Domingo, 30 de Setembro de 2018

No jardim

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Sábado, 29 de Setembro de 2018

No elevador

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Sexta-feira, 28 de Setembro de 2018

No museu

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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2018

Poema Infinito (424): A rapidez

 

 

Os meus dedos amam tanto a madeira desta mesa como os dedos da minha avó amavam a farinha que misturava na masseira que havia no fundo da cozinha lá de casa. O princípio é o mesmo. O fim também terá a mesma uniformidade. O suor do rosto aquece o lado nascente da solidão e do riso. O riso também nasce do sofrimento. O chão reflete as pessoas. O sol ergue-se. Os dedos das mãos estão do lado do coração. As pessoas também necessitam de voar. Todo o ser humano começa por ser invisível. Por vezes esconde-se muito perto daquilo que diz. E da fome. E dos seus sonhos de amor. E de todas as coisas impossíveis. E de toda a eternidade. Por vezes encontra o lugar perfeito para se deitar e ouvir os pensamentos. E os pássaros. E a água que corre aflita por ser tão pouca. Ou tanta. O mundo cresce de forma sexuada, vibrante, como se a memória fizesse parte do infinito. As coisas que menos amamos acabam sempre por nos vencer. Os lugares podem ser ditos, os sonhos não. A beleza e a tristeza acabam sempre por causar excessos. São como a utilidade prática da arte. Os néscios também afirmam que o amor é invencível e que a irmandade dos homens é capaz de construir um mundo novo. Ou melhor. Cada um acredita naquilo que lhe permitem. Porventura chegarão os amanhãs que cantam, mas só quando nós e eles formos outros. A noite guarda-nos da visibilidade. Começamos a partir desde o momento em que chegamos à luz. Todos vamos a Santiago, vivos ou mortos, garantia a avó. Mas os turistas de agora preferem rumar à Grécia para verem onde nasceu a sua extinção. O vértice dos templos tem milhares de anos. Já os vértices das pedras com que foram construídos surgiram há milhões de anos. Mesmo as estrelas se perderão no futuro, pensava a avó sem saber muito bem naquilo que pensava. Os olhos sabem distinguir as diferentes formas de amar. Herodes não suportava quem calçava sandálias. Nem crianças. Nem burros. Nem alforges. E muito menos quem usava bordão e saco a tiracolo. Os mestres de agora rumam a estâncias balneares para não se sentirem menosprezados. Carregam na indiferença, nos utensílios, nos passos necessários e nos botões das máquinas fotográficas. Gostam de entreter as mãos a comer e a coçar as partes antigamente consideradas íntimas. As suas bocas estão finalmente cheias. Quando se está mais longe das cidades é que nos apercebemos que foram construídas às cegas. Nas novas madrugadas nem as trevas rebentam, nem a luz ascende. As mulheres já não lavam, nem cantam, nem rezam. São até raras as que copulam com prazer. Ou em busca dele. Já ninguém fala de amor, apesar de todos lhe sentirem a falta. Até as representações dos pássaros a voarem de um lado para o outro nos parecem terroristas. É perfeitamente dispensável a causa da liberdade. Os homens que aprendam a voar, caralho. Que aprendam a enormíssima arte de voar sem asas. Ninguém sabe onde fica o futuro. Nem a prosa mais arcaica. Nem a poesia mais inteira que se serve com água das pedras e uma rodela de limão. A história dos homens continua a ser a maior arte da inutilidade. Todos os dias vejo pardais espalhados por aí fora. Admiro a coerência dos seus pinchos. Os meus olhos reproduzem, sem querer, o batimento dos seus corações. A consciência da rapidez da sua vida é que atrapalha tudo. Depois limpo as lentes dos óculos com que os observo.


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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018

AR

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Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

No museu

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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

410 - Pérolas e Diamantes: Entre a sugestão e a afirmação

 

 

Lendo os clássicos, neste caso os clássicos modernos da opinião cultural portuguesa como Eugénio Lisboa, ficamos a saber que quando se chega a determinada idade, a propensão normal é para confessar tudo, falar verdade.

 

Em meados da década de 90 do século passado, o prestigiado ator inglês John Gielgud, considerado um dos maiores intérpretes de Shakespeare, resolveu dar uma entrevista a um jornal de prestígio lá da sua ilha grande.

 

Resolveu despejar o saco. Declarou que detestava Shakespeare porque o considerava um chato; que, mesmo que parecesse o contrário, não entendia uma grande parte da obra do dramaturgo mais famoso do mundo; que quando se decidia ir à estante buscar um livro para ler, nunca lhe ocorria escolher uma obra de Shakespeare. Estava aborrecido com a afamada importância do bardo; jamais, confessou Gielgud, jamais lera, com algum pormenor, uma obra do autor de Hamlet. Representara sempre com base na intuição porque era completamente frívolo.

 

Também Lope de Vega, o grande dramaturgo Espanhol, no seu leito de morte, pediu, para espanto de todos, que lhe trouxessem depressa não um padre, mas um médico. Quando este chegou a sua casa, o dramaturgo explicou-lhe, com palavras simples e urgentes, que necessitava de saber com segurança quanto tempo tinha de vida. Precisava, antes de morrer, de fazer um confissão de tal ordem que não concebia, depois dela, continuar a viver e a encarar o seu semelhante.

 

O médico examinou-o com cuidado. Informou então de que se queria desabafar o fizesse com celeridade, porque efetivamente tinha muito pouco tempo de vida.

 

Então lá vai, disse Lope de Vega, com alívio: “Confesso que acho o Dante um enorme chato.” Depois morreu, em paz. Alcançou o que desejava, descarregar o saco.

 

Bem vistas e meditadas as coisas, quantos não se finaram entulhados, sem terem tido a coragem de se confrontarem com um dilacerante desabafo final? Talvez dessa forma se tivessem eliminado muitos mitos. Mas a coragem não é para qualquer um.

 

Já Miguel Tamen, diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, numa entrevista à LER, resolveu desabafar antes que lhe dê o fanico.

 

Nos seus livros, o filósofo prefere a sugestão à afirmação. Diz que apenas se limita a relacionar coisas diferentes, sugerindo dessa forma que coisas diferentes são parecidas ou distinguir entre coisas que as pessoas pensam que são parecidas.

 

E faz isto à procura de quê? Pois à procura de perceber coisas que não percebe e às quais não pode aceder comparando-as com coisas que conhece um pouco melhor ou com outras coisas que lhe parece que são parecidas. Perceberam? Pois, a filosofia continua uma disciplina complicada.

 

Apesar de não sentir nenhuma responsabilidade ou peso especial por ser português (este professor e filósofo com formação lisboeta e pós-graduação americana), sente uma grande afinidade “com pessoas que não aldrabam aquilo que não percebem e tentam clarificar e explicar bem aquilo que percebem, sem que, em nenhum momento, achem que podem dissolver todas as suas incompreensões.” Entenderam? Pois, a filosofia continua a ser aquilo que sempre foi.

 

Numa coisa coincidimos, até porque entendi o alcance da sua resposta: “A propósito de humildade, desconfio muitos daqueles professores que dizem que aprendem sempre muito com os seus alunos. Eu não aprendo praticamente nada com os meus alunos.”

 

O problema é quando não se aprende nem com os alunos, nem com os professores.

 

É ele por um lado e eu por outro. Coincidimos, apesar de divergirmos. Ou vice-versa, o que é muito filosófico. Pois, aí está sugerido um arzinho da nossa graça. Perceberam? Pois, a filosofia e etc...

 

Tamen cita a seu belo prazer uma frase de Saul Bellow: “Eu ensaboo, vocês barbeiam.” Eu até posso concordar. Mas o grande problema é que Bellow era escritor.

 

O filósofo confessa: “Sou alérgico à noção de discípulo, à ideia de que a excelência de um aluno é medida pela maneira como ele se parece com os professores que teve.” Fosse assim em política e outro galo cantaria.

 

Depois marra contra George Steiner, que, na sua opinião, não é crítico literário e muito menos filósofo. Acha-o simplesmente um fala-barato, pois dá-lhe sempre a impressão de que sabe coisas que não sabe, porque é alimentado “pelo modo misterioso como fala de coisas que não são nada misteriosas”.

 

E como é que se reconhece um fala-barato na academia? Na sábia opinião de Miguel Tamen, “os critérios são sempre os mesmos dentro e fora da academia: é preciso tempo. Às vezes não se reconhece um fala-barato à primeira.”

 

Lembraram-lhe que há quem diga que os falsários estão cada vez melhores também a esse nível. Ele respondeu, relembrando-nos o princípio do Presidente Lincoln: não se consegue enganar toda a gente durante todo o tempo.

 

É mesmo verdade, a filosofia ainda é o que era: isso. Perceberam?

 

Filipa Melo, a senhora que o entrevistou o senhor, definiu-o como um daqueles meteoritos que por vezes surgem em Portugal: Um “manifesto opositor da autoindulgência, do paternalismo do Estado e das instituições, das grandes convicções pessoais como da pedagogia dos chamados grandes valores estéticos”.

 

E rematou, como se fosse preciso: “A sua ideia de universidade é democrática, iconoclasta e crítica, no sentido revolucionário da palavra. Vá-se lá saber se este espírito extraterrestre conseguirá atingir o solo.”

 

Orson Welles já morreu, e a rádio está em estertor, mas, mesmo assim, rezo para que Deus nos apanhe confessados.

 

Propostas: Música: Stepmother City – Sainkho Namtchylak; Leitura: Isso não pode acontecer aqui – Sinclair Lewis; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-obidos/; Restaurante: http://www.destinosvividos.com/shiko-tasca-japonesa-porto/.


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Domingo, 23 de Setembro de 2018

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Sábado, 22 de Setembro de 2018

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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

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Barroso - Solveira - S. André - março 2016 026

 


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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

Poema Infinito (423): O pecado de Miguel Ângelo

 

 

Os génios são seres mortificados. Deus abandona-os sempre à sua sorte. Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni vai montado no seu cavalo persa transpirando melancolia, solidão e grandeza. Houve tempos em que se incrementava a poesia, quando o circo se enchia de parvos e elefantes brancos e papagaios e panteras. Há tantos parvos felizes. Os deuses jogavam xadrez e criavam bichos da seda. Os Papas combatiam a pestilência enquanto os guerreiros da cristandade disseminavam a sífilis e o nome de Deus em vão. Também se roubava gado e os poetas eram vistos como macacos que se acolhiam debaixo das vestes do  clero. A nobreza repartia-se entre os bastardos e os avarentos. Também existiam vaginas sábias e pénis em forma de cardeais folgazões. Deus parecia ter medo da sua criação. O rei máximo da cristandade pedia que lhe dessem tudo em triplicado. Além do Pai, do Filho e do Espírito Santo, exigia três coroas, três reinos e três virtudes. Michelangelo pintou então o teto da Capela Sistina que, para Adriano VI, um Papa de origens humildes, não passava de uma casa de banho assassinada. Michelangelo, ao contrário do que se diz, pintou-o de pé e não deitado de costas. O trabalho fazia-lhe mal, não a criação. Séculos antes, Jeremias chorou lágrimas tão pesadas como o tempo, tentando fazer ressuscitar os ossos dos apóstolos. Asseguram que Adão já nasceu cansado, apesar de nem rapaz ter chegado a ser. Por isso nem sequer aprendeu a cantar, a rir, ou a sonhar. A Criação continua a parecer-me uma visão limitada da ilimitada omnisciência divina. Os rapazes da aldeia continuam a enxotar os patos, a atirar pedras aos pássaros, a balouçar os pés na água e a não dar descanso aos seus anjos da guarda. Deus parece ter medo de quem o criou. Dante é um chato e Petrarca também. No entanto, os leitores de D. Quixote acreditam que Deus, a existir, é Espanhol. Já os proditores são italianos. Lucrécia Bórgia foi uma boa administradora. O seu irmão César matou Sforza e congeminou a morte de Perotto, que foi estrangulado nos braços de seu pai. Tingiram-se os mantos brancos de sangue e os meses de inverno ficaram ainda mais frios. Passaram então os terroristas a suportar os locais mais sombrios e a percorrerem, como uma maldição, os desfiladeiros que levam ao Purgatório. A humildade católica passou a ser tratada como uma constipação infantil. Os mortos vagueiam agora pelo mundo como nuvens híbridas. Os jovens continuam a ser arrogantes e a sonhar em estrangular os bobos espalhados por esse mundo fora. Elevam-se da terra círculos de luz que eliminaram as trevas. Junto das serras ainda continuam a nascer crianças predestinadas. Os meninos e as meninas da escola aprendem a desalinhar os seus passos, a saborearem os rebuçados picantes e a descobrirem os lugarejos ridículos. Estão quase nus. Alimentam-se de inconveniências. As mulheres púdicas continuam desavergonhadamente a vestir as suas camisas transparentes. O pecado mora inevitavelmente ao lado. Os cegos tropeçam ininterruptamente nas pedras. Por isso Jesus sempre insistiu em indicar-lhes o caminho das pedras. A predestinação é sempre uma ferida da memória. A chuva lava sempre a melodia das cinzas. Os peixes vermelhos por dentro conversam com Herberto Helder. Longas são as velhas ondas do mar.


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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

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Barroso - Solveira - S. André - março 2016 020

 


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Terça-feira, 18 de Setembro de 2018

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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2018

409 - Pérolas e Diamantes: É só inquietação, inquietação...

 

 

A propósito do seu álbum de “Inéditos 1967-1999”, editado recentemente, José Mário Branco confessou ao Jornal de Negócios que quando tinha quatro anos, foram dar com ele a chorar, agarrado ao rádio. Perguntaram-lhe: “O que é que tu tens, Zé Mário?” Estava a tocar um minueto do célebre violoncelista Boccherini. Respondeu: “Eu quero tocar ’ito.”

 

José Mário Branco é um dos grandes compositores musicais portugueses. Ou seja, pode não tocar Boccherini, mas chegou longe. Coisa de génios.

 

Também eu, quando tinha quatro anos, em frente ao rádio Siera lá de casa, situada na rua Presidente Arriaga, em Lisboa, me punha a dançar quando passavam as músicas da moda. Dizia a minha mãe que eu até bailava bem.

 

Em noites de jantarada, muitos dos convidados, seduzidos pelos balanços da criança, davam-lhe dinheiro para os brinquedos e para as guloseimas. Hoje nem sequer me atrevo a dar um pé de dança nas festas familiares. Coisas dos medíocres.

 

De facto, cada um é para o que nasce.

 

Fora as devidas distâncias, alguma coisa temos em comum. Também eu me convenci que tinha nascido numa geração com a noção de que podia mudar o mundo. Ou melhor, com a noção de que era necessário mudar o mundo.

 

Na minha juventude era normal saltar de projeto para projeto, de ideologia para ideologia,  de radicalidade para radicalidade.

 

Quando se deu em o 25 de Abril eu era católico praticante, mas, em poucos meses, saltei para PC, por ser o sítio onde se podiam fazer coisas com um mínimo de organização e consistência. Apesar da adesão intempestiva ao marxismo-leninismo, que é uma filosofia política muito aborrecida e cheia de contradições, a história de Jesus nunca me abandonou. Continuo a achar que existe uma contradição profunda entre a história de Cristo e a instituição Igreja. Concordo com José Mário Branco quando ele diz que a história desse homem é uma das mais belas histórias, senão a mais bela, que a humanidade inventou.

 

Esse homem calmo e pacífico enfrentou com o seu exemplo e a palavra os dois grandes poderes (o judaico e o romano)  na terra onde nasceu, cresceu e morreu com apenas 33 anos. Foi ele que disse uma das coisas mais subversivas de sempre: “Deus és tu”, como quem declara: “Essa gente que diz que é dona de Deus, e que vive e domina a sociedade à custa disso, não serve para nada, está a perverter.”

 

A sua temporalidade é admirável.

 

Se nos situarmos na época, e até podendo relativizar o ponto de vista histórico e místico, o que aquele homem fez pela dignidade do ser humano é de facto notável.

 

Alérgico a partidarite, José Mário Branco saiu do Bloco de Esquerda, partido que ajudou a fundar. Disse na sua intervenção uma coisa com a qual me identifico plenamente: “Eu nunca saí de partido nenhum, os partidos é que saíram de mim.”

 

Nos partidos não se está para procurar realizar os valores da justiça da liberdade, está-se lá para “outras jogadas”. Por isso não se revê em nenhum partido. Nem ele, nem eu.

 

Considera que o mundo está muito feio. Tal como ele, também eu cresci num sistema em que havia opressão física, em que se a pessoa não cumprisse as regras arriscava-se a castigos físicos, à pancada, à prisão e à tortura, coisa que ele experimentou.

 

Agora a música é outra. José Mário Branco considera que o desenvolvimento da sociedade e do sistema em que vivemos é tal que, globalmente falando, a ditadura foi transportada para dentro do cérebro das pessoas por processos de massificação e atomização. Cada ser humano está sozinho. Há um processo de desculturação. Quanto menos souberes, melhor, quanto mais tiveres uma mente padronizada e reduzida a um único modelo, melhor. Portanto, “há uma capacidade incrível de recuperação da contestação”.

 

José Mário Branco viveu o Maio de 68 em França. Estava lá imigrado.

 

Nessa data memorável, houve uma catarse libertária lindíssima, que foi logo boicotada pelo PCF a troco de um aumento de salários de 10% nos acordos com Pompidou. O movimento reivindicativo durou um mês, com 2 milhões de operários em greve, com ocupações. Mas rapidamente se esboroou. Passados poucos meses desse aumento salarial, o custo de vida já tinha aumentado 12%. O saldo foi, portanto, negativo.

 

Entendamo-nos, o Maio de 68 não foi projeto de coisa alguma. Resumiu-se a um espetáculo libertário, a um ato de vida. A um grito.

 

“Debaixo do asfalto cresce a erva”. Foi bom enquanto durou.

 

José Mário Branco conta um facto a que assistiu e que define na perfeição o Maio de 68.

 

Ia no seu Fiat 600, subindo Le Boulevard Saint- Michel, quando avistou um grupo de 30 a 40 pessoas, desde o estudante anarquista e cabeludo, até ao senhor de gravata, passando pelas donas de casa com os sacos das compras, ou, ainda, os operários de fato-macaco, padres, novos, velhos e gente de meia idade.  Resolveu parar e perguntou, como quem se alivia: “Há algum problema? Ao que alguém respondeu: “Não, não. Estamos a discutir o que é ser feliz.” Isto para ele, e também para mim, define o Maio de 68. As pessoas divertiam-se a discutir umas com as outras.

 

Isto da revolução é como o Mito de Sísifo. Quando se está a atingir o topo da montanha, o penedo cai e volta a rolar montanha abaixo.

 

É, também, o paradigma da Esquerda, das ideias da fraternidade, da igualdade e da liberdade. Quando se está a conseguir esse objetivo, lá cai o rebo ao chão e toca a rolar até ao sopé da montanha. E lá volta o coitado do Sísifo a pegar no penedo e a subir a encosta.

 

Claro que também há algo de novo e que bate muito forte: a tal desculturação. Hoje já não há referências, não há contacto com os livros, com os livros de História. Hoje tudo se resume aos jogos informáticos. Até o poder.

 

Propostas: Música: Com Todo El Mundo – Khruangbin; Leitura: Pedro Páramo – Juan Rulfo; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-peneda-geres-ermida/; Restaurante: Zé Bota – Porto.


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Domingo, 16 de Setembro de 2018

No Porto

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Sábado, 15 de Setembro de 2018

Passadeira de flores

Corpo de Deus - maio 2016 - Fuji - Vilar de nantes

 


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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2018

Passadeira de flores

Corpo de Deus - maio 2016 - Fuji - Vilar de nantes

 


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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2018

Poema Infinito (422): O vento da realidade

 

 

 

A vida é o destino do quotidiano como a ilusão é a outra forma da amargura. Depois ficam as sombras. E as promissões. E a confiança frágil das crianças. Uma muralha de gritos levanta-se.  Há no mundo tanta cobardia alucinada que amedronta. Antes da comunhão, a avó costumava repartir o vinho e o pão pelos de casa. Era uma espécie de alegria demarcada. Depois levaram-lhe o corpo, depois a alma e a terra comeu-lhe até a memória do próprio nome. Ficou dentro de mim a sua consciência e o tormento dos fantasmas invisíveis que alimentam o sono. Depois tu bateste à porta da minha solidão e rodeaste-me com a direção fraterna da tua ternura. Foi então quando perdi todos os pecados e deixei de pensar no inferno. Essa é ainda a paz permanente do meu desespero. Ardem-me os olhos com a nitidez das brasas e dos versos, com o protesto das cinzas, com a amargura do rio, com a voz da avó que cantou contra o mundo e contra a solidão. O esquecimento é outra das formas da loucura. D. Quixote andou sozinho a combater as velas dos moinhos perante as penas, as lágrimas e os lamentos de Sancho. Não me lembro quando foi feita a última colheita do centeio. Sei que o dia estava limpo, luminoso e cheio de ilusão. Já não há dias assim. No inverno seguinte choveu e nevou e Eva disse adeus ao paraíso. Já nada a comove, já nada a excita, já nada a martiriza. Os rapazes e as raparigas continuam alegres sonhando com a quentura das romarias do futuro. Os trovadores continuam roucos e os revolucionários sentem-se sempre os eternos desgraçados. Quando apetece cantar já ninguém canta, nem grita, nem foge, só chora. Van Gogh tinha razão, os lírios no seu apogeu continuam a parecer luminosidades. O vento da realidade vai espalhando as brasas da lareira. O borralho vai-se apagando. Fecham-se as portas. Continuamos a receber os sonhos e a abraçar a pouca luz que nos rodeia. O tempo conseguiu precisar uma nova definição de angústia. Os versos nascem como cogumelos no meio dos pinheiros. São como os sentimentos. Não distingo os venenosos. Especializamo-nos em adiar os outonos. Os nossos braços são agora como ramos tristes. Os sonhos e a alegria ardem em nós como velas meias gastas.  Também eu me senti um ribeiro que fugia da sua nascente sem querer. O sol partiu sem me avisar afagando as nuvens e fazendo a seu belo prazer uns dias maiores e outros mais pequenos. Quando se sobe um monte há sempre um momento para descansar. Também fazemos sempre uma pausa nas curvas dos caminhos mais difíceis. Foi numa fonte de água fresca que bebi o primeiro carinho. Foi na tua pele que senti que me surgiam os dedos incendiados pela tua delicadeza. Tudo então começou a tremer à nossa volta: a subtileza, a luz do tempo, os peixes do rio, as magnólias. Eras uma espécie de paisagem deslizante, rodeada de flores. É necessário salvar a infância da obscuridade, libertar e beleza da sua insensatez. Cavalguei então a tua grandeza de mulher, sentindo as tuas folhas e o teu sabor a maçãs. Percebi então que as paisagens também podem tremer de medo, que a luz pode ser inquieta e as festas dolorosas. Levantámos voo de mãos abertas. Aprendemos o ritmo do sexo com o corpos a arder. Fixei para sempre em mim a lembrança da tua luz, a forma de um paraíso azul, a forma de um grito narrativo. A alegria também pode ser aflitiva.


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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

Passadeira de flores

Corpo de Deus - maio 2016 - Fuji - Vilar de nantes

 


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Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

Na igreja

Barroso - Solveira - S. André - março 2016 167

 


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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2018

408 - Pérolas e Diamantes: O paradigma e os gurus

 

 

Este foi, para todos os efeitos, o verão do descontentamento do Bloco de Esquerda. De facto, o BE começou a arder por dentro. Depois de duas décadas de existência, aí está mais uma agremiação política a revelar os mesmos vícios e contradições dos partidos que deram origem à democracia portuguesa. O amargo da questão é que o BE se propôs, desde o seu início, ser antissistema, para acabar, de forma inglória, a fazer parte dele.

 

O caso mais paradigmático é o do seu patriarca e guru, Francisco Louçã, para quem Carlos Costa não tinha condições para continuar no cargo de governador do Banco de Portugal até ao momento em que passou ele próprio a fazer parte dessa instituição de tanto poder e tão pouco prestígio.

 

Desde esse momento, o político e comentador Louçã meteu o rabinho entre as pernas e deixou de tecer qualquer tipo de crítica ao senhor governador e ao BdP. Ele que tem o privilegiado púlpito da TV e do Expresso.

 

Como Carlos Costa não mudou, e o BdP também não, fácil é tirar a devida conclusão. O vórtice do sistema engoliu, de uma assentada, o famigerado esquerdista. Até o seu sorriso de raposa matreira se dilui na maquiagem do sistema. 

 

Para manter as aparências e o espírito do Bloco havia, no entanto, um rapaz que começou a dar nas vistas lá por Lisboa, onde o BE tem o seu quartel general montado e onde está estacionada a grande maioria das suas tropas.

 

Robles, o jovem turco, discursava entusiasticamente contra os proprietários de imóveis, apelidando-os de especuladores gananciosos e senhorios impiedosos. As massas ululavam e aplaudiam. Contra factos não há argumentos.

 

Dava gosto ver Robles, o digníssimo e elegantíssimo dirigente do BE e também, à altura, vereador da CML, zurzir nos especuladores e gritar contra os despejos e contra as rendas excessivas e a  favor dos pobres e explorados inquilinos.

 

Ricardo Robles era a credibilidade do BE.

 

O problema foi quando a verdade dos factos veio ao de cima, pois neste mundo, mais tarde ou mais cedo, tudo se vem a saber.

 

Robles era proprietário de um prédio em Alfama, comprado à Segurança Social, reabilitado com empréstimo da Caixa Geral de Depósitos, com um projeto aprovado com a celeridade desejável pela Câmara Municipal de Lisboa. Além da rápida, para não dizer surpreendente, aprovação da obra, conseguiu ainda garantir o muito rendoso aumento da volumetria.

 

Ao que se sabe, Ricardo Robles adquiriu por 345.000 euros um prédio que valia muito mais, com o natural prejuízo dos trabalhadores e das empresas que sustentam o orçamento da Segurança Social. Tentou vendê-lo com mais valias de perto de 500% em relação ao investimento feito.

 

Há ainda outro pormenor interessante que a CGD devia esclarecer: qual a razão porque emprestou meio milhão de euros a alguém que, ao tempo, tinha um rendimento de cerca de 1.500 € mensais.

 

Ou seja, um vereador da CML que pregava contra a especulação imobiliária era, afinal, um especulador imobiliário. Comprava por baixo preço para vender por um preço altíssimo. Ricardo Robles queria enriquecer à custa da especulação imobiliária que dizia combater. A política que parece possibilitar quase tudo, ainda se coíbe em autorizar moralmente que se possa fazer de polícia e ladrão ao mesmo tempo.

 

Apenas permite que se possa jogar ao polícia bom e polícia mau, como é o caso de António Costa e Mário Centeno.

 

Claro que o que Ricardo Robles fez não é ilegal, era o que mais faltava, mas é eticamente reprovável.

 

Por outro lado, Catarina Martins também cometeu um erro crasso ao não declarar registo de interesses na Assembleia da República antes de votar um projeto do BE relativo ao arrendamento local.

 

E será isto grave? Política e tecnicamente é-o com toda a certeza. Catarina Martins é empresária de arrendamento local e investiu em casas para turismo de habitação. Viu aprovado, com comparticipação máxima, um projeto de transformação de quatro palheiros, no Sabugal, em unidades para exploração turística. Ou seja, a grande fatia do negócio de Catarina, do marido e da família, foi financiada por fundos europeus. Pelo QREN.

Catarina Martins, passou assim de atriz a empresária. Ela e a família investiram 50 mil euros e a União Europeia, que tanto abomina, financiou o projeto com 137 mil euros. O bónus do QREN é destinado aos projetos liderados por mulheres que reúnam determinadas condições.

 

Catarina Martins, a meio do jogo, viu-se impelida a ceder a sua posição de sócia maioritária à sogra, não fosse o Diabo tecê-las. A instituição burguesa e reacionária da família serviu como guarda-chuva para o negócio se manter nos mesmos moldes e respetivos financiamentos.

 

O facto de a candidatura ter mudado de responsável entre a fase de aprovação e de contratualização, não foi obstáculo para a concessão das verbas nem para a modificação dos critérios de financiamento.

 

Vários especialistas dizem que esta foi uma forma de contornar os regulamentos.

 

O BE era até há muito pouco tempo o paladino na defesa dos interesses da coletividade contra os interesses do capital.

 

Mas depressa aprendeu que ideologia é apenas ideologia. E os negócios serão sempre os negócios.

 

A superioridade moral dos comunistas já foi chão que deu uvas.

 

Propostas: Música: v2.0 – GoGo Penguin; Leitura: Pátria – Fernando Aramburu; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-peneda-geres-pincaes/; Restaurante: Quinta da Petisqueira – Lordelo – Vila Real.


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Domingo, 9 de Setembro de 2018

ST

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Sábado, 8 de Setembro de 2018

No Barroso

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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2018

Sorriso

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Quinta-feira, 6 de Setembro de 2018

Poema Infinito (421): O delírio e a sensatez

 

Comecei a escrever uma nova biografia do orvalho. Um rio passa perto do caderno. Muitas frases estão sentadas nas suas margens. Continuo a usar as aves para encontrar o azul.  A voz das águas tem um leve sotaque a nostalgia. Cai o silêncio em cima da sensatez do desejo. As árvores velhas iniciam o feitiço do tempo. As palavras estão preparadas. A cor da noite está coberta de afastamento. Necessitamos de mais espaço para um novo tipo de saber, uma nova fonte, um novo orgulho. Uma nova esperança. A alva tinge de forma transitiva a manhã. Os encantamentos necessitam de uma nova conjunção. A contradição atingiu a linguagem dos pássaros. Vamos ter de aprender a forma de reagir ao sol, à chuva, ao escuro, aos abismos, à confusão dos estorninhos. Os fantasmas sabem de cor a porta da noite que se abre primeiro. Observamos o abandono da velha casa, o musgo a crescer nas paredes, o mofo a fazer desenhos nos rebocos e na madeira carcomida, o mato a galgar os portões, as manchas traçadas nas fotografias, a bicicleta sem rodas encostada à parede do sótão e os batentes carcomidos pelo tempo. É o abandono a lamber tudo o que já nos foi querido. Na velha casa habitam agora os morcegos, as aranhas e os gafanhotos. O abandono fura-nos a retina, o silêncio grita de repente como se fosse manhã. Houve um tempo em que não havia limites. As pessoas misturavam-se com as aves e ganhavam asas. Depois chegou a ordem das coisas e as pedras começaram a rolar em direção ao destino. Apenas as palavras se salvaram. Apenas as palavras continuam sem limites. Ainda nos custa aceitar as pessoas que fecham portas, que olham o relógio e fixam o tempo, que vão às compras em horas determinadas, que aguçam os lápis para desenharem bagos de uvas, que fecham os lábios para darem beijos. O nosso delírio é uma outra forma de sensatez, com ele limpamos os versos para não serem contaminados pelas contradições. A linguagem teve o seu início na luz. Foi no orvalho que encontramos o formato do sol.  Os textos foram mudando a nossa existência. Aconteceram então os milagres estéticos provocados pelo instinto linguístico. A verdadeira sabedoria reside mais nas pessoas do que nos livros. Todos agora sabemos que o som teve a sua origem nas conchas do mar. É difícil fixar o silêncio. Ou fotografá-lo. Quando alvoreceu, a aldeia estava morta, não se ouvia nenhum barulho, ninguém passava no meio das ruas. O bêbado, depois de carregar o silêncio, adormeceu. Um pássaro enamorado começou a gorjear, para delírio das árvores. Todos sabemos que dessa árvore nascerão as flores mais perfumadas. Ainda clareava o dia quando a memória da avó abriu a terra e começou a botar as sementes à terra. Ali as deixamos para a chuva as enternecer. Entretemo-nos agora a decifrar a língua simples das abelhas, a entender os seus instintos primitivos e as palavras que correm por entre as pedras do rio. A saudade, para existir, requer trinados de dor. Na língua matinal do tempo ainda restam algumas réstias do nosso sol infantil. A avó, junto com as candeias, deixou-nos um aferidor de encantamentos. Com ele avaliamos os percurso das palavras até elas chegarem aos poemas, com a sua vaidade, o seu desvario e o seu livre arbítrio. Por isso os poetas podem arborizar os pássaros, podem humanizar as águas e podem aumentar o mundo com as suas metáforas.


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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018

No Barroso

barroso - volta por SAlto 158 - cópia copy - co

 


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Terça-feira, 4 de Setembro de 2018

Sorriso

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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2018

407 - Pérolas e Diamantes: Entre a alegria e o sono

 

 

 

Por vezes, quando a tarde avança, começo a sentir qualquer coisa que se pode confundir com felicidade, embora não seja felicidade. É, quase de certeza, algo que resulta do trabalho realizado e não do repouso. Eu, para ser sincero, não sei o que é repouso puro. Até porque o meu quarto tem uma cama, livros, alguma roupa, meia-dúzia de fotografias e ainda mais livros.

 

Alguns livros são indutores do sono. Outros são pura alegria. Apesar disso, continuo a não acreditar em quase nada, mas esforço-me para que a minha visão das coisas pareça razoável, já que muito pouca coisa o é. Eu sei, nada disto me tornará popular. Apesar do tempo. E do espaço. E do esforço. E de tudo o resto que ninguém sabe.

 

Depois aborrecem-me os contactos e as conversas, parecem pastilhas elásticas na boca de uma criança, sempre inclinadas para o testemunho único e exclusivo acerca de si mesmos.

 

No fundo, acabam por me lembrar a eventual experiência, ou a eventual inocência, daqueles jovens que se exaltam a eles próprios.

 

Confesso que não posso deixar de sentir uma estranha e persistente nostalgia. Continuo a adorar a luz do fim da tarde e até o seu frio cortante, no inverno. E também as promessas que a noite conta. Claro que agora é mais sono.

 

Sei que as razões pessoais definem as experiências da adolescência e as que ocorrem durante o início da idade adulta.

 

A princípio, convenci-me de que o que verdadeiramente interessava era contar grandes histórias. Mas depois persuadi-me de que quem assim procedia fazia relatos francamente duvidosos.

 

Ou seja, contar aquilo que nos contaram acaba por ser uma provação.

 

Agora, depois da morte de Deus, resolveram assassinar o Diabo.

 

A Dona Rosa, que era médium, acreditava no Diabo, mas dizia que apenas o seu pai é que o conseguia ver, pois para ele o Diabo era absolutamente real. Garantia que quando se olhava ao espelho ele lhe fazia companhia, lhe rondava o rosto, lhe cobiçava a alma. E se mais ninguém o via era porque mais ninguém se dedicara a explorar as crenças dos pensamentos mais profundos.

 

Um dia, quando adoeceu gravemente, os médicos disseram à Dona Rosa que tanto ela como o seu pai necessitavam de descansar. Não deviam ler e escrever. Nem sequer pensar. Também lhes recomendaram não receberem visitas, especialmente os clientes da Dona Rosa.

 

A minha avó, que era grande amiga da Dona Rosa, disse-me que as crianças são capazes de se aperceberem de tudo, mesmo julgando-as inconscientes. Afirmava que uma criança, como eu era na altura, era capaz de conservar, mesmo que não as assimilasse, todas experiências porque passava.

 

Sei agora que a minha avó tinha razão. Talvez seja esse o mistério da infância.

 

Agora vem tudo ao de cima.

 

Depois o meu avô morreu. E em toda a casa se ouviu o vago grito da minha avó, anunciando o nascimento da sua própria e imensa solidão.

 

A partir daí, a memória começou a roer-lhe a alma com a mágoa do luto. O passado vinha ter com ela e estendia-lhe os braços em busca de consolo.

 

Os seus dois rebentos foram para a guerra. Mas contra a sua vontade, pois acreditava que nenhum governo, atual ou futuro, merecia o sacrifício de uma vida humana digna, ou imaculada, como era a dos seus filhos.

 

Parecendo ser uma mulher desassombrada como uma urbe velha, nada nela era simples, nem a cor dos seus olhos, nem os seus jeitos enobrecidos pelo tempo. Nisso opunha-se à modernidade.

 

Passou então a evocar as memórias  e a evitar as pessoas.

 

Quando agora penso nela, e no seu exemplo, lembro-me de uma história sobre os princípios contada por William James, irmão de Henry James.

 

Um pioneiro do Velho Oeste, certo dia, deu de caras com um urso que, por ter um corpanzil terrível, não cessava de exibir toda a sua fúria. Perante tal ameaça, o homem caiu de joelhos e começou a rezar a seguinte oração: “Meu Deus, nunca na minha vida te pedi ajuda e não será agora que o vou fazer. Mas, por piedade, meu Deus, só te peço que não ajudes o urso.”

 

Foi com esse interessante escritor que aprendi que as próprias palavras que agora uso são abertas, evasivas e, por vezes, inúteis. Mas tudo isso se deve ao facto de que não há palavras precisas porque não existem sentimentos precisos.

 

Por vezes digo que estou desejoso de partir. Afinal, sempre fui assim, uma pessoa impaciente, pronta para a mudança, ansiando por novas aventuras, mesmo que essas aventuras mais não sejam do que passar de uma sala à outra ou de me levantar depois de ter estado sentado alguns momentos.

 

Lembro aos arautos da fixidez dos procedimentos e defensores do imobilismo social e político que, como disse uma vez Churchill, “há pessoas que mudam de ideias para não mudarem de partido e há pessoas que mudam de partido para não mudarem de ideias”. O cinzentismo, o ressabiamento e a inveja fazem o resto.

 

 

Propostas: Música: Mambo Cósmico – Sonido Gallo Negro; Leitura: A Era dos Extremos – Eric Hobsbawa; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-aldeia-magica-drave/; Restaurante: Albufeira – Lama da Missa, Pisões/Montalegre.


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Domingo, 2 de Setembro de 2018

No Barroso

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Sábado, 1 de Setembro de 2018

No Barroso

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