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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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29
Out18

415 - Pérolas e Diamantes: A instabilidade protocolar de D. Duarte Pio

João Madureira

 

 

Duarte, duque de Bragança, afirmou aos jornais que o presidente Marcelo atua como se fosse um rei. De facto, é difícil defender a monarquia com um Presidente da República tão popular.

 

O nosso putativo rei considera que um presidente que atua como se fosse um rei é um ótimo presidente. Já os maus presidentes são aqueles que têm um comportamento contrário àquele que teria um rei.

 

O que seria melhor para os portugueses era mesmo ter verdadeiramente um rei em vez de um bom imitador.

 

Pio, confirma que o sr. Marcelo atua como se fosse um rei, até porque é “uma pessoa inteligente, culta, com uma boa formação ética e percebe aquilo que o povo português gosta de ter num chefe de Estado”. Percebe-se o elogio.

 

Só que depois estende esse panegírico ao general Ramalho Eanes, que era uma pessoa muito metida em si, com cara de pau, recatado e homem de poucos sorrisos e ainda menos palavras. D. Pio considera que, se ele reinasse, seria o monarca dos afetos, pois possui a mesma proximidade do sr. Marcelo quando se desloca à província a visitar os seus súbditos.

 

Quando inquirido sobre qual seria a vantagem de termos um rei em Portugal, D. Duarte, em vez de definir a “sua” monarquia, atacou virulentamente a primeira República e elogiou veladamente a República de Salazar.

 

A primeira porque foi feita de revoluções e golpes. A segunda, a de Salazar,  foi, na sua opinião, “paz e tranquilidade e um certo progresso económico, mas em regime não democrático”. Já a terceira, a atual, voltou à democracia e com ela “regressou a instabilidade económica e política”.

 

Parece óbvio que a “sua” monarquia se aproximaria muito da segunda República, apesar do pequeno detalhe da falta de democracia.

 

Deduziram, os jornalistas, que D. Duarte Pio não aprecia o 25 de Abril. Resolveram mesmo questioná-lo sobre isso. Ele, o nosso putativo rei, respondeu: “Eu respeito e simpatizo com o idealismo de muitos oficiais que fizeram o 25 de Abril mas, de facto, houve uma ingenuidade muito grande. Uma falta de preparação política enorme” provocada pela segunda República.

 

Para ele, o maior pecado da segunda República nem sequer foi “o regime não democrático”, mas sim a circunstância de “não ter preparado os portugueses para a vida política”.

 

Um dos muitos defeitos desta nossa República “instável” é o desperdício.

 

Seguiu-se a crítica ao poder autárquico: “O país está cheio de rotundas e de obras monstruosas.”

 

Também acha um desperdício de dinheiro, ou melhor, considera um luxo fazer autoestradas e coisas desse género. O melhor mesmo era andarmos de burro ou nas caleches de antigamente, atravessando a galope os caminhos de terra, em que cada viagem era uma autêntica aventura.

 

Critica ainda o défice de formação, sobretudo o défice de formação clássica. Afinal, por que razão a democracia acabou com os liceus e escolas técnicas?

 

Deu como exemplo de educação técnica “os bombeiros que têm uma formação muito baixa e muitas vezes acabam por ser vítimas dessa situação”.

 

Duarte Pio, apesar de aristocrata, no seu dia a dia vive com poucos luxos. Viaja sempre em classe turística nos aviões e usa os transportes públicos. Apenas no comboio vai em primeira classe. Por vezes também apanha o 28, no Chiado, mas com cuidado, pois há por ali muitos carteiristas.

 

Uma vez, nos Restauradores, no meio da multidão sentiu uma mão enfiada na sua gabardine e deu um grito ao homem. Ele disse: “Ai, desculpe, não vi quem era.” Agora, os carteiristas do 28, já o cumprimentam. Não há como conhecer os ladrões para não se ser roubado.

 

Revelou que não vota nas eleições presidenciais nem nas eleições para o Parlamento, apenas costuma votar nas autárquicas, porque considera que o que interessa é a qualidade pessoal do presidente da Câmara e não a etiqueta partidária com que ele vai concorrer.

 

Mas a República ainda não conseguiu resolver um problema premente. Nesse sentido, houve uma petição apoiada por personalidades tão relevantes como Lobo Xavier ou Rui Moreira pela inclusão do Duque de Bragança na Lei do Protocolo de Estado.

 

Essa petição, organizada pela Casa Real, tem vários motivos. Um deles tem a ver com os convites oficiais, tanto ao nível do Governo como ao nível de Câmaras, ou outros. Nunca ninguém sabe onde o devem colocar.

 

Para nos inteirarmos do problema que implica essa lacuna no Protocolo, deu um exemplo paradigmático.

 

Nas cerimónias fúnebres do presidente Mário Soares, nos Jerónimos, as meninas do Protocolo, pois o próprio protocolo protocola que devem ser meninas, puseram-no na quarta fila, com os embaixadores. Depois, veio uma senhora do Protocolo, já um pouco fora dele, e levaram-no para a segunda fila.  A seguir veio outra pessoa do Protocolo dizer que não estava bem ali e colocou-o numa cadeira à parte. Este tipo de situação é provocado pelo facto de o Protocolo de Estado não dizer qual é a sua posição... no protocolo.

 

De facto, a República Democrática é uma bandalheira, pois, nas cerimónias oficiais, andam com o D. Duarte Pio aos baldões.

 

Assim, nem o D. Duarte Pio descansa, nem a República se estabiliza e enobrece.

25
Out18

Poema Infinito (428): Pequenos milagres

João Madureira

 

 

 

Foram as tuas mãos aquelas que moldaram a eternidade da lua, as que mungiram as tetas das vacas e das cabras, as que se deixaram beijar pelo vento húmido da manhã, as que remexeram as folhas dos vinhedos, as que velaram os corpos dos meninos, os pães remexidos nas masseiras, os estios do tempo, o sangue das matanças e a vertigem egocêntrica das noites. Foram também essas mãos que apanharam os frutos mais deliciosos, que mexeram as brasas do lume, que abraçaram as crias, que acariciaram as cicatrizes e os sinais imperfeitos da vida. Essas mãos tinham calos que acariciaram os rostos e deram dignidade à comida e dissiparam as sombras e espalharam as sementes e afastaram as cobras e os licranços. Essas mãos por vezes ficavam furiosas tentando agarrar as rotas onde o destino encalhava. Mas quase sempre traziam o futuro. O quarto da velha casa ainda vibra com a tua ausência definitiva. Ainda recordo os teus gestos cheios de asseios, buscando o pão e a dignidade da vida. No quarto, agora o silêncio está repleto de vazio. Os aromas são apenas memórias olfativas. Descem da serra as nuvens anunciando invernia. O tempo continua a percorrer os velhos caminhos. Nos olhares das crianças continuam a pousar os pássaros. Do mal o menos. Nas poças do rio, as rãs criam os girinos que absorvem o verde da luz do sol. Falta tempo para ladrar aos cães solitários. Na cidade inóspita, os olhares das pessoas são como pedradas nos vidros das janelas. Prefiro as urtigas ao asfalto. O tempo desce sobre as coisas, sobre os olhos que encobrem as aves mais pequenas, sobre o silêncio que sucede ao embalo dos meninos. O vento bate na porta pintada de verde. A casa está despida de palavras. Os retratos perderam as cores. Já não há partidas nem regressos. As folhas acumulam-se junto ao muro do cemitério. Até a floresta está em silêncio. O silêncio. O silêncio. O silêncio.  O silêncio sai devagarinho pela fresta da janela do velho quarto. Lembro-me de afiar os lápis e o silêncio. Eram então eternos os minutos, saltando de mão em mão, percorrendo as paredes e os gestos. A mãe enrolava novelos de lã para fazer meias, luvas e camisolas. Nas tardes de primavera, os sonhos transformavam-se em borboletas. Até o infinito ficava com as cores do arco-íris. Os brinquedos de barro escorregavam-nos das mãos mas não se quebravam. Os pássaros entravam e saíam dos buracos do tempo. Os filhos voavam de madrugada escondendo-se nos carvalhos. As palavras eram então leves como o sossego. Depois passaram a doer, ou porque eram difíceis de ler, ou porque eram difíceis de escrever, ou porque eram difíceis de entender. Muitos dos meninos assobiavam-nas, ou soletravam-nas ou choravam-nas. Sobretudo, evitavam-nas, como se fossem gadanhas. Afiava-se ainda o silêncio como se fosse uma machada. Queimava o sol temporão, queimava a ansiedade, queimava a dor. As manhãs da infância tinham muito giz, vento e espinhas. As lágrimas também eram muitos frequentes. Eu e Jesus sofríamos de sonambulismo. Depois passei a sofrer de cristianismo. E mais tarde de comunismo. A avó sofria de esperas. Tudo isso permanece fechado dentro dos livros feitos de folhas de milho secas. Íamos por caminhos retos e regressávamos por encruzilhadas. Os meus ouvidos ainda se lembram de como soavam as orquestras de grilos. Os seixos ainda estão na mesmo poça. A fonte, por milagre, não secou.

22
Out18

414 - Pérolas e Diamantes: A incerteza da coisa certa

João Madureira

 

 

Dizia a minha avó que é estúpido fazer inimigos. O meu avô costumava responder que antes isso do que ser simplesmente estúpido. Eu fazia que não ouvia.

 

Aprendi nos livros que em condições ideais, o assobio gerado por uma bomba em queda livre pode alcançar até oito notas da escala diatónica. E que, por vezes, chega a reproduzir toda a escala cromática. Mas a quem é que isso interessa? Possivelmente nem aos músicos. Pois!

 

No livro Central Europa, de William T. Vollmann, Chostakovich, em pleno cerco de Leninegrado, segundos depois de cair uma bomba, conseguiu ouvir as notas agudas emitidas pelas vítimas, mas parece que ninguém abordou a possibilidade de se dirigirem para um abrigo antiaéreo. Um dos gritos chegou a prolongar-se por mais de quinze minutos. O compositor soviético conseguiu perceber que estava desafinado, sem dúvida em virtude da deficiente respiração, provavelmente pelo facto de a boca estar demasiado dilatada. A sua principal preocupação foi apurar se não se tratava da sua querida Elena.

 

Mais tarde atacou as teclas pretas e brancas de um piano, e os espaços vazios entre elas, como se fossem artifícios do sarcasmo, que era, segundo os críticos, a sua marca autoral. Uma mera variação do sadismo dos nazis e, por ventura, dos seus próprios camaradas.

 

No mesmo livro, a um “nazi dos bons”, as bonitas paisagens da Turíngia sugeriam-lhe as imagens de um livro por abrir. Dava-lhe prazer quando a sua amante Coca lia para ele. A verdade é que nunca achara a poesia gratificante, nem mesmo em tempo de paz. As suas lembranças tinham mais a ver com o suave sol alemão, “envolto pela aura de um passado glorioso; naquela época, que aos olhos do presente parecia etérea”, antes ainda de o seu Führer ter chegado ao poder.

 

O livro também aborda a desnazificação da Europa. Aos soldados alemães levaram-nos para Leste em vagões, fazendo-os viajar por “linhas ferroviárias de bitola tão estreita como os estranhos segmentos de notas que abrem a Oitava Sinfonia de Chostakovich”. Segundo diziam, a maioria tinha as minas Russas como destino. Também contavam que os mineiros dos contos de fadas alemães eram tão ricos que usavam pregos de ouro para pregar as solas das botas. Os mais otimistas, que sempre os há, desejavam que na União Soviética, onde nascia o sol que iluminava o mundo, também fosse assim. A seguir aos comboios, foram enfiados em camiões. Depois foram forçados a andar vinte e quatro horas seguidas. Para leste. Sempre mais para leste, sem que lhes fosse sequer permitido beber um copo de água imunda.

 

Quando os deixavam descansar um pouco, quase sempre durante a noite, olhavam para as suas mãos calejadas e perguntavam em voz alta se haveria alguma hipótese de serem salvos por uma mina alemã esquecida na Floresta de Hürtgen.

 

Seguiram-se as paradas em Moscovo, o ritual de humilhação que antecedeu  a condenação a cavar buracos na terra Russa e a trabalhar até à morte.

 

Marcharam pela Praça Vermelha enquanto as pessoas lhes cuspiam na cara. Um dos personagens do livro, para aguentar a humilhação, fingiu que era ainda um herói da Legião Condor a marchar diante do estandarte da suástica levantado ao alto numa avenida da Madrid de Franco, de braço direito estendido, gritando Sieg Heil.

 

Chostakovich continuou a viver entre um pesadelo e outro – o terror nazi e o terror comunista – compondo música. Tornou-se cínico como a “sua” Lady Macbeth. A sua amante perguntou-lhe como conseguia viver com o seu masoquismo. O compositor russo disse-lhe que não se preocupasse, pois o momento exato em que o peixe morde o isco é irrelevante. Naquela altura já nem com ele se preocupava. Estava disposto a assinar tudo mesmo sem ler, desde uma confissão de traição à Pátria como a ficha de adesão ao Partido. Só queria que o deixassem em paz. A ele e à sua música.

 

Os críticos musicais disseram que a Opus 110 inclui, aqui e ali, alguns acordes respigados do passado, como os gritos de Pedro III depois de beber o vinho envenenado. No entanto, diziam também que era redutor afirmar que esse quarteto não passa de uma mera releitura da sua Sétima Sinfonia, expurgada dos seus presumíveis erros iniciais, nomeadamente a destilação da agonia de Leninegrado expurgada da sua dimensão propagandística.

 

O que ali perdura não é Leninegrado mas sim a brumosa e doirada tranquilidade da velha São Petersburgo. O pequeno Mitya de mãos dadas com a sua mãe, a qual ele depois desenlaçava para apanhar uma folha que flutuava ao sabor da brisa. 

 

E também Akhmatova e Gumilyev, o seu primeiro marido, fuzilado por alegados crimes de traição contrarrevolucionária, que nunca aconteceram. O casal perambulando por entre o nevoeiro em busca de poemas. Depois de um gesto de cortesia, Akhmatova vira-se para o pequeno Mitya, repara nos seus olhos e comenta para o marido: “Eis o meu príncipe de olhos cinzentos.” Depois desaparecem por uma São Petersburgo “cor de catacumba adentro: castanho, amarelo e dourados fundidos numa só mancha, tal como acontece habitualmente com as coisas mortas, e dissolvendo-se na terra húmida.”

 

Dizem que foi dessa substância negra que detonou a Opus 110, projetando milhares de fragmentos metálicos de betão armado em seu redor.

 

“Há momentos em que fazer a coisa certa implica magoar-nos a nós mesmos, mas isso não significa que não seja, ainda assim, a coisa certa a fazer.”

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