Sexta-feira, 30 de Novembro de 2018

S. Sebastião - Alturas do Barroso

DSCF2355 - cópia copy - cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 29 de Novembro de 2018

Poema Infinito (433): A evidência das causas

 

Aí está a máquina da guerra a perseguir-nos. Aí está a máquina da paz a escutar-nos. Aí estão elas. Aí estamos nós. Ali estou eu. Penso nos objetos de guerra como se fossem verdadeiros. Penso nos objetos de guerra como se fossem falsos. O problema está na autenticidade das reverências. No prova do tempo. No protagonismo da História. Na generalidade do homem. Tememos tudo, até que as fotografias nos roubem a alma. Nós que somos uns desalmados. Os olhares mais simples incomodam por causa da sua evidência. Sinto em ti uma fragrância de timidez. Uma timidez secreta que carrega um medo inconfessado. Dou-te muito mais do que aquilo que julgas. As cores ajeitam-nos a casa. Apercebemo-nos agora da outra maneira de sermos iguais. Os conceitos simplificam a vida mas não a explicam. Tudo estremece depois do vendaval: as vozes, os passos lentos, a constante claridade das lâmpadas, os fantasmas silenciosos, os deuses, os demónios, os anjos, os monstros, os reis. E até os heróis. No entanto, as horas permanecem quietas. Lá fora os carvalhos encolhem a sua virilidade aparente. É tempo de nevoeiro. As outras árvores olham o vento, a sua densidade suspensa e as janelas erguidas da mansão. Um druida brando oscila entre a fantasia e a claridade. Por vezes, até as sílabas mais desequilibradas nos parecem divinas. Nenhum murmúrio quebra a noite. Mesmo os rumores avançam devagar. Foi num tempo assim que Roma ardeu, longínqua nos seus incêndios, efémera no seu esplendor, desprendendo faúlhas rutilantes de desejo e de decadência. Mesmo os Neros mais ajuizados morrem desesperados. As verbenas de rosas já não possuem o mesmo odor. As fontes que alimentam as flores estão mais pálidas. Mete dó a miséria de Jesus e a indecência de Pilatos. A plebe continua ignara, cheia de carne e de fome, com uma sede voraz. Toda a multiplicação dos peixes, do pão e do vinho é um milagre inútil. António continua eretivo e Cleópatra lasciva. As escravas continuam lentas, movendo os seus leques dentro de um filme de David Lynch. E seminuas. E pálidas. E indiferentes. Os guerreiros absorvem em êxtase os seus aromas que flutuam como um bendita maldição. As esfinges lembram esfinges em atitudes palpitantes. E também lembram complexos. Depois de amaldiçoar Salomé, Deus resolveu absolvê-la. Já nada é como antigamente. Nem o pecado, nem a virtude, nem o calor maldito da redenção. Abençoados sejam os pecadores. Abençoados os ébrios e os deslumbrados. Abençoados sejam os festins nus e o silêncio absorto dos apóstolos. Os soldados do apocalipse passeiam nas margens do Jordão. As mulheres uivam de raiva e de desejo. Os generais dormem tranquilamente nos seus leitos agarrados aos seus eunucos. As mulheres que tocam violino continuam a tocar. E a espiar. Uivam os lobos por cheirarem ao longe o receio. Os sacerdotes degolam os carneiros e têm orgasmos. Sanção já não ama Dalila, nem os seus seios, nem os seus joelhos, nem o seu regaço, nem a sua vagina que mais lhe parece um hieróglifo. Tudo nele é agora cansaço, os seus traços são mentirosos. Até o seu semblante é agora lânguido. Já não lhe ardem os beijos. Tudo agora é demorado como os espasmos. Até a traição deixou de ser silenciosa. Lá fora o gado passeia pelo meio das ruínas do templo. Sansão rapou o cabelo para ser futebolista. Por vez deixa-o crescer sete centímetros e meio para fazer publicidade a um champô que elimina a caspa. Dalila, essa maldita, que emagreça para caber dentro da lingerie. Sansão converteu-se ao islamismo e Dalila ao lesbianismo.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 28 de Novembro de 2018

S. Sebastião - Couto de Dornelas

DSCF2114 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 27 de Novembro de 2018

S. Sebastião - Couto de Dornelas

DSCF2092 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 26 de Novembro de 2018

419 - Pérolas e Diamantes: Os olhos vingativos das sereias

 

 

Muita da literatura que por aí vigora é dedicada a desconstruir instituições tão “perigosas” como  a família, a escola, a lei e o estado-nação através dos quais a herança da civilização ocidental foi passada até nos.

 

Esta literatura, que foi glorificada e fertilizada nos escritos de Foucault, apresenta como “estruturas de dominação” o que cada um de nós identifica como instrumentos de ordem cívica.

 

Ou seja, segundo esta interpretação, é urgente libertar as mulheres da opressão masculina, libertar os animais do abuso humano, lutar ao lado dos homossexuais e transexuais contra a homofobia, e mesmo cerrar fileiras ao lado dos muçulmanos para combater a islamofobia. Mas, a fazê-lo, é necessário deixar-nos absorver pela agenda da esquerda. De outra maneira, nada feito.

 

É triste, mas verdadeiro, o  igualitarismo mais radical dos marxistas e anarquistas do século XIX, que lutaram sem tréguas, e sem hesitações, pela abolição da propriedade privada, já não possui o poder de atração global de antigamente. O slogan “proletários de todos os países uni-vos”, foi chão que já deu uvas.

 

O objetivo igualitário não permite que nada, nem ninguém, se meta no seu caminho. Nenhum costume, instituição, hierarquia ou lei existentes, pode triunfar sobre a igualdade.

 

A proclamada justiça social continua a lavar a História. Uma mão lava a outra...

 

Marx defendeu n’A Ideologia Alemã algo extraordinariamente poético. A seguir à ditadura do proletariado, o Estado definhará. Não existirá nem lei, nem a necessidade dela. Tudo será de todos. Não existirá divisão laboral. Toda a gente irá gozar em pleno as suas necessidades e desejos, “a caçar de manhã, a pescar à tarde, a reunir o gado ao fim do dia e a discutir literatura depois do jantar”. A seguir à ideologia veio a prática. E depois foi aquilo que se viu.

 

Diziam os apóstolos dessa boa nova que tudo isso era “científico” e não utópico. Afinal, tudo não passou de uma piada. Que rica seria a vida sem propriedade privada.

 

Os marxistas “científicos” diziam que só um pensamento sério nos faria acreditar que a História caminhava, ou devia caminhar, no caminho do socialismo. Depois da realidade indecorosa desse “materialismo dialético”, os historiadores de esquerda passaram a minimizar as atrocidades cometidas em nome do socialismo e a culpar as forças reacionárias pelos desastres que fizeram retardar o avanço socialista.

 

Roger Scuton, considera que “a assimetria moral, que atribui à esquerda o monopólio de virtude moral e usa a ‘direita’ como um termo de abuso, acompanha uma assimetria lógica, nomeadamente, a admissão de que o ónus da prova cai sempre no outro lado e não pode , jamais, ser retirado”.

 

A esquerda uma coisa conseguiu: burocratizar a liberdade e a justiça social.

 

Eric Hobsbawm, por exemplo, nos quatro volumes da sua História do nascimento do mundo moderno, faz uma síntese enganadora tentando branquear a experiência comunista e culpar o capitalismo de todo o mal  no mundo, o que, bem vistas as coisas, é, além de sinistro, um pouco antiquado.

 

Todos sabemos que os factos são mais interessantes e memoráveis quando fazem parte de um drama. Por isso é que a esquerda passa a vida a dramatizar porque, na sua visão, a vida moderna só pode ser dramática. Sem drama não há revoluções.

 

A História marxista só adquire significado com a classe operária no topo das prioridades. Por isso há que demonizar a classe alta e romantizar a baixa. Faz parte do jogo. Faz parte do vício.  Faz parte do drama.

 

No seus livros, Hobsbawm, por exemplo, não se incomoda com pormenores como a lei e os processos judiciais, não vê necessidade em mencionar o decreto de Lenine, de 21 de novembro de 1917, que anulava os tribunais, o foro judicial e toda a advocacia, deixando as pessoas sem a única proteção que tinham, ficando por isso sujeitas à intimidação e à prisão arbitrárias.  

 

Lenine criou a Cheka, percursora do KGB, e o poder que lhe atribuiu para usar métodos terroristas necessários para expressar a vontade das “massas” contra a vontade do simples povo, também já se esqueceu. A borracha comunista é impressionante.

 

Eric Hobsbawm também nada diz sobre a fome de 1921, a primeira das três vagas de fome provocadas pelo Homem no início da História soviética, fome que foi propositadamente usada por Lenine para impor a vontade das “massas” aos desafiadores camponeses ucranianos, que ainda não tinham aceitado incorporar as leis do socialismo científico, nem o seu papel na História.

 

A morte libertou-os das dúvidas.

 

O que mais me surpreendeu na leitura do livro “A Era dos Extremos” foi o não ter sido considerada uma obra equivalente à do branqueamento do Holocausto por David Irving.

 

Mais uma vez descobri que os crimes cometidos à esquerda não são verdadeiros crimes. E que aqueles que os desculpam, ou ignoram, em silêncio cúmplice, têm sempre bons motivos para o fazer.

 

É bem verdade, a raposa pode mudar de pelo, mas não muda de hábitos.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Domingo, 25 de Novembro de 2018

ST

DSCF1724 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Sábado, 24 de Novembro de 2018

No Barroso

barroso - volta por SAlto 206 - cópia copy - co

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 23 de Novembro de 2018

No Barroso

DSCF7128 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 22 de Novembro de 2018

Poema Infinito (432): Matar saudades e outras coisas

 

O meu tio João fazia-me acreditar. Fazia-me acreditar que. Fazia-me acreditar que assobiava tão bem como os pássaros. Eu, entretanto, observava as borboletas e os escaravelhos. Sou daqueles que se engasga quando está a nadar. Por vezes sou um náufrago. Outras vezes sou uma ilha. Lembro-me de mover os dedos e de ouvir o silêncio. É necessário continuar a nadar. Vamos repetir o teatro da modéstia. Vamos marcar território. Estudo o método do saudável otimismo da juventude. Recupero o fôlego, a compaixão, o rosto fixo de dor da minha mãe. O rosto sério do meu pai. Agora limito-me a citá-los. Antigamente custava-me aceitá-los. Penso que a minha mãe sorriu no seu parto com dor, apesar de estar com o rosto sério. Não há felicidade depois do parto. A minha mãe era a mais linda do mundo. Todas as mães são as mais belas do mundo, se as deixarem ser. Ou não ser. Tudo faz parte da mensagem obscura da sobrevivência. Ainda há homens que escrevem poemas para as suas amadas. Que desperdício. A inocência é infinita. A estupidez é infinita. Faz parte da humanidade ultrapassar a violência. Para percebermos a verdadeira dimensão das palavras é necessário tirá-las do seu contexto. A sala do tempo engole todas as direções. Lembro-me das dificuldades matemáticas, do desânimo, das náuseas, das deferências fingidas, das exaltações, do esquecimento. Lembro-me dos treze de maio, das manifestações dos adeptos dos milagres, dos lenços brancos, das constipações, das obstipações, dos suspiros de alívio de Deus quando acabava a noite. Por vezes parecia ofendido. Torço os dedos para evitar a desgraça. Encolho entretanto os ombros e o meu olhar mais cândido. Tudo ofende Deus. Nada ofende Deus. Improviso a rapidez da resposta. Ou a sua lentidão. Depende do objetivo. Estou cheio de saudades. Eu agora quero é matá-las. Pretendo juntar o óbvio às futilidades. Parodiar as caricaturas. Procuro acalmar a virgindade. Ou a falta dela. As saudades envenenam-me. Eu sinto saudades de quase tudo: do assombro, da imaginação, das vacinas, das tigelas de caldo, da catequese, do som do riso da avó, das interrupções do avô, da relutância dos gelados, dos sussurros, da melancólica meditação dos néscios, dos monólogos dos doidos, dos palavrões do Birtelo, da fome infinita dos porcos, do chamorro dos coelhos e do gogo das galinhas chocadeiras. A excitação e o remorso gritam dentro de mim. Tenho cada vez mais dificuldades em acreditar. Os clérigos esforçam-se por morrer em Jerusalém para estarem mais perto da intricada noção de imortalidade. Não sabem que já nem a alma nos basta. Ou nos salva. Todo o castigo é crime. Esforço-me bastante para conseguir rir. Já não distingo a atração da excitação. Todos oramos pela ereção das almas. Procuramos agradar sempre à esperança. Sou agora um pagador de promessas. Ó meu rico São Caetaninho, peço-te que a antimatéria não faça parte da ciência exata do céu. A nós basta-nos o Purgatório. Até a humanidade um dia se vai transformar em poeira cósmica. Abençoado seja o Senhor. Já fui um velho educado, agora sou apenas um miúdo cínico. Agora ando no meio das estradas. Chego sempre cedo de mais às paragens do ridículo. Lembro-me do meu relógio Cauny Prima que me tapava o pulso fino. Espreitava então as horas com um nervosismo crescente. Agora apenas me limito a resistir à realidade.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quarta-feira, 21 de Novembro de 2018

Em Chaves

DSCF2899 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 20 de Novembro de 2018

Na cozinha de S. Sebastião - Couto Dornelas

DSCF2083 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018

418 - Pérolas e Diamantes: O vime da História

 

 

Ramalho Eanes, lá do alto dos seus 83 anos, disse uma coisa que nos deve servir de lição: “Um homem que olha a sua vida e que não se arrepende de nada é um inconsciente.”

 

O problema é quando olhamos para trás e descobrimos que não fomos gente de bom senso. A leitura de D. Quixote fez-me mal. Mas a verdade é que não posso queixar-me de Cervantes. É como na comida, perdoamos o mal que nos faz pelo bem que nos sabe.

 

Mas até nos livros mais sérios podemos encontrar sempre coisas com graça. Querem um exemplo?, pois aí vai ele. No livro “Ramalho Eanes - O Último General”, de Isabel Tavares, Vasco Vieira de Almeida, conta que em pleno governo de Vasco Gonçalves, foi chamado a S. Bento naqueles tempos de “cobardia suave” para servir de intérprete a uma delegação do Bundestag. Estava ele a falar com o primeiro-ministro quando a secretária vem anunciar a chegada dos deputados alemães. E lá vão eles recebê-los. Entram na sala ao mesmo tempo que um grupo de deputados que em vez de altos, loiros e de olhos azuis, eram atarracados, gordos e morenos. Vasco Gonçalves estende-lhes a mão e diz: “Auf wiederseben!” E o putativo deputado alemão que vem à frente responde num português autêntico: “Senhor primeiro-ministro, muito obrigado por nos receber...” Atalha Vasco Gonçalves: “Mas você fala perfeitamente português.” E o putativo: “Pois, nós somos a administração da Torralta.” “Ai são?! Estão todos presos!” Foi desta maneira que Vasco Vieira assistiu à prisão da administração da Torralta, tendo a impressão de que estava no meio de um filme de Woody Allen.

 

Mas há mais. Quando VVA era ministro da economia do governo de transição de Angola, acabou por escrever uma carta aos movimentos de libertação (MPLA, FNLA, UNITA) a dizer que eram todos uns bandidos. Quiseram expulsá-lo logo de lá, por dizer a verdade. Aquilo era de uma violência enorme, os ministros andavam todos de pistola, que tiravam de uma elegante pasta Samsonite e colocavam em cima da mesa. Agora dá vontade de rir, mas na altura fiava mais fino.

 

Segundo Júlio Castro Caldas, tudo estava a ser manipulado pelo Partido Comunista. E não era sequer por Álvaro Cunhal, ministro sem pasta. Quem mandava no Conselho de Ministros era o Vasco Gonçalves, mas quem mandava no primeiro-ministro (pode parecer surrealista, mas acontecia assim) “era o tipo que fazia as críticas da televisão no Diário de Lisboa, o Mário Castrim, casado com a Alice Vieira e a quem puseram a alcunha de  ‘o Secretário-Geral’. Eram críticas repletas de mensagens que Vasco Gonçalves lia e seguia as suas instruções.”

 

Este senhor, o Castro Caldas, evidentemente, era do PSD e orgulhava-se de “ter antenas” em praticamente todas as situações militares. “E o Eanes, numa dada altura fez o mesmo no PS.” Talvez daí, o facto de Mário Soares não gostar dele. Nessa matéria, quem mandava “era o Manuel Alegre”. Cesteiro que faz um cesto, faz um cento.

 

Na altura do “Verão Quente” os democratas “conservadores” fartaram-se de conspirar. Tomé Pinto, um militar ligado a Eanes, recorda-se das reuniões em casa de Henrique Granadeiro em que o ex-ministro da Administração Interna, Costa Braz, trazia sempre as mensagens nos sapatos.

 

Segundo Joaquim Aguiar, que foi assessor de Ramalho Eanes e também de Mário Soares, refere que enquanto Soares queria que o elogiassem, Eanes queria que o ajudassem a decidir.

 

Joaquim Letria, que também trabalhou próximo de Ramalho Eanes, pois foi porta-voz da presidência da república, lembra que Eanes não aceitava com facilidade “esta coisa de utilizar uma linguagem mais simples nos seus discursos”. E dizia-lhe uma coisa com “muita graça”; contava-lhe que “uma vez tinha assistido a um discurso do Spínola pela televisão, estava em Viseu ou algures na província, num restaurante, ou algo assim, no meio de mais pessoas. E Spínola fez um discurso muito fechado, hermético. Ele pelo menos achou isso. Mas depois, falando com as pessoas que ali estavam, elas disseram: ‘Ah, gostamos muito de ouvir este homem... Sabe, os outros só dizem coisas que a gente também já sabe’.”

 

Sobre as gravações das conversas de Ramalho Eanes com Francisco Balsemão, enquanto primeiro-ministro, refere que “se havia uma coisa capaz de exasperar Eanes era a mentira”.

 

Ramalho Eanes fez um doutoramento aos 71 anos. Adriano Moreira destaca que esse foi o abrir de um caminho para “uma coisa que em Portugal pouca gente nota, que é a estratégia do saber”.

 

Cerca de 50% da população portuguesa acredita que não precisa de aprender mais nada, já sabe tudo, o que é dramático.

 

Talvez por isso, tenha escrito que “a poesia é, assim, uma espécie de brisa fresca que nos lembra que, afinal, nem tudo é o calor asfixiante do interesse; que há muitas vezes, o vento fresco que faz com que olhemos a vida, olhemos os outros, de uma maneira mais próxima e mais afetiva”.

 

O cartoonista António, caricaturou-o com a figura de Dom Quixote, o que lhe assenta na perfeição.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Domingo, 18 de Novembro de 2018

No Barroso

DSCF3205 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Sábado, 17 de Novembro de 2018

Chaves - Jardim Público

DSCF2574 - cópia copy - cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018

Chaves

DSCF1627 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

Poema Infinito (431): A perplexidade dos beijos

 

 

Quantas tristezas necessárias se transformam em humor desenganado. E também a desgraça da vontade de rir. Vivemos no tempo da verdadeira filosofia do corpo. A prostituição assemelha-se a uma telenovela. Aprofunda-se a descrição do pudor, oferece-se a banalidade e os serviços da felicidade. A gente tudo vê e nada entende. Forçamos a verdade até a transformarmos em piada. O humor é a nova definição de amor. Amamos toda a gente e não amamos ninguém. Os humoristas são tristes. Os orgasmos são tristes, parecem uma forma de castração. Deus é triste. Os anjos são tristes. A vida selvagem é triste. A felicidade é triste. Trabalhar é um privilégio, dizem-nos os novos democratas. A nova filosofia dissolve-se em notas, dissolve-nos em compras. É meritória a maneira como esquecemos a infelicidade. Gememos de todas as maneiras possíveis. A bondade está distribuída pelos dois lados: o bom e o mau. A felicidade costuma sentar-se no sofá da mesinha da sala de estar e pôr-se a ver os filmes fraudulentos de Hollywood. As mulheres sentem-se derrotadas. Os homens sentem-se derrotados. Os deuses sentem-se derrotados. O medo é o novo profissional da psicologia. O medo é estranho. O medo é esquisito. O medo é pacífico. O medo é nosso vizinho. O medo é o nosso vizinho. O medo são os outros. O medo somos nós. Abaixo o medo. Viva o medo. Há uma tristeza tranquila nas pessoas estranhas. Como te chamas?, pergunta-me a tristeza. Ela quer falar. Eu não. Não a consigo temer. E eu esforço-me. A tristeza não exige esforço, o amor, sim, exige. Eu esculpo com as palavras. Com palavras certas em momentos certos. Tens a certeza? As frases bonitas têm pouco impacto. Parecem poemas desnecessários. Não possuem convicção, são construções artificiais. A língua lambe o prazer. Sei que vou morrer cheio de curiosidade. Apenas os beijos de despedida possuem uma certeza inabalável. Todos os vícios têm um nome. O protelamento é um deles. Já faz muito tempo que os palhaços deixaram de trabalhar de borla. Há corpos e soluções e complexos que valem uma vida. Bem aventurados os néscios pois deles depende a viabilidade e o futuro do reino dos céus. Os contextos socioeconómicos são certeiros como balas disparadas por uma Glock. Lucky Luke foi morto pela sua própria sombra. Proust tinha toda a informação sobre prostitutas. E também era infeliz. Ou demente. Refletiu tanto que acabou por morrer sem ter vivido o suficiente. Muito se engana quem passa a vida a pensar. O que é preciso é continuar. As semelhanças não valem rigorosamente nada. As diferenças, sim, valem ouro, incenso e mirra. Já não conseguimos brincar. Vivemos bloqueados. Sonhamos dentro dos próprios sonhos. Sonhamos como pagar as contas. Com a ordem que o amor exige. Com a morte. Com o contrário das coisas. No começo da vida não há pressão. Há adrenalina e movimento. Passamos a vida a eternizar os problemas, a alimentar o corpo em vez das sensações. Pensamos no tamanho da felicidade suprema. Por isso somos infelizes. Todas as obras-primas começam numa indecisão. Alguns chamam-lhe perplexidade. Eu, provavelmente, sim. Eu não. O problema das mães é que também morrem. A morte tudo compromete. E o mundo continua sem elas. E sem nós. O melhor é dar-lhes beijos enquanto podemos. Muitos. Todos os que suportarmos.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018

No Barroso

DSC copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 13 de Novembro de 2018

No Barroso

_JMF0653 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 12 de Novembro de 2018

417 - Pérolas e Diamantes: Abaissez le plus bas possible Le Pen...

 

 

 

O movimento eurocético nunca foi tão intenso e forte como na atualidade.

 

O Brexit inglês deu o pontapé de saída para um situação política que todos sabemos como começou mas ninguém consegue prever como vai acabar.

 

Depois do “Não” inglês à União Europeia, outra hecatombe lhe sucedeu: a eleição de Trump como 45º presidente dos EUA. Seguiram-se ainda uma série de eleições europeias em que os partidos eurocéticos conseguiram uma popularidade e um sucesso nunca vistos nas democracias do velho continente.

 

Roger Scruton – um dos pais ideológicos do Brexit – foi ao coração do problema, quando questionou uma das bases da ordem mundial pós-Guerra-Fria: a redução do político ao económico e a avaliação meramente sociológica e quantitativa das reações e motivações populares.

 

Scruton pensa que a rutura inglesa foi fortemente influenciada pela emigração, pelo défice democrático e pelos efeitos dos tribunais europeus na lei e nos costumes do povo britânico.

 

Para ele, as elites e a classe política revelaram-se incapazes de responder às inquietações da gente comum em relação à imigração, desqualificando-as como “racismo e xenofobia”, sentimentos politicamente incorretos, logo, merecedores de veemente repulsa e indignos de serem sequer considerados.

 

A hegemonia dos progressistas na Europa, nomeadamente após a Segunda Guerra Mundial, sempre assentou numa denominada superioridade política, social e moral das forças de esquerda “resistentes” em relação às organizações de direita “colaboracionistas”.

 

A esquerda francesa, que sempre gostou de glorificar Sartre, Aragon, Cohn-Bendit e Bernard-Henry Levy, fez sempre questão em divulgar essa mítica superioridade histórica e moral, isto apesar de a História desmentir a autenticidade desse mito, pois, como todos sabemos, também houve esquerda colaboracionista e direita resistente.

 

É bom recordar que, em junho de 1940, no início da Ocupação, os comunistas receberam bem os Alemães, seus aliados desde o Pacto Germano-Soviético (assinado por Hitler e Estaline em agosto de 1939), passando a integrar a resistência (que teve início em Londres com os militares e os católicos leais a De Gaulle) no ano seguinte, só depois da invasão da União Soviética pela Wehrmacht.

 

A 5 de Maio de 1981, Mitterrand foi eleito Presidente da República, numa eleição concorridíssima. A esquerda unida chegou ao poder num governo liderado por Pierre Mauroy, onde figuravam vedetas do PS tais como Defferre, Chevènement, Rocard, Jobert, Badinter e, na cultura, Jack Lang. O elenco era tão hodierno e de esquerda que incluía mesmo um Ministério dos Tempos Livres.

 

A chegada da esquerda ao Governo, unida no Programa Comum, coincidiu, “para mal dos pecados de todos nós”, com a revisão doutrinária e ideológica na direita, liderada pela política anticomunista ativa de Reagan e Thatcher e a renovação da Igreja Católica feita por João Paulo II. Para a direita, o triunvirato indiciava “uma nova atitude de reação do Ocidente relativamente aos perigos que o ameaçavam”.

 

Depois foi aquilo que se viu. A esquerda deu lugar ao centro-direita. Seguidamente os socialistas ganharam de novo. E houve um jogo de ping-pong que acabou com Macron no Eliseu. Os socialistas, esses, desapareceram. No meio disto tudo quem se afirmou foi Marine Le Pen.

 

Os media foram demolidores com os Le Pen, pai ou filha. Escreveram que se eles ganhassem “os rios iam deixar de correr, o Sol não voltaria a levantar-se e seria o princípio da era glaciar” em que a França se transformaria num gigantesco “campo de reeducação psicológica”.

 

A argumentação da esquerda foi avassaladora: “Mettez des gants si vous voulez, des pinces ou ce que vous voulez, mais votez. Abaissez le plus bas possible Le Pen... votez escroc, pas facho.”

 

Mas se este tipo de argumentação resultou em França, nos EUA o tiro saiu pela culatra a Hillary Clinton e a Bernie Sanders. Temos de reconhecer que o movimento que levou Trump à presidência é complexo.

 

O seu movimento, segundo Jaime Nogueira Pinto, “contou com americanos religiosos do Midwest, sulistas zangados, blue collars do Nordeste Industrial e uma classe média farta de ver os seus valores ridicularizados e marginalizados pelas minorias sexuais e pelos intelectuais sofisticados.”

 

Apesar da retórica argumentativa tradicional dos democratas de o seu governo ser simples e acessível, o facto é que o poder político americano se ancora nas oligarquias do dinheiro, pois, como é tradição, geralmente apenas costuma favorecer os ricos.

 

Mas, afinal, porque razão “o bárbaro, o básico, o narcisista, o grunho” venceu as eleições?

 

Em Trump votaram os descendentes de plantadores do Sul, os militantes do Tea Party, os católicos antiaborto, os evangélicos bibliocratas, os mineiros da Carolina do Norte, os desempregados de Appalachia e os poucos intelectuais conservadores que o apoiaram.

 

E fizeram-no porquê? Jaime Nogueira Pinto responde: “Talvez tivesse sido pela recusa da alternativa, de um mundo globalizado, sem nações, sem identidades, sem famílias, sem regras, misto de utopia libertina e de pseudo-paraíso de consumo, com pequenos prazeres imaginados por administradores anónimos de fortunas mal geridas, políticos cínicos e militantes da globalização e dos direitos das minorias. Talvez tenha sido só para impedir a marcha desse mundo, dessa utopia encarnada por um arqui-símbolo do sistema, que jogaram tudo na única alternativa. E a única alternativa chamava-se Donald Trump.”

 

E, como se tudo isto ainda fosse pouco, aí está Bolsonaro em todo o seu esplendor “fascista”.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
Domingo, 11 de Novembro de 2018

ST

_JMF0132 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
Sábado, 10 de Novembro de 2018

Na aldeia

_JMF7628 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 9 de Novembro de 2018

Na aldeia

_JMF7631 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 8 de Novembro de 2018

Poema Infinito (430): Das catástrofes imaculadas

 

 

A natureza do teu templo é um dos pilares que me mantém vivo. As frases podem ser confusas, mas os símbolos da tua nudez vagueiam em mim como fósforos acesos. Pareces um anjo atrapalhado, de olhos e boca abertos e de asas desfraldadas. Até os acontecimentos mais inocentes são percursores de catástrofes únicas. Do paraíso sopra um vento que fecha as asas dos querubins. O progresso é uma espécie de tempestade. A catástrofe também. Também as lágrimas caem sobre o leite. A tua tristeza é limpa. O silêncio acomoda o pó dos caminhos. Doem-me os ossos. O nevoeiro transforma as montanhas em mar. Os seus cumes são as novas ilhas. As auroras estão mais maduras. O meu corpo segue o silêncio do teu. Antigamente, os anos passavam cheios de leveza. E ríamos. Os sorrisos eram deliberativos. A alegria era uma espécie de prefácio. A água perseguia as árvores e os lameiros. Os animais perseguiam a água. O azul defendia as tardes. Deus era o Verbo difícil. Depois tornou-se impossível. Fomos abandonados à alegria e, mais tarde, à tristeza. O peso do teu corpo é doce.  E imaculado. Alegro-me com o abandono das horas. O dia ascende minucioso pelas paredes da casa. A luz impõe o seu poder. As curvas voluntariosas dos corpos desejam ser discernidas meticulosamente pelas mãos de quem lhes dá prazer. Respirar o ar mútuo é uma das estratégias da sedução. A luz lamina os lençóis brancos. Cheiram a alfazema e a sémen. Os nossos gritos são quase sempre interiores. O amor chega vagaroso, mas é persistente. Nem tudo pode ser perfeito. A madrugada sobe atravessando as paisagens meio adormecidas. A sua frescura é longa como o rio que corre no vale. O teu corpo respira a fragilidade cansada da manhã. A tarde na floresta estará impregnada de barbitúricos. Os pinheiros vestem-se de seiva. No meio da caruma despontam os níscaros. O seu silêncio é lívido. Aprendemos com eles lições de subversividade estática. Os cães, de língua estendida, procuram os seus donos. A tarde ajuda a amadurecer os frutos. O tempo impõe as suas regras às agilidades sexuais. Um Deus emérito define a dose de engenho e louvor que cada sexo deve usufruir. Extinguiram definitivamente a máquina engenhosa de fazer aldeias. Para lá das janelas, as aves percorrem os gestos trágicos do início e do fim do mundo. Tudo é tão breve. Os domingos derramam-se pelos jardins. O crepúsculo desfaz-se em pedaços. Todas as máquinas nascem enganadas pelo seu destino. Falam-nos os deuses. Nós falamos de Deus. As horas mais densas têm o sabor da carne crua. Apetece-me agora falar da razão pragmática da crítica. Os sindicatos e o patronato fazem dos salários a sua religião. As religiões ruminam os seus cadáveres. Os santos mais sábios continuam em busca do Graal e do cântico dos cânticos. Dizem que gostam de comer romãs e beber água benta pela concha dos bivalves peregrinos. As paredes brancas suam. O teu corpo sua. O meu corpo sua. A busca do amor torna a vida impossível. Ainda hoje a cristandade sofre por causa dos infidelíssimos romeiros de Canterbury. As suas cópulas arrojadas transformaram os corpos infiéis em artesanato noturno. No entanto, os carpinteiros, pegando no exemplo de Jesus, aplainavam a madeira como se os troncos das árvores fossem mulheres ácidas. Os artesãos colocavam matéria sobre matéria para construírem as almas mais puras. E comiam as suas mulheres à mesa como se fossem ovelhas de Deus.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018

Na aldeia

_JMF9398 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 6 de Novembro de 2018

Na aldeia

Barroso - Penedones, ETC, XT1 119 - cópia copy -

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 5 de Novembro de 2018

416 - Pérolas e Diamantes: Populismos e outras tolices

 

 

 

A esquerda, apesar de manter a centralidade da relação entre opressor e oprimido, pensa ter evoluído no conceito transferindo estes termos para outros protagonistas. Os opressores são os capitalistas, os burgueses, os brancos, os colonizadores, os homens, os heterossexuais e os religiosos. Já os oprimidos serão os colonizados, os não brancos, os homossexuais ou pessoas de sexualidade alternativa, os globalizados e os livres-pensadores.

 

Mas agora, o conservadorismo adotou a forma de populismo.

 

Roger Scruton (autor do livro Tolos, Impostores e Incendiários) desconfia. Para ele, “populismo é a palavra usada pela esquerda para se referir ao povo quando o povo não a escuta […] Quando o povo toma uma direção diferente da que lhe estava destinada pelos intelectuais de esquerda, a esquerda conclui que o povo está a ser manipulado por demagogos”.

 

Mas parece que não existem apenas “populismos” conservadores ou reacionários, há-os para todos os gostos: Syriza, na Grécia; Podemos, em Espanha; Lega Nord e 5 Stelle, em Itália; Front National, em França; Freiheit Partei, na Áustria; Alternative für Deutschland, na Alemanha.

 

São muitos e variados os “populismos” que têm vindo a ganhar votos e a eleger deputados.

 

Para Jaime Nogueira Pinto, os partidos do “arco constitucional”, e os seus “intelectuais orgânicos”, atribuíram a estes perturbadores o epíteto de “populistas”, que é uma designação depreciativa associada à demagogia, oportunismo, ausência de ideias, “caudilhismo, radicalização na ação política e sectarismo social e étnico”; para contrastar com o discurso obeso dos “partidos da democracia representativa instalada, supostamente mais sábio, sóbrio, moderado, maduro, legítimo e objetivo”.

 

Na sua opinião, devido a uma longa presença no poder, que moldaram “aos seus princípios, práticas e tabus, ameaçados  dentro das regras do jogo democrático pelo voto do povo usado como arma, os partidos do sistema procuram defender-se, desqualificando o adversário, o estranho, o inimigo. Foi sempre assim que os civilizados, os ilustrados, as elites, trataram os que se amontoavam às portas das cidades e que queriam entrar”.

 

Um facto é evidente: os designados como populistas têm por inimigo comum os partidos sistémicos, denunciando as oligarquias políticas, económicas e mediáticas que acusam de terem “usurpado ou confiscado o poder do povo”, criando “uma falsa legitimidade” ou uma ilegítima representação dominada pelos poderes paralelos.

 

O populismo de esquerda é, essencialmente, antiglobalista económico, criticando as economias de mercado e o capitalismo, que diz combater através de medidas sectoriais mas de alcance tendencialmente global e, portanto, internacionalista.

 

Já o populismo de direita, sendo também antiglobalista, criticando o “capital internacional financeiro” privilegia a nação como estrutura defensiva, defendendo medidas protecionistas.

 

Os populistas de esquerda dizem-se herdeiros inconformados das Luzes, saudosos da sua revolução inacabada, netos de uma utopia igualitária ainda por cumprir, porque foi traída, dizem, pelos socialismos reais, ou pela corrupção e rendição ao capital da esquerda anémica que ocupa o poder. No entanto, exigem mais igualdade, mais laicizado e tendem a negar as identidades que a direita considera naturais: religiosas, nacionais e familiares.

 

Já os populistas de direita desconfiam de tudo: desde o progresso à mudança voluntarista, valorizando, ao contrário da esquerda, as pequenas comunidades, a família, a identidade nacional, as tradições ancestrais. São ainda críticos dos mecanismos transnacionais, nomeadamente a União Europeia ou o denominado mundialismo económico. Gostam, no entanto, de afirmar que não são contra a economia de mercado e a democracia representativa.

 

Estes dois populismos são inimigos figadais. O de esquerda, composto por intelectuais, estudantes, jovens e alguns velhos nostálgicos do Maio do 68, defende o multiculturalismo e a integração plena e acelerada dos imigrantes, mesmo extracomunitários. O de direita advoga precisamente o contrário, o que leva a que a esquerda acuse a direita de fascista, racista e xenófoba.

 

Isso não inibe essa esquerda de integrar alianças eleitorais e mesmo de governar. É esse o caso do Sirysa que, chegado ao governo, resolveu abandonar os seus “sãos” princípios, acabando por se resignar às políticas de austeridade impostas pela UE. Cá se fazem, cá se pagam.

 

Já o Podemos decidiu ter um pé dentro e outro fora do sistema. Em Itália, o 5 Stelle também faz parte do governo com a Lega Nord. Por cá, o BE, resolveu, para não destoar, viabilizar um governo socialista, possibilitando, dessa forma, derrotar o partido mais votado, o “reacionário” PSD de Passos Coelho.

 

O principal efeito dos partidos populistas de esquerda europeus, e também latino-americanos, nomeadamente na Venezuela e no Equador, tem sido o de contribuírem para a crise e a ruína dos partidos da esquerda tradicional, socialistas e comunistas. No entanto, não têm o relevo ideológico e o papel político dos movimentos e partidos de direita. Ainda vão ter de percorrer muito caminho.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Domingo, 4 de Novembro de 2018

No Barroso

_JMF0519 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Sábado, 3 de Novembro de 2018

No Barroso

_JMF0505 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 2 de Novembro de 2018

No Barroso

DSCF5020 - cópia copy.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 1 de Novembro de 2018

Poema Infinito (429): O desejo e o isolamento

 

 

 

Metidos no buraco, não alcançamos a linha do horizonte. Vence-nos a preguiça, na tarde morna. No verão, o sol é abrasador. No inverno, as geadas vidram os ribeiros e o frio mata os pardais. O pinhal continua a ser protetor e a guardar mistérios. Na casa da lavoura, as portas estão cerradas. A avó, o avô, a mãe e o pai já  não sobem os degraus. Aqui não há portas traseiras. A cozinha fica do lado esquerdo e os quartos situaram-nos do lado direito. O tanque é apenas parcialmente visível. Entardece. Ouvem-se ainda os balidos mansos das ovelhas. A luz das candeias principia a desenhar sombras. Junto à lareira começam a contar-se histórias antigas, as intrigas dos vizinhos, enquanto o pote de ferro coze lentamente as batatas, as couves e as carnes. Da varanda, os mais afoitos assistem ao extraordinário fogo do pôr do sol. Para mim, esse é o retrato que representa o fim do mundo. Com a ajuda dos livros relembro os natais antigos, os quartos caiados, as candeias toda a noite acesas. Jesus tremeluze e os adultos olham com indiferença o presépio. O oiro e a neve são falsos. As crianças adormecem junto do calor da lareira. Lá fora, o imenso e silencioso céu permanece imutável. O isolamento atual é opressivo. As ruínas são irremediáveis. Já ninguém escora vigas, nem conserta caleiras. A nossa felicidade afasta-se cada vez mais. As manhãs de aguaceiros ainda possuem a mesma luz de prata. Lembro-me do agosto à beira-mar ter vento e levantar o pano das barracas e de fazer rolar os chapéus de palhinha para o oceano. Mesmo à beira-mar, a tranquilidade das igrejas era sombria. Ainda hoje continua a ser assim. O vento faz sentir nas pernas o chicote de areia. O vento faz voar o cabelo. Até a mãe parece uma alma penada bonita. Esse tempo media-se pelo calendário das festas litúrgicas e das procissões. Agora o tempo é outro. As construções são de cimento armado. Já não há vidros nos cafés para refletirem os sorrisos sensuais das raparigas, as meninas bonitas já não puxam as saias para esconder as pernas. A mãe e o pai já não fazem parte do nosso ambiente mágico. As tardes na província são como inaugurações sem direito a notícias. Ainda me lembro das meninas finas enterrarem os grilos mortos que lhes oferecíamos junto das magnólias do jardim público. Os seus olhos pareciam abelhas e os seus corpos conventos. Os seus hábitos eram tranquilos. A memória precisa de ventilação para não morrer asfixiada: as carteiras impecavelmente alinhadas, os mapas de Portugal e das colónias, o crucifixo suspenso sobre a secretária do professor. No pátio continuam melancólicas as macieiras, os diospireiros, as figueiras, as pereiras e as camélias. As meninas pareciam móveis novos pintados de velho, como se fossem flores sem tempo e sem cor. Pareciam hóstias irisadas, bonecas vestidas de sossego que se riam como se já fossem infelizes. As mais devotas sabiam  histórias da Bíblia que misturavam com partes de filmes de aventuras. Triste sina é ter vocação para a escrita e nela não descortinar qualquer tipo de utilidade. A cidade é sempre o lugar da mudança. O comboio antigo já deixou há muito tempo de apitar mal irrompia a manhã. As dúvidas exaltam a tristeza. A escrita é uma espécie de milagre que permite recriar, com total liberdade, a criação do mundo. No entanto, a minha depressão ainda não atingiu esse grau de profundidade. Eu sou assim. Mesmo quando estou prestes a desistir, o som de passos ligeiros faz-me sempre ter esperança.  


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Dezembro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Poema Infinito (435): Tod...

. Ao frio

. No Louvre

. 421 - Pérolas e Diamantes...

. Tâmega - Chaves

. No Porto

. No Porto

. Poema Infinito (434): A v...

. Em Bragança

. Em Chaves

. 420 - Pérolas e Diamantes...

. Vilarinho Seco - Barroso

. São Sebastião - Couto Dor...

. S. Sebastião - Alturas do...

. Poema Infinito (433): A e...

. S. Sebastião - Couto de D...

. S. Sebastião - Couto de D...

. 419 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (432): Mat...

. Em Chaves

. Na cozinha de S. Sebastiã...

. 418 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. Chaves - Jardim Público

. Chaves

. Poema Infinito (431): A p...

. No Barroso

. No Barroso

. 417 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (430): Das...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 416 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (429): O d...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 415 - Pérolas e Diamantes...

. Em Chaves

. Em Chaves

. No Barroso

. Poema Infinito (428): Peq...

.arquivos

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar