Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (442): O que o profeta diz

 

O profeta disse que quando tocava nas zonas periféricas da luz sentia o seu calor e depois conseguia dividir o vento, abrir as searas profundas, entender o valor das palavras e pesar a sua capacidade de abstração. Os objetos em que toca ficam a brilhar. No entanto, as dúvidas continuam a passar de boca em boca. As mãos crispam-se em espasmos. Os corpos desejosos de luz e orgasmos tremem como varas verdes. Os sítios da infância assemelham-se a poços sem fundo. O vento bate as searas, o ar levanta-se. As pessoas aproximam-se dos seus nomes e os nomes dos seus hologramas. Tu és a minha abundância. As estrelas ainda remoinham na mesma clareira onde eu costumava brincar. Lembro de a minha boca devorar a tua em forma de metáfora ininterrupta. Os dedos do tempo movem o mundo. A sua leveza desequilibra o amor. Algumas vezes, tanto vigor. Outras, tanta impotência. Sinto a eletricidade das cópulas primaveris, quando ampliamos os abraços, acendemos os sexos e atingimos a claridade reflexa das cores transitórias. As nossas bocas parecem labaredas. A combustão é instantânea. Sinto-me crescer dentro de ti. Esse é o meu sentido de posse. Essa é a minha pose. As mãos compõem a sintaxe do desejo. A sua ampliação. É quando perdemos o juízo que vamos dar ao paraíso. As estrelas mais claras aparecem nos corpos mais morenos. As estrelas mais morenas aparecem nas peles mais claras. Há quem me interprete como vindo de outra encarnação. A estupidez continua a ter futuro. Deixem enferrujar as espadas. Descansa o medo nas minhas pegadas pelo meio do monte. As folhas da macieira continuam a recolher o luar. O sabor da desilusão é sempre amargo. Por vezes as cicatrizes do amor brilham com uma intensidade violenta. Por vezes bebo da tua loucura e fico enflorado como se fosse um cometa que desliza sobre a água do mundo. Noutras alturas fico aluado com o fôlego obsessivo do ato sexual. A fosforescência do teu sexo, os botões dos teus mamilos dulcíssimos, a ideia meteórica de tudo aquilo que se espalha. Os espelhos, por vezes, espargem a luz. Andamos a apurar a substância melíflua das voragens, o poder do arrebatamento, os territórios silenciosos das mães. As laranjas do laranjal transformaram-se em meteoros, envoltas nos seus tecidos suaves. Vibram as rosas. A lenha arde por causa da sua resina. As curvas do tempo ficam mais harmoniosas. Corre a luz entre o teu peito e o teu sexo. Os dez dedos das mãos estremecem. As palavras ficam encharcadas de desejo e de sémen. As estrelas redemoinham. Abre-se o vento. A luz abre a noite. A gramática fica abrasada pela volúpia dos sentimentos. Cresce uma arte louca em nosso redor. Iluminam-se os lados das casas, os mistérios, a massa dos átomos que alivia a memória. Os dias separam-se da saudade. Resistimos à força do fogo protegidos pelas armaduras da leveza. Tudo o que é natural desaparece. Inclinamo-nos nos dias inteligentes, quando as sombras naturais se queimam na sua própria exatidão. Os vestidos têm o desplante de deformarem os corpos. O amor acumula-se. A alma aperta-se. Os campos de trigo ficam extraordinários. Respiro a tua doce dissipação. Que absurda tarefa é a do esquecimento. A inteligência pode ser cruel. Continuo a procurar o sentido da vida por entre as pedras. Amo-te mesmo debaixo dos relâmpagos.


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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2019

No campo

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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2019

No campo

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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2019

427 - Pérolas e Diamantes: Da estupidez

 

 

Musil dedicou algum do seu tempo a refletir sobre a estupidez. Escreveu até um breve tratado: “Da Estupidez (Uber die Dummheit).”

 

Considerava que – para não cair nas armadilhas que a idiotia apresenta contra a presumida inteligência – a modéstia é a melhor arma contra a estupidez. Explicava ele que cada inteligência tem uma estupidez que lhe corresponde.

 

Em “O Homem sem Qualidades” fala-nos da dialética entre a estupidez e a inteligência: “Se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento, ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou, pelo menos, seria muito fácil combatê-la.”

 

O que é certo é que o próprio Musil se absteve de responder com uma definição à pergunta que ele formalizou inicialmente: “O que é ao certo a estupidez?”

 

Todos sabemos que entrar em guerra aberta contra a estupidez é quase sempre inútil e, muitas vezes, um pouco estúpido.

 

Flaubert avisou-nos que a estupidez é inabalável, pois nada a ataca sem se despedaçar contra ela.

 

A estupidez atual não é isolável. Está disseminada por todo o lado, nomeadamente nas regras do jogo social e político e mesmo no fluxo cultural.

 

Mas é na política que a estupidez atinge o máximo esplendor. Ela é a própria lei do seu discurso. Ser inteligente no palco da ação e do debate político equivale a dizer que se aceitam as regras da estupidez, nomeadamente o pragmatismo sem ideias, a política sem substrato ideológico, a ação sempre legitimada pelo mesmo discurso, a tática que coincide sempre com a estratégia.

 

Musil distinguiu dois tipos de estupidez: a estupidez como ausência de inteligência e a estupidez como renúncia da inteligência. Foi esta última, por ser mais perigosa, que deu origem à Segunda Guerra Mundial, que lhe estragou a vida.

 

Há um filme que retrata bem aquilo de que estou a falar: “Bem-vindo Mr. Chance”.

 

O jardineiro Chance (Peter Sellers) faz papel de estúpido. É viciado em televisão e por causa dela exprime-se com longos e embaraçosos silêncios, ou então com os artifícios próprios da linguagem televisiva, quase sempre fora do contexto e de uma elementaridade desarmante.

 

A este tipo de estupidez outra se lhe vai opor, para a complementar, uma espécie de estupidez inteligente dos ilustrados.

 

São estes que atribuem qualidades superlativas a Mr. Chance (tais como a agudeza, a profundidade e a sapiência) e o propõem para presidente dos EUA.

 

No ano da sua estreia, o filme de Hal Ashby pôde ser visto e interpretado como uma alegoria. No tempo atual, tutelado pelo capitalismo afetivo, adquiriu contornos de profecia.

 

Logo de início avisei que se deve situar a estupidez para além da oposição à inteligência.

 

Como todos sabemos, nunca antes existiu uma época tão prolixa na produção de inteligência como a nossa. O problema é que também estamos profundamente dependentes dela.

 

Neste fenómeno de inversão induzida, nunca a estupidez foi tão encorajadora e vista como uma ameaça.

 

De facto, a mais inteligente das invenções do nosso tempo, a inteligência em estado puro,  conhecida como Internet, está sob suspeita de nos tornar estúpidos.

 

Diante de tantos dados, a inteligência humana, em vez de aumentar, retrocedeu.

 

A estupidez faz-nos até pensar que é melhor escutar atentamente os que pensam da mesma forma que nós, ou os que têm autoridade.

 

Convém perceber que os algoritmos nos fornecem apenas aquilo que quem os concebeu neles quis inscrever.

 

Chegou-se ao paradoxo de despender mais tempo e dinheiro no controlo das despesas e das atividades produtivas, do que na realização das próprias atividades.

 

Uma pergunta se impõe: Se regressar à ignorância é uma estupidez, poderá uma quantidade ainda maior de informação fornecer a solução?

 

Yves Michaud responde: “Deste ponto de vista, a obsessão contemporânea com a informação, a quantificação, a medida e a avaliação, é perfeitamente compatível com aquilo que lhe escapa, a saber, o dinheiro sujo ou branqueado, as fraudes, os tráficos criminais, a prostituição, as ações de psicopatas e os tráficos de influência.”

 

Ou nos pomos a pau ou toda esta inteligência vai acabar por nos tornar estúpidos.


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Domingo, 27 de Janeiro de 2019

No parque

Rebentão - Família - Março 2016 081 - cópi

 


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Sábado, 26 de Janeiro de 2019

No parque

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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

No parque

Rebentão - Família - Março 2016 085 - cópi

 


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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (441): Os nomes simples

 

 

Os nomes simples nascem dentro de nós. E depois, lá fora, crescem os nomes dos elementos, as forças externas, o sonho do fim das guerras, o ar angélico dos demónios, o ar demoníaco dos anjos, o significado das estrelas, as bocas árduas, as zonas iluminadas a partir do centro, a vibração dos rostos, tudo aquilo que nos devora as células: o amor, a comida, o sono. E também o valor hormonal da decadência, as queimaduras, a respiração do vidro, a aceleração da respiração, a encarnação, a assunção, o desespero, a ordem nominal do mundo, os objetos que nos tremem nas mãos, tudo o que nos arde no cérebro, o nome dócil das máquinas, o deslumbramento dos nomes perfeitos, o batismo, os segredos inaugurais, o reino dos segredos, as palavras que os mestres carregam, o número inexplicável de prodígios, os sentimentos imóveis, o vento que passa eriçando a pilosidade de Deus. Irrita-me que o nome da liberdade seja invocado em vão, pois tudo o que é efémero se desfaz. A pátria está dividida, a terra exausta, o céu cinzento e o mar feito em pedaços. Apenas consigo alcançar os horizontes com o olhar. Já consegui identificar a partícula atómica que define a fronteira entre o dia e a noite. A glória de Deus ficou silenciosa. Adormeço no teu corpo escutando a sua música interior, a volúpia em dispersão, o medo, o sonho imortal do medo. Amplia-se o espaço. Eu tenho medo de ter medo, medo da tristeza, medo da dúvida, medo do desejo, medo da eternidade, medo da morte. Fez-se silêncio no teu corpo. Não há verdade sem palavras. O tempo é tão inútil que chega a enlouquecer. Não sei de onde vêm os caminhos que vão dar a ti. Cobrem-se os tempos de novas maldições. Os deuses de agora tudo deixam passar, põem os braços em cruz e exibem-se nos caminhos mais largos. Ventos virão de novos nortes, provocando outros dilúvios. As nuvens afogam-se dentro das águas do mar. A própria chuva não tem fim. Continuo à procura da palavra perfeita, da sua voz, do seu tempo, do seu mundo. As cores quentes espigam no meio dos abismos. O vento dispersa os gestos magníficos, as formas artísticas dos planaltos. Os corpos dançam. As labaredas iluminam as pedras e as árvores. Os nomes vibram como se fossem estrelas. Os dedos tocam-nas. As folhas brilham. Os segredos repetem-se. E repetem-nos. A eternidade é muito longa. Dizem que não tem forma, nem termo, nem explicação. É como uma luz difusa. Ninguém consegue entender a sua linguagem. Até a sua simplicidade é difícil de decifrar. Por isso o seu encanto é triste. Não se pode mostrar porque ninguém a pode ver. Nela não há bondade, nem tristeza, nem amor. A sua alma pesa como se fosse feita de mercúrio. Por vezes a tua voz acaba com as ameaças. Gosto quando me quebras a angústia. Não há mundos, mas caminhos. As árvores estão floridas, os seus frutos dispersar-se-ão pelo solo. Os seus ramos são serenos. As cores e as linhas do desejo adquiriram novas formas. O teu olhar está mais além. És o meu sonho realizado. Sinto a tua presença silenciosa. Os objetos da eira esperam pela luz. Os espíritos são como algoritmos, números sem tempo e sem nome definido, intermitentes, que não deixam rasto. São uma extensão dos sentidos de Deus. Pões as tuas mãos sobre a minha finitude. Pareço uma árvore que pensa. Escuto o vento que passa. Sinto o seu medo e o seu júbilo. Sinto a sua ternura e a sua saudade distante. A chuva desce vagarosa sobre nós.


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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2019

No parque

Rebentão - Família - Março 2016 093 - cópi

 


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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2019

No parque

Rebentão - Família - Março 2016 078 - cópi

 


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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2019

426 - Pérolas e Diamantes: Acelerações

 

 

Uma das coisas mais preocupantes destes tempos pós-modernos reside no facto de a maioria das pessoas não reconhecer a mentira e, o que é ainda mais grave, relativizar o próprio valor da verdade.

 

Nunca se desvalorizou tanto o discurso e o pensamento. O que é perigosíssimo. A cultura, a verdadeira cultura, não é relativa. E muito menos é um conceito. O que existe, e se transformou em moda, é o preconceito acerca dela.

 

Num lado acumula-se riqueza. Do outro acumulam-se as desigualdades.

 

Ao longo da História fomos desenvolvendo uma conceção de tempo que nos trouxe até esta situação caricata de o presente e o futuro ficarem reféns do passado. Ou seja, o presente e o futuro estão hipotecados.

 

Do ponto de vista simbólico, vai ser difícil recomeçar de algo. Estamos a fazer com que as gerações futuras não consigam ter o direito de principiar qualquer coisa de novo.

 

A solução passa por não mensurar pelo tempo o trabalho relacional, de ensino ou criativo, porque isso implica estabelecer uma relação com as outras pessoas que não é suscetível do incremento de produtividade.

 

Temos de deixar de lutar por guardar para nós o trabalhos das máquinas. O trabalho humano deve ser o das humanidades.

 

Bem vistas as coisas, o facto de umas pessoas terem muito dinheiro e outras terem pouco, significa, no limite, que umas pessoas podem comprar tempo de vida às outras. O que implica dizer que as outras pessoas não possuem outra coisa para viver senão o seu tempo de vida, que é, nem mais nem menos, do que o tempo de trabalho.

 

O tempo não acelerou. A nossa relação com ele é que é bem mais acelerada. A pressão é agora feita no sentido de que a atualidade se desatualize cada vez mais rápido.

 

Mesmo as lógicas do lazer, e do prazer, são de aceleração. Até no lazer temos de ser rápidos, temos de produzir. O prazer já não se compadece com carinhos. Fixa-se apenas no poder, não interessa se com efe ou sem...

 

O futuro do trabalho humano tem de ser relacional. Sobretudo com os outros, mas também connosco próprios.

 

É, no mínimo, curioso que quanto mais conseguimos criar condições para ter mais tempo livre ao longo da história, menos tempo livre temos. A verdade custa a aceitar, mas na Idade Média trabalhava-se menos do que na modernidade e nos dias de hoje trabalha-se mais do que na Idade Moderna.

 

Estamos na era da competição a todo o preço, aonde até jogar é uma tarefa muito complicada.

 

O trabalho devia assentar mais na realização do que na dominação social. O trabalho continua a ser um mecanismo pelo qual alguma gente mantém a maior parte das pessoas dentro de uma ordem de dominação social.

 

A grande ideia vem já desde a “Utopia” de Thomas More: devemos libertar o trabalho do rendimento.

 

O pós-modernismo deu nisto, na apropriação totalitária das questões que envolvem o controlo dos indivíduos.

 

Desde que vi o filme “Blade Runner” que sou muito sensível à inteligência artificial que um dia, penso, poderá ser humana. Não vem longe o dia em que se realizará um pacto social reunindo humanos transformados por máquinas e máquinas inteligentes com propriedades humanas.

 

Será uma revolução que acarretará riscos tremendos, mudanças brutais. Há coisas que mudarão radicalmente.

 

Isso exige criar um critério claro para distinguir o que são atividades consideradas trabalho humano e aquelas que devem ser deixadas às máquinas.

 

Existem movimentos políticos que estão dispostos a aceitar a mentira por acharem que ela vem ao encontro da sua agenda.

 

Isto só é possível porque, como referi em cima, houve uma grande desvalorização do discurso e do pensamento. Existe uma espécie de banalização do valor do discurso. Todos falam o mesmo. Todos dizem o mesmo. Todos defendem o mesmo. O que os divide é a cafeína no café. Tudo é igual. Tudo pode ser usado. Tudo é meio. Mcluhan já nos tinha avisado: o meio é a mensagem.

 

Dizem que a intenção é democratizar. Mentira. O seu objetivo é massificar, tornar tudo igual. Não há discurso melhor ou pior. Tudo é uma questão de opinião.

 

Como nada é perdurável, nada é verdadeiro.

 

O filósofo André Barata, em entrevista ao “Negócios”, sintetizou: “Quem quer argumentar numa rede social está condenado ao mito de Sísifo porque argumenta, defende a sua causa e pode dar-se por satisfeito porque conseguiu apresentar bem os argumentos, mas além de ser martelado com ‘likes’ e ‘dislikes’, ao fim de uma semana aquilo tudo já passou, já foi esquecido. Tem de recomeçar outra vez.”

 

Repito: até a propagandeada ideia do lazer é falsa. Até o lazer está colonizado pelo mecanismo da produtividade. E o prazer também, convém que se diga.

 

Os orgasmos já não se atingem, utilizam-se e gastam-se como os jóqueres.


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Domingo, 20 de Janeiro de 2019

Sorriso

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Sábado, 19 de Janeiro de 2019

No Barroso

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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019

Na aldeia

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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (440): A diminuição das formas

 

Caminho dentro da minha solidão, sozinho, dividido entre as certezas, entre as indecisões, entre a afirmação e a negação dos instintos. Entre o bem e o mal. É cada vez mais difícil distinguir a voz de cada um. Deuses e homens continuam as feras fraternais de sempre. Também se ouvem queixumes líricos, balidos agnósticos, gemidos amargurados. Quem muito chora muito descrê. Nos teus olhos brilha um luar profundo, as tuas mãos irradiam luz. Espalhou-se pelo mundo uma nova forma de violência fria, cheia de crueldade. A sua liturgia é impura, fala de versos derramados, do sangue dos poetas assassinados, da eterna rebeldia dos escândalos, dos sonhos orientais. E do ópio. E do sândalo. E dos tesouros que uns guardam dentro das arcas e outros dentro do seu coração. As almas impuras estendem-se ao sol. O poeta é testemunha, réu, vítima, juiz. Não suporta qualquer tipo de violência. Escreve a tristeza com letra penitente. A tarde ficou morna e sombria, o céu pesado, o mar ermo, as horas monótonas e iguais. O tempo não tem pressa, nunca se aflige, gosta de ser devagar. As nuvens começam a fugir. A noite cai sobre a cidade. Os caminhos são cada vez mais longos. A solidão estendeu-os pelas encostas das serras. O esquecimento é a distância maior. Estão sempre a mudar a hora de chegada e de partida. O passado é cada vez mais ausência. As frases antigas são como lendas. Recordo-me da esperança, da docilidade das crianças, da dispersão do silêncio, da coragem, do abandono, da certeza, da incerteza e dos remédios. O tédio também pode ser desespero. Lembro-me muito bem da calma dos olhos da avó, do destino dos seus sonhos, do cantar dos galos na alvorada, dos dedos vagarosos do desejo, da alma das flores e dos animais, da solidão nebulosa dos crepúsculos, da mansidão dos sonhos, da fragilidade das frases com a palavra amor. Os pensamentos adquiriram agora a forma de aves noturnas. Vibra o tempo por causa das badaladas do campanário. Os beijos são cada vez mais sofridos. Parece loucura, mas ainda vibramos juntos. A mãe chora por já não me conseguir ver. A sua memória ainda é doce. As histórias que me contava ainda são amadas pelo encantamento: o Barba Azul, o Ali Babá, todos os contos de Natal com ovelhas, burros, pastores e reis magos. A minha memória reduz o menino nas palhinhas deitado a uma redundância. Dezembro ainda é bonito mas habita cada vez mais longe. E eu rezava e sonhava com coisas lindas. As formas do pai e da mãe são cada vez mais diminutas. Eu não as esqueço. Quando o sono vem já não me apetece dormir. A insatisfação é a minha maior companheira. A memória da avó está envolta em aroma de rosas, parece uma princesa silenciosa. Continua a fiar destinos apesar de nunca se ter preocupado com o seu. Tento olhar o céu com os olhos de um santo. A flama azul transforma-se em pranto. Está na hora de desistir. Lembro-me de Sodoma, da opulência, da indolência, da oscilação pendular dos enforcados. Não vá o pecador além dos seus desejos. Estão já cansados os sofredores de perdoar a quem os faz sofrer. Todo o mal é uma cisma do inferno. As suas sugestões são infinitas. Dizes-me adeus como se eu fosse uma espécie de luar. Caminho para fora da existência com o êxtase dos monges mais sérios. A luz da aurora traz-me a felicidade verde do teu olhar. Ainda não é hora de partir.


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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019

O cavaleiro

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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2019

No Porto

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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2019

425 - Pérolas e Diamantes: A generosa hostilidade

 

 

Nos tempos mediáticos em que vivemos, existem dois tipos de gatunos: o que rouba e vai parar à cadeia e o que furta e vai parar à televisão.

 

Na televisão também por lá moram os escritores de hoje. Os escritores de sucesso. Esses, sabemos, escrevem para vender livros, para ganhar fama e dinheiro, ou dinheiro e fama.

 

E os outros? Os outros escritores? Porque se mortificam a armar ao pingarelho?

 

Mas por que raio é que se escreve? Qual a razão de se ser um dedicado turista do inútil? Começa-se a escrever por acaso e, depois de começado, fica-se prisioneiro dessa atividade.

 

A verdade, como veem, pode ser uma inutilidade. E as inutilidades também podem ser muito úteis. Aos escritores inúteis, mas não adulterados, nem subservientes. Aos escritores inconvenientes.

 

Ai como custa saber da autêntica irrelevância da verdade.

 

Penso que sonho pouco. Por vezes, acordo sobressaltado, banhado em suor. Encolhido. Então estico-me, espero que o meu coração serene e ponho-me a pensar na morte da bezerra. Para mim, as noites não possuem poder mágico, nem são irresistíveis, como muitos apregoam. Só oiço o farfalhar das folhas das árvores, os cães a ladrar e, por vezes, o miar agoirento dos gatos.

 

Os meus sonhos são visões recorrentes, por vezes estupidamente idênticas. O que é triste e monótono. São como o tempo que corre. Como os tempos que vivemos.

 

Os meus sonhos são como fotografias. Não possuem mistério. São como a realidade: errados e aborrecidos.

 

Há pessoas que passam a vida a ensinar que em tal época as pessoas pensavam isto ou aquilo, e, de seguida, a partir de tal data, pensou-se que...

 

Há outras que, por não gostarem da erudição repetitiva das anteriores, passam a escrever livros para que tal presunção não seja tão altiva.

 

Os fundamentalismos modernos dizem que as suas ideias são novos métodos de pensamento. Estou em crer que não passam de discretas formas de agressão.

 

Defendem um pensamento anónimo, um saber sem sujeito, uma tradição sem identidade.

 

São uma espécie de últimos marxistas criticando a crítica da dialética crítica. Apresentam-nos o mundo como um espetáculo, como um jogo. Por isso, a atitude razoável tem de ser mágica. Para eles, ou se aceita o sistema ou se faz a sua irrupção, no sentido de o abanar para depois apanhar os frutos caídos no solo. O problema é dos que estão verdes.

 

Eu não acredito em determinações unívocas.

 

Quando alguém mais distraído toca temas tais como continuidade, exercício efetivo da liberdade de pensar e escrever, ou a articulação da liberdade individual com as determinações sociais, logo as bravas gentes se põem a gritar que se está ou a violar ou a assassinar a História. Podem mesmo acusar-nos de estarmos a fazer a defesa da burguesia.

 

Pobre burguesia que não possui outra muralha que a nossa humilde pena.

 

Eu sei. Eu sei. A ironia não chega.

 

Nem a poesia.

 

Pode ser a impressão que dá, mas a política não está forçosamente votada à ignorância.

 

Foi o Maio de 68 que me fez “rescindir o contrato” ideológico com os revolucionários marxistas-leninistas. Eles diziam pretender fazer uma revolução. Eu considerava que devíamos ser a própria revolução.

 

Li um livro publicado nessa altura intitulado “Professores Para Quê” onde se dizia que “a universidade é um fragmento da sociedade capitalista” e que o melhor era tudo fazer para que ela fosse “de mal a pior”. De facto, o excesso... era mesmo excessivo. As revoluções também se fazem com estas imbecilidades. Há parvos em todo o lado.

 

Vertigens destas são sempre autodestrutivas.

 

Em 68, na França, havia gente com coragem para criticar os estruturalismo, então em voga. Goldmann, por exemplo, gostava de citar uma frase escrita por um estudante, no mês de maio, na ardósia de uma sala da Sorbonne: “As estruturas não descem à rua.” Para acrescentar: “Não são nunca as estruturas que fazem a história, mas os homens.”

 

A turba pretende sempre derrubar tudo, incendiar e arrasar. Aniquilar a burguesia. Depois só fica o silêncio e nos bairros algumas crianças que brincam com o que resta dos bibelôs partidos.

 

A prática do dia a dia ensinou-me que a precisão da teoria marxista-leninista e o seu proclamado valor científico são verdadeiramente secundários. E as notícias do mundo trouxeram até mim as lembranças horrendas dos campos de extermínio, dos gulagues e de outras aberrações humanas.

 

Também por isso, o mundo está cheio de gente parca de talento mas com sucessos de monta.

 

Eu já me habituei a suportar com ligeireza a sua generosa hostilidade. No entanto tenho de reconhecer, que, por vezes, me sinto agastado com as minhas teimosias.

 

É sempre a mesma ladainha. Depois de se prometer a mais completa liberdade, toca a reprimi-la a partir do momento em que se pretende exercê-la.


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Domingo, 13 de Janeiro de 2019

Na aldeia

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Sábado, 12 de Janeiro de 2019

Na aldeia

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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2019

Em Chaves

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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (439): Na porta dos sonhos

 

 

Há homens que gostam de se perder nos caminhos de outrora. Eu gosto é de procurá-los. Depois de todas as renúncias. Por lá começam os itinerários infinitos, as glórias emocionais, a transfiguração das lágrimas, as vozes que falam sozinhas. Desperto junto à curva da fonte. Os risos por vezes provocam dor. E o silêncio descanso. Há quem engula as lágrimas porque sofre de uma espécie de ascensão dolorosa. Também se encontra sabedoria nos abismos. Ninguém está à altura da sua solidão. O prazer pode levar-nos para baixo, apesar de nos dar a impressão de que estamos a subir. Os brinquedos mais antigos produzem o remédio do consolo. Todos desejamos viver mais tempo do que nos cabe. Todos temos uma ligeira inclinação para a insensatez. O prazer não é remédio para todos. Para tudo. Ter nascido ultrapassa todo o entendimento. Agora apareço nos regressos, nas loucuras momentâneas, nos desgostos, nas tristezas, nas discórdias, nos combates, nos debates e também em alguma alegria. A minha insociabilidade é ténue. Incomoda-me a quietude das cegonhas nos beirais dos telhados, as noites esplendorosas e as noites tristonhas. Incomodam-me as planícies desertas, as paisagens do Sul, as perspetivas fechadas da sorte, a arrogância das armas, o pranto no olhar dos débeis, a ligeireza estúpida das grandes riquezas, a pobreza, o sonho oculto da realeza. Fujo das distâncias perenes e da sua aparência. Flutuo no sono e nos sonhos, nas formas vagas das sombras e das neblinas, na brancura dos crepúsculos do Norte. Sento-me então à porta dos teus sonhos. Tenho a impressão que vim de outrora, de muito longe, acompanhado por fantasmas peregrinos, por reis-magos, monges e santos. Sinto ainda a forma e o aroma das suas almas, das suas histórias vacilantes, dos seus distantes idiomas. O amor verdadeiro não admite reticências. De repente evaporam-se as brumas e as penumbras. Os olhos doces têm tendência a chorar mais. As noites mudam de desencanto. Umas constelações acendem-se. Outras apagam-se. Oiço constantemente o pranto dos astros que estão a morrer. Oiço as divinas solicitudes dos que se sacrificam, os seus choros, a humilhação das suas flores, os seus carinhos consoladores, as suas ânsias, as suas dores. As tardes estão mais sozinhas, os caminhantes mais solícitos, os vultos mais tristes, as lâmpadas mais sérias, as recordações mais indefinidas. A amargura dos caminhantes começa a desintegrar-se. As ilusões são cada vez mais retardatárias, os simbolismos líricos mais vagos e as penumbras mais dolorosas e mais escuras. A recordação da mãe fixa-se nas horas tristes. As frases gloriosas são agora inúteis, bem assim como o consolo. O desencanto transformou-se numa paisagem. O medo tem medo de andar sozinho, tem medo de amar, dos sonhos reveladores. As donzelas são agora novelas. Começou a nevar no outono e a folhagem começou a chorar. A angústia tornou-se irremediável. As aves parecem portos de desesperança. As horas são como mulheres morenas que cantam com ressonâncias vagarosas, com vozes lentas, descrentes como tudo o que está longe. Tudo se espalha agora com a súplica desiludida do azul. O vento agita os ramos inconsoláveis das árvores sagradas. A chuva desce vagarosa sobre o Eclesiastes. A poesia continua a ser a eloquência da verdade. Valha-nos isso.


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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2019

Em Chaves

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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2019

Na aldeia

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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2019

424 - Pérolas e Diamantes: A luta pela linguagem

 

 

O termo “Novilíngua” apareceu no retrato arrepiante que George Orwell fez acerca de um Estado totalitário ficcionado.

 

A primeira coisa que a esquerda fez, especialmente a comunista, foi apropriar-se da linguagem. Coisa que, para o bem e para o mal, mantém até aos dias de hoje.

 

Os marxistas-leninistas, imbuídos da sua superioridade intelectual, lutaram desde sempre pela linguagem, pois o marxismo oferecia, e continua a oferecer, os rótulos convenientes para moldar as ideias dos amigos e dos inimigos, sempre com o objetivo último de dramatizar os conflitos entre ambos.

 

Mas, como nos lembra Roger Scruton, o aprisionamento da linguagem pela esquerda é bem mais antigo. Começou com a Revolução Francesa e os seus slogans.

 

O que sempre lhe interessou foi distinguir os que partilhavam da sua visão e os que dela divergiam. Sendo que os mais perigosos eram os que divergiam por uma margem tão mínima que ameaçavam misturar as suas energias com as dos infalíveis, conspurcando dessa forma o fluxo puro da ação revolucionária.

 

Logo desde o início foram precisos rótulos para estigmatizar os inimigos internos e justificar a sua expulsão, quando não o seu aniquilamento puro e simples. Havia que identificar os revisionistas, os esquerdistas infantis, os desviacionistas, os socialistas utópicos, os sociais-fascistas e toda a restante fauna pseudorrevolucionária.

 

A divisão entre mencheviques e bolcheviques, resultante do II Congresso do Partido Trabalhista Social-Democrata russo em 1904, resumiu, na perfeição, todo esse processo.

 

Tudo não passou de mais uma mentira fabricada e cristalizada, pois, como todos sabemos, os mencheviques (minoria) eram afinal a maioria.

 

O sucesso de tais rótulos na marginalização e na condenação dos opositores, fortaleceu a convicção comunista de que podíamos mudar a realidade se mudássemos as palavras.

 

Dessa forma foi possível combinar o poder absoluto do Partido Comunista com o livre consentimento do povo, anunciando e impondo a regra comunista como “centralismo democrático” ou ainda apresentar a ditadura do proletariado com a mais plena das formas democráticas, na implementação das “democracias populares”, em contraponto com as democracias burguesas.

 

A Novilíngua, como explica Scruton, tem lugar sempre que o propósito primordial da linguagem (que é descrever a realidade) é substituído pelo propósito rival que é o de exercer poder sobre a realidade.

 

A artimanha maior do marxismo foi a de ter conseguido apresentar-se como uma ciência. Fazendo a distinção entre ideologia e ciência, Marx propôs-se provar que a sua própria ideologia era uma ciência.

 

E fê-lo de forma simples, afirmando que as teorias do Estado de direito, da separação de poderes, do direito à propriedade, etc., apresentadas por Montesquieu e Hegel, mais não eram do que tentativas falhadas de encobrir, ou justificar, a ordem burguesa e os seus aparelhos de poder, de forma a manter os privilégios.

 

Ao expor tal ideologia como uma pretensão meramente interesseira, a teoria de classes marxista reivindicava para si o título de objetividade científica.

 

Mas este caminho unilateral leva-nos a uma espécie de perda espiritual que ocorre sempre quando as pessoas sentem mais prazer em minimizar os outros do que em se elevarem.

 

Os conceitos que resultam de um diálogo normal advém da necessidade de compromisso, de obter concordância, de estabelecer uma coordenação pacífica com pessoas que não partilham dos nossos projetos ou das nossas preferências, mas que necessitam tanto de espaço como nós.

 

O objetivo da sociedade é conduzir a nossa vida social de forma a que não se imponha o ressentimento. Por isso, é necessário viver em ajuda mútua e no companheirismo, não para nos tornarmos iguais e inofensivamente medíocres, mas para ganharmos a cooperação dos outros nos nossos pequenos sucessos. Isso é o contrário do nivelamento por baixo defendido e propalado pela esquerda radical.

 

Todos sabemos que a esquerda cometeu muitos crimes. E a direita também. Nisso equivalem-se. No entanto, deve indignar-nos que os crimes cometidos pela esquerda recebam uma absolvição que os de direita não conseguem.

 

A esquerda reivindica para si a mesma capacidade das religiões em autorizar o crime e lavar as consciências daqueles que foram coniventes.

 

Só uma abordagem religiosa pode levar-nos à compreensão do fascínio que o comunismo exerceu sobre os jovens intelectuais entre guerras.

 

O Partido Comunista satisfez essa necessidade oferecendo não apenas a doutrina e o compromisso, como também a autoridade e a obediência.

 

As organizações clandestinas criaram bandos de anjos que se moviam entre o comum dos mortais, coroados com um halo reconhecido e identificado, sobretudo, por eles próprios. Em Portugal, o caso de Álvaro Cunhal foi paradigmático.

 

A sua doutrina era muito simples: prometer um caminho de luta heroica tendo em vista um futuro radioso.

 

A utopia era um bem precioso. De facto, era a única coisa confiável porque, precisamente, não continha nada de real.

 

Exigia sacrifício e compromisso. E isso enchia a vida de significado, pois era a fórmula mágica que transformava o negativo em positivo, ou seja, transformava um ato destrutivo num ato criador.

 

Tudo isso resultou num dos maiores embustes da História.


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Domingo, 6 de Janeiro de 2019

Burro de rabo na boca

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Sábado, 5 de Janeiro de 2019

O cão e o burro

Barroso - Solveira - S. André - março 2016 - D

 


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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2019

As vacas

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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (438): A oscilação das viagens

 

Os senhores da guerra falam agora de paz, mas continuam a construir armas, aviões mortíferos, bombas e escondem-se atrás de uma máscara de estadistas ou filantropos. Gostam de construir, para depois destruir. Escondem nos olhos balas. Dizem que Judas mentiu e enganou. Há ainda quem nisso acredite. Ameaçam os filhos com o medo dos pais. Falam de uma espécie de nova ignorância. As ruas começam a esvaziar-se e as estradas a encher-se. Jogamos com o tempo. Falo agora da minha cidade, desse abandono que ainda amo, do seu inverno, do vento a fazer rodopiar a neve, do seu destino. Sinto esse frio, a oscilação das viagens, o caminhar entre pontes, o calor dos cafés, os jovens delirantes que queriam tocar guitarra e harmónica como Bob Dylan. Pensavam ainda vaguear pelo Oeste selvagem sem sair do Brunheiro. Havia quem ainda fosse criança e já trabalhasse como um adulto. Por vezes, os homens parecem nobres, dizem que não roubam, que descobrem o tempo, que apreciam o sol quando os aquece nas manhãs frias. Longe de casa, percorro os caminhos de outrora por onde passaram pessoas pobres, camponeses, príncipes e até reis. Existiu um mundo velho que era doente e faminto. Toda a gente que caminha sabe bem o sabor da poeira que os outros levantam. Faço da montanha o meu lar. Os pássaros parecem diferentes quando cantam na aurora. As árvores lembram milagres verdes. O medo, por vezes, é breve, apesar da escuridão se eternizar. Todos os nossos gestos transportam em si uma certa saudade. As horas parecem imóveis. Tenho a eterna saudade de te ver chegar. É hora de os templos fecharem. O teu olhar é agora mais sereno. Temos mais coragem para caminhar. Há horas de tempestade que se estendem pelo mundo como se fossem mantos. Os ventos fustigam a fronteira da memória. Os rios gelaram como se fosse noite de Natal. As paredes da velha casa protegem-nos dos ventos uivantes. Às trevas da noite suceder-lhe-á a claridade do dia. O teu amor é uma espécie de fronteira. Parto em busca da alma primitiva dos seres, do seu rastro. Os velhos continuam a chorar as suas renúncias. Lembram-se de quando se amaldiçoavam as mulheres, quando havia gente sem lar, quando se cansavam de carregar o destino dos outros, quando as crianças eram tristes e, apesar disso, cantarem. Lembram-se de vaguear pelos caminhos infinitos. O cavaleiro solitário cavalga pelo tempo, pisando os lírios, subindo as encostas, rodeado por lobos ferozes. As suas mãos flamejam. O vento sussurra-lhe ao ouvido avisos de morte. As raparigas mais perigosas dão-lhe arco-íris. Parece que sabe todas as canções mesmo antes de as ter aprendido. Ele não nos consegue ouvir. Quero aprender a distinguir as palavras boas das outras. Tive um sonho triste onde viajava de comboio rumo ao oeste. Durante as tardes, junto aos amigos, resistíamos às tempestades, dizíamos as palavras com ânsia, gracejávamos acerca do mundo. O assombro ainda era quente, pensávamos que não iríamos envelhecer. Divertíamo-nos com a verdade das distintas hipóteses. Pensávamos até que o desejo não passava. Descíamos à cidade quando o sol brilhava. Subimos então aos pesadelos pensando que eram sonhos. Apesar de parecer, não  é fácil brincar ao Adão e Eva. Afinal, o que é que resta do tempo que já passou? Deixo-te estar nos meus sonhos. É a forma perfeita de os tornar felizes.


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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2019

A ovelha

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