Quinta-feira, 19 de Julho de 2018

Poema Infinito (414): A velocidade do tempo

 

O som acionado pelo teu cérebro amplia a velocidade do tempo. Em sentido contrário move-se o egoísmo estrutural da auto preservação. Os nossos estados mentais são em número superior às partículas elementares do universo. Já não conseguimos distinguir a alma do cérebro. O maior drama é termos consciência de nós e continuarmos limitados. Os homens e as mulheres nunca conseguirão chegar  a deuses. A hesitação dos teus suspiros parece quase sobrenatural. A dádiva divina perdeu o seu segredo original. Somos duas pessoas noturnas absortas nos seus pensamentos. São quatro da manhã e a noite continuar a ronronar. O mundo exterior está branco como num conto de fadas. O luar torna nítida a paisagem, repreendendo a escuridão. Delineio as letras do teu nome na geada que se fez sobre o vidro da janela. A beleza inalterada dos montes abre fendas nas feridas do livro compacto das memórias. A terra continua a ser inundada por planaltos de luz e sulcada pela água da chuva. O silêncio invade o sonho breve dos animais. As recordações e a saudade que a elas se agarra são como relíquias que o avô nos pediu para preservar. Foi também ele que pediu para analisar o passado. Lembro-me de alguém abrir um mapa da aldeia e de eu colocar o dedo molhado sobre a Clérga e a tinta esborratar no sítio preciso da confluência dos rios. O mapa é demasiado abstrato, não consigo ver os caminhos que levam a terras galegas. Contemplo o céu na esperança cega de me orientar. Os pássaros mais pequenos continuam a escapar à indiferença dos deuses. As cartas parecem casas breves, salpicadas de hesitações e de regressos, de desgastes. A admiração é que continua incansável, como o sofrimento. Nas guerras, fecham sempre fronteiras. Olhamos para trás para ver se o tempo pode recuar. A voz do pai continua embriagada e melodiosa. As festas da família são sempre ruidosas. Os tios e primos mais chegados afastam-se sempre aos gritos. As guerras resolvem sempre o passado. Apenas o passado. O mais difícil é libertarmo-nos de nós próprios. Tudo parece uma questão de sorte ou de azar. A ingratidão e o engano faz-nos compreender o desaparecimento. Deus joga connosco às escondidas. As sombras resumem a sua mensagem. O mundo está povoado de instintos. A memória da mãe continua a ser uma surpresa povoada de referências, impregnada de tristeza. A sua imagem está cheia do reflexos e com os olhos marejados de lágrimas. Agora já não sinto nem vergonha nem medo delas. Tudo está prestes a desintegrar-se. Já não é possível voltar atrás, nem suspender o tempo, torcê-lo ou abri-lo. A noite continua amarrotada, desço as escadas traiçoeiras e passeio pelas ruas sossegadas em frente das casas silenciosas. Um carro fura o silêncio. Eu desvio-me com a lentidão dos velhos. As janelas continuam a afastar-se. As ruínas interiores competem com as exteriores. A indispensabilidade das coisas tornou-se dispensável. Estou a tremer e volto para casa. Estou rodeado de terra. O meu olhar dá de frente com um Jesus iluminado na cruz. Sinto pena. Por vezes a pena pode ser imerecida. É isso o que mais nos magoa. O olhar da minha mãe desliza rumo ao infinito. Tento ensinar-lhe o princípio da distância. Lembro-me que uma vez pedi ao meu pai que construísse uma lua. Ele disse que sim, com um cuidado muito frio. A sua perplexidade oscilou na minha frente. Depois levantou-se e atravessou o pátio com as mãos nos bolsos. A neve começou a cair depondo um fino lençol branco sobre as pedras do muro e sobre a terra do caminho. Neste preciso momento oiço a sua voz ao fundo do pátio. Depois tudo se desvanece. Tenho medo de nunca mais o encontrar.


publicado por João Madureira às 07:15
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