Sexta-feira, 31 de Agosto de 2018

No Barroso

Barroso - Penedones, ETC, XT1 213 copy - cópia c

 


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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2018

Poema Infinito (420): As três lágrimas

 

 

A neve cobriu a soleira da porta e tudo o resto ao redor. Nada possui agora o seu aspeto real. Por baixo da alvura dormem as giestas e as pedras da calçada. Apenas o vestígio de um trilho direciona o nosso olhar. Esta brancura intensa estende-se até ao infinito. Dentro das casas perdura a penumbra, a sonolência. O vagar. Faço agora o inventário do tempo. O avô resmunga qualquer coisa incompreensível. São os ecos das velhas disputas de outrora. Continua com a sua paixão pelas ferramentas, guardando-as ciosamente na loja. A avó acende a lareira e fala de novo na sua juventude desgraçada. Sobretudo no frio. A avó cala-se de repente como se as suas palavras fossem uma forma de repreensão familiar. O vento não augura nada de bom. O trabalho continua, apesar dos gestos fastidiosos das rotinas. Até os olhares parecem reprimendas. A representação da vida continua a triunfar. É isto o que os faz andar pelos caminhos do tempo. O avô torce as memórias com o seu alicate mais antigo. Depois regista-as em pequenos montes em cima da banca. Vê-lo e ouvi-lo enche-nos de ânimo. Mesmo sem querer, lá vai virando a vida e fazendo as suas contas. E conta histórias. Algumas pela terceira ou quarta vez. Recordo-o ainda lento e digno, apaixonado pela própria lentidão. Fala de viagens de meses inteiros onde gastava tudo o que tinha. Chegava mesmo a endividar-se por não conseguir acabar nenhum trabalho. Muito trabalha o burro do moleiro, dizia ele, para nada ter. A ventura e a desventura resultam sempre de um encontro de circunstâncias. O poder, na sua altura, não conseguia distinguir lá muito bem um justo de um culpado. Era tudo muito lento: a paixão, a dignidade, o conhecimento, a escrita. A polícia seguia sempre a sua lógica que não era lógica nenhuma. Todos pareciam falar de uma maneira arrebatada. Falava-se por fragmentos e paulatinamente. Todos os interlocutores aparentavam estar doentes. Os seus pensamentos pareciam sofrer de uma dor física permanente. O tempo, por vezes, deixava de fazer sentido. Era então quando o avô voltava às sua histórias, interrompendo-as, continuando-as, repetindo-as, andando nelas de trás para a frente e de frente para trás, completando algumas já depois de as ter terminado. As mais fáceis ampliava-as e depois explicava-as, para parecerem difíceis. A sua verdade, graças a essa maneira peculiar de contar, ficava muito vazia. Quando alguém o questionava acerca das lacunas, a avó metia-se de permeio e dizia que era melhor deixar falar o avô à vontade. Lá na aldeia, a suspeição é uma forma de culpa. A suspeita costuma chegar de longe e atingir profundidade e amplitude. Em Constantinopla, dizia o avô, existe o princípio sagrado de que é mais fácil libertar um inocente do Pátio Maldito do que andar à procura de um culpado pelos meandros da cidade. Por isso é que o Pátio se enche e se esvazia e se volta a encher sem cessar. O avô contava que o seu avô contava sempre as mesmas coisas, exagerando-as e multiplicando-as de tal maneira que seriam necessárias duas vidas para viver tudo aquilo. Todos os avôs são assim.  O exagero era a sua forma de honestidade. As paredes da velha casa ainda guardam os segredos da sua voz alta e ciosa, apesar de o inventário da sua memória ser agora um pouco mais frio. Por isso a avó acende a lareira e chora três lágrimas grossas.


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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2018

No Barroso

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Terça-feira, 28 de Agosto de 2018

No Barroso

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Segunda-feira, 27 de Agosto de 2018

406 - Pérolas e Diamantes: Cartilha do comentador de “direita”, segundo Alberto Gonçalves

 

 

O comentador de “direita” é, em Portugal,  uma profissão de futuro se ele for “o proverbial idiota útil”.

 

Essa é, pelo menos, a opinião de um verdadeiro comentador de “direita” chamado Alberto Gonçalves. Não conhecem? Pois, é de “direita” e escreve no Observador.

 

O senhor comentador é tão de “direita” que não acredita no milagre económico português. Apesar de, na sua opinião, com o putativo milagre não só caiu o desemprego como se levantaram novos e fascinantes empregos. Mas o tal comentador de “direita” tem de se sujeitar ao mercado,  ou à politicamente correta ideologia de esquerda que grassa na nossa sociedade.

 

O primeiro problema tem a ver com o número de lugares disponíveis, pois os comentadores de “esquerda”, com filiação partidária confessa ou estupidamente camuflada, já ocuparam dois terços das vagas disponíveis.

 

Generoso como é, o verdadeiro comentador de “direita”, que se viu excluído de um lugarzinho na TV, elaborou um guia profissional adequado aos presumíveis candidatos.

 

O comentador de “direita” não pode ser de “direita”, embora o apresentem como sendo de “direita”. Tem de pactuar com essa encenação. Deve defender, com ardor, o atual governo e execrar o anterior. Ou seja, tem de afirmar-se de “direita” mas dar a impressão que é de “esquerda”.

 

O comentador de “direita” deve, no entanto, disfarçar o júbilo que lhe suscita um governo a reboque da “extrema-esquerda”. E pode estar descansado porque ninguém o vai confrontar com tamanha audácia. É livre de dar rédea solta aos elogios a António Costa e considerá-lo, apesar de “esquerdolas”, um personagem de gabarito. Deve louvar empenhadamente a irreverência da raparigas do BE e a coerência de Jerónimo de Sousa, que, por isso mesmo, deve ser imitado pela “direita”.

 

Deve também, fazer uma referência simpática a Assunção Cristas, e referir que, ao contrário do Pedro Passos Coelho, é possível a “direita” fazer uma oposição construtiva. De seguida deve explicar que oposição construtiva é aquela que evita a crispação e aplaude governo.

 

Deve evitar radicalmente fazer qualquer tipo de referência a Cavaco Silva e a Pedro Passos Coelho. Ou mesmo renegá-los. Melhor é fazer como se não tivessem existido.

 

É aconselhável evocar nostalgicamente Mário Soares, a quem até a “direita” deve tudo: a liberdade, a democracia, a alegria de viver em paz e um jantar na tasca típica da Gorda.

 

Se o comentador de “esquerda” lembrar Cavaco Silva e Passos Coelho, o comentador de direita deve especificar que os odeia e que, bem vistas as coisas, condenaram a “direita” à oposição permanente.

 

Já Passos Coelho é tão inconsequente que, apesar de ter corrido com Sócrates e vencido António Costa, foi condenado à oposição e depois despachado para dar aulas numa universidade fatela.

 

Apesar de Sócrates ser acusado pelo Ministério Público de um camião de crimes, deve, o comentador de “direita”, afirmar que mesmo assim não desgosta dele e condoer-se mesmo com o tratamento de que está a ser vítima por parte do MP e dos jornais.

 

Apesar de insuspeito de admiração por José Sócrates, o comentador de “direita” deve ler a cartilha do argumentário socrático, referindo o seu combate épico contra as cavalas, as escutas, a justiça mediática, o Correio da Manhã, o juiz Carlos Alexandre e o mundo em geral.

 

O comentador da “direita” deve tender a achar positivo o desempenho do presidente da República e orgulhar-se de ter amigos de “esquerda”. Ou mesmo referir que tem exclusivamente amigos de “esquerda”.

 

O comentador de “direita” não se deve limitar a abominar a “direita” a que diz pertencer (que é quase tão má como a “extrema-direita”). Deve condenar todos os imoderados que criticam a “esquerda” e exigir-lhes coerência, pois vinte deputados “fascistas” na Holanda tiram-lhe o sono e quarenta deputados de “extrema-esquerda” em Portugal deixam-no dormir tranquilo.

 

E, melhor do que tudo, o comentador de “direita” tem de alinhar com as causas do momento, todas de “esquerda”: os movimentos gay; o apoio aos refugiados que linchariam os gays se por acaso estivessem nas suas terras; a liberalização das drogas leves; a proibição de refrigerantes;  o aborto; a eutanásia.

 

O comentador de “direita” tem de ser tão progressista como o comentador “esquerda”.

 

O comentador de “direita” tem que ser, sobretudo, o proverbial idiota útil para a “esquerda” no poder, para, dessa forma, velar pela liberdade de expressão tão útil para os media avençados que, dessa maneira, podem fingir pluralismo. E, ainda, útil para ele, que dessa forma ganha a vida, apesar de não ter um pingo de vergonha na cara.

 

É, finalmente, útil para todos, pois acaba por ser a consequência de um país triste que assim se pode rir, para não chorar.

 

Propostas genuinamente elucubradoras: Música: Floor Show – Baxter Dury; Leitura: Uma Conjura de Saltimbancos – Albert Cossery; Viagens: http://www.destinosvividos.com/fisgas-ermelo/; Restaurante: Taki-Tá-La - Chaves.


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Domingo, 26 de Agosto de 2018

Na conversa

Corpo de Deus - maio 2016 - Fuji - Vilar de nantes

 


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Sábado, 25 de Agosto de 2018

O espelho

Corpo de Deus - maio 2016 - Fuji - Vilar de nantes

 


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Sexta-feira, 24 de Agosto de 2018

Tapetes divinos

Corpo de Deus - maio 2016 - Fuji - Vilar de nantes

 


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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2018

Poema Infinito (419): A outra forma da claridade

 

 

 

Hoje acordei enrolado no dia. Lá fora, o pátio arrefece coberto pela neblina. As ruínas do tempo acumulam-se junto à entrada da casa. Faço os preparativos para o nosso encontro. Já deixei de tentar explicar as diferenças. Tudo está a descoberto. Os motins estão guardados dentro de nós. Crescem as assimetrias, os silêncios, as irreverências. A razão começa a abandonar a música. As extensões do tempo são falsas. Baloiçam as mulheres. Baloiçam os caminhos. As histórias continuam a dar-me pesadelos, a revelar os seus artifícios. É necessário tirar delas os indícios de adversidade e de infelicidade. Por dentro das histórias costumam chover alguns elementos de verdade. Os pássaros habitam na visão habituada das dúvidas e na negligência antiga do exotismo. O primeiro instinto é sempre o de partir. As ruas estão suspensas. Parece que pessoas minúsculas saltam das janelas.  A cidade acontece de forma intuitiva, com as suas repetições, com a poderosa força da dissimulação. Já ninguém apoia os velhos ideólogos. As notícias são como telenovelas, abertamente autodeclaradas, eloquentes como as pausas longas das estradas. A neutralidade está fora de controle. Os discursos estão fora do destino, parecem plataformas vazias onde pousam os pássaros que já não conseguem cantar. Enfrentamos os regressos. Os velhos templos parecem feitos de esquinas. Por vezes alguém encontra um pouco de esperança. Começam de novo as viagens. No entanto falta autoridade às palavras. A imprudência adquiriu uma velocidade extraordinária. As crianças iluminam-se como rosas e partem à procura das borboletas raras. A ousadia e a timidez atacam-nos ao mesmo tempo. A realidade está um pouco mais aliviada. As raízes enrolam-se à volta da razão. A paciência faz-se acompanhar de três pancadas rápidas. O fumo da fogueira ergueu-se e fez-nos tossir. Lembro-me de a mãe dizer que tinha a certeza de que voltaria. Depois partiu sem dizer para onde ia. Toda a gente acredita naquilo que quer acreditar. A desolação vagueia sobre os campos. Mantenho à distância as pessoas e os seus pequenos sustos. As suas visitas são reduzidas para evitar as discussões mesquinhas. A confiança é agora mais previsível. Os pássaros do desejo camuflam-se nos ramos das árvores. Os lugares da infância exigem o nosso regresso, os movimentos mais reflexivos, as perspetivas igualmente interiores, o outro lado dos campos, a regulação da luz, as horas fluidas, a ressonância inicial das memórias, os jogos, as afinidades, a energia das imagens, os processos formais da vontade, a verdade física dos gestos, a transfiguração das regras, as variantes cerimoniosas da poesia, o espírito inquieto da criação, o equilíbrio estético das palavras, os presságios interditos, e a esplêndida antiguidade das manipulações. Perguntas: Então de que cor é a solidão? Eu sei apenas que as metáforas são reversíveis. Fecho-me dentro da espaçosa genealogia das intenções. Continuo a viver do destino efémero das bibliotecas. E lá que sobrevivem as heresias, os pretextos, a plenitude da transcendência, a resignação mortal da harmonia. O mundo mais íntimo é feito da inabalável segurança das dúvidas. Enraízam-se as palavras na claridade abstrata da escrita. Dominarei a vontade secreta do esquecimento. O crepúsculo incendeia a tarde. A voz divina canta entre as ruínas.


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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2018

Tapetes divinos

Corpo de Deus - maio 2016 - Fuji - Vilar de nantes

 


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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018

Tapetes divinos

Corpo de Deus - maio 2016 - Fuji - Vilar de nantes

 


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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018

404 - Pérolas e Diamantes: A volta ao carrossel

 

 

Estamos em 2018 e, digo-o com certo pesar, apercebo-me de que as mudanças produzidas em Portugal afinal não são tão profundas como parecem. Sobretudo nas estruturas produtivas, nas estruturas empresariais, na organização das cidades, na organização dos espaços físicos e no território.

 

Os edifícios, o casario a crescer, o desaparecimento dos bairros de lata nas grandes cidades, as rotundas, os repuxos e, sobretudo, as autoestradas, deram-nos uma ilusória aparência de modernidade.

 

Mas, atenção, as autoestradas são a coisa mais fácil de fazer. Por isso encheram os bolsos de políticos, banqueiros e construtores. Foi fácil aos poderes públicos portugueses apostar nas rodovias. Criaram um departamento de expropriações, preencheram cheques e mandaram vir empresas para as construir. Não tiveram de mudar nada, nem mentalidades, nem estruturas produtivas, nem organização de trabalho, nem organização de empreses, nem estudar as primeiras letras, nem fazer o secundário e muito menos entrar na universidade. Com o que havia, fizeram tudo. Numa coisa se esmeraram: na criação das Parcerias Público-Privadas que endividaram o país até ao próximo século.

 

António Barreto tem razão: “A globalização, a metrópole, as massas, a rapidez, o automatismo, a competitividade e a uniformidade, geraram valores contrários à comunidade humana, ao pensamento, à qualidade estética, ao brio e à compaixão. Nem sequer a dimensão do que se ganha é suficiente para se esquecer o que se perde. Pode até ganhar-se mais. Mas o que se perde é uma amputação da humanidade e da cultura”.

 

Agora predominam os eventos, até os comentadores televisivos parecem licenciados em economês, pois falam na forma de “gerir” as relações amorosas, ou em “priorizar” os sentimentos. Utilizam, vá-se lá saber porquê, uma linguagem mecânica, dominada pela produção económica, pela tecnologia, pelo êxito comercial e pelo sucesso mediático.

 

Talvez por isso tenha surgido a necessidade da ideia da “geringonça”.

 

Independentemente dos preconceitos ideológicos, ou outra tralha sociológica e axiológica, temos de reconhecer que com a “geringonça” temos hoje a economia a crescer, o desemprego a baixar, o défice em valores nunca vistos, a dívida a cair e o investimento estrangeiro a aumentar.

 

É um facto que ninguém estava à espera que em pouco mais de dois anos os resultados positivos fossem tantos. Nem todos os resultados decorrem necessariamente da atividade deste Governo, é verdade, e é um facto, que a Europa está a crescer como nunca, mas temos de reconhecer que o executivo de António Costa tem demonstrado habilidade e jeito para fazer negociações entre o que é social e o que é empresarial, entre o que é económico e o que é europeu. A paz social facilita o aproveitamento desta conjuntura. O Governo tem mostrado capacidade para aproveitar e explorar a nosso favor esses resultados.

 

O mais preocupante é que, pelos vistos, os portugueses ainda não se decidiram definitivamente se toleram a corrupção ou se escolhem o primado absoluto do Estado de Direito.

 

É aflitivo observar o que se tem passado na última meia dúzia de anos: os processos que não chegam ao seu término, os processos que não se fazem, os casos de corrupção que não têm fim, as investigações, os atropelos às investigações, o desaparecimento de CD’s com escutas e as constantes quebras de segredo de justiça como tentativas óbvias de boicotar os processos e absolver os prevaricadores.

 

Necessitamos de um Estado de Direito que funcione, com meios de investigação, meios processuais, capacidade e forças de investigação, de instrução e capacidade de procedimentos judiciários.

 

É preocupante saber que há gente condenada há dez anos a não cumprir pena, pois continua a usar e a abusar de recursos, de procedimentos, garantias e mais não se sabe bem o quê. É verdade que em Portugal quem tem dinheiro não vai para a cadeia.

 

Perante estes problemas, nós adiamos, adiamos, adiamos.

 

E a Esquerda continua a insistir na retórica e na reivindicação, enquanto a Direita vai defendendo o seu, já que gosta mais de dinheiro do que de ideias.

 

Uma coisa também vos confesso. Isto de tratar sempre de dar opinião vai construindo a nossa própria solidão.

 

Termino citando de novo António Barreto: “Você diz mal de A e depois de B e depois de C e depois de D. E às tantas pensa “Oh, Diabo”! Já dei a volta ao carrossel. A independência é uma grande virtude, mas é uma grande solidão. E pode ser triste.”

 

Propostas genuinamente pessoais e pagas do próprio bolso: Música: Deran – Bombino; Leitura: Também os brancos sabem dançar – Kalaf Epalanga; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-peneda-geres-ermida/; Restaurante: Aprígio – Chaves


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Domingo, 19 de Agosto de 2018

Na aldeia com neve

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Sábado, 18 de Agosto de 2018

ST

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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018

Na aldeia

Barroso - Penedones, ETC, XT1 203 - cópia copy -

 


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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018

Poema Infinito (418): O juízo e o seu reflexo

 

 

 

Rio do suposto juízo de Rubens, do seu barroco lânguido, das suas formas enseadas, na frescura impossível do amor e da vida que corre sem cessar. O céu está agora no lugar do mar. O espelho grande absorve todo o Leonardo da Vinci, os seus anjos deliciosos com sorrisos de demónios e as sombras misteriosas dos sorrisos femininos. Rembrandt parece a cruz do seu próprio mundo, cheio de murmúrios, repleto de preces e choros e raios de sol transversais. Miguel Ângelo também deve andar por aí, misturado com Hércules e Cristo e outros fantasmas que se erguem tentando impor a sua própria soberania diante da luz divina. Por aí andam ainda os faunos, com os seus corpos franzinos, com a sua bondade altiva, com a melancolia soberana dos proscritos, com a beleza dos patifes. Watteau dança misturando no seu carnaval os mais ilustres arlequins, as cenografias mais despojadas, as borboletas mais flamejantes, tudo iluminado pelo desvario e pelos bailarinos risonhos. Goya assusta-se, e assusta-me, com os seus pesadelos, com os seus cenários dantescos, com o reflexo das velhas ao espelho, com crianças vestidas de antiguidades sexuais ajeitando as meias como se fossem anjos do deboche. Tentam dessa forma o inimigo. Delacroix continua a pintar anjos maus à sombra dos pinheiros envolvendo-os de verde e de céus lamentosos e de fanfarras estranhas que passam por nós como se fossem suspiros de Deus e do Demónio. Envolve tudo na beleza dos deserdados, na imprudência dos guerreiros, na sua bondade altiva e na melancolia soberana dos proscritos. A musa de Baudelaire continua de cama, doente, com os seus olhos cavados marejados de visões noturnas. O amor e o medo são os seus principais pesadelos. A musa venal continua puta e com os peitos espetados como a República. As brasas aquecem-lhe as coxas, o traseiro e o sexo. Raios de luar atravessam as persianas dando sentido ao vazio ascético da sala. Os frades fantasiaram os antigos claustros com a realidade mais cruel. Pensam confortar as mulheres devotas, tornando quente a sua piedade. Os homens estão tristes porque o granizo queimou as flores das árvores de fruto, deixando-as sem viço e sem cor. O outono chega de mansinho. É tempo de pegar no sacho e no engaço, de mexer na fecundidade da terra, de abrir fendas para a água passar. O tempo dói. A entropia dói. Os sonhos místicos nascerão leves. É chegado o tempo de descobrir os tesouros escondidos e de erguer uma outra vontade. Sinto ainda mais forte a profunda solidão das ondas, as criptas dramáticas onde se sepultam os anjos, o lento sacrilégio do poente, a inutilidade espantosa da música lucidamente elaborada. O céu está carregado de nostalgia. O mar reflete a luz da liberdade. Não nos cansamos de contemplar a infinita oscilação da sua rebentação. O pescador agarra com ímpeto vingador os remos. As sereias tornaram a furar-lhe as redes. Na praia, várias mulheres oferecem aos olhares dos transeuntes os seios através dos vestidos entreabertos. Dizem que Don Juan foi para o inferno porque se fartou do amor das mulheres atrativas. A vergonha reclamou os seus honorários. Dizem que as suas amantes exibem agora um sorriso sublime onde brilha a meiguice e as primeiras juras de amor eterno. Já não lhes interessa o seu sexo ereto que as fendia. Os seus bocejos tragam o mundo e o tempo.


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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018

Na aldeia

Barroso - Penedones, ETC, XT1 056 - cópia copy -

 


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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018

Na aldeia

Barroso - Penedones, ETC, XT1 038 - cópia copy.j

 


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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2018

404 - Pérolas e diamantes: O ser e o nada

 

 

 

Como se já não bastasse venderem-nos como genuínos o patriotismo dos políticos, a integridade dos primeiros-ministros, ministros e deputados; o celibato e outros desvios sexuais de padres e bispos; o amor à camisola dos jogadores de futebol; o altruísmo e a honradez dos presidentes dos grandes clubes de futebol; a honestidade dos banqueiros e economistas; a honestidade intelectual dos escritores de sucesso; a independência da opinião dos comentadores políticos televisivos; a beleza estruturante e genuína das top-models; a maioridade das nossas instituições nacionais e da nossa democracia; a irradicação do sarampo e da cunha nacional; o cumprimento das promessas eleitorais dos presidentes das câmaras; o amor à democracia por parte dos comunistas e fascistas; o amor à social-democracia por parte do PSD; o amor ao socialismo por parte do PS; o amor à ecologia por parte do PEV; o amor aos proletários por parte do BE; e o amor ao cristianismo por parte do CDS; a ASAE veio confirmar que em Portugal há pota a passar por polvo, paloco a fazer a vez de bacalhau, peixe com aditivos que retêm a água para ficar mais pesado, azeite virgem aditivado com produtos vegetais refinados, mel com açúcar, produtos que em vez de carne de vaca contêm carne de porco ou de cavalo, queijo de cabra feito com leite de ovelha, vinho com adição de açúcar e água, e aguardentes vínicas adulteradas com destilados de frutos baratos – um negócio que gera lucros ao nível do tráfico de droga.

 

A fraude alimentar tem um custo global de 45 mil milhões de euros e afeta um em cada dez produtos.

 

No entanto, a fraude intelectual, política, social e económica ainda não foi quantificada. Mas é capaz de, feitas as contas, dar para pagar a dívida soberana do Estado Português e com os trocos fazer um país com superavit, possibilitando a todos os portugueses comprarem uma rulote e irem de férias por essa Europa fora para os indígenas estrangeiros verem como é dolorosa a pegada ecológica dos turistas.

 

Estas coisas dão-me sempre vontade de rir, de nervoso, claro está. Não vão os estimados leitores pensar que sou um intelectual masoquista subsidiado pelo Ministério da Cultura de Lisboa e arredores.

 

Quando assim acontece, e o tempo ajuda, vou para o campo à noite esticar o pescoço tentando identificar a Via Láctea e as constelações que aprendi na juventude: Órion, Cassiopeia, Ursa Maior, Ursa Menor, Andrómeda, Pegasus, etc. Cada uma delas eternamente perfeita. Depois pergunto-me com que finalidade terá o Divino Deus criado as estrelas no céu para um dia nos supormos cheios de inspiração e, no dia seguinte, verificarmos como somos insignificantes.

 

Sinto-me então como o príncipe Rostov, personagem de um livro de Amor Towles, que quando é subestimado por um amigo, fica ofendido, pois os nossos amigos devem sobrestimar as nossas capacidades. Devem possuir uma opinião exacerbada acerca da nossa força moral, da nossa sensibilidade estética e do nosso estofo intelectual. “Aliás, deviam praticamente imaginar-nos a saltar por uma janela, num abrir e fechar de olhos, com a obra de Shakespeare numa mão” (no meu caso o D. Quixote de Cervantes) “e uma pistola na outra.”

 

Temos de aprender a ser pacientes. Razão tem a Condessa Rostov quando comenta, muito a seu gosto, que se a paciência não fosse tão facilmente posta à prova, não seria precisamente uma virtude.

 

Por isso nos dá, a mim e ao meu amigo Conde, para as inclinações filosóficas que, tanto num caso como no outro, são também inclinações meteorológicas. Acreditamos na influência indeclinável dos climas clementes e inclementes, na influência das geadas temporãs e nos verões prolongados, nas nuvens agourentas e nas chuvas delicadas, na densidade mitológica do nevoeiro, na inclemência do sol e na beleza fria e densa dos nevões. Mas numa coisa diferimos. Ele acredita na transformação dos destinos causada pela mais pequena mudança de temperatura. Eu, pelo contrário, talvez mais agnóstico, acredito piamente que essa transformação se dá especialmente quando se muda de poleiro.

 

Ele costuma dar como exemplo da sua crença o facto de uma simples subida de temperatura média fazer as árvores florir, os pardais desatarem a cantar e os bancos encherem-se de casais, jovens e velhos.

 

Eu contraponho que a gente que muda de poiso e se senta na poltrona do poder vê elevar-se, como por milagre, a árvore das patacas no seu jardim, a sua frota automóvel melhorar consideravelmente, em qualidade e quantidade, consegue, também, por pura magia, adquirir uma ou várias vivendas, uns quantos apartamentos, frequentar os melhores destinos turísticos e colocar uma soma considerável de dinheiro num offshore à prova de investigação judicial.

 

Ele ri-se.

 

Eu também. 

 

Depois deita o primeiro milho aos pardais enquanto eu me entretenho a ler mais um livro a confirmar a minha tese.

 

Ele ocupa o seu tempo com jantares, conversa, leitura e reflexão.

 

Eu, no tempo que me sobra da escola, continuo a esgrimir a minha pena com os resultados que todos os estimados leitores conhecem.

 

Propostas genuinamente pessoais e pagas do próprio bolso: Música: Mesh Baghanny – Maryam Saleh; Leitura: Breve história de sete assassinatos – Marlon James; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-lisboa-dicas/; Restaurante: A Talha – Chaves


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Domingo, 12 de Agosto de 2018

Na chega de bois em Boticas

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Sábado, 11 de Agosto de 2018

O menino e o cavalo

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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2018

O homem e o cavalo

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Quinta-feira, 9 de Agosto de 2018

Poema Infinito (417): O movimento vagaroso dos salmos

 

 

Oiço os salmos dos monges e vejo-os com os seus capuzes abatidos. Apesar disso, as suas caras fazem-me lembrar o rosto gloriosamente calmo do São Sebastião pintado no teto da igreja da minha aldeia. Ao longe, os latidos dos cães parecem os pecados esquecidos por Deus. Já se perdeu no tempo a voz da avó que parecia feita de linho. No sonho, os anjos banqueteiam-se, regozijando-se com a sua condição alada, escondendo os remorsos fatais da salvação. No povo, acendem-se os archotes. Os peixes recolhem-se no fundo das águas do rio. As mortes continuam carregadas de flores. As máquinas continuam a mover-se devagar, nem parece que foram afinadas por Deus. A dor é regada com lágrimas. Tudo o que é belo está no lado de lá do rio: as vozes, o seu eco, o sol, as espigas, a comoção, o doce preço das brigas, a força da bondade, o gume agreste do tempo, todos os cânticos do prazer. O calor da vida começa a esfriar. No entanto, a luz é mais precisa. O Verbo de Deus já não nos dá muita esperança. É tempo de depor o que os outros puseram. A fé é uma forma de doença benigna, que não provoca dor mas faz atrasar o tempo. A água que move a vida faz também mover o moinho. Sabe-nos a boca a fogo. O clamor dos abismos continua a ser atraente. A angústia escorre silenciosamente pelas paredes da casa. Já não consigo ouvir os nomes, apenas o seu eco e o vento que dá nas folhas. Os olhares dobram-se  e inclinam-se sobre as flores. Dizem que Eva deixou de chorar. Encontrou finalmente o seu paraíso perdido. O medo responde ao seu próprio susto. Espero pelo verde, pelo seu sossego, pela sua necessidade, pela sua coerência. Todo o amor é uma forma de absurdo necessário, assim como a razão é uma forma de delírio. Equivocou-se Deus em ser único e também em limpar o lodo com que fez Adão. Assim foi declinado o mal, assim nasceram as parábolas e as fábulas e a doença das palavras. Os segredos continuam a ser feitos de sílabas sagradas. As noites fecham agora mais cedo e as auroras rompem mais leves. Foi cedo que encontrei a minha voz na sombra dos arvoredos. A palavra dada será sempre para mim a honra. Escrevo como quem começa a arder, adormecendo depois no entendimento das palavras. Existo dentro da casa da língua portuguesa, demorando os nomes, rompendo as origens, incendiando os hábitos verbais. Os homens invocam o futuro, velam os abismos, nomeiam as coisas, bradam pelo fogo, chamam os deuses, prolongam o vácuo, o mar e os pequenos sinais astrais. Há um muro temporal que divide o crepúsculo, que doma as palavras, que resume Cristo à sua coroa de espinhos. Tudo o que é divino é feito com traços de fogo. O silêncio acende a luz com que se preservam as palavras. Os anjos atraem a morte. Os caminhos da manhã são abertos com os sons da flauta do pastor. O seu rebanho enche a fotografia de poalha. O poeta carrega tudo: o ar pasmado da aldeia, a força sem sentido dos animais, o fogo roubado, a espera dos soldados pela guerra, a coragem das sentenças, as madrugadas álgidas em que chora lágrimas do tempo da desilusão. O forno já não coze o pão, nem a avó semeia a esperança nos dias, nem os lameiros estendem o seu perfume. As aves voam agora de forma mais grossa. Os dias nascem enganados, sem propósito. Caim ficou branco como a cal. O ar cheira a incenso. O homem absurdo de Kafka prossegue a sua esperança pela eternidade. Peço aos mais velhos o sabor das suas palavras. Os remorsos estão em brasa. Glória aos deuses da boa vontade.


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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2018

Ovelhas e cabras

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Terça-feira, 7 de Agosto de 2018

O cavalo

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Segunda-feira, 6 de Agosto de 2018

As Cores: Uma História de Clipes

 

 

Eu que era tão arrumadinho, agora ando a perder os clipes. Tudo na minha cabeça estava organizado como as páginas do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Pensava como se estivesse dentro da colecção de um entomologista. Ou dentro do dossier secreto do melhor agente da PJ, linha por linha, frase por frase, parágrafo por parágrafo… crime por crime, suspeito por suspeito. Digamos que a minha arrumação mental era a minha identidade. Era algo de fisiológico. O meu alinho intelectual era mesmo invejado pela NASA, que me chegou a convidar para dar aulas de Método aos seus chefes de armazém. Mas eu não me deixei convencer pelas falinhas mansas do capitalismo selvagem, mesmo travestido de ciência e de técnica. Peço desculpa mas vou ter de interromper este relato para ir à casa de banho. Nas coisas básicas ainda mantenho o método e a disciplina.

 

Agora volto a estar disponível para escrever no computador o que os meus amigos leitores estão a ler. E digo no computador e digo bem porque também escrevo no papel com a minha esferográfica, a minha lapiseira ou a minha caneta sheaffer. Além disso, não desperdiço o meu tempo. Mesmo na casa de banho escrevo. Alguns costumam ler, mas eu escrevo. Digamos que é a minha forma de homenagear os políticos que estiveram presos no tempo do fascismo. Também costumo tomar banho. Mas a parte que agora interessa para o nosso relato é tudo menos o banho no quarto de banho. Desde logo porque ninguém consegue escrever e tomar banho ao mesmo tempo. O papel não o permite. Claro que podia escrever em folhas de plástico com canetas de acetato, mas a escrita caligráfica apenas a concebo na forma tradicional. E escrever no computador enquanto nos duchamos penso que ainda não é possível sem provocar sérios danos no aparelho. Então, como ia dizendo, eu escrevo enquanto estou na casa de banho a fazer o que, na sábia boca do povo, ninguém pode fazer por mim. E olhem que não é a escrever coisas como as que os meus amigos estão agora a ler que eu perco o meu precioso tempo. Na casa de banho escrevo para os jornais. Mais concretamente para um jornal da capital. Escrevo crónicas gastronómicas. Também escrevo para jornais locais, mas faço-o enquanto ensaio as receitas regionais que sugiro no diário da capital. Nos semanários da província escrevo unicamente sobre a política e os políticos da capital. Embora muitos, ou quase todos, sejam oriundos da província. O que lhes dá um colorido especial. Se não acreditam, por favor dêem uma vista de olhos nos debates parlamentares, especialmente aos denominados “antes da ordem do dia” ou coisa pelo estilo.

 

Ou seja, as crónicas gastronómicas escrevo-as em papel higiénico, numa letra certinha e direitinha, tendo sempre por base uma receita popular e regional, ou vice-versa, como diz o povo na sua sabedoria ancestral, que eu depois recheio de alguns detalhes pessoais. Ou dito de outra forma, que eu invento. E eu se sou bom em alguma coisa é a inventar. Tenho uma imaginação prodigiosa mas, também, muito arrumadinha. Imagino o que tenho de imaginar e depois deixo o restante para a próxima vez. E faço-o sem angústias ou preocupações de maior. Apenas utilizo a minha fértil imaginação no tempo adequado e no momento certo. A necessidade marca a hora.

 

Eu não improviso, eu imagino a realidade e depois só me resta ver acontecer o que eu imaginei. Ou seja, eu devia era ter ido para político, mas deixo esta ideia para desenvolver numa outra ocasião. Por agora limitemo-nos à escrita e aos clipes. Ou melhor, limitemo-nos apenas aos clipes.

 

Eu tinha uma grande panóplia de clipes que comprei no Modelo durante vários meses. E optei pelo Modelo, não por causa do preço, pois não sou sovina, judeu ou militante da Deco, mas sim pela variedade do produto. Enquanto no comércio tradicional apenas conseguia encontrar clipes metalizados, embora de diferentes tamanhos, valha a verdade, no Modelo deparei-me com clipes de todas as cores e feitios, além disso vinham revestidos a plástico, o que os tornava impermeáveis, ou melhor, antioxidáveis. E se há coisa que eu detesto é que os clipes enferrujem e manchem as folhas onde eu produzo os meus queridos manuscritos.

 

De facto, este vosso amigo arruma todos os seus manuscritos por temas e por datas. Nalguns costumo mesmo escrever a hora e o local onde foram produzidos. E guardo-os todos em dossiês devidamente catalogados. Mas recuso-me a agrafá-los. Os agrafes deixam sempre a sua marca indelével: uns furinhos irritantes que nunca mais desaparecem. Claro que podemos tirar os agrafes de um documento. Mas nunca mais vamos conseguir eliminar os buraquinhos que eles causaram. Por isso não uso agrafes mas sim clipes. Os clipes podem dobrar ou amachucar os cantos das folhas de papel, mas é sempre possível aquecer um ferro e dar-lhe o toque preciso para que aquele documento pareça que nunca foi alvo de intervenção de um arquivador. Um documento arquivado é um documento morto. E eu recuso-me a pensar que algo do que eu escrevo possa ser arquivado. Os meus documentos quero-os vivos, mesmo depois de publicados, quero-os vivos. Mesmo depois de arquivados, quero-os vivos. Como se fossem, por exemplo, batatas, que mesmo depois de armazenadas para serem comidas, podem ser resgatadas ao merouço, metidas na terra e de seguida darem novas sementes e etc.

 

Por isso uso clipes. E com as distintas cores elaborei um código secreto de arrumação que me permite a mim, e só a mim, saber do que fala cada documento, com que intenção foi escrito, a sua qualidade intrínseca, o preço que adquiriu no mercado, etc. Mas acontece que agora, por qualquer razão que eu não atino, comecei a confundir as cores dos clipes com as cores dos deputados da Nação. Aqui há uns meses agarrava instintivamente no clipe apropriado para arrumar um meu escrito. Agora não consigo. Confundo a cor dos clipes, volto a repetir, com as cores dos deputados (devido a todos, ou quase, serem oriundos da província, daí o seu colorido especial, como acima referi, num apontamento com alguma graça e com certo sentido de humor e de oportunidade, se me é permitida a indiscrição) e destes com as cores dos alimentos que imagino como fazendo parte das minhas receitas culinárias que escrevo para o diário da capital e, ainda, com os matizes dos acontecimentos triviais dos governantes e comentadores da capital, que explico e registo nos jornais de província, e por isso…

 

Já viram o problema que é confundir uma recensão crítica da biografia de Álvaro Cunhal por Pacheco Pereira arrumada com um clipe, por exemplo, vermelho (que digo desde já não ser o verdadeiro código por ser demasiado evidente), com uma receita de tomate arrumada com um clipe magenta; ou vodka com laranja salpicado de salsa e pepino arrumado sob a força compressora de um clipe rosa e a receita de uma salada russa arrumada sob um clipe dourado; ou a recensão sobre um livro de crónicas de Lobo Antunes sob a meticulosa pressão de um clipe azul, que é a cor da monarquia, do F. C. Porto, do CDS, do céu ou do mar e, ao mesmo tempo, deparar-me com um comentário ao Caim, o derradeiro livro de Saramago guardado sob a força demiúrgica de, também, um clipe azul? Ou a crítica a um discurso do presidente Cavaco Silva aferroada sob a energia uniforme de um clipe cinzento? Que digo desde já, e por causa das coisas, não ser o código correcto, por demasiado evidente, como muito bem diz o povo na sua colossal sabedoria. E, sendo assim, nem sequer me tinha dado ao trabalho de elaborar um código secreto de arrumação tão previsível e muito menos me tinha metido nesta descodificação labiríntica que me fez perder o fio à meada.

 

Cheguei mesmo ao ponto de arrumar uma crítica à Quadratura do Círculo sob a força discreta, mas honesta, de um clipe de três cores: magenta, azul e amarelo. Ora estas são as cores básicas da impressão em offset. Por isso vi logo que me tinha confundido no código. Para a cor desse clipe tinha que ter, pelo menos, escolhido o preto, que é a cor que absorve todas as outras. Ou a cor vermelha que é a que me vem logo à cabeça quando penso no velho aforismo da cenoura e do burro, pois na minha imaginação essa tertúlia tem a clarividência do povo quando põe eufemisticamente a citada cenoura vermelha à frente do animal para o ver correr atrás do alimento. E, se repararem, o aforismo até é um pouco intrincado, daí eu me basear nele para o citar como exemplo da lógica em que assentou a filosofia que serviu de base ao meu código. Que não é simples, mas também não é complicado por aí além. Pelo menos para mim, que me conheço bem. Ou conhecia. Pois agora deu-me para confundir tudo. Confundir as cores, os políticos, os comentadores, os governantes, os escritores, os jornais de província, os jornais de referência e os blogues.

 

Por isso estou num estado de alma prostrante. E não posso pedir, por muito que queira, a vossa ajuda. Em primeiro lugar porque a minha lógica é isso mesmo, minha, e, por isso, não vossa. Em segundo lugar podia recorrer-me de Jacques II [Jacques II de Chabanes, conhecido por Jacques de la Palice (ou de la Palisse)], mas devido à singeleza das suas verdades era bem capaz de ser convidado a candidatar-me a alguma junta de freguesia, à direcção dos bombeiros ou de alguma associação cultural. Mas eu não tenho nem tempo nem as qualidades específicas para exercer esse cargo. Sou muito criativo. Por isso sou vítima das minhas próprias qualidades. Podia, em terceiro lugar, socorrer-me do apoio de um daltónico, para me ajudar a mover no labirinto de um mundo (a)cromático muito próprio de quem não enxerga certas cores, confunde outras e atina apenas com algumas, que variam conforme o grau de daltonismo.

 

Podia fazer tudo isso, mas vou optar por estabelecer um código numérico. Os números batem sempre certo. A matemática é infalível, um pouco à semelhança da economia do nosso país, que só não avança devido à relatividade dos sucessivos governos.

 

Por falar em governos, não sei se por lá usam agrafes ou clipes. E muito menos conheço se por lá possuem algum código secreto para arrumar documentos. Mas pelo que vou vendo e ouvindo parece-me que não sou o único a confundir as cores, os assuntos e os protagonistas.

 

O que sei sim é que a política não é uma coisa de números, mas antes uma mistura de clipes coloridos. Não sei se estão confusos. Se for esse o caso recomendo a releitura pausada deste escrito. É que a determinação faz o bom leitor. E é bom de ver que nem todos os blogues são de leitura fácil. Nem, como tão bem explicava Saramago, podemos todos ser bons leitores.

 

PS – Por favor não saiam à rua com as calças rasgadas. Eu sei que é moda, mas, porra, calças rasgadas são e serão sempre calças rasgadas. Dão um ar de desmazelo. E os leitores deste jornal têm de ser pessoas aprumadas. E para buracos já chegam os das nossas estradas e os da economia nacional.


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Domingo, 5 de Agosto de 2018

Castelo de Chaves

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Sábado, 4 de Agosto de 2018

Cai neve

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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2018

Chaves

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Quinta-feira, 2 de Agosto de 2018

Poema Infinito (416): Luminosidades

 

 

Na superfície tudo ecoa. Os mergulhos noturnos possuem outra dimensão e distinta profundidade.  Quando chego, tudo aparece. As chamas são profundas. A necessidade não é necessária. Chego antes de ter chegado. Parto antes de ter partido. Pareço um espírito inquieto. As perguntas sobrevoam os mapas. As antigas aventuras evidenciam destinos novos. Já perdemos muitos passos em direções estranhas. Não são estas as perguntas que procurámos. As dúvidas continuam cansativas, são uma espécie de deceção noturna. As sereias já não cantam, apenas nadam em volta de nada. Muitos dias nascem já quebrados, as suas fissuras são demasiado evidentes. Neles estremecem as neblinas. No entanto, os desejos em vez de se apagarem sopram tudo. Existe dentro de nós uma nova psicologia que modela os espaços, que comove a inteligência, que trabalha rapidamente a arte, que nos ergue da depressão, que nos ventila a subtileza. O lugar da alma cresce em altura. As sombras levantam-se do chão. Os movimentos penetram nas zonas mais apertadas. O desejo parece uma vegetação rasteira clarificando a irredutibilidade dos sexos. A vida por vezes magoa, mas cresce em forma de furor, assustando as insígnias, manchando a excitação, remexendo tudo aquilo que mais magoa. Ninguém nega para perder. Não é esta ainda a hora da clemência, nem o momento de erguer a taça do festim contínuo dos desvanecimentos. Por vezes, até a determinação assina com o nome da descrença. Continuamos a confundir o brilho com a velocidade contrária dos objetos. A inocência nega tudo mas incomoda os julgadores. Os dissidentes continuam a contar as armas e a sonhar com as colisões que geram mundos e com reinos estranhos e insistem nos erros que provocam os clarões das guerras e na violência gerada pelas bandeiras. Insistem também em cortar as perguntas, em gritar pelos demónios, em complicar a arte singela da modéstia. Agitam o povo como se ele fosse apenas uma palavra totalitária. Perdem-se nas vigílias e na luz dissipada dos sonhos incongruentes. Não querem acreditar que o seu tempo e a sua razão também se apagam. A sua força abre feridas que provocam fugas e labirintos e túneis emaranhados. O líder esqueceu-se voluntariamente de os avisar que são os velhos crimes que iniciam os novos tempos. A inteligência entrega-se sempre à divergência em velocidade múltipla. Depois recolhe os despojos deixados pelas ondas de choque provocadas pelas acelerações. A vontade também se pode negar. Dizem que é preciso olhar para o outro lado. Dizem que existem outras passagens. Há quem se redima pelo sofrimento. Outros preferem o esquecimento. Outros, ainda, não preferem nada. Não é tarefa fácil alcançar o que cada um vê. O vento persegue as velhas cinzas. Penso que conheço alguns pormenores da existência, alguns dos seus espaços diminutos: o portal dos desejos, as covas do monte onde se drena alguma água, os dias em que a natureza se cala, o bater das asas dos pássaros que se enganaram no voo e foram ter ao mundo errado, o peso da vontade, o brilho estranho da exaustão. Percebo a escrita da chuva nos jardins, o repouso dos cedros nas alamedas, o medo dos gravetos, a tristeza dos muros verdes, os corpos indefesos e as boas intenções. A realidade demarca o seu próprio território. Sei que os horizontes iludem, mas não costumo enganar-me na direção a tomar. Sei de cor a sombra exata de uma cruz. Já não me assusto quando o céu se inunda de nuvens. Na penumbra, o tremor da luz é difuso. Decidi há muito virar o rosto para o lado luminoso da existência apesar de saber da forte possibilidade de cegar.


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