Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2018

423 - Pérolas e Diamantes: A indignação lírica

 

 

Os tempos não estão para brincadeiras. Os olhos dos vingativos, dos ressentidos, dos perseguidores, brilham agora como lâminas.

 

As pessoas comuns tornaram-se assustadiças e entorpecidas. Já não sabemos se ainda é possível confiarmos uns nos outros, seja para o que for.

 

Uma coisa, pelo menos, aprendi com James Baldwin: Não é o amor nem o terror o que nos torna cegos, é a indiferença. E, como diz o povo, não existe pior cego do que aquele que não quer ver.

 

Em 1971, o Partido Comunista Chinês proclamou oficialmente que “fazer amor é uma doença mental que desperdiça tempo e energia”.

 

O que gostava mesmo era de fazer ioga sentado no chão em busca de paz interior, com os braços e as pernas ondulando suavemente no ar imóvel. Ou passar o resto da manhã a ler. Mas a minha coluna não deixa e a minha profissão chama-me.

 

Olho lá para fora e o sol já está no zénite, envolvendo o mundo. Penso que tudo o que uma pessoa ama está sempre em risco.

 

Há pessoas com quem é fácil conversar, mas sentem-se rapidamente os limites. Todas elas  parecem interessar-se pelo mesmo tipo de livro.

 

No fundo, as histórias são como a roupa que temos no guarda-fatos, temos de as vestir se as quisermos compreender.

 

Há histórias verdadeiras que não me saem da cabeça. Por exemplo, a da poetisa russa Akhmatova, cujo marido foi executado pelos comunistas e o filho passou anos num campo prisional. Ela vivia num quarto vigiada pela polícia secreta, sempre com medo de ser presa. Costumava receber a visita de amigos com quem falava sobre assuntos para despistar os polícias à escuta. Akhmatova mostrava-lhes numa mortalha de cigarro os versos de um poema que tinha escrito para que eles o lessem e decorassem. Quando os amigos lhe faziam sinal acendia um fósforo e pegava fogo à mortalha.

 

James Salter conta que quando vamos a casa de um russo e nos sentamos com ele, normalmente na cozinha, mesmo que seja só para um chá, ele dá-nos a sua alma.

 

Penso no início de um novo romance em que dois anjos, um verdadeiro e um falso, param junto de uma orquestra num baile de máscaras e põem-se a fumar cigarros. Ir falar com eles talvez seja uma atitude imprudente, no entanto o Luís decidiu cinco vezes que não. E outras tantas que sim. No fim, resolveu outra coisa e foi passear por entre sultões e Cleópatras. Passou uma noite fantástica a vaguear. Sexo nem vê-lo. Andava teimosamente de olhos vendados.

 

Então não é que estamos ricos!

 

Já podemos dispensar a pesquisa de petróleo e mesmo deixar que os portos encerrem portas para impedir as nossas exportações de qualidade. Até já nos damos ao luxo de que as estradas desapareçam sem que nos apercebamos. Entretanto, a esquerda preocupa-se com o IVA das touradas em vez de se preocupar com o preço do bife do lombo. Esse é o seu sentido apurado de classe. A política já não faz apenas de conta. É mesmo uma fraude. Até as causas ambientais deixaram de ser fraturantes para passarem a ser filantrópicas.

 

Uma coisa eu sei, neste tempo de emparelhamentos conjunturais, a amizade contribui para a produtividade.

 

Nossa Senhora de Fátima consegue, todos os dias treze, transformar os nossos resultados medíocres em grandes sucessos. A economia é uma coisa de fé.

 

A nós sempre nos faltaram os coletes amarelos. Não é que nos falte energia. Não, isso não. O que nos subtraíram foi o descodificador para podermos optar entre a fatura fixa ou variável da eletricidade.

 

Afinal, quem é que capitaliza as nossas linhas de crédito?

 

Uma coisa vamos resolver de certeza: as touradas. Os queridos camaradas socialistas propõem que elas sejam realizadas sem sangue e com velcro. O poeta Manuel Alegre  até acha a ideia interessante. Os acagaçados aficionados politicamente corretos acham bem e até os dirigentes do PAN admitem que essa pode ser a solução.

 

Mas, ironia à parte, uma coisa me deixa muito próximo de acreditar no futuro de Portugal. O BE. O partido de Catarina Martins, segundo o “Expresso”, dá lucro e não tem dívidas à banca. E até o leasing dos carros já pagou.

 

O inverno deixa a minha cidade triste. Pelo menos é o que me parece. A cidade perdeu voz. O seu silêncio traz-me lágrimas aos olhos. Penso que é da idade.

 

Não podemos esperar que aqueles que desfeiteamos nos venham agradecer.

 

Provavelmente estou enganado. E eu já me enganei tantas vezes! A água do rio continua a correr. Oiço o rumor das árvores. Gosto de acordar com a luz da manhã a refletir-se nas delicadas cortinas de renda. Por vezes, o silêncio pode ser inquietante.

 

Tão inquietante como o facto de sermos a única civilização que paga a especialistas para ouvirmos confidências sobre o (nosso) sexo.

 

Passamos do confessionário ao divã, pensando que isso é o progresso. É difícil libertarmo-nos do conceito de pecado.

 

Como escreveu Foucault: “É bem verdade que os bons governos gostam da salutar indignação dos governados, conquanto ela se mantenha lírica”.

 

Feliz 2019.


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Domingo, 30 de Dezembro de 2018

No museu

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Sábado, 29 de Dezembro de 2018

No monte

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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2018

Na igreja

Barroso - Penedones, ETC, XT1 209 - cópia copy.j

 


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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2018

Poema Infinito (437): A árvore do desejo

 

O meu coração tem agora o rigor das sombras. O nevoeiro é tão espesso como a distância. Apesar de translúcida, a razão é obscura. Aproximo-me de ti através das palavras, do silêncio e da sua incisão deliberada. É como expor uma ferida ao ar sem a proteger. Não sabemos se infeta, ou cura. No papel onde escrevo, o poema cresce e ramifica-se. É perfeitamente impuro, sinuoso, inteiro, como a ternura. Este não é um novo poema sobre a tristeza. Apesar da sua roda lenta deixar passar o luar de janeiro. As mãos em concha recolhem as lágrimas da aurora, que são bonitas, mas não reconhecem a felicidade do tempo, nem a infelicidade das horas passadas a ouvir, a querer. A crer. A endoidecer. Apesar dos desenganos, a tristeza não diminui. Dizes: Não tornarão mais a mim os teus olhos. Enganas-te. Os meus braços crescem como se fossem asas. Fecho os olhos e espero por ti. As vigílias amorosas são uma espécie de descanso. O êxtase é uma espécie de droga. Uma espécie de prisão. As adorações flagelam sempre os adoradores. Nascem delas as horas sobrenaturais, a paz noturna, os rios esquecidos, o vento humilde, o vento das alturas, o silêncio das folhas, o choro das insinuações. A noite imobiliza-se mesmo por cima de ti. E também eu. Os meus murmúrios. Os astros. O coração maternal da terra. Os remorsos. A glória. A glória perdida. Tudo o que é longínquo, imaterial, inacessível. Dentro de mim, as lembranças dormem, como que esquecidas, como que arrependidas, como se fossem a voz da saudade. E, efetivamente, são-no. Fico então tão só como uma montanha silenciosa. A sombra da casa desenha os contornos do desaparecimento. As rosas refletem-se tristemente nos espelhos dos olhos das vacas que as comem como se fossem erva de outra cor. Observo com benevolência o meu corpo exausto. Tento não perder os fragmentos do apocalipse. Os murmúrios reproduzem-se até ao infinito. Ou um pouco mais além. O amor pode ser uma das formas experimentais da ternura agressiva. Os factos ocorridos transformam-se em sombras. As cartas repletas de inutilidades amorosas provocam ainda mais sede. A avó tenta mais uma vez tecer no tear o manto de ternura com que nos quer cobrir. As linhas com que se cose a intimidade mantêm-se secretas. E assim continuarão até que alguém descubra a sua origem. Invade-me o hábito puríssimo do desejo. Cresce em mim como a naturalidade das plantas. Visto-me com o seu vapor branco, com a sua iluminação noturna, com a sua intimidade orgástica. Deixei de cultivar certezas. Antes que as estrelas tombem no teu regaço, beijo-te o corpo imaculado, a alma do teu clitóris, a inquietação estremecida do teu corpo, as tuas nádegas, os teus seios, os teus lábios, a tua vagina rosácea. Depois aquieto-me no teu sono. Sonho constantemente que me apareces em orgasmos sucessivos, venturosa, desenganada, descendo em mim como se fosses o meu destino. Abençoada sejas. Essa é a tua glória. A árvore do desejo entra pelo espelho. Prometo a mim mesmo investigar o teu rosto, o teu corpo, a superfície milimétrica do teu desejo, a face polida do teu desejo. Pouso o meu olhar sobre o ensaio estilístico dos teus seios. Os frutos nunca estão sós. Pouso o olhar sobre o desenho improvável do teu sexo aberto. As flores nunca estão sozinhas. Gosto de pensar que o meu sexo é uma espécie de D. Quixote.


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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018

Na aldeia

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Terça-feira, 25 de Dezembro de 2018

ST

barroso - volta por SAlto 174 - cópia copy - co

 


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Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2018

Um, dois, três e...

 

1 - Venho aqui dar-vos conta da minha profunda admiração pelos semáforos. Pelo simples facto de mudarem de cor conforme são programados, fazem com que as pessoas e os carros não se embaralhem nas estradas. Quando acende a luz verde para os peões, logo do outro lado aparece o vermelho para os automobilistas. E quando abre o sinal verde para os automobilistas, é o vermelho a cor que cintila para os peões. E a história é sempre assim. Verde para uns, vermelho para outros. Vermelho para uns, verde para outros. Por isso aprecio os semáforos. Também tenho muito respeito pelas passadeiras. Sem elas, os semáforos não podiam desempenhar a sua tarefa com a qualidade devida. Considero muito os semáforos e tenho uma simpatia muito especial pelos postes de iluminação pública, além de apreciar os candeeiros, as lanternas, os projetores, os pisca-piscas dos carros, as velas e os archotes. Mas não era disso que eu hoje vos queria falar. Hoje era mais dos sentimentos das pessoas pelos tecidos de lã.A lã advém do pelo da ovelha. Quase toda ela. A lã, não a ovelha. Porque a ovelha não é só lã. Também é carne e leite. As ovelhas são tidas muito em conta na linguagem infantil. E são animais muito dóceis, muito meigos e muito dados. Mas não era das ovelhas que hoje vos queria falar. Hoje era mais dos tecidos. Especialmente da lã. A lã é muito quente e dela se faz muita e boa roupa. Roupa agradável ao tato. Quando a lã é tingida também fica muito agradável ao olhar. Mas para se obter a lã, os trabalhos são muitos, variados e cansativos. Está claro que atualmente existem muitas máquinas que ajudam nessas tarefas. Antigamente era outra cantiga. Uma cantiga bem mais arrastada e gemida. Atualmente quase todas as cantigas são muito simples, mas berradas. O que não se compreende muito bem pois as tarefas são bem mais descansadas que antigamente. Antigamente não havia semáforos, nem carros, nem passadeiras. Eram tempos mais descansados, mas mais tristes e melancólicos. Quase tudo era campo, animais e florestas. Hoje é mais estradas, carros e cães. Também há muitos telemóveis. Hoje fala-se muito e diz-se pouco. Antigamente falava-se pouco e dizia-se muito mais.Também se escrevia menos mas com muita mais qualidade. Tinha que se poupar no papel e na tinta, é que havia pouco e era caro. Hoje não, hoje até já dão os jornais e as revistas, só por causa da publicidade. Por falar em dar, a Câmara de C. também organiza uns concertos bem agradáveis na Praça de Camões. A Câmara gosta muito de dar música aos seus munícipes. E faz bem. Os munícipes são muito cordatos, responsáveis e trabalhadores especialmente produtivos. Por isso é com muito agrado que assistimos a estas suas iniciativas. Pena é os munícipes não poderem retribuir na mesma moeda. Pois era uma obra admirável podermos também dar música à nossa autarquia, especialmente aos senhores vereadores e, muito especialmente, ao senhor presidente, que tão exausto deve andar com a administração do nosso concelho. No entanto aqui fica a sugestão, para quem, mais avisado e empreendedor do que nós, possa trabalhar nesse sentido.

 

2 - Chove. Lá fora chove. E eu vou passear. Passear à chuva é uma tarefa solitária. Como solitário é um coração compassivo. Vou dando voltas e mais voltas e ouvindo as gotas caindo no chão. Não penso em nada. Só na chuva a cair. As árvores agitam-se com o vento. O vento enerva-se com a chuva. A chuva excita-se com as nuvens. As nuvens escorregam lá no alto. Dirijo-me à quinta de um amigo que vive longe. Vou lá muitas vezes quando chove. Vou lá ver os rododendros e as murtas, os eucaliptos e os pinheiros mansos, os carvalhos e os castanheiros. Sento-me numa fraga redonda e alta e oiço os pássaros cantar no meio da chuva. Os pássaros estão molhados e desiludidos. Cantam como quem se lamenta. Depois voam em pequenos trajetos e voltam ao mesmo lugar de onde saíram. Gosto de ouvir a chuva a bater nos vidros das janelas da casa abandonada. Sugerem pequenas pedradas de namorados. O musgo, das pedras do muro que suportam uma fonte, ampara pequenas gotas de água nos seus exíguos filamentos. Parecem pequenos diamantes nervosos. Quando fecho os olhos sinto o cheiro uniforme da humidade do ar misturado com o odor da terra molhada. Chove na superfície meiga da água do poço. Continua a chover quando me venho embora. O som da chave na fechadura do portão da quinta desperta um gato que dormita num vão de escada. Ao longe um cão ladra pausadamente. Os meus passos ecoam no silêncio da calçada deserta. O meu olhar descai para a direita. Lembro-me então de abrir o guarda-chuva para aliviar a pressão. Volto para casa para ler um poema chinês que fala do voo de uma borboleta no meio da chuva.

 

3 - Eu bem sei que não te ajustas. Eu sei que não te ajustas. Não te ajustas, eu sei bem. Quem sabe bem que não te ajustas é a tua mãe. Também o teu pai pressente essa mesma indefinição. Não te ajustas bem ao perfil. Não é que não tenhas perfil. Ele é que não se te ajusta. Ou tu não te ajustas a ele. Ou as duas coisas em simultâneo. Eu sei que não é de tua vontade que te desajustas. Tu és mesmo assim e temos que nos conformar com isso mesmo. Bem, não é conformarmo-nos com esse desajuste que não se te ajusta. É mais termos paciência e vontade em sermos nós próprios. O desajuste é um termo pouco ajustado para a tua situação. Aqui calhava melhor um ligeiro sentido de inoportunidade semântica, ou comportamental, ou de postura, ou intelectual. Bem vistas as coisas, nem os arquétipos definidores se te ajustam convenientemente. Mas isso também faz parte do teu desajuste intrínseco. Já desde pequeno que o teu comportamento mais ajustado é estares e seres desajustado. Mas isso tem a sua beleza. Tem o seu encanto próprio, a sua autenticidade policromática. Fora isso, sinto que és o ser mais ajustado e sincero que conheço. Mesmo sendo e estando desajustado, qualquer dia és tu o ajustado e os outros é que vão andar atrás de ti para se ajustarem. Ou desajustarem.


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Domingo, 23 de Dezembro de 2018

Neve no Barroso

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Sábado, 22 de Dezembro de 2018

Neve no Barroso

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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2018

Neve no Barroso

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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2018

Poema Infinito (436): A fina arte de remendar

 

Por vezes correm ventos de loucura pelos corredores do tempo. Existe uma felicidade secreta, provavelmente infeliz, na solidão tranquila e gratuita do lar doméstico. Soljenitsin sabia-o e por isso detestava o robot avariado do socialismo real. A verdade é que a realidade acaba por matar até o mais santo dos homens. Sempre admirei na minha avó a sua arte simples de remendar peúgas e cerzir tecidos. Era uma habilidade calma e não provocava dor. Enquanto a efetuava, não demonstrava entusiasmo nem pronunciava qualquer tipo de reclamação. Foi o seu cérebro eclético que inundou de luz a minha verdade. Mas também me ensinou que ninguém pode saber realmente o que é a verdade. Essa é a maior delas, sei-o agora. As ilusões de outrora são presentemente pássaros empalhados. Existe, vinda da modernidade, uma espécie de paralisia espiritual. Flutuam as imagens de um passado perdido para sempre e também as nebulosas certezas de um futuro que não se poderá conhecer. Adamson lembrou-me a minha avó: “A arte de remendar não é eficaz senão quando feita conscienciosamente.” Essa é a imensa tristeza da segunda parte. Na primeira, fui-me a ti, ordenado pela acaso, guiado pela luz dos teus olhos, subindo por eles como se fossem uma escadaria de astros. O teu corpo era um palácio branco. Colhemos depois os lírios, as tardes, e toda a ansiedade da relva onde deitámos os nossos corpos. A distração era feliz. A paisagem era simples e quieta. Tu fechaste os olhos como uma ave mansa. Desaguei em ti enquanto olhava a mobilidade dos ramos. Eram então longas as noites e as estrelas faziam parte dos pensamentos mais íntimos. Perdíamos  a ansiedade apalpando o sexo um do outro. A felicidade era uma espécie de paisagem total, distraída e feliz. Lá ao longe nasciam cardos estreitos, músicas sereníssimas, silêncios purificados. O êxtase ficava sempre muito perto de nós. Morávamos num país luminoso. A tristeza, quando vinha, escondia-se na penumbra e ali ficava quieta a aguardar a sua vez. Por vezes esperava a noite. Esperava-te na noite. Quando chegavas trazias os cabelos carregados de estrelas e as mãos enfeitadas de luas. Tocava com os meus gestos nos teus gestos. As minhas mãos teciam carinhos de seda. O teu amor era uma espécie de lenda. Os teus olhos brilhavam como se fossem o sol nascente. A minha boca buscava a sede da tua. É difícil libertar-nos da ansiedade, das lendas e dos trajes. Depois, as flores do jardim começaram a morrer e também as vozes dos avós. A seguir a dos pais. E as nossas começaram a ficar roucas. Pensar na eternidade é uma outra forma de sofrimento. Na segunda parte, a ronda da tristeza é mais lenta e mais longa. A imagem da avó ergue as mãos, no seu luto solitário, sozinha, com os olhos rasos de água. Ela não me vê, não me ouve. Tenho pena da avó como tenho pena das aves que endoidecem momentos antes de morrerem. A tristeza não diminui. Os velhos magos refugiam-se dentro dela. Adormeceu antes de partir definitivamente. Parece agora aliviada. Tenho medo de a perder. Que caminhos sidéreos irá percorrer? Ergue então os braços como se fossem asas. Liberta-se dos últimos pensamentos e diz adeus. A sua imagem procura o ar. As minhas mãos ficam dolorosas. Sou mais uma vez flagelado pelas adorações. Vejo tudo o que está para lá dos céus. Morre-me a voz. Não voltarei a sonhar.


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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

Neve - Vilarinho Seco

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Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018

Neve em Barroso

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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018

422 - Pérolas e Diamantes: Ser ou não ser... exilado

 

Os dias estão muito curtos de luz, o inverno chegou tarde como cada vez acontece mais.

 

O sol bate enviesado sobre as árvores do campo.

 

Na cidade, na nossa cidade, onde antigamente as raparigas ociosas paravam diante das montras das lojas, homens velhos e esgueirados fumam agora cigarros intranquilos com as calças baixas na cinta.

 

Antigamente, com as calças cerzidas e enrodilhadas na cintura, esganavam os kentuckys como quem se alimentava de nicotina, alcatrão e desilusão.

 

E também se emborrachavam com a fantasia e o desespero dos néscios.

 

As paisagens eram então descomplexadamente bonitas, apesar de mais paradas. E as estradas eram sinuosas, mas sustentadas. Hoje são anoréxicas e instaladas nas sobras das pedreiras.

 

Há um vazio nas coisas que me custa a compreender.

 

Apesar disso, a vastidão do céu continua a mesma.

 

Mas de pouco serve.

 

Continuam a chocar-me, e a inquietar-me, as fotografias de mulheres alemãs a chorar com emoção nos desfiles nazis.

 

E também as que se maquilham como se estivessem a servir de modelo a um cangalheiro de vaudeville.

 

E as que militam na esquerda e tendem para a comida vegetariana radical.

 

E as de direita que apreciam embrulhar a sua militância nas graças, ou desgraças, de um bom bife da alcatra de um touro sangrado na arena.

 

As primeiras abusam das saladas.

 

As segundas economizam nas batatas fritas, apesar de cozinhadas em azeite biológico.

 

A vida moderna oscila entre cenas tempestuosas intercaladas por momentos de solidão.

 

A televisão costuma estar sempre pelo meio.

 

A chuva teima em esborratar as janelas com partículas de pó. Não tenho lareira para combater o frio. Ficou na aldeia, acompanhada do fumo que nos punha a chorar.

 

Houve tempos em que tinha um ar inocente. E era mesmo inocente.

 

Claro que escrevia poesia. Mas desisti porque os livros de poesia se vendiam mal. Ainda hoje publicá-los continua a ser um ato de caridade.

 

Penso em Pessoa e Cavafy que levaram vidas cinzentas em cidades de província.

 

Afinal, Lisboa e Alexandria continuam a ser cidades de província visitadas por turistas essencialmente provincianos.

 

Também Carlos Tê continua a versejar no Porto, que é a segunda maior cidade de província portuguesa.

 

Walt Whitman, um dos poetas preferidos de Pessoa, ofereceu mais exemplares do seu Folhas de Erva do que aqueles que vendeu.

 

Uma coisa continua igual: o movimento inexorável do fluxo do tempo, que é infinito.

 

Aposto na loucura: vou ter de publicar um livro de poesia.

 

Os baús antigos continuam a ter a sua utilidade secundária em guardarem dentro de si roupas, fotografias antigas, memórias e outra data de coisas.

 

Os edifícios da nossa cidade têm, neste tempo, a baça felicidade dos espaços suburbanos. A maioria parece vazia. Sendo deste lugar, parece que pertencem a outro.

 

Por aqui vive-se pacatamente, longe dos perigos e do bulício frenético das grandes urbes. Os vizinhos são boas pessoas, as ruas pacatas, os polícias sorridentes e bem-educados e até as quezílias com os presidentes da câmara são simpáticas. Vive-se numa tranquilidade de aldeia. As árvores e os jardins são bonitos e os objetos não caem do céu. Bem vistas as coisas, a aldeia de Astérix fica longe, lá no meio da Europa e da História.

 

De vez em quando deprimimo-nos, sobretudo quando sentimos a injustiça.

 

Por vezes é doce participarmos em sessões públicas de leitura. Somos bons. Somos bons a folhear as edições europeias de modas e artes correlativas, satisfazendo-nos com os ecos da vida sofisticada que por lá se leva.

 

Tento ser um bom tipo. Por aqui gosta-se muito deles. Talvez não o consiga. Mas sou um homem a sério.

 

Por vezes sinto uma sensação de exílio, mas depois penso que ninguém é um exilado na sua própria terra. Era o que mais faltava. Ser ou não ser... eis a questão.

 

Mal me lembro da minha infância e a minha mãe já morreu para ma recordar. Já não me recordo do que fizemos juntos. E deste modo lá se vai uma parte essencial da nossa vida.

 

Ainda me lembro do primeiro apartamento para onde fui viver com a Luzia e o Vasco. O Axel nasceu logo depois. Era um oitavo andar. Havia escassez, simplicidade e um amplo espaço para a felicidade. Havia as estações do ano, as árvores e a erva lá ao longe. E um sol maravilhoso que enchia o quarto enquanto dávamos banho ao Axel na banheira de plástico azul. Essa luz do mundo não a voltei a encontrar.

 

O problema da democracia e do progresso é que reduziram de forma drástica os sítios onde toda a gente se pode encontrar. Um “Olá, com vais?”, dito de viva voz acaba por ser um cumprimento de luxo. Agora vivemos em bolhas. Em bolhas informáticas. Onde cada um fala com todos e não fala com ninguém. Onde todos sabemos daquilo de que falamos mas ninguém sabe aquilo que diz.

 

Como não há filtros, também não há travões.


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Domingo, 16 de Dezembro de 2018

Em Santiago

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Sábado, 15 de Dezembro de 2018

AR

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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018

Em Santiago

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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018

Poema Infinito (435): Toda a verdade toda

 

A verdade toda, toda a verdade... é mentira. As despedidas acontecem. O fingimento está nos outros. Fugir de ti é uma impossibilidade estranha. A mãe deixou de morrer. Faz agora parte do vazio. Desse imenso vazio que transportamos dentro de nós. Tanta gente perto do precipício. Nem dá para acreditar. Sinto-me ainda mais sozinho do que as palavras abandonadas dentro dos livros de metafísica. Deus morreu asfixiado dentro da palavra perdão. Judas baralhou o conceito de traição. Por vezes, o saber torna-se insuportável. A felicidade pode ser muito triste. Uma opinião sincera nunca fere suscetibilidades. Vou às reuniões como quem vai a um velório. A arte não é para respirar. Agora aprende-se nas universidades a superior arte da banalização. O vazio é fantástico. O vazio de agora. O vazio reservado às memórias dos outros. O vazio da guerra. O vazio da paz. O vazio é enorme. Tento não pensar no que me dói. Nas dúvidas. Na forma automática do desejo pós-modernista. O desejo é outra forma de sofrimento. Reparo agora com atenção naquilo que já não dizes. Viver é, por vezes, sair de um vazio para entrar noutro vazio. O problema é quando mudamos de sofrimento como quem muda de camisa. A minha euforia é negativa. A euforia é uma nova espécie de depressão. Há lágrimas que nunca secam. Há orgasmos que nunca acabam. Há ainda outros que nunca chegam a começar. Por isso é que Deus não gosta de sexo. Só a procriação é divina. Por vezes, as almas iluminam-se. E as fadas aparecem nos sonhos de forma remota. Todos conhecemos a desilusão. Chega sempre o dia em que o tempo degola a nossa princesa. E o seu olhar será espalhado pelos ermos azuis. Chegou o outono com as suas cantigas sob o desígnio da serenidade. Penso no tempo das árvores, no vento que passa brando, nos sustos, nas noites desertas, nas horas incertas, no tempo que cai devagar, na inconsolável alma do infinito. A ternura ficou triste por causa da chuva. E a saudade distante. A humildade tem a mesma voz da avó, o seu cismar, a sua compreensão, o seu desencanto. A glória do pobre é sempre triste. Também as sombras ao luar são sempre frias. A chuva desce vagarosa. As almas perdem-se no nevoeiro. A rua sente o seu próprio abandono. As orações são trabalhadas durante a noite. Apetece-me trabalhar ainda mais um pouco na luz viva da juventude. Ela desdobra os espaços, consola as mágoas, atenua o tédio e redime os fracassos. A ausência é sempre distância. Depois de tanto desencanto, escondo-me detrás da consciência. Tudo está no seu lugar. Os rumores são vagarosos. O rebanho está sonolento. As paisagens infelizes. Ouve-se até a cadência alternativa dos eclipses. Só os inconscientes tentam interpretar o apocalipse. As saudades por vezes ficam lentas. A luz ficou ligeiramente opaca, melancólica, densa. Houve um tempo em que as rosas eram de carne, em que o amor era uma espécie de desejo lento,  em que o silêncio era extático. Agora é tudo saudade. Os gestos precedem as bênçãos litúrgicas. Fixo-me no teu olhar nostálgico. Na sua imagem de mistério, no seu irrealismo, na sua inconsciência deslumbrante. A noite morre lenta. O dia chega ao de leve. Qualquer coisa de infinito deve ter o amor. Sinto a sua aragem. A sua doce imprecisão. O seu gesto silencioso a estender-se dentro de mim. A alargar-se. A alargar-me. Sinto a sua iniciação. A sua serenidade. A sua divindade. Os lírios costumam morrer em forma de santidade fechada.


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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018

Ao frio

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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018

No Louvre

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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018

421 - Pérolas e Diamantes: É do espírito...

 

É do espírito do rebanho, é do espírito de manada. É da praxe. Primeiro batem em ti, depois bates tu nos que vêm a seguir. O problema é dos que não conseguem bater. São desprezados por aqueles que batem e por aqueles em quem não batem.

 

Condecorações aos vivos, lendas aos mortos. Dessa forma, todos ficamos contentes.

 

No fundo, os portugueses são uma espécie de ilusionistas que passam a maior parte do tempo a enganar-se a si próprios. Já há muito que perderam a noção do ridículo.

 

Instalou-se entre nós um falso sentimento de compaixão pelas pessoas, mas, sobretudo, pelos animais. E pelas distintas minorias. Como se tudo fosse igual ou valesse o mesmo. Todos os “bolsonaros” deste mundo se alimentam das sobras que esses equívocos geram.

 

Esta pretensa superioridade moral, que tudo vê sob o olhar do relativismo, mais não é, em termos civilizacionais, do que uma autêntica caça aos gambozinos.

 

Afinal Cristo também foi vítima de maquinações políticas, um herói infeliz num processo armadilhado.

 

Penso então nos cães, naqueles que fazem o que os donos querem, que lhes saltam para o colo, lhes lambem as mãos, que dormem ao seu lado, no canapé, onde os senhores autorizam, porque os amam.

 

O patrão é sereno, como a água tépida do lago. Mas nunca se sabe o que está no seu fundo. Por isso, o cão não deve enervar o patrão, porque pode ser posto na rua, quando se está tão bem dentro de casa.

 

E na casa existe um lugar tão bom para um cão.

 

Quando os brancos estavam no poder, nessa época os brancos enforcavam. Eram eles os que enforcavam. Depois chegaram os vermelhos. Eles, os que combatiam os brancos que enforcavam. Eles, os vermelhos. Então os vermelhos passaram a enforcar. Primeiro os brancos. E depois até os vermelhos que eles diziam que tinham passado a comportar-se como os brancos e a conspirar com eles. A verdade é que os que eram enforcados, fossem de que cor fossem, sofriam os mesmos insultos e, depois, sacudiam os pés da mesma maneira, fosse qual fosse a cor em nome da qual eram executados. Numa coisa coincidiam os brancos e os vermelhos: a corda não está nada mal. Sempre é mais confortável do que a bala, porque o tiro nem sempre acerta. Depois tem de se disparar de novo. E, se não morreu, tem de se disparar na nuca.

 

Afinal, bem vistas as coisas, os seres humanos são diferentes dos animais. Governam-se e deixam-se governar, roubam e deixam-se roubar. Matam e deixam-se matar. Vão a centros comerciais, a restaurantes, a comícios e a concertos. Vão para os parlamentos. Votam e deixam-se votar. Votam e deixam-se levar.

 

Mas os animais não sabem denunciar, nem caluniar, e, se roubam, têm as suas razões, pois não podem ir às lojas, talhos ou aos restaurantes.

 

Depois penso em mim. Sim, a minha moral é uma forma de disciplina resultante do treino a que fui sujeito em família e na escola. A minha fé reside numa espécie de budismo que respeita as tradições. O resto procurei-o por iniciativa própria. Ou pedi-o emprestado.

 

Em  pequeno gostava de participar nas piadas dos adultos, mesmo que tivesse de fingir que as entendia.

 

Lembro-me muito bem daqueles pais que odiavam as pessoas por serem ricas e, no entanto, eles próprios queriam ser ricos. O dinheiro era, e é, sempre um problema.

 

Afinal, só compreendemos como nos devemos comportar e apreciar as coisas quando estas nos são retiradas.

 

A autenticidade, aprendi-o à minha custa, nem sempre é uma boa ideia.

 

Apesar dos fatos de boa fazenda, das camisas engomadas e dos sapatos engraxados, é bem verdade que se pode tirar um rústico da província, mas não o contrário.

 

A dita cultura desses letrados baseia-se em citar a ondulação das ervas, o privilégio dos túmulos, a compreensão da pátria, a errática da verdade e as confissões públicas da reconciliação.

 

Fazem lembrar aqueles amantes de consolação fingida, seduzidos por si próprios, hipnotizados pelo transe do poder, que fingem despertar do feitiço quando já não lhes resta outra solução.

 

Dizem que sentem a beleza quando ela é ordem, luxo, calma e volúpia.

 

Chopin é um bom prelúdio para as despedidas. O desaparecimento é a única certeza.

 

Vou até a janela e olho lá para fora. O céu está brumoso. O brunheiro cansado. O sol turvo. As condições meteorológicas são cada vez mais curiosas.

 

Já deixei de correr de um lado para o outro. As mudanças já não são excitantes.

 

Penso então nos criados na política, e da política, nos seus costumes, nas suas superstições engraçadas. Riem-se porque sabem o que andam a urdir. Rimo-nos porque não sabemos aquilo que andam a tramar.

 

Ainda mal são chegados, perdem-se logo na azáfama da partida.

 

Tanto os bons como os maus hábitos demoram o seu tempo a adquirir.

 

Não devemos apressar nem os homens nem a sua humanidade. Quem prega nem sempre o faz a partir daquilo que sente. Muitas vezes nem entende aquilo que diz, apenas sente o apelo de dizer.


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Domingo, 9 de Dezembro de 2018

Tâmega - Chaves

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Sábado, 8 de Dezembro de 2018

No Porto

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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2018

No Porto

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2018

Poema Infinito (434): A volúpia das gelosias

 

 

O dia começou sob o signo da irritação. Apesar do sol. As vozes parecem quebradas. No entanto, a luz dispersa reflete-se por cima dos ícones doirados. O desejo é um instante. Continuo perturbado pelo encantamento do desconhecido. As manhãs geladas possuem a pureza do ferro. A geada branca guarnece o tronco do carvalhos abatidos. As suas brasas aquecerão os dias de inverno. Os espasmos nos braços são mais demorados. Na parede, Dalila contempla o seu regaço. Eu faço o mesmo. O tempo está sossegado e silencioso. A noite dorme no acampamento. Holofernes assedia Betúlia. Judite espia. O silêncio torna-se violento. A confiança reside na profundidade do sono. Os filisteus sorriem. Os olhares mais audazes descobrem clarões sinistros nas fogueiras. A estupidez dos suplícios continua a caminhar por esse mundo fora. Definha a mágoa, definha o orgulho, definha a aristocracia. Tudo é agora mais cauteloso, apesar das multidões se continuarem a aglomerar junto à praça. A vingança é pior do que a guilhotina. Junto ao riso, a brisa suspira, o azul desmaia. Os gemidos escorrem relembrando os mortos, os antigos anseios, a boca de Pedro beijando Inês. A volúpia torna-se lânguida. O sol declina. O meu olhar fica apenas morno. Os pássaros retornam aos seus ninhos. Trocam o acaso pelo ocaso. Babilónia será sempre uma terra de lascívia, de sândalo, de resina. De sangue. As maldições são indignas nos profetas. Antigamente abriam-se as gelosias para entrar toda a luz. As penumbras eram leves, os balcões floridos. As sombras descreviam o aconchego, ampliavam os vultos, aconchegavam os sonhos. Apesar de os perfumes serem vagos, lembro-me de todo o passado morto, do silêncio dos choros, do tempo calmo, dos céus esplêndidos, da estranha dolência da profundidade. Apesar da inocência melindrosa, a minha puberdade tinha alma de Querubim. A noite que agora dorme é profunda. Os olhares são oblíquos. As velhas bruxas continuam a persignar-se. Os olhares das corujas continuam afiados e penetrantes. O livro dos sinais cabalísticos escurece no fundo do baú. É difícil adivinhar a hora a que os cisnes cantam. Nem o abandono, nem as palavras de Deus têm explicação. Só ausência. Apenas morte. Paz aos que não têm fé. A fé é uma forma de inconsequência. Corta-me o espírito das aflições, oiço as suas queixas, as suas pragas desiludidas, o seu sofrimento, a sua renúncia. O desânimo passa breve como o vento. Depois surgem os sustos. E as surpresas. O corpo está desfeito, a alma exausta. O holocausto nasceu da benevolência dos crentes. Não se conseguem alterar as palavras pela pronúncia. Estendo o olhar por este mar imenso de montanhas. Sinto alguma tristeza nas suas brumas suaves. As noites morosas são brancas, graves e mansas. Sinto necessidade de dominar os espaços, de te beijar os seios. As palavras amorosas dispersam-se no ar como um perfume raro. Depois do amor, regressa a monotonia, com os seus sonhos preliminares. Começa a chover mansamente, como um sono tranquilo e pacífico. De manhã abandonei Verlaine e à tarde a música que o tempo me quer impor. A terra fica estranha e a névoa desce pelos ombros da serra. O vento espreita pelas portas. Sinto ainda o choro da avó no seu velho missal e na água triste do ribeiro. Os dias estão contados. Essa é a nossa alegria. E a nossa tristeza.


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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2018

Em Bragança

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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2018

Em Chaves

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Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2018

420 - Pérolas e Diamantes: A indignação necessária

 

 

Por incrível que pareça, houve  judeus que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial por causa do confirmado “paradoxo de Auschwitz”, segundo o qual os judeus que tivessem cometido um crime eram poupados às câmaras de gás. Fiquei a sabê-lo depois de ler o livro de Hanna Arendt, “Eichmann em Jerusalém – uma reportagem sobre a banalidade do mal”.

 

Lembro-me bem da minha avó me contar histórias verdadeiras sobre a guerra civil espanhola que contaminaram, de forma traumática, as populações da fronteira. Eram relatos difíceis de narrar. Ela tentava transmitir-me traços de um universo transfigurado. Acho que foi daí que surgiu o apelo de escrever poesia necessariamente pura, tentando recuperar a sua  alma, a sua candura e uma inocência de coração que só os justos possuem.

 

Ninguém, até hoje, conseguiu igualar a sua radiosa sinceridade.

 

Como disse o médico do exército alemão Peter Bamm, um dos raros memorialistas da Segunda Guerra Mundial, “um dos requintes dos governos totalitários do nosso século consiste em não permitir aos seus adversários que morram como mártires gloriosos em nome das suas convicções”.

 

Em todo o crime tem de haver castigo, pois, como dizia Grócio, ele é necessário “para defender a honra e a autoridade daquele que foi lesado pelo crime, a fim de que a ausência de castigo não cause a sua degradação”.

 

Uma coisa sabemos de ciência certa: a essência do totalitarismo, como a da burocracia, consiste em transformar os homens em funcionários, em singelas peças de máquina administrativa, ou seja, desumanizá-los.

 

Agora existe a tendência, supostamente baseada na psicologia e na biologia, de se atribuir um ato, não ao seu autor, mas aos mais diversos tipos de determinismo.

 

Também há literatos que defendem que a tentação e a coação são uma e a mesmo coisa, ou seja, de que não pode pedir-se a ninguém que resista à tentação. Ora esse argumento, além de falso e falacioso, dá muito jeito para defender comportamentos incorretos, quando não agressivos, em relação ao outro.

 

Parece existir uma espécie de tabu social que redobra quando se trata de criticar as palavras ou os atos de pessoas famosas ou que ocupam cargos de relevo. Costuma argumentar-se nestas ocasiões, com ar superior, que seria “superficial” insistir nos pormenores, ou mencionar nomes. E depois passam às generalizações, dando-se ares de gente sofisticada. Ou seja, que todos temos cor de burro quando foge e que todos, bem vistas as coisas, somos igualmente responsáveis, ou, no limite, que todos agiríamos da mesma maneira.

 

É normal negar os factos verificáveis e as responsabilidades individuais baseados em inumeráveis teorias fundadas em presunções genéricas, abstratas e hipotéticas. Por vezes até invocam o complexo de Édipo que, supostamente, todos transportamos. Tais teorias são tão abrangentes que explicam, e justificam, qualquer tipo de ato ou acontecimento. Quem assim argumenta parte do princípio de que não existem sequer outras alternativas e que, por isso, teria sido impossível agir de outra maneira.

 

Para o bem e para o mal, as responsabilidades morais individuais existem.

 

A ideia de que toda a culpa é coletiva e toda a inocência é individual está errada. Desta forma nenhum indivíduo pode ser considerado culpado ou inocente. É apenas vítima das circunstâncias.

 

Sob o ponto de vista moral, é quase tão mau sentirmo-nos culpados sem ter feito nada, como sentirmo-nos inocentes quando somos efetivamente culpados de alguma coisa.

 

É a velha luta entre ser e não ter e entre ter e não ser.

 

Existe sempre uma réstia de verdade nestas generalidades. De facto, é muito difícil resistir à ilusão das ideologias da moda. Existem os que querem compreender tudo com o intuito de perdoar tudo.

 

O esforço de objetividade deve dar lugar à indignação necessária.

 

De facto, a radicalidade do antissemitismo, que se exprimiu a partir de 1942 através da “solução final”, não foi objeto de desconfiança imediata. Ninguém conseguia acreditar no inacreditável. Dizem que foi a primeira vez que Deus morreu.

 

O comunismo, após 1945, que todos confundiam com a União Soviética e ainda mais com o Exército Vermelho, impôs aos países por onde passava um regime tão despótico quanto o dos nazis. Os mesmos campo de concentração recebiam outros “criminosos”, quando não os mesmos, pois os democratas e os liberais sofriam a mesma sina com Estaline e com Hitler.

 

Com estas atrocidades, Deus voltou a ressuscitar.

 

Como escreveu Raymond Aron a propósito das guerras: “A História nem sempre dá razão à inteligência de raciocínio. As fés coletivas, pelo menos no século XX, são, na sua maioria, grosseiras”.


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Domingo, 2 de Dezembro de 2018

Vilarinho Seco - Barroso

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