a pente fino e, muito provavelmente, queimem em público os maus exemplos. Pelo caminho que isto leva, e com a nossa irremediável tendência para seguir orientações estrangeiras, não tarda nada a que idêntica lei seja aplicada em Portugal. O mundo está a ficar cada vez mais estúpido.

 

Como se isso ainda fosse pouco, uma mãe inglesa, ou melhor, uma mãe de Bragança que vive na capital britânica, pediu para que o filme Branca de Neve e os Sete Anões não fosse mostrado ao seu filho de seis anos, iniciando mesmo uma petição pública para que a proibição se estendesse por muito tempo, porque, na sua douta interpretação, o momento em que o príncipe desperta Branca de Neve com um beijo configura uma situação de “abuso sexual”. Esta púdica e inocente mamã não quer que o seu jovem rebento fique com a ideia distorcida de que as raparigas podem ser beijadas enquanto dormem. Mesmo que seja por um angélico príncipe à moda antiga. 

 

Propostas: Música: Bundle - Soft Machine; Leitura: Babbit de Sinclair Lewis; Viagens: http://www.destinosvividos.com/douro-vinhateiro-roteiro-miradouros-percursos-pedestres/; Restaurante: Pensão Flávia – Chaves.


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Domingo, 22 de Julho de 2018

Olhares

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Sábado, 21 de Julho de 2018

No lagar

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Sexta-feira, 20 de Julho de 2018

Olhares

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Quinta-feira, 19 de Julho de 2018

Poema Infinito (414): A velocidade do tempo

 

O som acionado pelo teu cérebro amplia a velocidade do tempo. Em sentido contrário move-se o egoísmo estrutural da auto preservação. Os nossos estados mentais são em número superior às partículas elementares do universo. Já não conseguimos distinguir a alma do cérebro. O maior drama é termos consciência de nós e continuarmos limitados. Os homens e as mulheres nunca conseguirão chegar  a deuses. A hesitação dos teus suspiros parece quase sobrenatural. A dádiva divina perdeu o seu segredo original. Somos duas pessoas noturnas absortas nos seus pensamentos. São quatro da manhã e a noite continuar a ronronar. O mundo exterior está branco como num conto de fadas. O luar torna nítida a paisagem, repreendendo a escuridão. Delineio as letras do teu nome na geada que se fez sobre o vidro da janela. A beleza inalterada dos montes abre fendas nas feridas do livro compacto das memórias. A terra continua a ser inundada por planaltos de luz e sulcada pela água da chuva. O silêncio invade o sonho breve dos animais. As recordações e a saudade que a elas se agarra são como relíquias que o avô nos pediu para preservar. Foi também ele que pediu para analisar o passado. Lembro-me de alguém abrir um mapa da aldeia e de eu colocar o dedo molhado sobre a Clérga e a tinta esborratar no sítio preciso da confluência dos rios. O mapa é demasiado abstrato, não consigo ver os caminhos que levam a terras galegas. Contemplo o céu na esperança cega de me orientar. Os pássaros mais pequenos continuam a escapar à indiferença dos deuses. As cartas parecem casas breves, salpicadas de hesitações e de regressos, de desgastes. A admiração é que continua incansável, como o sofrimento. Nas guerras, fecham sempre fronteiras. Olhamos para trás para ver se o tempo pode recuar. A voz do pai continua embriagada e melodiosa. As festas da família são sempre ruidosas. Os tios e primos mais chegados afastam-se sempre aos gritos. As guerras resolvem sempre o passado. Apenas o passado. O mais difícil é libertarmo-nos de nós próprios. Tudo parece uma questão de sorte ou de azar. A ingratidão e o engano faz-nos compreender o desaparecimento. Deus joga connosco às escondidas. As sombras resumem a sua mensagem. O mundo está povoado de instintos. A memória da mãe continua a ser uma surpresa povoada de referências, impregnada de tristeza. A sua imagem está cheia do reflexos e com os olhos marejados de lágrimas. Agora já não sinto nem vergonha nem medo delas. Tudo está prestes a desintegrar-se. Já não é possível voltar atrás, nem suspender o tempo, torcê-lo ou abri-lo. A noite continua amarrotada, desço as escadas traiçoeiras e passeio pelas ruas sossegadas em frente das casas silenciosas. Um carro fura o silêncio. Eu desvio-me com a lentidão dos velhos. As janelas continuam a afastar-se. As ruínas interiores competem com as exteriores. A indispensabilidade das coisas tornou-se dispensável. Estou a tremer e volto para casa. Estou rodeado de terra. O meu olhar dá de frente com um Jesus iluminado na cruz. Sinto pena. Por vezes a pena pode ser imerecida. É isso o que mais nos magoa. O olhar da minha mãe desliza rumo ao infinito. Tento ensinar-lhe o princípio da distância. Lembro-me que uma vez pedi ao meu pai que construísse uma lua. Ele disse que sim, com um cuidado muito frio. A sua perplexidade oscilou na minha frente. Depois levantou-se e atravessou o pátio com as mãos nos bolsos. A neve começou a cair depondo um fino lençol branco sobre as pedras do muro e sobre a terra do caminho. Neste preciso momento oiço a sua voz ao fundo do pátio. Depois tudo se desvanece. Tenho medo de nunca mais o encontrar.


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Quarta-feira, 18 de Julho de 2018

Delicadeza

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Terça-feira, 17 de Julho de 2018

Sorriso

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Segunda-feira, 16 de Julho de 2018

401 - Pérolas e Diamantes: O Cavaco do nosso descontentamento

 

 

Das entrevistas dadas pelos ex-presidentes da República ao Expresso, a de Cavaco Silva foi a pior. E também a melhor. A pior porque evidenciou a sua personalidade egocêntrica e mesquinha. E a melhor porque revelou o seu carácter reacionário, presunçoso e definitivamente medíocre.

 

Ele, um dos primeiros-ministros que mais contribuiu para o foguetório e o esbanjamento dos fundos comunitários, diz que não se ilude com os números do crescimento porque, na sua douta opinião de homem de pau (carunchoso),  Portugal cresce menos do que os outros países da UE, mesmo num quadro de benesses externas.

 

Revela que não alinha nos foguetes de cada vez que sai um número do INE. De facto, o sr. Cavaco, quando os números são positivos, deve ter uma contração do estômago, deve ranger (ou esterrincar, como se diz na minha aldeia) os dentes e largar uma flatulência que não deve cheirar propriamente a rosas.

 

O azedume é mais forte do que a razão. Diz que é um homem de sorte. Talvez até seja, mas, na minha humilde opinião, a sua sorte foi sempre o nosso azar.

 

Elogiou Macron, Rui Rio, Passos e António Costa (e lá vai canelada), “um político muito hábil”.

 

Todos percebemos que o elogio ao atual primeiro-ministro não é elogio nenhum. O sr. Cavaco não quer dizer que a habilidade de António Costa é benigna, pois utilizou o adjetivo como querendo significar que é um homem tortuoso, que sabe manipular as pessoas e os meios de informação. Não o quer definir como apto, capaz ou ágil, mas sim como astuto.

 

Pensando bem, talvez diga António Costa, querendo designar Marcelo Rebelo de Sousa, de quem tem uma inveja imensa, disfarçada de indiferença.

 

Foi ele que, num dado momento, querendo referir-se a um seu companheiro de partido, afirmou que a má moeda vence a boa moeda. Eu até concordo com o dito, pois foi essa “força maior” a que lhe permitiu triunfar no partido, no governo e na presidência do país.

 

O sr. Cavaco foi um atraso de vida.

 

Na sua perspetiva de ave agoirenta, o sr. Cavaco considera que devemos corrigir os nossos desequilíbrios estruturais como forma de preparar o futuro. A saber: o enorme endividamento do país (que ele potencializou); a insustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (que ele dinamitou de forma tortuosa); a baixíssima taxa de poupança das famílias, que está a um nível historicamente baixo (ó sr. Cavaco, como é que alguém pode poupar se nem dinheiro tem para chegar ao fim do mês? Não se deve esquecer que “o seu menino bonito”, Pedro Passos Coelho, cortou nos vencimentos da classe média de uma forma escandalosa).

 

A simples ideia da reestruturação da dívida provoca-lhe pesadelos, por isso é frontalmente contra, pois podia levar os bancos portugueses à falência, o que seria uma situação dramática para o nosso sistema financeiro. O problema é que os bancos foram mesmo à falência e o sr. Cavaco nem disso se apercebeu. Além de termos de pagar a enorme dívida, atualmente também nos toca pagar a recapitalização e o financiamento do setor bancário.

 

Agora deu-lhe para citar várias vezes Emmanuel Macron. Diz que ganhou interesse pelo presidente francês ao ler o jornal que lhe chega diariamente, o Le Monde, e uma revista semanal, a  L’Express.

 

Começou a ler os discursos do presidente francês e a sublinhar determinadas frases e encontrou algumas semelhantes às suas, escritas nas Memórias. Ou seja, em vez de ser Cavaco a ler Macron, afinal foi Macron que leu Cavaco e se aproveitou das suas ideias.

 

Cá para mim, o homem não se enxerga.

 

E citou-o: “Enquanto presidente, não podemos ter o desejo de ser amados, o importante é servir o país e levá-lo para a frente”.

 

Cá para nós que ninguém nos ouve, o sr. Cavaco aproveita as palavras de Macron para criticar o presidente Marcelo.

 

Segunda citação e mais uma alfinetada em Marcelo: “Estou a pôr fim à cumplicidade entre a política e os media.”

 

E ainda outra, esta direta ao Estadista dos Afetos: “Para um presidente, falar constantemente com os jornalistas, não tem nada que ver com proximidade com o povo” (ai não que não tem, o sr. Cavaco morde-se de inveja).

 

E ainda mais alguns dardos apontados e Marcelo: “A proximidade entre jornalistas e políticos é negativa para os jornalistas e para os políticos.”

 

Em relação à questão do posicionamento de Macron entre a direita e a esquerda é ladino: “Nem de direita nem de esquerda, porque de direita e de esquerda”.

 

O sr. Cavaco, nem a mão esquerda tem à esquerda.

 

Perguntaram-lhe a sua opinião sobre o exercício de funções do atual presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Cito a resposta, que é uma aldrabice pegada: “Tomei por princípio não fazer comentários nem sobre os meus antecessores nem sobre quem me sucede”.

 

Em  duas coisas admito que tem razão: na nossa democracia notamos um afastamento crescente das elites profissionais, dos quadros técnicos qualificados, em relação à participação política  e o sistema eleitoral dá um peso excessivo aos partidos, em comparação com o que dá às pessoas.

 

A autocrítica fica-lhe bem. Pena é que tenha vindo tão tarde e a tão má hora.


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Domingo, 15 de Julho de 2018

Músicos

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Sábado, 14 de Julho de 2018

Sorrisos

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Sexta-feira, 13 de Julho de 2018

Fumeiro

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Quinta-feira, 12 de Julho de 2018

Poema Infinito (413): A maneira da luz

 

 

O teu olhar costuma acalmar a minha tempestade, dominar os ventos que nascem dentro de mim, acalmar as minhas marés interiores e deixa continuar a brilhar os pontos de sol que por vezes se refletem dentro da minha alma. É comovente a minha capacidade de te amar. Mesmo fustigados pelo vento, os frutos renascem devagar, desprendendo-se dos ramos das nossas mãos. Brisas poderosas anunciam maravilhas. O odor das camélias invade o jardim e a nossa nudez que por ali passeia. As palavras sagradas transformam-se em pétalas. Ou em pão. Ou em mentiras piedosas. No entanto, as crianças continuam a beber a água pura nos fontanários das praças. As suas mãos parecem taças douradas pelo sol. Desenhaste o teu corpo dentro dos meus olhos. Agora eles são como lagoas luminosas. Nas encostas da montanha, as uvas amadurecem ao sol. O amor é uma nova construção, uma nova estrada. Abraço-te com o mesmo carinho com que se fazem as curvas dos caminhos mais apertados. A arte está na forma de tecer a manhã, na melancolia entusiástica da aprendizagem, na medição dos sonhos, no entendimento dos segredos e na compreensão dos sorrisos. Gosto da acidez da tua pele, do calor dos teus lábios e do sabor perpétuo da ideia do paraíso. Cada vez renascemos mais devagar, como as flores trazidas pelo vento, como o pólen revelado pelo segredo da fecundação. Reaparecemos vagarosamente, como as brisas poderosas, como os gestos das crianças invadindo os jardins, apanhando as lágrimas depositadas pela chuva nas pétalas das flores. Pousamos então olhar nas árvores mais direitas que nos permitem fixar o deslumbramento das paisagens e recitar as preces da alegria em nome da terra abençoada. As flores não são abstrações, assim como os frutos são sempre a possibilidade feroz de uma outra árvore. A memória é outro tipo de ilusão. O brilho da noite orienta-me nos caminhos do teu corpo. Nele tateio a esperança. Uma língua de fogo transforma o corpo em desejo. Cobrem-se os corpos de beijos e os poemas de versos. O desejo é uma outra forma de esperança. Recolho-me dentro de ti e adormeço. As mãos reproduzem o firmamento, o corpo reflete calor, os teus olhos iluminam a noite. Repetes a palavra “amor” até ela fazer sentido. Dizes que existem palavras tão grandes como “amor”, palavras que possuem o mesmo sentido grandioso: imensidão, essência, eternidade, plenitude. E outras que evidenciam um sentimento único e verdadeiro: idealista, íntegro, renovador, precioso. E ainda outras que simbolizam a continuidade e a regeneração: profundidade, harmonia, envolvência, posteridade. A musicalidade da tua voz abre sulcos no meu corpo, deixando nele linhas incandescentes, onde depois o silêncio semeia a verdade. O nosso olhar fica fixo e cristalino. Os gestos são agora mais tranquilos, cingem o meu ao teu corpo. Lá fora, o rio transborda de vida e as árvores enchem-se de frutos. Cá dentro, as nossas bocas definem as memórias mais íntimas. Procurei as ondas do mar nos teus olhos. Sonhei que chegavas radiante de alegria e com as tuas mãos carregadas de espigas. Depois subimos a montanha transportando o elmo de ouro. O azul iluminava o céu. A razão reconstrói sempre a vida. Há quem se entretenha cantando a beleza que dizem eterna. Eu apenas colho o rosmaninho junto ao rio e busco a nossa barca do destino.


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Quarta-feira, 11 de Julho de 2018

À espera

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Terça-feira, 10 de Julho de 2018

Sorriso

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Segunda-feira, 9 de Julho de 2018

400 - Pérolas e Diamantes: Uma nova interpretação de Guernica

 

 

Os seus estudiosos dizem que Picasso defendia que se leva muito tempo até ficar novo, desde logo porque é necessária muita maturidade para uma pessoa se deixar espantar, inventar, apaixonar e amar.

 

A psicóloga Joana Amaral Dias escreveu, sobre o filme Amour, que talvez “uma boa velhice dependa dessa capacidade de ir ficando cada vez menos esclerosado, até ser criança outra vez”.

 

No fundo, nós vamos inventando todos os dias a possibilidade de uma nova vida, a partir daquilo que fomos. No final da história, morremos.

 

Guernica, provavelmente a obra emblemática de Pablo Picasso e da arte do século XX, mede 349,3 cm x 776,6 cm. Esta pintura mostra os horrores do bombardeamento da cidade basca de Guernica a 26 de abril de 1937, durante a Guerra Civil Espanhola, pela aviação Nazi.

 

Picasso, mesmo morando em Paris nessa época, não calou a afronta e resolveu depositar na tela toda a sua indignação e o seu pesar. A pintura, um óleo sobre tela, foi realizada a partir de 36 fotos que retratam as dolorosas consequências da tragédia. A obra foi inicialmente exposta num espaço reservado à República Espanhola na Exposição Internacional de Paris.

 

Teoricamente, Guernica transmite a atmosfera da guerra e as suas trágicas consequências.

 

Picasso utilizou uma simulação da técnica de collage, pois desenhou e pintou a obra dando a impressão de colagens e criando a sobreposição de planos.

 

Motivado pela dor que lhe tinha provocado a tragédia, Picasso fez um retrato genericamente monocromático basicamente em preto, branco e cinzento, tentando provocar no espetador toda a agonia e a desumanidade da guerra.

 

Há uma curiosidade que envolve o quadro, a resposta de Picasso a um oficial nazi que, numa revista ao seu apartamento em Paris, terá observado uma fotografia do painel e perguntado: “Foi você que fez isto?” Ao que o pintor terá respondido: “Não, foram vocês.”

 

Para o historiador José Juarranz de la Fuente, Guernica, a obra mais famosa de Pablo Picasso, é afinal um autorretrato. Será na realidade um retrato familiar onde estão as suas cinco mulheres.

 

Lendo o quadro da esquerda para a direita, podemos observar na ponta esquerda, “a mãe”, uma mulher com a criança nos braços. Segundo o historiador é a jovem Marie Thérèse, a amante oculta, com a filha de ambos. A sua língua afiada, à semelhança do touro e do cavalo, é uma alusão às discussões que tinham.

 

Por cima de si está o touro que, afinal, não passa do autorretrato de Picasso. Esse animal com as patas robustas, os testículos marcados e o olhar de espetador, é o próprio artista. PP já se tinha desenhado dessa forma antes, nomeadamente retratando a relação com Olga, a sua mulher.

 

Voando perto está o pássaro que representa a fotógrafa Dora Maar, a amante oficial de Picasso, isto segundo Juarranz de la Fuente. O seu tamanho pequeno indica a sua menor importância em relação à mãe, à mulher e à fiel Marie Thérèse.

 

Quase no centro do quadro está o cavalo, neste caso égua, pois, segundo o historiador, o equídeo é a representação de Olga, a bailarina ucraniana com quem o pintor se casou em 1918. Divorciou-se dela em 1935, pouco antes da criação de Guernica, que, segundo PP, foi o pior momento da sua vida.

 

Mas voltemos de novo “à mãe”. O bebé que segura nos braços, aparentemente morto ou desmaiado, é Maya, a sua filha com Marie Thérèse. Também esta cena reflete um momento marcante: o nascimento de Maya, que esteve quase para morrer.

 

Por baixo da mãe, do touro, do pássaro e do cavalo (égua nesta interpretação), podemos ver o guerreiro morto, ou Carlos Casagemas, o seu amigo suicida.

 

Noutros quadros, Picasso desenha-o numa poça de sangue e a espada partida simboliza a sua impotência sexual. Numa outra leitura possível, o historiador abre a possibilidade de o guerreiro ser, afinal, o pai do autor.

 

Já sobre o lado direito do quadro, podemos identificar duas mulheres. A que, no plano superior tem uma vela na mão e corre a arrastar o joelho, evoca a sua mãe, Maria, a partir de uma imagem que o marcou no terramoto de Málaga, no Natal de 1884, tinha o artista 3 anos. Tiveram de sair de casa a correr.

 

Na ponta direita está uma figura que cai. Na opinião de José Juarranz de la Fuente é uma personagem “enigmática e ambígua”. Tem asas, enverga uma túnica que a cobre até aos pés, tem as mãos levantadas e chamas a saírem-lhe do corpo. Pode ser um anjo ou a continuação da representação do terramoto de Málaga.


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Domingo, 8 de Julho de 2018

Na aldeia

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Sábado, 7 de Julho de 2018

Na aldeia

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Sexta-feira, 6 de Julho de 2018

Na aldeia

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Quinta-feira, 5 de Julho de 2018

Poema Infinito (412): O sexo das estrelas

 

Há mulheres que são como contos tristes. São continuações do fim do mundo, apesar de terem nascido como belas princesas acordadas e de acariciarem peixes dentro da água. Sete rios regam agora os campos fazendo com que os versos nasçam verdes. As meninas metem-se dentro de água centímetro a centímetro, tomando consciência da textura dos seus corpos, das fendas, das partes religiosas dos seus sexos. Os rapazes jogam às escondidas, fecham-se dentro da sua inocência, recortam com o olhar as formas das raparigas, o comprimento dos seus cabelos, as pontas das saias, as mãos, os pés, a calibração dos seus seios. E apanham peixes e lutam corpo a corpo. Têm sempre medo de chegar ao fim. As meninas livram-se então dos alívios. A adolescência é uma estação irreversível sem nada lá dentro. É nessa altura que se começa a sentir o tempo a doer, começam então as avós a pegar nos polegares das meninas, a adormecer junto à lareira, a acender o lume pela manhã, a fazer o jantar, a cozinhar legumes, carne e as ideias mais crepusculares. Explicam a maneira de se ir buscar lenha ao monte, de ordenhar as vacas, de dar de comer aos parricos, às pitas e aos coelhos, de pentear o cabelo, de acomodar os seios, de enfiar a aliança no anelar esquerdo. Por vezes, os contactos com o mundo são estranhos. As madrinhas são pesarosas e as afilhadas são prendadas. Por isso as ensinam como cortar, polir e envernizar as unhas. Como lustrar a vida. Como limar o tempo, a paciência, os olhares e as maneiras. Como tonificar as mamas, as nádegas, as coxas e as vaginas. As avós explicam às netas que tudo é reversível, sabendo que afinal é tudo ao contrário. Tudo o que é possível é irreversível. As meninas aprendem a bordar os nomes e a fazer fé na aplicação da juventude. Dizem-lhes que o sexo dos rapazes é como uma serpente venenosa que as pode matar se a deixarem tocar-lhes. Depois falam-lhes do esplendor das panelas, dos panos brancos de linho, do mal olhado, da vida cheia de desilusões e da infidelidade dos gatos. E começam a convidar os amigos das meninas, a explicar a necessidade de aspirar a sala, de suportar as pessoas à distância e a hierarquia das preferências à mesa. Queima-lhes no cérebro a ideia de serem objetos sexuais, de evitar os sutiãs sem alcinhas e das cuecas rendadas. Avisam-nas do perigo de subir degraus com saias, de gritarem quando têm uma ideia ou um orgasmo. O melhor é ser intocável, pois a virgindade é uma joia rara. Tudo o que se lambe deve ser objeto de uma cuidadosa encenação. Falam-lhes da necessidade dos brincos faustosos, das coleiras de rubis, dos broches trabalhados. Depois, as meninas sonham em escrever novelas românticas, cheias de beijos, canções e versos tão perfeitos como príncipes. Aprendem que nunca devem deixar de ser crianças até ao momento doloroso de parirem uma. Finalmente devem dedicar-se aos filhos, tendo como exemplo as mães e as mães das mães e as mães das mães das mães. Surgem então nas casas os vasos de flores e a prudência das noites em vigília para acordarem ao mesmo tempo que os filhos. Pegam então nas mãos dos filhos e vão saciar os passeios e deixá-los fazer tudo nos jardins. Por vezes, as flores murcham ou os vasos partem-se. A mãe chora e o pai bate com as portas. A partir daí as mães começaram a interessar-se pelo firmamento e a lembrar-se de quando viram as primeiras estrelas, o primeiro rapaz. O avistamento das estrelas passa então a constituir o seu principal propósito. Tomam banhos quentes seguindo o que as avós lhes ensinaram, aguentando a dificuldade do calor, estudando a textura das tetas ou lembrando o batismo de Jesus nas águas do rio Jordão. Deixam de pressentir o sexo. Passam a gerir apenas a sua função. Lambem as feridas. Deixam-se levar pela tristeza. Deixam-se levar. Transformam-se em bichos da seda.


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Quarta-feira, 4 de Julho de 2018

Na aldeia

Barroso - Penedones, ETC, XT1 199 copy - cópia c

 


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Terça-feira, 3 de Julho de 2018

Na aldeia

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Segunda-feira, 2 de Julho de 2018

399 - Pérolas e Diamantes: Quem não rouba e não herda...

 

 

Uma coisa. Ora aí está o que se chama um bom negócio. Os contratos de helicópteros por ajuste direto, em vez de concurso público, são mais caros para os cofres públicos. Ou seja, com a dita urgência do combate aos incêndios, o Governo vai pagar mais 47% por meios aéreos.

 

Para defender tão interessante negócio, o executivo liderado por António Costa argumenta que no quadro em que a operação se cinge, um “único ano é menos interessante em termos económicos para os operadores”.

 

Bem vistas as coisas, afinal quem é que lucra com todo este negócio? Nós é que não, com toda a certeza.

 

Outra: O Tribunal confirmou o direito do ex-presidente e fundador do BCP, Jardim Gonçalves, a uma reforma mensal de 167 mil euros, ao pagamento de várias despesas, como segurança, carro e motorista. Coisa pouca como se vê. O BCP deve ser como o banco do Tio Patinhas. Só que os patos são os clientes e o erário público. Resumindo: todos nós.

 

O ex-banqueiro deverá ainda ser compensado por gastos desde 2010, com exceção do avião particular. Aos jornais, Jardim referiu que as regalias que tinha e a pensão que recebe foram aprovadas pelos órgãos competentes (dos quais fazia parte o próprio senhor e os seus gestores) e dizem respeito a todos os ex-administradores desde a fundação do banco.

 

Foi com este tipo de práticas de gestão que o sistema bancário foi à falência. Apesar do desastre, estes senhores continuam a viver como nababos e a justificarem os seus erros como acidentes de percurso.

 

Agora uma coisa completamente diferente. Eu ainda sou dos que pensam que uma fortuna não se constrói apenas com o fruto do trabalho. Há um provérbio transmontano que diz: “Um homem para ser rico ou há de herdar ou roubar”. Os nossos irmãos beirões proferem-no de outra forma: “Quem não rouba e não herda, não sai da merda”.

 

A prova provada destas verdades é o comportamento de alguns ricos, hoje suspeitos de gravíssimos atos de corrupção, que nos avivam a memória sobre a forma negativa como o povo sempre olhou para os ricos (banqueiros, empresários e gestores) e os seus lacaios (os políticos).

 

E o forrobodó é tanto que até o peixe médio que chegou aos lugares cimeiros não se coíbe de tentar também a sua sorte deitando mão ao que pode.

 

Hoje os escândalos sucedem-se de maneira ininterrupta. Não há semana que não se saiba de mais um caso investigado pela PJ e pelo MP.

 

E a contento de todas as vontades: governantes, autarcas, deputados, futebolistas, dirigentes desportivos, gestores, banqueiros, médicos, farmacêuticos, bombeiros e polícias.

 

Muita gente se pergunta se não haverá lei e forma de dar volta a isto. O que eu sei é que existiu, logo no início do primeiro Governo Sócrates, um deputado, de seu nome João Cravinho, que apresentou uma proposta sobre enriquecimento ilícito.

 

De uma forma simplificada, o plano consistia em colocar sob suspeita qualquer pessoa cuja declaração de rendimentos não correspondesse ao seu património.

 

Muita gente, na altura, não concordou com ele por considerar que não competia ao cidadão provar ser inocente, mas ao poder judicial culpá-lo ou absolvê-lo.

 

Os deputados da altura resolveram armar-se em virgens ofendidas e, em vez de melhorarem a proposta, resolveram deitá-la ao lixo.

 

Pouco depois, o deputado do PS, vendo o que via e sabendo o que sabia, resolveu sair do país e ir para o BERD (Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento) fazer que fazia, já que a mais não era obrigado.

 

Longe da vista, longe da corrupção.

 

Depois regressou.

 

Agora resolveu divulgar que, uma vez no poder, Sócrates bloqueou toda e qualquer medida de combate à corrupção. Em declarações à TSF revelou que ele, o outro, o tal animal feroz, “não quis que se aperfeiçoasse o sistema e por isso, ainda hoje, o sistema de combate à corrupção anda sem rei nem roque”.

 

Na sua opinião, “quem esteve no Governo Sócrates sentiu-se incomodado mas não tirou consequências”. Por isso João Cravinho recusou, na altura, fazer parte da lista da Comissão Nacional do PS, pois sentia-se “desconfortável” com aquilo que já sabia.

 

Atualmente, com as leis que atamancaram lá na casa da democracia, fala-se em “riscos de corrupção”, que é um conceito que pretende, à falta de pior, permitir que ninguém seja punido quando enriquece à custa da mentira e da aldrabice.

 

Tal como a prostituição, estamos em crer, também a corrupção é das mais antigas profissões do mundo.

 

É frequente ouvir muitos chicos espertos desabafarem que se estivessem no poder fariam o mesmo.

 

É também frequente ver alguns desses espertalhões que subiram na vida graças aos cargos políticos que exerceram, ou exercem, a sorrir nas capas dos jornais e revistas nas Quintas de luxo.

 

São passados 12 anos sobre o momento em que João Cravinho procurou lutar contra o tsunami corruptivo. Mas basta dar uma vista de olhos pelos jornais para verificarmos que, ao contrário de diminuir, a corrupção não tem parado de aumentar.

 

No Brasil, ao falar sobre operação Lava Jato, o criminalista Mário de Oliveira Filho, fez uma declaração que causou furor na imprensa.

 

Disse que os empresários costumam fazer propostas ilícitas para pagamento de alguma coisa aos políticos, pois, se não o fizerem, não têm obra.

 

“Pode pegar numa autarquia do interior ou numa pequena construtora com quatro funcionários. Se não fizer um acerto, ele não põe um paralelepípedo do chão.”

 

Ou seja, de acordo com o advogado, no Brasil não se coloca uma pedra na rua sem um pagamento de luvas.

 

Claro que isto se passa no Brasil, aqui não acontece nada de semelhante. Para nosso contentamento.


publicado por João Madureira às 07:15
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