Segunda-feira, 9 de Julho de 2018

400 - Pérolas e Diamantes: Uma nova interpretação de Guernica

 

 

Os seus estudiosos dizem que Picasso defendia que se leva muito tempo até ficar novo, desde logo porque é necessária muita maturidade para uma pessoa se deixar espantar, inventar, apaixonar e amar.

 

A psicóloga Joana Amaral Dias escreveu, sobre o filme Amour, que talvez “uma boa velhice dependa dessa capacidade de ir ficando cada vez menos esclerosado, até ser criança outra vez”.

 

No fundo, nós vamos inventando todos os dias a possibilidade de uma nova vida, a partir daquilo que fomos. No final da história, morremos.

 

Guernica, provavelmente a obra emblemática de Pablo Picasso e da arte do século XX, mede 349,3 cm x 776,6 cm. Esta pintura mostra os horrores do bombardeamento da cidade basca de Guernica a 26 de abril de 1937, durante a Guerra Civil Espanhola, pela aviação Nazi.

 

Picasso, mesmo morando em Paris nessa época, não calou a afronta e resolveu depositar na tela toda a sua indignação e o seu pesar. A pintura, um óleo sobre tela, foi realizada a partir de 36 fotos que retratam as dolorosas consequências da tragédia. A obra foi inicialmente exposta num espaço reservado à República Espanhola na Exposição Internacional de Paris.

 

Teoricamente, Guernica transmite a atmosfera da guerra e as suas trágicas consequências.

 

Picasso utilizou uma simulação da técnica de collage, pois desenhou e pintou a obra dando a impressão de colagens e criando a sobreposição de planos.

 

Motivado pela dor que lhe tinha provocado a tragédia, Picasso fez um retrato genericamente monocromático basicamente em preto, branco e cinzento, tentando provocar no espetador toda a agonia e a desumanidade da guerra.

 

Há uma curiosidade que envolve o quadro, a resposta de Picasso a um oficial nazi que, numa revista ao seu apartamento em Paris, terá observado uma fotografia do painel e perguntado: “Foi você que fez isto?” Ao que o pintor terá respondido: “Não, foram vocês.”

 

Para o historiador José Juarranz de la Fuente, Guernica, a obra mais famosa de Pablo Picasso, é afinal um autorretrato. Será na realidade um retrato familiar onde estão as suas cinco mulheres.

 

Lendo o quadro da esquerda para a direita, podemos observar na ponta esquerda, “a mãe”, uma mulher com a criança nos braços. Segundo o historiador é a jovem Marie Thérèse, a amante oculta, com a filha de ambos. A sua língua afiada, à semelhança do touro e do cavalo, é uma alusão às discussões que tinham.

 

Por cima de si está o touro que, afinal, não passa do autorretrato de Picasso. Esse animal com as patas robustas, os testículos marcados e o olhar de espetador, é o próprio artista. PP já se tinha desenhado dessa forma antes, nomeadamente retratando a relação com Olga, a sua mulher.

 

Voando perto está o pássaro que representa a fotógrafa Dora Maar, a amante oficial de Picasso, isto segundo Juarranz de la Fuente. O seu tamanho pequeno indica a sua menor importância em relação à mãe, à mulher e à fiel Marie Thérèse.

 

Quase no centro do quadro está o cavalo, neste caso égua, pois, segundo o historiador, o equídeo é a representação de Olga, a bailarina ucraniana com quem o pintor se casou em 1918. Divorciou-se dela em 1935, pouco antes da criação de Guernica, que, segundo PP, foi o pior momento da sua vida.

 

Mas voltemos de novo “à mãe”. O bebé que segura nos braços, aparentemente morto ou desmaiado, é Maya, a sua filha com Marie Thérèse. Também esta cena reflete um momento marcante: o nascimento de Maya, que esteve quase para morrer.

 

Por baixo da mãe, do touro, do pássaro e do cavalo (égua nesta interpretação), podemos ver o guerreiro morto, ou Carlos Casagemas, o seu amigo suicida.

 

Noutros quadros, Picasso desenha-o numa poça de sangue e a espada partida simboliza a sua impotência sexual. Numa outra leitura possível, o historiador abre a possibilidade de o guerreiro ser, afinal, o pai do autor.

 

Já sobre o lado direito do quadro, podemos identificar duas mulheres. A que, no plano superior tem uma vela na mão e corre a arrastar o joelho, evoca a sua mãe, Maria, a partir de uma imagem que o marcou no terramoto de Málaga, no Natal de 1884, tinha o artista 3 anos. Tiveram de sair de casa a correr.

 

Na ponta direita está uma figura que cai. Na opinião de José Juarranz de la Fuente é uma personagem “enigmática e ambígua”. Tem asas, enverga uma túnica que a cobre até aos pés, tem as mãos levantadas e chamas a saírem-lhe do corpo. Pode ser um anjo ou a continuação da representação do terramoto de Málaga.


publicado por João Madureira às 07:15
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