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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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31
Dez18

423 - Pérolas e Diamantes: A indignação lírica

João Madureira

 

 

Os tempos não estão para brincadeiras. Os olhos dos vingativos, dos ressentidos, dos perseguidores, brilham agora como lâminas.

 

As pessoas comuns tornaram-se assustadiças e entorpecidas. Já não sabemos se ainda é possível confiarmos uns nos outros, seja para o que for.

 

Uma coisa, pelo menos, aprendi com James Baldwin: Não é o amor nem o terror o que nos torna cegos, é a indiferença. E, como diz o povo, não existe pior cego do que aquele que não quer ver.

 

Em 1971, o Partido Comunista Chinês proclamou oficialmente que “fazer amor é uma doença mental que desperdiça tempo e energia”.

 

O que gostava mesmo era de fazer ioga sentado no chão em busca de paz interior, com os braços e as pernas ondulando suavemente no ar imóvel. Ou passar o resto da manhã a ler. Mas a minha coluna não deixa e a minha profissão chama-me.

 

Olho lá para fora e o sol já está no zénite, envolvendo o mundo. Penso que tudo o que uma pessoa ama está sempre em risco.

 

Há pessoas com quem é fácil conversar, mas sentem-se rapidamente os limites. Todas elas  parecem interessar-se pelo mesmo tipo de livro.

 

No fundo, as histórias são como a roupa que temos no guarda-fatos, temos de as vestir se as quisermos compreender.

 

Há histórias verdadeiras que não me saem da cabeça. Por exemplo, a da poetisa russa Akhmatova, cujo marido foi executado pelos comunistas e o filho passou anos num campo prisional. Ela vivia num quarto vigiada pela polícia secreta, sempre com medo de ser presa. Costumava receber a visita de amigos com quem falava sobre assuntos para despistar os polícias à escuta. Akhmatova mostrava-lhes numa mortalha de cigarro os versos de um poema que tinha escrito para que eles o lessem e decorassem. Quando os amigos lhe faziam sinal acendia um fósforo e pegava fogo à mortalha.

 

James Salter conta que quando vamos a casa de um russo e nos sentamos com ele, normalmente na cozinha, mesmo que seja só para um chá, ele dá-nos a sua alma.

 

Penso no início de um novo romance em que dois anjos, um verdadeiro e um falso, param junto de uma orquestra num baile de máscaras e põem-se a fumar cigarros. Ir falar com eles talvez seja uma atitude imprudente, no entanto o Luís decidiu cinco vezes que não. E outras tantas que sim. No fim, resolveu outra coisa e foi passear por entre sultões e Cleópatras. Passou uma noite fantástica a vaguear. Sexo nem vê-lo. Andava teimosamente de olhos vendados.

 

Então não é que estamos ricos!

 

Já podemos dispensar a pesquisa de petróleo e mesmo deixar que os portos encerrem portas para impedir as nossas exportações de qualidade. Até já nos damos ao luxo de que as estradas desapareçam sem que nos apercebamos. Entretanto, a esquerda preocupa-se com o IVA das touradas em vez de se preocupar com o preço do bife do lombo. Esse é o seu sentido apurado de classe. A política já não faz apenas de conta. É mesmo uma fraude. Até as causas ambientais deixaram de ser fraturantes para passarem a ser filantrópicas.

 

Uma coisa eu sei, neste tempo de emparelhamentos conjunturais, a amizade contribui para a produtividade.

 

Nossa Senhora de Fátima consegue, todos os dias treze, transformar os nossos resultados medíocres em grandes sucessos. A economia é uma coisa de fé.

 

A nós sempre nos faltaram os coletes amarelos. Não é que nos falte energia. Não, isso não. O que nos subtraíram foi o descodificador para podermos optar entre a fatura fixa ou variável da eletricidade.

 

Afinal, quem é que capitaliza as nossas linhas de crédito?

 

Uma coisa vamos resolver de certeza: as touradas. Os queridos camaradas socialistas propõem que elas sejam realizadas sem sangue e com velcro. O poeta Manuel Alegre  até acha a ideia interessante. Os acagaçados aficionados politicamente corretos acham bem e até os dirigentes do PAN admitem que essa pode ser a solução.

 

Mas, ironia à parte, uma coisa me deixa muito próximo de acreditar no futuro de Portugal. O BE. O partido de Catarina Martins, segundo o “Expresso”, dá lucro e não tem dívidas à banca. E até o leasing dos carros já pagou.

 

O inverno deixa a minha cidade triste. Pelo menos é o que me parece. A cidade perdeu voz. O seu silêncio traz-me lágrimas aos olhos. Penso que é da idade.

 

Não podemos esperar que aqueles que desfeiteamos nos venham agradecer.

 

Provavelmente estou enganado. E eu já me enganei tantas vezes! A água do rio continua a correr. Oiço o rumor das árvores. Gosto de acordar com a luz da manhã a refletir-se nas delicadas cortinas de renda. Por vezes, o silêncio pode ser inquietante.

 

Tão inquietante como o facto de sermos a única civilização que paga a especialistas para ouvirmos confidências sobre o (nosso) sexo.

 

Passamos do confessionário ao divã, pensando que isso é o progresso. É difícil libertarmo-nos do conceito de pecado.

 

Como escreveu Foucault: “É bem verdade que os bons governos gostam da salutar indignação dos governados, conquanto ela se mantenha lírica”.

 

Feliz 2019.

27
Dez18

Poema Infinito (437): A árvore do desejo

João Madureira

 

O meu coração tem agora o rigor das sombras. O nevoeiro é tão espesso como a distância. Apesar de translúcida, a razão é obscura. Aproximo-me de ti através das palavras, do silêncio e da sua incisão deliberada. É como expor uma ferida ao ar sem a proteger. Não sabemos se infeta, ou cura. No papel onde escrevo, o poema cresce e ramifica-se. É perfeitamente impuro, sinuoso, inteiro, como a ternura. Este não é um novo poema sobre a tristeza. Apesar da sua roda lenta deixar passar o luar de janeiro. As mãos em concha recolhem as lágrimas da aurora, que são bonitas, mas não reconhecem a felicidade do tempo, nem a infelicidade das horas passadas a ouvir, a querer. A crer. A endoidecer. Apesar dos desenganos, a tristeza não diminui. Dizes: Não tornarão mais a mim os teus olhos. Enganas-te. Os meus braços crescem como se fossem asas. Fecho os olhos e espero por ti. As vigílias amorosas são uma espécie de descanso. O êxtase é uma espécie de droga. Uma espécie de prisão. As adorações flagelam sempre os adoradores. Nascem delas as horas sobrenaturais, a paz noturna, os rios esquecidos, o vento humilde, o vento das alturas, o silêncio das folhas, o choro das insinuações. A noite imobiliza-se mesmo por cima de ti. E também eu. Os meus murmúrios. Os astros. O coração maternal da terra. Os remorsos. A glória. A glória perdida. Tudo o que é longínquo, imaterial, inacessível. Dentro de mim, as lembranças dormem, como que esquecidas, como que arrependidas, como se fossem a voz da saudade. E, efetivamente, são-no. Fico então tão só como uma montanha silenciosa. A sombra da casa desenha os contornos do desaparecimento. As rosas refletem-se tristemente nos espelhos dos olhos das vacas que as comem como se fossem erva de outra cor. Observo com benevolência o meu corpo exausto. Tento não perder os fragmentos do apocalipse. Os murmúrios reproduzem-se até ao infinito. Ou um pouco mais além. O amor pode ser uma das formas experimentais da ternura agressiva. Os factos ocorridos transformam-se em sombras. As cartas repletas de inutilidades amorosas provocam ainda mais sede. A avó tenta mais uma vez tecer no tear o manto de ternura com que nos quer cobrir. As linhas com que se cose a intimidade mantêm-se secretas. E assim continuarão até que alguém descubra a sua origem. Invade-me o hábito puríssimo do desejo. Cresce em mim como a naturalidade das plantas. Visto-me com o seu vapor branco, com a sua iluminação noturna, com a sua intimidade orgástica. Deixei de cultivar certezas. Antes que as estrelas tombem no teu regaço, beijo-te o corpo imaculado, a alma do teu clitóris, a inquietação estremecida do teu corpo, as tuas nádegas, os teus seios, os teus lábios, a tua vagina rosácea. Depois aquieto-me no teu sono. Sonho constantemente que me apareces em orgasmos sucessivos, venturosa, desenganada, descendo em mim como se fosses o meu destino. Abençoada sejas. Essa é a tua glória. A árvore do desejo entra pelo espelho. Prometo a mim mesmo investigar o teu rosto, o teu corpo, a superfície milimétrica do teu desejo, a face polida do teu desejo. Pouso o meu olhar sobre o ensaio estilístico dos teus seios. Os frutos nunca estão sós. Pouso o olhar sobre o desenho improvável do teu sexo aberto. As flores nunca estão sozinhas. Gosto de pensar que o meu sexo é uma espécie de D. Quixote.

24
Dez18

Um, dois, três e...

João Madureira

 

1 - Venho aqui dar-vos conta da minha profunda admiração pelos semáforos. Pelo simples facto de mudarem de cor conforme são programados, fazem com que as pessoas e os carros não se embaralhem nas estradas. Quando acende a luz verde para os peões, logo do outro lado aparece o vermelho para os automobilistas. E quando abre o sinal verde para os automobilistas, é o vermelho a cor que cintila para os peões. E a história é sempre assim. Verde para uns, vermelho para outros. Vermelho para uns, verde para outros. Por isso aprecio os semáforos. Também tenho muito respeito pelas passadeiras. Sem elas, os semáforos não podiam desempenhar a sua tarefa com a qualidade devida. Considero muito os semáforos e tenho uma simpatia muito especial pelos postes de iluminação pública, além de apreciar os candeeiros, as lanternas, os projetores, os pisca-piscas dos carros, as velas e os archotes. Mas não era disso que eu hoje vos queria falar. Hoje era mais dos sentimentos das pessoas pelos tecidos de lã.A lã advém do pelo da ovelha. Quase toda ela. A lã, não a ovelha. Porque a ovelha não é só lã. Também é carne e leite. As ovelhas são tidas muito em conta na linguagem infantil. E são animais muito dóceis, muito meigos e muito dados. Mas não era das ovelhas que hoje vos queria falar. Hoje era mais dos tecidos. Especialmente da lã. A lã é muito quente e dela se faz muita e boa roupa. Roupa agradável ao tato. Quando a lã é tingida também fica muito agradável ao olhar. Mas para se obter a lã, os trabalhos são muitos, variados e cansativos. Está claro que atualmente existem muitas máquinas que ajudam nessas tarefas. Antigamente era outra cantiga. Uma cantiga bem mais arrastada e gemida. Atualmente quase todas as cantigas são muito simples, mas berradas. O que não se compreende muito bem pois as tarefas são bem mais descansadas que antigamente. Antigamente não havia semáforos, nem carros, nem passadeiras. Eram tempos mais descansados, mas mais tristes e melancólicos. Quase tudo era campo, animais e florestas. Hoje é mais estradas, carros e cães. Também há muitos telemóveis. Hoje fala-se muito e diz-se pouco. Antigamente falava-se pouco e dizia-se muito mais.Também se escrevia menos mas com muita mais qualidade. Tinha que se poupar no papel e na tinta, é que havia pouco e era caro. Hoje não, hoje até já dão os jornais e as revistas, só por causa da publicidade. Por falar em dar, a Câmara de C. também organiza uns concertos bem agradáveis na Praça de Camões. A Câmara gosta muito de dar música aos seus munícipes. E faz bem. Os munícipes são muito cordatos, responsáveis e trabalhadores especialmente produtivos. Por isso é com muito agrado que assistimos a estas suas iniciativas. Pena é os munícipes não poderem retribuir na mesma moeda. Pois era uma obra admirável podermos também dar música à nossa autarquia, especialmente aos senhores vereadores e, muito especialmente, ao senhor presidente, que tão exausto deve andar com a administração do nosso concelho. No entanto aqui fica a sugestão, para quem, mais avisado e empreendedor do que nós, possa trabalhar nesse sentido.

 

2 - Chove. Lá fora chove. E eu vou passear. Passear à chuva é uma tarefa solitária. Como solitário é um coração compassivo. Vou dando voltas e mais voltas e ouvindo as gotas caindo no chão. Não penso em nada. Só na chuva a cair. As árvores agitam-se com o vento. O vento enerva-se com a chuva. A chuva excita-se com as nuvens. As nuvens escorregam lá no alto. Dirijo-me à quinta de um amigo que vive longe. Vou lá muitas vezes quando chove. Vou lá ver os rododendros e as murtas, os eucaliptos e os pinheiros mansos, os carvalhos e os castanheiros. Sento-me numa fraga redonda e alta e oiço os pássaros cantar no meio da chuva. Os pássaros estão molhados e desiludidos. Cantam como quem se lamenta. Depois voam em pequenos trajetos e voltam ao mesmo lugar de onde saíram. Gosto de ouvir a chuva a bater nos vidros das janelas da casa abandonada. Sugerem pequenas pedradas de namorados. O musgo, das pedras do muro que suportam uma fonte, ampara pequenas gotas de água nos seus exíguos filamentos. Parecem pequenos diamantes nervosos. Quando fecho os olhos sinto o cheiro uniforme da humidade do ar misturado com o odor da terra molhada. Chove na superfície meiga da água do poço. Continua a chover quando me venho embora. O som da chave na fechadura do portão da quinta desperta um gato que dormita num vão de escada. Ao longe um cão ladra pausadamente. Os meus passos ecoam no silêncio da calçada deserta. O meu olhar descai para a direita. Lembro-me então de abrir o guarda-chuva para aliviar a pressão. Volto para casa para ler um poema chinês que fala do voo de uma borboleta no meio da chuva.

 

3 - Eu bem sei que não te ajustas. Eu sei que não te ajustas. Não te ajustas, eu sei bem. Quem sabe bem que não te ajustas é a tua mãe. Também o teu pai pressente essa mesma indefinição. Não te ajustas bem ao perfil. Não é que não tenhas perfil. Ele é que não se te ajusta. Ou tu não te ajustas a ele. Ou as duas coisas em simultâneo. Eu sei que não é de tua vontade que te desajustas. Tu és mesmo assim e temos que nos conformar com isso mesmo. Bem, não é conformarmo-nos com esse desajuste que não se te ajusta. É mais termos paciência e vontade em sermos nós próprios. O desajuste é um termo pouco ajustado para a tua situação. Aqui calhava melhor um ligeiro sentido de inoportunidade semântica, ou comportamental, ou de postura, ou intelectual. Bem vistas as coisas, nem os arquétipos definidores se te ajustam convenientemente. Mas isso também faz parte do teu desajuste intrínseco. Já desde pequeno que o teu comportamento mais ajustado é estares e seres desajustado. Mas isso tem a sua beleza. Tem o seu encanto próprio, a sua autenticidade policromática. Fora isso, sinto que és o ser mais ajustado e sincero que conheço. Mesmo sendo e estando desajustado, qualquer dia és tu o ajustado e os outros é que vão andar atrás de ti para se ajustarem. Ou desajustarem.

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