Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

Na aldeia

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Terça-feira, 30 de Outubro de 2018

Na aldeia

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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2018

415 - Pérolas e Diamantes: A instabilidade protocolar de D. Duarte Pio

 

 

Duarte, duque de Bragança, afirmou aos jornais que o presidente Marcelo atua como se fosse um rei. De facto, é difícil defender a monarquia com um Presidente da República tão popular.

 

O nosso putativo rei considera que um presidente que atua como se fosse um rei é um ótimo presidente. Já os maus presidentes são aqueles que têm um comportamento contrário àquele que teria um rei.

 

O que seria melhor para os portugueses era mesmo ter verdadeiramente um rei em vez de um bom imitador.

 

Pio, confirma que o sr. Marcelo atua como se fosse um rei, até porque é “uma pessoa inteligente, culta, com uma boa formação ética e percebe aquilo que o povo português gosta de ter num chefe de Estado”. Percebe-se o elogio.

 

Só que depois estende esse panegírico ao general Ramalho Eanes, que era uma pessoa muito metida em si, com cara de pau, recatado e homem de poucos sorrisos e ainda menos palavras. D. Pio considera que, se ele reinasse, seria o monarca dos afetos, pois possui a mesma proximidade do sr. Marcelo quando se desloca à província a visitar os seus súbditos.

 

Quando inquirido sobre qual seria a vantagem de termos um rei em Portugal, D. Duarte, em vez de definir a “sua” monarquia, atacou virulentamente a primeira República e elogiou veladamente a República de Salazar.

 

A primeira porque foi feita de revoluções e golpes. A segunda, a de Salazar,  foi, na sua opinião, “paz e tranquilidade e um certo progresso económico, mas em regime não democrático”. Já a terceira, a atual, voltou à democracia e com ela “regressou a instabilidade económica e política”.

 

Parece óbvio que a “sua” monarquia se aproximaria muito da segunda República, apesar do pequeno detalhe da falta de democracia.

 

Deduziram, os jornalistas, que D. Duarte Pio não aprecia o 25 de Abril. Resolveram mesmo questioná-lo sobre isso. Ele, o nosso putativo rei, respondeu: “Eu respeito e simpatizo com o idealismo de muitos oficiais que fizeram o 25 de Abril mas, de facto, houve uma ingenuidade muito grande. Uma falta de preparação política enorme” provocada pela segunda República.

 

Para ele, o maior pecado da segunda República nem sequer foi “o regime não democrático”, mas sim a circunstância de “não ter preparado os portugueses para a vida política”.

 

Um dos muitos defeitos desta nossa República “instável” é o desperdício.

 

Seguiu-se a crítica ao poder autárquico: “O país está cheio de rotundas e de obras monstruosas.”

 

Também acha um desperdício de dinheiro, ou melhor, considera um luxo fazer autoestradas e coisas desse género. O melhor mesmo era andarmos de burro ou nas caleches de antigamente, atravessando a galope os caminhos de terra, em que cada viagem era uma autêntica aventura.

 

Critica ainda o défice de formação, sobretudo o défice de formação clássica. Afinal, por que razão a democracia acabou com os liceus e escolas técnicas?

 

Deu como exemplo de educação técnica “os bombeiros que têm uma formação muito baixa e muitas vezes acabam por ser vítimas dessa situação”.

 

Duarte Pio, apesar de aristocrata, no seu dia a dia vive com poucos luxos. Viaja sempre em classe turística nos aviões e usa os transportes públicos. Apenas no comboio vai em primeira classe. Por vezes também apanha o 28, no Chiado, mas com cuidado, pois há por ali muitos carteiristas.

 

Uma vez, nos Restauradores, no meio da multidão sentiu uma mão enfiada na sua gabardine e deu um grito ao homem. Ele disse: “Ai, desculpe, não vi quem era.” Agora, os carteiristas do 28, já o cumprimentam. Não há como conhecer os ladrões para não se ser roubado.

 

Revelou que não vota nas eleições presidenciais nem nas eleições para o Parlamento, apenas costuma votar nas autárquicas, porque considera que o que interessa é a qualidade pessoal do presidente da Câmara e não a etiqueta partidária com que ele vai concorrer.

 

Mas a República ainda não conseguiu resolver um problema premente. Nesse sentido, houve uma petição apoiada por personalidades tão relevantes como Lobo Xavier ou Rui Moreira pela inclusão do Duque de Bragança na Lei do Protocolo de Estado.

 

Essa petição, organizada pela Casa Real, tem vários motivos. Um deles tem a ver com os convites oficiais, tanto ao nível do Governo como ao nível de Câmaras, ou outros. Nunca ninguém sabe onde o devem colocar.

 

Para nos inteirarmos do problema que implica essa lacuna no Protocolo, deu um exemplo paradigmático.

 

Nas cerimónias fúnebres do presidente Mário Soares, nos Jerónimos, as meninas do Protocolo, pois o próprio protocolo protocola que devem ser meninas, puseram-no na quarta fila, com os embaixadores. Depois, veio uma senhora do Protocolo, já um pouco fora dele, e levaram-no para a segunda fila.  A seguir veio outra pessoa do Protocolo dizer que não estava bem ali e colocou-o numa cadeira à parte. Este tipo de situação é provocado pelo facto de o Protocolo de Estado não dizer qual é a sua posição... no protocolo.

 

De facto, a República Democrática é uma bandalheira, pois, nas cerimónias oficiais, andam com o D. Duarte Pio aos baldões.

 

Assim, nem o D. Duarte Pio descansa, nem a República se estabiliza e enobrece.


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Domingo, 28 de Outubro de 2018

Em Chaves

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Sábado, 27 de Outubro de 2018

Em Chaves

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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2018

No Barroso

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Quinta-feira, 25 de Outubro de 2018

Poema Infinito (428): Pequenos milagres

 

 

 

Foram as tuas mãos aquelas que moldaram a eternidade da lua, as que mungiram as tetas das vacas e das cabras, as que se deixaram beijar pelo vento húmido da manhã, as que remexeram as folhas dos vinhedos, as que velaram os corpos dos meninos, os pães remexidos nas masseiras, os estios do tempo, o sangue das matanças e a vertigem egocêntrica das noites. Foram também essas mãos que apanharam os frutos mais deliciosos, que mexeram as brasas do lume, que abraçaram as crias, que acariciaram as cicatrizes e os sinais imperfeitos da vida. Essas mãos tinham calos que acariciaram os rostos e deram dignidade à comida e dissiparam as sombras e espalharam as sementes e afastaram as cobras e os licranços. Essas mãos por vezes ficavam furiosas tentando agarrar as rotas onde o destino encalhava. Mas quase sempre traziam o futuro. O quarto da velha casa ainda vibra com a tua ausência definitiva. Ainda recordo os teus gestos cheios de asseios, buscando o pão e a dignidade da vida. No quarto, agora o silêncio está repleto de vazio. Os aromas são apenas memórias olfativas. Descem da serra as nuvens anunciando invernia. O tempo continua a percorrer os velhos caminhos. Nos olhares das crianças continuam a pousar os pássaros. Do mal o menos. Nas poças do rio, as rãs criam os girinos que absorvem o verde da luz do sol. Falta tempo para ladrar aos cães solitários. Na cidade inóspita, os olhares das pessoas são como pedradas nos vidros das janelas. Prefiro as urtigas ao asfalto. O tempo desce sobre as coisas, sobre os olhos que encobrem as aves mais pequenas, sobre o silêncio que sucede ao embalo dos meninos. O vento bate na porta pintada de verde. A casa está despida de palavras. Os retratos perderam as cores. Já não há partidas nem regressos. As folhas acumulam-se junto ao muro do cemitério. Até a floresta está em silêncio. O silêncio. O silêncio. O silêncio.  O silêncio sai devagarinho pela fresta da janela do velho quarto. Lembro-me de afiar os lápis e o silêncio. Eram então eternos os minutos, saltando de mão em mão, percorrendo as paredes e os gestos. A mãe enrolava novelos de lã para fazer meias, luvas e camisolas. Nas tardes de primavera, os sonhos transformavam-se em borboletas. Até o infinito ficava com as cores do arco-íris. Os brinquedos de barro escorregavam-nos das mãos mas não se quebravam. Os pássaros entravam e saíam dos buracos do tempo. Os filhos voavam de madrugada escondendo-se nos carvalhos. As palavras eram então leves como o sossego. Depois passaram a doer, ou porque eram difíceis de ler, ou porque eram difíceis de escrever, ou porque eram difíceis de entender. Muitos dos meninos assobiavam-nas, ou soletravam-nas ou choravam-nas. Sobretudo, evitavam-nas, como se fossem gadanhas. Afiava-se ainda o silêncio como se fosse uma machada. Queimava o sol temporão, queimava a ansiedade, queimava a dor. As manhãs da infância tinham muito giz, vento e espinhas. As lágrimas também eram muitos frequentes. Eu e Jesus sofríamos de sonambulismo. Depois passei a sofrer de cristianismo. E mais tarde de comunismo. A avó sofria de esperas. Tudo isso permanece fechado dentro dos livros feitos de folhas de milho secas. Íamos por caminhos retos e regressávamos por encruzilhadas. Os meus ouvidos ainda se lembram de como soavam as orquestras de grilos. Os seixos ainda estão na mesmo poça. A fonte, por milagre, não secou.


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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018

No Barroso

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Terça-feira, 23 de Outubro de 2018

Na Póvoa de Varzim

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Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018

414 - Pérolas e Diamantes: A incerteza da coisa certa

 

 

Dizia a minha avó que é estúpido fazer inimigos. O meu avô costumava responder que antes isso do que ser simplesmente estúpido. Eu fazia que não ouvia.

 

Aprendi nos livros que em condições ideais, o assobio gerado por uma bomba em queda livre pode alcançar até oito notas da escala diatónica. E que, por vezes, chega a reproduzir toda a escala cromática. Mas a quem é que isso interessa? Possivelmente nem aos músicos. Pois!

 

No livro Central Europa, de William T. Vollmann, Chostakovich, em pleno cerco de Leninegrado, segundos depois de cair uma bomba, conseguiu ouvir as notas agudas emitidas pelas vítimas, mas parece que ninguém abordou a possibilidade de se dirigirem para um abrigo antiaéreo. Um dos gritos chegou a prolongar-se por mais de quinze minutos. O compositor soviético conseguiu perceber que estava desafinado, sem dúvida em virtude da deficiente respiração, provavelmente pelo facto de a boca estar demasiado dilatada. A sua principal preocupação foi apurar se não se tratava da sua querida Elena.

 

Mais tarde atacou as teclas pretas e brancas de um piano, e os espaços vazios entre elas, como se fossem artifícios do sarcasmo, que era, segundo os críticos, a sua marca autoral. Uma mera variação do sadismo dos nazis e, por ventura, dos seus próprios camaradas.

 

No mesmo livro, a um “nazi dos bons”, as bonitas paisagens da Turíngia sugeriam-lhe as imagens de um livro por abrir. Dava-lhe prazer quando a sua amante Coca lia para ele. A verdade é que nunca achara a poesia gratificante, nem mesmo em tempo de paz. As suas lembranças tinham mais a ver com o suave sol alemão, “envolto pela aura de um passado glorioso; naquela época, que aos olhos do presente parecia etérea”, antes ainda de o seu Führer ter chegado ao poder.

 

O livro também aborda a desnazificação da Europa. Aos soldados alemães levaram-nos para Leste em vagões, fazendo-os viajar por “linhas ferroviárias de bitola tão estreita como os estranhos segmentos de notas que abrem a Oitava Sinfonia de Chostakovich”. Segundo diziam, a maioria tinha as minas Russas como destino. Também contavam que os mineiros dos contos de fadas alemães eram tão ricos que usavam pregos de ouro para pregar as solas das botas. Os mais otimistas, que sempre os há, desejavam que na União Soviética, onde nascia o sol que iluminava o mundo, também fosse assim. A seguir aos comboios, foram enfiados em camiões. Depois foram forçados a andar vinte e quatro horas seguidas. Para leste. Sempre mais para leste, sem que lhes fosse sequer permitido beber um copo de água imunda.

 

Quando os deixavam descansar um pouco, quase sempre durante a noite, olhavam para as suas mãos calejadas e perguntavam em voz alta se haveria alguma hipótese de serem salvos por uma mina alemã esquecida na Floresta de Hürtgen.

 

Seguiram-se as paradas em Moscovo, o ritual de humilhação que antecedeu  a condenação a cavar buracos na terra Russa e a trabalhar até à morte.

 

Marcharam pela Praça Vermelha enquanto as pessoas lhes cuspiam na cara. Um dos personagens do livro, para aguentar a humilhação, fingiu que era ainda um herói da Legião Condor a marchar diante do estandarte da suástica levantado ao alto numa avenida da Madrid de Franco, de braço direito estendido, gritando Sieg Heil.

 

Chostakovich continuou a viver entre um pesadelo e outro – o terror nazi e o terror comunista – compondo música. Tornou-se cínico como a “sua” Lady Macbeth. A sua amante perguntou-lhe como conseguia viver com o seu masoquismo. O compositor russo disse-lhe que não se preocupasse, pois o momento exato em que o peixe morde o isco é irrelevante. Naquela altura já nem com ele se preocupava. Estava disposto a assinar tudo mesmo sem ler, desde uma confissão de traição à Pátria como a ficha de adesão ao Partido. Só queria que o deixassem em paz. A ele e à sua música.

 

Os críticos musicais disseram que a Opus 110 inclui, aqui e ali, alguns acordes respigados do passado, como os gritos de Pedro III depois de beber o vinho envenenado. No entanto, diziam também que era redutor afirmar que esse quarteto não passa de uma mera releitura da sua Sétima Sinfonia, expurgada dos seus presumíveis erros iniciais, nomeadamente a destilação da agonia de Leninegrado expurgada da sua dimensão propagandística.

 

O que ali perdura não é Leninegrado mas sim a brumosa e doirada tranquilidade da velha São Petersburgo. O pequeno Mitya de mãos dadas com a sua mãe, a qual ele depois desenlaçava para apanhar uma folha que flutuava ao sabor da brisa. 

 

E também Akhmatova e Gumilyev, o seu primeiro marido, fuzilado por alegados crimes de traição contrarrevolucionária, que nunca aconteceram. O casal perambulando por entre o nevoeiro em busca de poemas. Depois de um gesto de cortesia, Akhmatova vira-se para o pequeno Mitya, repara nos seus olhos e comenta para o marido: “Eis o meu príncipe de olhos cinzentos.” Depois desaparecem por uma São Petersburgo “cor de catacumba adentro: castanho, amarelo e dourados fundidos numa só mancha, tal como acontece habitualmente com as coisas mortas, e dissolvendo-se na terra húmida.”

 

Dizem que foi dessa substância negra que detonou a Opus 110, projetando milhares de fragmentos metálicos de betão armado em seu redor.

 

“Há momentos em que fazer a coisa certa implica magoar-nos a nós mesmos, mas isso não significa que não seja, ainda assim, a coisa certa a fazer.”


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Domingo, 21 de Outubro de 2018

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Sábado, 20 de Outubro de 2018

O cavaleiro

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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018

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Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

Poema Infinito (427): O desencanto dos vasos floridos

 

 

Gosto das ruas que descem até aos rios. De todas elas. E dos rios que sobem até às ruas. Nos rios faço exceções. As quintas dos ricos parecem-me sempre gólgotas, os românticos caminhos da morte. Os ingleses parecem-me paredes de granito vestidas com portões verdes sorrindo para meninas pensativas. Sou tão xenófobo que até me rio do Brexit. Para disfarçar leio Saramago, Aquilino, Eça, Ferreira de Castro, Agustina e outras reticências e pontos de exclamação e vírgulas e virgos. Admiro a velha literatura e as novas tecnologias. Fascinam-me até os livros de leitura obrigatória que abrem as caudas dos vestidos das raparigas com pinceladas de perfume. Imagino-me a descer as escadas de pedra antiga, a cruzar os jardins de árvores e canteiros e, de mão dada contigo, a nomear de cábula na mão as japoneiras, os rododendros e araucárias. Não há nada mais ordinário do que descrever as tílias frondosas que deixam tombar os cachos de flores e o seu perfume e a sabedoria pedante das sibilas e das cartas de amor e a Amália e o Eusébio e Fátima e até o Fernando Pessoa. Pois pim para todos eles. E viva o Almada Negreiros. Dizem que os escritores consagrados têm risadas cristalinas. O meu conselho é lê-los. Ou escutá-los. Ou assim-assim. Entediam-me as salas repletas de quadros, de fotografias antigas e de conversas que parecem ocasionais, repletas de miríades de pequenos objetos. Os peitoris das janelas assemelham-se aos livros das estantes, colocados para apoio dos braços que seguram o queixo de quem se põe à janela para conquistar o príncipe desencantado com os vasos floridos, com as épocas inesperadas, com a transparência dos vidros, com as tesouras que antigamente podavam as vinhas e agora cortam os frangos e os leitões. Os vizinhos de hoje são tão chatos como os seus gatos e tão defecadores como os seus cães. Já não há nem homens nem animais vadios. Eu não gosto da Anna Karenina. Eu gosto é da Valentina. Já cada vez menos se varrem as folhas de outono. Agora tudo é soprado por máquinas estrepitosas e depois enviado para a reciclagem. As primaveras têm todas o mesmo cheiro. Todas as rosas possuem as mesmas certezas,. Os lugares míticos possuem todos o mesmo tipo de iluminação.  Com o avançar da idade percebemos melhor Rembrandt, todos nos sentimos rondados pela noite, pelos seus indícios e pelos seus presságios. Todos imaginamos as possibilidades perdidas, as conversas encetadas, os sentimentos exemplares. É preciso vencer a timidez. Depois adoecemos. Toda a caligrafia fina tem o seu sentido oculto. Tudo é evidentemente inócuo. Assustamo-nos com o íntimo das nossas vidas, com as palavras que fecham portas, com a geografia patética dos livros. No apeadeiro onde espero é outubro, o ar está muito quente e há um cheiro paternal a ervas, resina e folhas secas. A sabedoria cria poucos amigos. Aprendi a disfarçar a impaciência. Estou quase em ruínas. Subo as escadas devagar, devagarinho, como quem se confessa perante a força da gravidade. O pátio reflete o sol. Adivinho a chuva que há de cair inclemente durante as horas do desassossego. Estou virado a sul. Quase alegre. Quase triste. Ouço arrepiado os sinos da igreja. O pai e a mãe converteram-se num lugar, num jazigo. Numa dor permanente. Antigamente por aqui havia videiras. E macieiras. E nogueiras. E figueiras. Tudo foi desmantelado. Os remendos rebocados das casas possuem uma aparência fantástica.


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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018

Olhares

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Terça-feira, 16 de Outubro de 2018

Olhares

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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018

413 - Pérolas e Diamantes: Entre a pedagogia (demagogia?) e o empobrecimento

 

 

Inger Enkvist, uma professora Universitária sueca, já reformada, catedrática emérita de literatura espanhola e latino-americana, que é convidada para dar aulas da sua especialidade um pouco por todo o mundo, revelou-se crítica da “nova pedagogia”, o que no nosso país, onde prolifera o “eduquês”, significa quase ser proscrita.

 

Inger conhece bem os sistemas educativos onde o sucesso impera. Defende o regresso a uma escola onde os professores são a autoridade e os alunos aprendem em turmas de nível e “os pais têm uma palavra a dizer... mas em suas casas”.

 

Reconhece que não conhece muito bem o sistema português mas admite que Portugal fez um esforço enorme, tornando-se melhor.

 

Sobre as reformas admite que muitos países estão numa situação crítica. “No mundo ocidental tem havido uma agenda ideológica centrada na pedagogia, que não procura que o estudante aprenda – claro que é uma generalização. Como têm uma background marxista, dizem que os factos o são por pouco tempo, logo não é útil conhecê-los. Ser esta a visão central nos sistemas educativos provoca grandes estragos.”

 

Na sua entrevista ao Público não se mostrou apologista do “aprender a aprender” pois quando aprendemos alguma coisa é sempre específico.

 

O “aprender a aprender”, na sua opinião, deixa implícita a ideia de que se aprendeu alguma coisa que se pode usar noutras situações. Só que a investigadora afirma que não. “É preciso aprender factos para se ser capaz de pensar, compreender e chegar a conclusões. É preciso ter muito conhecimento para se ser capaz de pensar bem.”

 

“No 1º ano, o professor é quem abre o mundo do conhecimento às crianças, ao mesmo tempo que mostra como funciona a escola. Precisa de lhes dizer: É assim que se aprende e aprender é entusiasmante, vai mudar-te, vai tornar-te adulto, mas há regras às quais tens de obedecer.”

 

Também existe a ideia de que todas as crianças são iguais e que devem ter o mesmo e a escola é que deve adaptar-se. Mas para Inger Enkvist isso não é correto. É necessário haver outras opções.

 

Na sua opinião deve haver a possibilidade de escolha. E dá exemplos. Em Singapura existem turmas para os alunos que aprendem mais depressa. Na Finlândia existe ajuda extra para os alunos que aprendem mais devagar. Na Suíça existe a possibilidade de, aos 12 anos, se poder escolher cursos diferentes com mais ou menos disciplinas práticas.

 

E isso não é discriminação? Na sua opinião não. É, antes, preparar o aluno o melhor possível para o seu futuro.

 

“O que acontece a esses alunos é que se limitam a sobreviver na escola, na esperança de que, um dia, aquilo termine e sejam livres. Outros ficam tão aborrecidos que começam a fazer disparates porque não acham que o conhecimento seja importante. Na adolescência, diria que submeter os alunos a isso é maltratar psicologicamente.”

 

Se as crianças aos 4, 5 e 6 anos tiverem bons educadores, inteligentes e preparados, o normal é arrancarem bem, pois conseguem facilmente aprender bem a língua e adquirem bons hábitos sobre como se comportar na sala de aula.

 

Sobre a razão de no Reino Unido e em Portugal ninguém querer ser professor, Inger é taxativa: “É um problema também noutros países. Em comum, têm o facto de terem introduzido a ‘nova pedagogia’ que diz que o estudante tem direitos e não é obrigado a obedecer ao professor. Quando o aluno pode entrar ou sair da sala de aula, quando pode chegar e não trazer os trabalhos feitos, ou pode dirigir-se ao professor de forma desrespeitosa, ninguém quer ser professor.”

 

O ensino funciona nos países onde os professores trabalham com grupos com as mesmas necessidades. É mais fácil que estes alunos aprendam ao mesmo tempo.

 

O “eduquês” é fruto das duas ideologias recorrentes, pois tanto uma como outra defendem que todos devem ter uma atenção pessoal. A de esquerda afirma que todos somos iguais e que não é necessária ajuda para se tornar igual. A de direita declara que todos têm direito a atenção, direito à livre escolha, a ser um agente livre para fazer o que quer.

 

Só que ambas estão erradas. “A coisa correta é ter bons professores que ensinem bons programas e dar-lhes autoridade.(...) Deixem os professores serem os orientadores.”

 

E então qual é o papel dos pais? Para Inger Enkvist, o que é normal é os pais providenciarem uma boa educação em casa: boa alimentação, boas noites de sono, ensiná-los a sair para brincar e garantir que chegam à escola a horas.

 

Também lhe devem fornecer estímulos intelectuais, conversarem juntos sobre o que se passa no mundo e perguntar-lhes o que aprenderam.

 

Na sua opinião, os pais nunca devem falar mal dos professores. Podem dizer: “Se fosse eu não faria assim, mas aprende tudo o que puderes com essa pessoa.”

 

Nas férias, os pais devem ir com os filhos para a rua e depois pô-los a ler. Ler pelo prazer. Até podem oferecer uma recompensa: “Lê dez livros e oferecemos-te uma viagem.”

 

Se não forem bons leitores, não serão bons alunos.

 

Os melhores pais não são aqueles que dão tudo a troco de nada. É necessário ter a coragem de dizer não. “Não compreendem como é importante dizer ‘não’ a alguém de quem gostam.”

 

É errado apostar nos ecrãs como principais difusores de conhecimento. “Através dos ecrãs as crianças não recebem os estímulos necessários para aprender e com o nosso dinheiro estamos a empobrecê-los.”


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Domingo, 14 de Outubro de 2018

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Sábado, 13 de Outubro de 2018

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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2018

Músicos

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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018

Poema Infinito (426): O tamanho da verdade

 

 

 

Ninguém sabe verdadeiramente o tamanho do seu valor. Há aqueles valorosos que são mesmo capazes de sorrir para os outros quando estão a chorar por dentro.  Nenhum ser humano merece a pena de ser coitado. As poses e as palavras continuam o seu caminho. A ação de esperar permite quase sempre avançar sem abalroar ninguém. Falta sustento à verdade, falta um abraço no momento de chegar a casa, falta o contraste do amor. A humildade é  outra forma de egoísmo. Por vezes a felicidade é ter alguma coisa para comer. Tudo o resto são preferências sexuais. É como beber água de género. Infelicidade é desprezar o raro. Todos devíamos aprender a esquecer tudo aquilo que é obrigatório. Há uma indisfarçável distância entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. Somos peregrinos da ansiedade, da vacuidade e da torradinha com café e leite. Jesus riu-se muito quando se apercebeu que Deus era seu pai e não sabia contar piadas. Todas as palavras de ordem criam a sua circunstância e a sua distância e a sua própria insignificância. Todos os dias as mulheres e os homens procuram as suas horas e as suas distâncias. Os deuses não são bons a matemática. Todos seremos campeões da incerteza do dia seguinte. Agora trocam-se os sentimentos por notas de perdão. Com esta religião já ninguém consegue rezar o terço. Todos somos primos de Judas. Cristo era mesmo o seu melhor amigo e ele, o Judas, o seu apóstolo dileto. Cada um descansa dentro da sua própria obsessão. Apesar de se utilizarem os mesmos gemidos, as mesmas palavras, os mesmos fluidos e a mesma mecânica, será que foder e fazer amor são a mesma coisa? O tempo habitua-nos à especialização. O que sobra dos meninos lindos? Alguns contentam-se com nada, ou quase nada. Vivam as verdades alternativas. Vivam as verdades paralelas. Em Coyocán, Rámon Mercader, agente da GPU, assassinou Trotsky. Na Rússia, entre 1935 e 1938, quase todos os antigos bolcheviques foram processados e fuzilados, sob as ordens de Estaline, acusados de traição, sabotagem, espionagem e tentativa de restabelecimento do capitalismo: Zinoviev, Kamenev, Rikov, Bukharin, Radek e Tukachevsky. As suas almas mortas, ou as suas fotografias manipuladas, foram reabilitadas mais tarde e todos foram considerados inocentes. Todas as verdades são possíveis. Dizer uma piada ou a verdade é a mesma coisa. A harmonia é altamente criativa. E também a inveja. E o ódio. A inveja é muito útil. Tudo é relativo. Apenas o tempo é absoluto. O amor por vezes mete medo. Por muito que se fuja ninguém consegue escapar àquilo que é. Já ninguém obedece aos pensamentos imparáveis. O omnimpotente Judas aguentou tudo, menos o amor. O amor que era forte, que era difícil, mas, sobretudo, decidido. Jesus é que era egocêntrico e sofria da síndrome de asperge. Era um lindo menino perfeito, para a sua mãe. Os filhos de Deus são todos iguais. Deus não tem culpa, pois não decide nada. Deus observa. Deus tudo vê e tudo entende, mas não faz nada. Deus é a totalidade falsa. Todos sabemos que está imbuído de boas intenções, mas elas não se veem. Apenas os atos têm essa qualidade. Ninguém sabe o que verdadeiramente move o mundo. Uns são culpados. Outros são inocentes. Mas até as certezas são relativas. Os culpados para uns são inocentes para os outros. E até o contrário é verdadeiro. Os heróis de agora já não dão o exemplo, dão pontapés na bola. A culpa é sempre do árbitro. O lado A e o lado B são iguais. E isso é que é verdadeiramente incompreensível.


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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2018

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Terça-feira, 9 de Outubro de 2018

O Ferreiro

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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2018

412 - Pérolas e Diamantes: A mentira e a vontade do engano

 

 

O camarada N. V. Krylenko, que acabou executado pelo perfume escarlate da sua própria  argumentação, defendeu, como bom militante bolchevique, que não se deviam executar apenas os culpados. A morte de inocentes causaria nas massas, que tanto dizia amar, uma impressão ainda mais forte.

 

Esse era o tempo dos salvadores, das fábulas cabalísticas.

 

Na Europa Central, o espírito do Terror Vermelho, Lenine, justificando-se ideologicamente com Krupskaya, mas amando nas entrelinhas, e nos entrefolhos, Inessa Armand, ou mesmo Apollinaria Iakubova (Lirochka), argumentou que todos os atos de crueldade praticados por engano seriam perdoados, mas os atos de misericórdia não seriam tratados com a mesma indulgência.

 

Então e o que é que os outros camaradas proletários faziam? Pois, sorriam. A sua cara parecia festa, embora a alegria fosse igual à de um aleijado quando dança.

 

Conta-se até uma anedota engraçada a propósito da revolução, da informação e da realidade.  Uma chusma de kolkhozniks (camponeses) que ganhara um prémio chega a Moscovo com os sapatos sujos de estrume. O camarada guia explica-lhes que acabaram de chegar à capital mundial do progresso e da abundância e da liberdade e de tudo o resto que eles já deviam saber. No fim da explicação, um dos camaradas camponeses ergue timidamente a mão e diz: “Camarada-guia, ontem dei um grande passeio pela cidade e não vi nada disso!” O guia já habituado à ignorância e à falta de informação dos camponeses, respondeu prontamente: “O Camarada devia dar menos passeios e ler mais jornais.”

 

Bismark, em 1878 já se tinha apercebido do que era governar nos tempos dissolutos das revoluções: “Já me apercebi que, muitas vezes, a minha decisão já está tomada antes sequer de concluir o raciocínio.”

 

Heidegger, que era, segundo dizem, uma pessoa pragmática, quando se deu conta do poder destruidor dos mísseis, tentou filosofar: “O olhar ascendente aponta na direção do céu, no entanto permanece cá em baixo, na superfície da terra.” Não sabemos é se o enigmático pensamento foi do agrado dos seus amigos nazis.

 

As revoluções são sempre formas ritualizadas da destruição de um poder e da construção de um novo. Os rituais facilitam as coisas, ajudam-nos a sobreviver. Antigamente, carregavam-se todos os pecados de uma cidade no lombo de um bode, expulsava-se o bicho do burgo e este ficava livre de pecado. Foi o que os nazis fizeram com o povo judeu.

 

Nas estepes russas encontra-se facilmente uma imensidão nevada. É o nada protegendo-se contra o nada. Foi o que a revolução ofereceu ao povo russo: uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.

 

Santa Teresa, desde há séculos que vinha avisando: as preces atendidas fazem correr mais lágrimas que as súplicas não satisfeitas. Onde Deus põe a mão nasce logo a confusão. E não é por mal, como todos sabemos.

 

Chostakovich, o mal amado músico soviético, foi acusado publicamente de fazer música autoirónica. Afinal, o que é que um génio, para não enlouquecer, podia fazer na pátria dos sovietes?

 

Queriam com isso dizer que não era totalmente honesta. E quem é que na União Soviética de Estaline podia ser honesto? Nem o próprio, senão tinha acabado, como a quase totalidade dos seus companheiros que participaram na Revolução de Outubro, assassinado pelos seus camaradas nas masmorras da Lubianka. Estaline podia ser um serial killer, mas não era burro.

 

Dizem que nada é o que parece, mas o ditador comunista sabia que as coisas parecem aquilo que quisermos que pareçam.

 

Mas voltemos a Chostakovich, desde cedo que aceitou o seu destino, pois tinha nascido para não encaixar em lado nenhum. O que fizeram com ele foi uma comédia de enganos. Por isso começou a fingir.

 

E. Mravinsky considerava que a autoironia da música de Chostakovich mais não era do que uma dissimulação que transmitia uma falsa impressão de emotividade. A sua música escondia (bem, na URSS nada parecia aquilo que era) um sentimento lírico extraordinariamente profundo e cuidadosamente protegido do mundo exterior. E amava duas mulheres. Dizia que o amor era uma espécie de fé. Mas quem é que pode (sobre)viver desejando dois deuses?

 

Todos sabemos que Estaline e Hitler foram a cara e a coroa da mesma moeda totalitária. Mas a coincidência que mais me impressionou foi a de ambos preferirem os filmes da Disney.

 

Um idiota encontra sempre alguém mais idiota.

 

Existe sempre uma tentação exageradamente grande em toda a natureza humana. De facto, quando nos passam para a mão um martelo, todas as pessoas no nosso entorno começam a parecer-se suspeitosamente com pregos.

 

Mas uma coisa também todos sabemos: independentemente da responsabilidade que se possa atribuir a Hitler e a Estaline, qualquer mentira da dimensão da protagonizada pelo comunismo e pelo nazismo não depende apenas da qualidade com que se mente, tem de haver gente com vontade de ser enganada. 

 

Propostas: Música:  With the Wild Crowd! Live in Athens, Ga – The B-52’s; Leitura: Se esta rua falasse – James Baldwin; Viagens: http://www.destinosvividos.com/ilha-de-sao-jorge-a-ilha-das-fajas/ Restaurante: http://www.destinosvividos.com/pregaria-guimaraes/


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Domingo, 7 de Outubro de 2018

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Sábado, 6 de Outubro de 2018

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Sexta-feira, 5 de Outubro de 2018

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Quinta-feira, 4 de Outubro de 2018

Poema Infinito (425): A honestidade

 

 

Lá do alto das montanhas observamos os planaltos resplandecerem ao luar e os carvalhos da floresta a dançar como baluartes. O ar parece a água das nascentes. As casas estão vestidas de memórias com as suas tábuas tranquilas que nos fazem lembrar a nossa mocidade. Os prados deitam-se, ou fazem por isso. A calma e a segurança manifestam-se contra a importância das datas históricas. O dito amor pelas coisas assemelha-se a cestos de flores monocórdicas. Nós andávamos a pé ou de burro e chegávamos sempre a algum lado. Os jovens de agora andam a 180 quilómetros por hora e não chegam a lado nenhum. E nem sequer lhes falta imaginação ou, sequer, conhecimento. No vale cai amiúde a neblina. Debaixo da lua, o manto nebuloso envolve a florestação. Ao lado das ruínas da velha quinta, as antigas flores envolvem as curvas da macieira. Também dizem que o velho abade tinha mãos delicadas, pele fina e macia como porcelana e um semblante espiritual denunciando boa vida. O céu fartou-se de esperar por ele. E do inferno nem é bom falar. Os deuses de agora adquiriram o hábito de estarem de pé com as costas da mão direita apoiadas na anca, mesmo quando são canhotos. A realidade acende a luz de relance recortando a confusão das estrelas. Lá em baixo repousam as pastagens suaves e as casas rurais quase invisíveis. Esta terra continua a ser bondosa, fria e límpida como os raios de luz. A honestidade continua a ser uma espécie de deficiência. Pobres daqueles que não conseguem ter a severa inclinação para prometer operar milagres. Perdoem-me a exceção da verdade, mas a Lusitânia nunca foi um caminho dotado para a Utopia. A última semana de junho foi chuvosa, nada boa para as macieiras em flor. Os lilases murcharam. O inverno queimará as rosas, como todos os anos o faz. Silenciosamente. O avô vai ter de arranjar lenha suficiente para a lareira da casa. Penso isto enquanto me entretenho a fazer uma pequena e infeliz formiga a andar para cima e para baixo num galho partido. A bondade tem destas subtilezas. A trovoada nas montanhas arrasou todas as reuniões públicas. Os doutores do templo arrasaram o discurso em direto de Jesus. As sinfonias de Mozart romperam a escuridão irreal que cobria o mundo e transformaram-se em explosões. A imaginação é dada a grandes fraudes. E lá vêm as fanfarras, os carros alegóricos puxados pelos grandes cartazes e as ovações e os sorrisos benévolos, que se transformarão em homicidas, e o circo e as palhaçadas que vencerão as horas críticas da histeria do politicamente correto. Salve-nos Deus dos homens da Regisconta. Os mestres de cerimónias chegaram a políticos. Vivam os assessores e os filósofos privativos. Vivam as baratas. Deus já não consegue distinguir as pequenas das grandes coisas. E vice-versa. Independentemente de ser tudo ao contrário. Dizem que Chesterton disse, e eu acredito, que existe uma coisa maior do que uma coisa muito grande, e que ela é uma coisa  tão pequena que não pode ser vista nem compreendida. Devemos desconfiar sempre de quem faz vénias sorrindo, enquanto as lágrimas  lhe correm dos luzeiros. As audiências começam, por mais que lhes custe, a soluçar também. Todos aqueles que erguem a mão esticada, ou o punho fechado, apenas evidenciam a ênfase histérica da sua negação. Depois seguem-se os dias e as noites do horror.


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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2018

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Terça-feira, 2 de Outubro de 2018

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