Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018

Poema Infinito (426): O tamanho da verdade

 

 

 

Ninguém sabe verdadeiramente o tamanho do seu valor. Há aqueles valorosos que são mesmo capazes de sorrir para os outros quando estão a chorar por dentro.  Nenhum ser humano merece a pena de ser coitado. As poses e as palavras continuam o seu caminho. A ação de esperar permite quase sempre avançar sem abalroar ninguém. Falta sustento à verdade, falta um abraço no momento de chegar a casa, falta o contraste do amor. A humildade é  outra forma de egoísmo. Por vezes a felicidade é ter alguma coisa para comer. Tudo o resto são preferências sexuais. É como beber água de género. Infelicidade é desprezar o raro. Todos devíamos aprender a esquecer tudo aquilo que é obrigatório. Há uma indisfarçável distância entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. Somos peregrinos da ansiedade, da vacuidade e da torradinha com café e leite. Jesus riu-se muito quando se apercebeu que Deus era seu pai e não sabia contar piadas. Todas as palavras de ordem criam a sua circunstância e a sua distância e a sua própria insignificância. Todos os dias as mulheres e os homens procuram as suas horas e as suas distâncias. Os deuses não são bons a matemática. Todos seremos campeões da incerteza do dia seguinte. Agora trocam-se os sentimentos por notas de perdão. Com esta religião já ninguém consegue rezar o terço. Todos somos primos de Judas. Cristo era mesmo o seu melhor amigo e ele, o Judas, o seu apóstolo dileto. Cada um descansa dentro da sua própria obsessão. Apesar de se utilizarem os mesmos gemidos, as mesmas palavras, os mesmos fluidos e a mesma mecânica, será que foder e fazer amor são a mesma coisa? O tempo habitua-nos à especialização. O que sobra dos meninos lindos? Alguns contentam-se com nada, ou quase nada. Vivam as verdades alternativas. Vivam as verdades paralelas. Em Coyocán, Rámon Mercader, agente da GPU, assassinou Trotsky. Na Rússia, entre 1935 e 1938, quase todos os antigos bolcheviques foram processados e fuzilados, sob as ordens de Estaline, acusados de traição, sabotagem, espionagem e tentativa de restabelecimento do capitalismo: Zinoviev, Kamenev, Rikov, Bukharin, Radek e Tukachevsky. As suas almas mortas, ou as suas fotografias manipuladas, foram reabilitadas mais tarde e todos foram considerados inocentes. Todas as verdades são possíveis. Dizer uma piada ou a verdade é a mesma coisa. A harmonia é altamente criativa. E também a inveja. E o ódio. A inveja é muito útil. Tudo é relativo. Apenas o tempo é absoluto. O amor por vezes mete medo. Por muito que se fuja ninguém consegue escapar àquilo que é. Já ninguém obedece aos pensamentos imparáveis. O omnimpotente Judas aguentou tudo, menos o amor. O amor que era forte, que era difícil, mas, sobretudo, decidido. Jesus é que era egocêntrico e sofria da síndrome de asperge. Era um lindo menino perfeito, para a sua mãe. Os filhos de Deus são todos iguais. Deus não tem culpa, pois não decide nada. Deus observa. Deus tudo vê e tudo entende, mas não faz nada. Deus é a totalidade falsa. Todos sabemos que está imbuído de boas intenções, mas elas não se veem. Apenas os atos têm essa qualidade. Ninguém sabe o que verdadeiramente move o mundo. Uns são culpados. Outros são inocentes. Mas até as certezas são relativas. Os culpados para uns são inocentes para os outros. E até o contrário é verdadeiro. Os heróis de agora já não dão o exemplo, dão pontapés na bola. A culpa é sempre do árbitro. O lado A e o lado B são iguais. E isso é que é verdadeiramente incompreensível.


publicado por João Madureira às 07:15
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