Segunda-feira, 3 de Setembro de 2018

407 - Pérolas e Diamantes: Entre a alegria e o sono

 

 

 

Por vezes, quando a tarde avança, começo a sentir qualquer coisa que se pode confundir com felicidade, embora não seja felicidade. É, quase de certeza, algo que resulta do trabalho realizado e não do repouso. Eu, para ser sincero, não sei o que é repouso puro. Até porque o meu quarto tem uma cama, livros, alguma roupa, meia-dúzia de fotografias e ainda mais livros.

 

Alguns livros são indutores do sono. Outros são pura alegria. Apesar disso, continuo a não acreditar em quase nada, mas esforço-me para que a minha visão das coisas pareça razoável, já que muito pouca coisa o é. Eu sei, nada disto me tornará popular. Apesar do tempo. E do espaço. E do esforço. E de tudo o resto que ninguém sabe.

 

Depois aborrecem-me os contactos e as conversas, parecem pastilhas elásticas na boca de uma criança, sempre inclinadas para o testemunho único e exclusivo acerca de si mesmos.

 

No fundo, acabam por me lembrar a eventual experiência, ou a eventual inocência, daqueles jovens que se exaltam a eles próprios.

 

Confesso que não posso deixar de sentir uma estranha e persistente nostalgia. Continuo a adorar a luz do fim da tarde e até o seu frio cortante, no inverno. E também as promessas que a noite conta. Claro que agora é mais sono.

 

Sei que as razões pessoais definem as experiências da adolescência e as que ocorrem durante o início da idade adulta.

 

A princípio, convenci-me de que o que verdadeiramente interessava era contar grandes histórias. Mas depois persuadi-me de que quem assim procedia fazia relatos francamente duvidosos.

 

Ou seja, contar aquilo que nos contaram acaba por ser uma provação.

 

Agora, depois da morte de Deus, resolveram assassinar o Diabo.

 

A Dona Rosa, que era médium, acreditava no Diabo, mas dizia que apenas o seu pai é que o conseguia ver, pois para ele o Diabo era absolutamente real. Garantia que quando se olhava ao espelho ele lhe fazia companhia, lhe rondava o rosto, lhe cobiçava a alma. E se mais ninguém o via era porque mais ninguém se dedicara a explorar as crenças dos pensamentos mais profundos.

 

Um dia, quando adoeceu gravemente, os médicos disseram à Dona Rosa que tanto ela como o seu pai necessitavam de descansar. Não deviam ler e escrever. Nem sequer pensar. Também lhes recomendaram não receberem visitas, especialmente os clientes da Dona Rosa.

 

A minha avó, que era grande amiga da Dona Rosa, disse-me que as crianças são capazes de se aperceberem de tudo, mesmo julgando-as inconscientes. Afirmava que uma criança, como eu era na altura, era capaz de conservar, mesmo que não as assimilasse, todas experiências porque passava.

 

Sei agora que a minha avó tinha razão. Talvez seja esse o mistério da infância.

 

Agora vem tudo ao de cima.

 

Depois o meu avô morreu. E em toda a casa se ouviu o vago grito da minha avó, anunciando o nascimento da sua própria e imensa solidão.

 

A partir daí, a memória começou a roer-lhe a alma com a mágoa do luto. O passado vinha ter com ela e estendia-lhe os braços em busca de consolo.

 

Os seus dois rebentos foram para a guerra. Mas contra a sua vontade, pois acreditava que nenhum governo, atual ou futuro, merecia o sacrifício de uma vida humana digna, ou imaculada, como era a dos seus filhos.

 

Parecendo ser uma mulher desassombrada como uma urbe velha, nada nela era simples, nem a cor dos seus olhos, nem os seus jeitos enobrecidos pelo tempo. Nisso opunha-se à modernidade.

 

Passou então a evocar as memórias  e a evitar as pessoas.

 

Quando agora penso nela, e no seu exemplo, lembro-me de uma história sobre os princípios contada por William James, irmão de Henry James.

 

Um pioneiro do Velho Oeste, certo dia, deu de caras com um urso que, por ter um corpanzil terrível, não cessava de exibir toda a sua fúria. Perante tal ameaça, o homem caiu de joelhos e começou a rezar a seguinte oração: “Meu Deus, nunca na minha vida te pedi ajuda e não será agora que o vou fazer. Mas, por piedade, meu Deus, só te peço que não ajudes o urso.”

 

Foi com esse interessante escritor que aprendi que as próprias palavras que agora uso são abertas, evasivas e, por vezes, inúteis. Mas tudo isso se deve ao facto de que não há palavras precisas porque não existem sentimentos precisos.

 

Por vezes digo que estou desejoso de partir. Afinal, sempre fui assim, uma pessoa impaciente, pronta para a mudança, ansiando por novas aventuras, mesmo que essas aventuras mais não sejam do que passar de uma sala à outra ou de me levantar depois de ter estado sentado alguns momentos.

 

Lembro aos arautos da fixidez dos procedimentos e defensores do imobilismo social e político que, como disse uma vez Churchill, “há pessoas que mudam de ideias para não mudarem de partido e há pessoas que mudam de partido para não mudarem de ideias”. O cinzentismo, o ressabiamento e a inveja fazem o resto.

 

 

Propostas: Música: Mambo Cósmico – Sonido Gallo Negro; Leitura: A Era dos Extremos – Eric Hobsbawa; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-aldeia-magica-drave/; Restaurante: Albufeira – Lama da Missa, Pisões/Montalegre.


publicado por João Madureira às 07:15
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